
O cineasta e documentarista João Moreira Salles nasceu no Rio de Janeiro, em 1962, e a sua consagração aconteceu a partir de “Notícias de uma guerra particular” (1999), seguido de “6 histórias brasileiras” (2000). Em 2002 produziu “Nelson Freire” e em 2004 “Entreatos”. Salles possui a particular característica de ser um daqueles torcedores botafoguenses que emociona profundamente os outros ao falar sobre a sua paixão alvinegra.
O cineasta conviveu com João Saldanha durante a sua infância e, apesar de a família ser botafoguense, ele tornou-se botafoguense porque o jornalista, frequentador da sua casa, lhe contava histórias maravilhosas do Glorioso. Porém, tornou-se fervoroso torcedor apenas nos anos 80, por volta dos seus 20 anos, quando a equipa não ganhava nada e era composta por Wecsley, Perivaldo, Cremilson, Jerson e outros.
Nesse período de desterro, poderia ter escolhido ser do flamengo, ou qualquer outro clube que estava na mó de cima à época. Mas os argumentos de João Salles são demolidores para aqueles que preferem a facilidade de escolher clubes de maioria, protegido por arbitragens e regularmente ‘levados’ a títulos.
Eis as palavras do próprio cineasta acerca da sua escolha: – “O Botafogo não ganhava nada, foi seu período de desterro: ele levou 21 anos para ser campeão. Eu acho interessante estar na contra-mão, ser da minoria. No estádio, o Botafogo é sempre o que tem a menor torcida, mas ela é a mais interessante de todas, porque é fanática sem receber nada em troca, porque o time geralmente não ganha. É uma torcida desesperada, mas muito apaixonada, e isso é muito bacana.”
Este posicionamento, que é muito semelhante ao do editor deste blogue, transmite exatamente a alma dos botafoguenses, que são diferentes de muitos outros torcedores – e não populistas, como dizia Sérgio Augusto. Os botafoguenses preferem o risco, o desconhecido e o exercício de uma alegria bem diferente dos clubes da maioria. Eis novamente Salles falando: – “Quando o Botafogo ganha, a alegria vem com uma intensidade muito maior do que a dos outros times. Foi assim em 1989, quando o Rio viveu uma explosão de alegria que só se compara, em intensidade, à tristeza com a perda da Copa de 1982.”
Salles confessa que “é fácil torcer pelo flamengo, pertencer à maioria. Ser Botafogo, não: desde a escola, é uma afirmação de identidade. Significa ter opinião própria, não seguir a moda. Por isso, acho que o torcedor do Botafogo é um torcedor de fibra moral. Ser botafoguense te ensina muitas coisas a respeito da vida.”
O cineasta considera que o interessante de uma equipa que não ganha sempre é que quando ganha tem a sensação que jamais algum flamenguista terá: – "A gente não banaliza a vitória; a vitória é uma coisa muito rara – e, quando ela acontece, eu duvido que alguém sinta a alegria de um botafoguense. A felicidade que eu senti quando o Botafogo foi campeão em 89, depois de 21 anos, eu duvido que algum torcedor de futebol sinta igual. Isso justifica minha paixão pelo time pelo resto da vida, mesmo que ele nunca mais ganhe nada.”
Sobre os rivais, os argumentos de Salles também são muito interessantes. Sobre o flamengo: – “Eu não quero que o flamengo morra, não. Mas eu quero que o flamengo perca.” E sobre o fluminense: – “Fiquei feliz quando o fluminense perdeu a Libertadores. Se eles ganhassem, seria como o rapaz que sempre cortejou uma moça, mas nunca teve chance de casar com ela, porque ela nunca te deu muita bola. Aí de repente o seu vizinho consegue namorar e noivar com ela, está prestes a casar. Lógico que, nesse caso, você prefere que ela case com um estrangeiro, que vem do Equador para levá-la, do que com o cara que está do seu lado e vai ficá-la exibindo o tempo inteiro.”
Acerca das características dos botafoguenses, o cineasta escreveu, em 1995, durante o campeonato brasileiro, um texto intitulado “Pelo menos fomos péssimos”, o qual falava de um jogo do Botafogo contra uma equipa paulista, talvez o próprio São Paulo, refere o cineasta.
Salles conta a história referindo-se a um jogo no Caio Martins, o qual, supostamente, o Botafogo ganhava ao São Paulo por 4x0 e o marcador passou a 4x1. Mas, observando-se os resultados daquele ano, esse jogo deve ter sido contra o paulista Guarani, ao qual ganhávamos por 3x0 quando eles diminuíram para 3x1. Conta Salles: – “Quando deu mais ou menos 31 minutos do segundo tempo, o São Paulo, numa falha da nossa defesa, fez 4 a 1. Do meu lado, um pai falou: ‘Meu filho, acabou!`. O filho começou a chorar, o pai começou a bater no alambrado, dizendo: `Eu não agüento mais esse time, isso aqui é um horror, eu vou abandonar o estádio!`. E o que é mais estranho é que ninguém achou isso estranho. Todo mundo começou a reclamar, achando que o Apocalipse estava ali e que, em mais dez minutos, o São Paulo viraria o jogo. É claro que acabou 4 a 1, mas isso é típico do botafoguense. E isso é o que eu acho interessante.”
Salles evidencia tudo aquilo que a torcida maioritária do Rio de Janeiro nos inveja: a ousadia de escolhermos na contra-mão, a capacidade de pensarmos por nós próprios, a altivez do nosso orgulho mesmo quando não ganhamos, enfim, de nos configurarmos como uma verdadeira elite clubista.
Por tudo aquilo que somos é que, de entre todas as frases e ideias interessantes de João Moreira Salles acerca do nosso Botafogo, a sua frase definitiva merece uma lápide:
– “Gosto de muitas coisas na vida. Mas, das coisas que eu gosto muito, a que eu mais gosto é o Botafogo.”
Fontes principais:
http://www.cinemaemcena.com.br/Entrevista_Detalhe.aspx?ID_ENTREVISTA=25
O cineasta conviveu com João Saldanha durante a sua infância e, apesar de a família ser botafoguense, ele tornou-se botafoguense porque o jornalista, frequentador da sua casa, lhe contava histórias maravilhosas do Glorioso. Porém, tornou-se fervoroso torcedor apenas nos anos 80, por volta dos seus 20 anos, quando a equipa não ganhava nada e era composta por Wecsley, Perivaldo, Cremilson, Jerson e outros.
Nesse período de desterro, poderia ter escolhido ser do flamengo, ou qualquer outro clube que estava na mó de cima à época. Mas os argumentos de João Salles são demolidores para aqueles que preferem a facilidade de escolher clubes de maioria, protegido por arbitragens e regularmente ‘levados’ a títulos.
Eis as palavras do próprio cineasta acerca da sua escolha: – “O Botafogo não ganhava nada, foi seu período de desterro: ele levou 21 anos para ser campeão. Eu acho interessante estar na contra-mão, ser da minoria. No estádio, o Botafogo é sempre o que tem a menor torcida, mas ela é a mais interessante de todas, porque é fanática sem receber nada em troca, porque o time geralmente não ganha. É uma torcida desesperada, mas muito apaixonada, e isso é muito bacana.”
Este posicionamento, que é muito semelhante ao do editor deste blogue, transmite exatamente a alma dos botafoguenses, que são diferentes de muitos outros torcedores – e não populistas, como dizia Sérgio Augusto. Os botafoguenses preferem o risco, o desconhecido e o exercício de uma alegria bem diferente dos clubes da maioria. Eis novamente Salles falando: – “Quando o Botafogo ganha, a alegria vem com uma intensidade muito maior do que a dos outros times. Foi assim em 1989, quando o Rio viveu uma explosão de alegria que só se compara, em intensidade, à tristeza com a perda da Copa de 1982.”
Salles confessa que “é fácil torcer pelo flamengo, pertencer à maioria. Ser Botafogo, não: desde a escola, é uma afirmação de identidade. Significa ter opinião própria, não seguir a moda. Por isso, acho que o torcedor do Botafogo é um torcedor de fibra moral. Ser botafoguense te ensina muitas coisas a respeito da vida.”
O cineasta considera que o interessante de uma equipa que não ganha sempre é que quando ganha tem a sensação que jamais algum flamenguista terá: – "A gente não banaliza a vitória; a vitória é uma coisa muito rara – e, quando ela acontece, eu duvido que alguém sinta a alegria de um botafoguense. A felicidade que eu senti quando o Botafogo foi campeão em 89, depois de 21 anos, eu duvido que algum torcedor de futebol sinta igual. Isso justifica minha paixão pelo time pelo resto da vida, mesmo que ele nunca mais ganhe nada.”
Sobre os rivais, os argumentos de Salles também são muito interessantes. Sobre o flamengo: – “Eu não quero que o flamengo morra, não. Mas eu quero que o flamengo perca.” E sobre o fluminense: – “Fiquei feliz quando o fluminense perdeu a Libertadores. Se eles ganhassem, seria como o rapaz que sempre cortejou uma moça, mas nunca teve chance de casar com ela, porque ela nunca te deu muita bola. Aí de repente o seu vizinho consegue namorar e noivar com ela, está prestes a casar. Lógico que, nesse caso, você prefere que ela case com um estrangeiro, que vem do Equador para levá-la, do que com o cara que está do seu lado e vai ficá-la exibindo o tempo inteiro.”
Acerca das características dos botafoguenses, o cineasta escreveu, em 1995, durante o campeonato brasileiro, um texto intitulado “Pelo menos fomos péssimos”, o qual falava de um jogo do Botafogo contra uma equipa paulista, talvez o próprio São Paulo, refere o cineasta.
Salles conta a história referindo-se a um jogo no Caio Martins, o qual, supostamente, o Botafogo ganhava ao São Paulo por 4x0 e o marcador passou a 4x1. Mas, observando-se os resultados daquele ano, esse jogo deve ter sido contra o paulista Guarani, ao qual ganhávamos por 3x0 quando eles diminuíram para 3x1. Conta Salles: – “Quando deu mais ou menos 31 minutos do segundo tempo, o São Paulo, numa falha da nossa defesa, fez 4 a 1. Do meu lado, um pai falou: ‘Meu filho, acabou!`. O filho começou a chorar, o pai começou a bater no alambrado, dizendo: `Eu não agüento mais esse time, isso aqui é um horror, eu vou abandonar o estádio!`. E o que é mais estranho é que ninguém achou isso estranho. Todo mundo começou a reclamar, achando que o Apocalipse estava ali e que, em mais dez minutos, o São Paulo viraria o jogo. É claro que acabou 4 a 1, mas isso é típico do botafoguense. E isso é o que eu acho interessante.”
Salles evidencia tudo aquilo que a torcida maioritária do Rio de Janeiro nos inveja: a ousadia de escolhermos na contra-mão, a capacidade de pensarmos por nós próprios, a altivez do nosso orgulho mesmo quando não ganhamos, enfim, de nos configurarmos como uma verdadeira elite clubista.
Por tudo aquilo que somos é que, de entre todas as frases e ideias interessantes de João Moreira Salles acerca do nosso Botafogo, a sua frase definitiva merece uma lápide:
– “Gosto de muitas coisas na vida. Mas, das coisas que eu gosto muito, a que eu mais gosto é o Botafogo.”
Fontes principais:
http://www.cinemaemcena.com.br/Entrevista_Detalhe.aspx?ID_ENTREVISTA=25


