sábado, 3 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (I): de Charles Williams à psicanálise de Nicolas Ladanyi

Charles Williams. Fonte: Wikipédia.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A história dos treinadores do Botafogo de Futebol e Regatas apresenta episódios absolutamente extraordinários e alguns deles poder-se-ia afirmar que foram inventados pelo folclore futebolístico, mas a verdade é que estão bastante bem documentados e vale a pena o Mundo Botafogo dedicar uma série homenageando esses comandantes, sempre menos idolatrados pelos torcedores, mas nem por isso menos importantes do que os jogadores.

A história não começa desde o início, fundamentalmente porque até 1923 as equipes eram dirigidas por comitês técnicos e somente nessa data surgiu o primeiro treinador a solo.

O Grande Paulo Antônio Azeredo, Presidente à época (presidências em 1923, 1926-1936, 1954-1963), inaugurou um ciclo internacional extraordinário com treinadores estrangeiros: Juan Carlos Bertone (uruguaio), Eugênio ‘Marinetti’ Medgyessy (húngaro), Ramón Platero (uruguaio), Charles Williams (inglês), Nicolas Ladanyi (húngaro) e, já sem Azeredo na presidência no final da década de 1930, chegou Izidor ‘Dori’ Kürschner (húngaro), em 1939.

Ainda assim, não foi em 1923 que começaram as grandes histórias em torno dos treinadores botafoguenses, já que entre 1923 e 1928 houve mudanças sucessivas que resultaram em 13 treinadores, alguns deles entrando, saindo e voltando duas e três vezes alternadamente em espaços de meses: Carlito Rocha (1925, 1926, 1927), Vadinho (1924, 1927, 1928), Marinetti (1926, 1927), Ramón Platero (2027 no início, 2027 no final), Juan Carlos Bertone (1923), Lulu Rocha (1924) e Flávio Ramos (1928).

A primeira grande história começou quando Paulo Antônio Azeredo, o mais titulado presidente botafoguense, decidiu inovar radicalmente e contratar uma comissão técnica de europeus liderada pelo inglês Charles Albert Williams, em 1929, destinada a recolocar o Botafogo na senda dos títulos cariocas.

E foi aí que começaram as grandes histórias em torno de treinadores.

Charles Williams era uma figura muito relevante no futebol brasileiro daquela época, numa altura em que contratar treinadores estrangeiros – sobretudo britânicos e centro-europeus – era uma forma de importar conhecimentos de treino e organização do jogo. Williams já tinha passado pelo Fluminense e pelo America antes de chegar ao Botafogo, em 1929.

Nesse contexto, Paulo Azeredo também contratou, no início de 1930, o húngaro Nicolas J. Ladanyi, conhecido no Brasil por ‘Capitão Ladanyi', que não era um treinador convencional. Nascido em Budapeste em 1889, serviu militarmente no Império Austro-Húngaro durante a I Guerra Mundial e posteriormente emigrou para a América, dedicando-se a estudos sobre preparação física e desporto, tendo dirigido o Aeskulap Health Institute, em Nova Iorque.

Entretanto chega ao Rio de Janeiro e leva na bagagem ideias absolutamente extraordinárias para o futebol brasileiro, razão pela qual Paulo Azeredo contrata-o como superintendente do futebol com a missão de introduzir novos métodos de preparação física.

Capitão Ladanyi. Fonte: Wikipédia.

Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/nicolas-ladanyi-o-supertreinador.html

O seu programa incluía a dimensão psicológica, descrita à época como inspirada na psicanálise, que atribuía grande importância à robustez mental.

E aí instalou-se o conflito entre Ladanyi e Williams, terminando com a demissão deste último, que entretanto seguiu para o Flamengo.

Foi assim que o Capitão Ladanyi assumiu o comando técnico do Botafogo e conquistou o título carioca, conquista muito significativa 20 anos após o Botafogo se tornar o ‘Glorioso’ com a conquista do campeonato de 1910.

Porém, Ladanyi não se ficou por aí: em 1931 venceu a Taça dos Campeões Estaduais Rio-São Paulo, que punha frente a frente os campeões de 1930 do Rio e de São Paulo, versão inicial do Torneio Rio-São Paulo, derrotando estrondosamente o poderoso Corinthians com uma goleada de 7x1 e 4 gols de Nilo; e ainda venceu a Taça Rio-Sul, derrotando o Pelotas, campeão gaúcho, por 3x2, naquela que foi uma versão inicial de campeonato brasileiro, mas cuja ideia se perdeu na bruma do tempo e o título não foi homologado como campeonato nacional.

Ver Taça Rio-Sul: https://mundobotafogo.blogspot.com/2013/03/1931-taca-rio-sul.html; https://mundobotafogo.blogspot.com/2015/12/paulistano-botafogo-e-atletico-mineiro.html

Ver Taça dos Campeões Estaduais: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/1-conquista-interestadual-rio-so-paulo.html

Em 1932 o Capitão Ladanyi idealiza e constrói a equipe que faz nascer a extraordinária conquista do tetracampeonato carioca que hegemoniza o futebol botafoguense no Rio de Janeiro. É, pois, uma Era extraordinária liderada por Nicolas Ladanyi, cujo ciclo conquista Campeonato Carioca (1930), Taça dos Campeões Estaduais Rio-São Paulo (1931), Taça Rio-Sul (1931) e Campeonato Carioca (1932).

Ladanyi saiu do Botafogo no início de 1933 dando lugar sucessivamente a Victor Guisard (1933), Armindo Nobs Ferreira (1933-1934) e Carlito Rocha (1935-1939), que completam o tetracampeonato, cuja continuidade e desenvolvimento foram muito mais fruto da equipe montada por Ladanyi e pela estrutura do Clube do que pelas figuras que sucederam o húngaro, tanto mais que Carlito Rocha foi o técnico entre 1935 e 1939 e somente conquistou um título na sequência da equipe idealizada por Ladanyi.

O tetra: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/01/botafogo-tricampeao-carioca-de-futebol_20.html

Porém, o final da história de Ladanyi é tão insólita como o princípio. O húngaro passou então pelo America, trabalhou na Liga de Sports da Marinha, regressou ao Botafogo no final da década integrando a estrutura técnica, mas depois afastou-se progressivamente do futebol.

Eis, então, que o ‘nosso’ excêntrico Capitão acaba se ligando ao mundo dos espetáculos do Rio de Janeiro, ocupando o cargo de diretor artístico do Cassino da Urca e mais tarde do Hotel Quitandinha, em Petrópolis, que evidencia um personagem fascinante, que de militar passa a emigrante, a estudioso da psicanálise, a técnico de futebol campeão pelo Botafogo e a diretor artístico.

Em 1939 ainda é um técnico estrangeiro que chega ao Botafogo, Izidor ‘Dori’ Kürchner, cuja história foi importante para a evolução técnica do futebol brasileiro e inspirou futuros técnicos do Botafogo.

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com.

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