por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Chegou-se ao século XXI e a uma
nova diretoria confrontada com um histórico da circularidade de treinadores no
Botafogo em aceleração entre janeiro de 1996 e dezembro de 1999, tipo porta
giratória, onde a maioria que entrava se repetia entrando, saindo e reentrando,
registrando-se várias chegadas, sem contar os interinos, designadamente dos treinadores
Marinho
Peres, Ricardo Barreto, Jair Pereira (5ª chegada desde históricos anteriores),
Joel Santana, Sebastião Rocha, Carlos Alberto Torres (2ª chegada), Gílson
Nunes, Paulo Autuori (2ª chegada), Valdir Espinosa (3ª chegada), Gílson Nunes
(2ª chegada), Mauro Fernandes, Carlos Alberto Torres (3ª chegada) e Antônio
Clemente, cuja média de estadia por treinador foi de 112 dias!
Porém, a nova diretoria conseguiu piorar ainda mais o que parecia
improvável piorar. Sem interromper a circularidade da porta giratória, o Botafogo
seguiu um caminho semelhante à Seleção Brasileira, que em 2002 teve o seu
‘canto do cisne’ até à data, cuja coincidência não admira porque o Clube sempre
estivera indelevelmente ligado à Seleção Brasileira e aos seus maiores sucessos.
O que espanta verdadeiramente foi o Clube não conseguir, após o seu
renascimento com a chegada de Emil Pinheiro em 1986, encontrar uma diretoria
profissionalizada capaz de impor um programa de recuperação que certamente seus
sócios apoiariam.
Em matéria de treinador o ano começou como terminou,
contratando-se novamente Joel Santana (2ª chegada) três anos após a campanha de
1997, mas o elenco era outro e o Clube em deterioração acelerada. A memória
afetiva foi traída pelo novo contexto e ‘Papai Joel’ não conseguiu recriar o
lugar onde foi feliz nas conquistas de 1997, embora tenha durado um pouco mais
do que os últimos antecessores – 260 dias.
Então, foi a vez da reentrada de Antônio Clemente (2ª chegada) e
Ricardo Barreto (2ª chegada), que no conjunto duraram apenas 75 dias numa
espécie de lista informal com treinadores de emergência, não se conseguindo
sedimentar uma cultura técnica e menos ainda uma linhagem técnica em aprendizagem
crescente – cada treinador chegava, mexia aqui e ali com pouco critério e tudo
recomeçava novamente do zero.
Então o Botafogo foi buscar Sebastião Lazaroni, dono do estatuto de ex-selecionador brasileiro em uma Copa do Mundo. O nome era ‘grande’, mas na prática o Clube não oferecia condições equivalentes ao currículo do treinador. A equipe não engrenou e a experiência de Lazaroni só por si esbarrou na falta de estruturas. Durou 135 dias.
Recorreu-se, então, novamente à porta giratória: em abril de 2001
Dé Aranha estava de regresso. No entanto, certos resultados não se compadecem
dos treinadores e 68 dias depois Dé foi demitido após um acontecimento que se
pode classificar de institucional e que, apesar de ser claramente fruto da
instabilidade e da crise técnica e financeira, foi decisivo para o desenlace: o
Vasco da Gama goleou o Botafogo por 7x0!
E para não quebrar a ‘tradição’ da circularidade, eis que Paulo
Autuori regressou (3ª chegada) em julho de 2021 e pediu a demissão em outubro, apenas
40 dias depois, após o sétimo jogo seguido em vencer, comprovando que o mesmo
treinador em contextos diferentes tanto pode ser parte integrante da glória
como da impotência.
Quem se manteve igual foi o Botafogo, insistindo na porta
giratória: Abel Braga (2ª chegada)
assegurou a circularidade – chegara pela 1ª vez em 1985 – em outubro de 2001.
Chegou para impor autoridade e exigir disciplina e desempenho. A imprensa
anunciava “Abel assume Fogão e os incomodados que se mudem”, em claro aviso aos
jogadores, mas o campeonato carioca foi decepcionante após uma derrota para o
America, acentuando a pressão da torcida e minando o ambiente interno.
Todavia, Braga enfrentava um
problema maior fora das quatro linhas: exigia reforços para a temporada de 2002
e a diretoria era totalmente impotente para cumprir fosse o que fosse. Em
julho, após 266 dias, o treinador entregou o cargo. Tratava-se do início do
descalabro final da crise independentemente da diversidade do treinador em
2002.
Não obstante a circularidade de
treinadores não ter oferecido nenhum resultado positivo, a estratégia
continuou, alternando-se treinadores antigos com treinadores na sua 1ª chegada
e ainda de comandos ocasionais, como foram os de Zagalinho (filho de Mário
Zagalo) e Dé Aranha, que comandaram equipes B substituindo a equipe principal,
e ainda Leomir de Souza, interino por dois jogos.
Como treinador principal Arthur Bernardes sucedeu a Abel Braga em julho com a missão de preparar a equipe para o Brasileirão e recuperar a confiança do plantel, mas a diretoria não cumpriu nenhuma das promessas. Foi prometido, entre outros aspectos, a contratação de Romário e de Petkovic, mas a pusilanimidade da diretoria era impressionante: Romário acabou representando o Fluminense e Petkovic o Vasco.
Sem tempo nem meios, Bernardes
não conseguiu vencer os quatro primeiros jogos e profundamente desagradado
apresentou a demissão ao fim de 44 dias, revelando as contradições e a
pusilanimidade da diretoria que somente conseguiu agravar a crise.
E quem regressa?... Exatamente o
predecessor de Arthur Bernardes: Abel Braga em sua 3ª chegada, numa situação
absolutamente paradoxal, já que se demitira por falta de reforços e nenhum
reforço havia chegado. Obviamente que Braga não conseguiu resolver coisa alguma
numa crise que arrastava todos para um desenlace trágico e saiu após 29 dias,
deixando o Botafogo com 11 pontos em 12 jogos e 6 jogos sem vencer.
Foi nessas circunstâncias que Ivo
Wortmann chegou ao Botafogo. Pretendia-se alternativamente um futebol baseado
na força, mas sem tempo útil para os jogadores se aclimatarem e assimilarem um
modelo novo com os mesmos atletas. A equipe ainda alcançou algumas vitórias,
mas a consistência coletiva não se mostrou suficiente, enquanto as rodadas
encurtavam e a equipe não conseguia descolar da despromoção.
Quarenta e seis dias após a sua
Chegada Wortmann pediu a demissão, e em desespero total a diretoria agarrou-se
ao derradeiro protagonista da circularidade que caracterizava as escolhas de
treinadores: Carlos Alberto Torres regressou, sacrificando-se pelo Botafogo, do
qual – afirmou mais tarde um familiar – era sócio, mas tinha apenas três jogos
par salvar o Clube da despromoção.
A esperança renasceu com a
vitória sobre o Corinthians no Maracanã, mas a derrota para o Guarani, em
Campinas, tornou tudo mais difícil, ocorrendo o desfecho final no dia 17 de
novembro de 2002 com a despromoção do Botafogo para a Série B do Brasileirão,
em pleno Caio Martins.
Tendo em consideração esta série
dedicada aos percursos, às glórias e aos revezes da profissão de treinador,
revelou-se uma imagem que, além da trágica 1ª descida de divisão do Glorioso
futebol botafoguense, símbolo do futebol-arte brasileiro, evidencia bem a
ingrata função de treinador de futebol: Carlos Alberto Torres, o capitão da
Seleção do Brasil campeã mundial de 1970, símbolo de triunfo e grandeza, associou-se,
por sacrifício e solidariedade, a um dos episódios mais dramáticos do Botafogo
de Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Zagallo, Jairzinho, Roberto
Miranda, Paulo Cézar Caju, entre outros grandes craques do eterno Glorioso da
Estrela Solitária.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br



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