segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (II): do WM de Dori Kürschner ao efeito transformador de Zezé Moreira

Dori Kürschner. Fonte: https://alchetron.com.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Izidor ‘Dori’ Kürschner (1939-1940) trouxe para o Brasil as sofisticadas ideias europeias associadas ao WM, sistema tático inovador, mas que encontrou uma enorme resistência no panorama técnico brasileiro.

No entanto, Kürschner acabou por ser o treinador que trouxe a inovação do ‘jogo bonito’, dando um impulso maior à beleza do futebol brasileiro.

Em virtude do problema linguístico do húngaro, um jovem botafoguense, João Saldanha, funcionava como seu intérprete e dispunha de uma posição privilegiada para absorver a organização tática e os métodos de treino de Kürschner para, 18 anos mais tarde, ser o técnico botafoguense que inauguraria o segundo grande ciclo de conquistas do Glorioso em 1957.

A ligação é muito interessante, mas antes do legado de Kürschner ser levado à prática por João Saldanha houve um técnico botafoguense que, enquanto jogador, também conviveu com o húngaro, que também foi inspiração para realizar um trabalho técnico extraordinário no Botafogo, 13 anos depois do tetracampeonato, conquistando um novo título de campeão carioca em 1948 ao derrotar na final o ‘Expresso da Vitória’, título informal dado ao então poderoso e quase invencível Vasco da Gama – Alberto Moreira Júnior, o ‘Zezé Moreira’.

Zezé Moreira foi atacante do Botafogo Football Club e do Botafogo de Futebol e Regatas entre 1935 e 1943. Consequentemente chegou à equipe principal no final do tetracampeonato, viveu a fusão do Club de Regatas Botafogo e do Botafogo Football Club que originou o Botafogo de Futebol e Regatas e praticamente encerrou a carreira de futebolista no ano seguinte.

Entretanto, entre 1939 e 1947 o Botafogo conheceu oito mudanças de comando da equipe de futebol: Dori Kürschner (1939-1940), Adhemar Pimenta (940-1942), Carvalho Leite (1942-1943), Mario Fortunato (1943), Martim Silveira (1943-1944), Bengala (1944-1946) e Ondino Vieira (1947).

Em 1948, após a Era Heleno de Freitas, que não rendeu nenhum título de campeão carioca ao Botafogo, Zezé Moreira foi empossado como treinador do Botafogo, substituindo o argentino Ondino Vieira.

O Botafogo não vencia o Carioca há 13 anos, apesar do grande ídolo Carvalho Leite ter sido substituído por um futebolista ainda maior ídolo botafoguense: Heleno de Freitas. Os treinadores nacionais e estrangeiros sucediam-se sem sucesso e Zezé Moreira pegou uma equipe que na abertura do campeonato carioca de 1948 foi goleado copiosamente pelo São Cristóvão por 4x0!

Zezé Moreira não era totalmente inexperiente em matéria de conhecimentos específicos da profissão porque fora jogador do Botafogo, preparador físico e treinador da equipe reserva, mas o carrasco São Cristóvão foi implacável no seu batismo em General Severiano como comandante técnico do Glorioso.

Biografia: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/zez-moreira-o-homem-do-ttulo-de-1948.html

Todavia, Zezé Moreira reagiu usando de toda a sua experiência anterior, sobretudo os ensinamentos que absorveu dos treinadores anteriores como jogador, especialmente alicerçados na organização tática e nos métodos de treino herdados de Dori Kürschner, mas também a experiência acumulada com os cargos de preparador físico de treinador dos reservas.

Zezé Moreira, atleta e treinador. Fontes: https://museudapessoa.org e Instagram @tadeumiracema, respectivamente.

Foi essa capacidade de aprendizagem e de colocar em prática esses saberes que permitiram ao Botafogo não tornar a perder nenhum jogo até ao final do campeonato e reconquistar, finalmente, o título de campeão carioca, em 1948, com uma consistente vitória sobre o poderoso Vasco da Gama.

Essa conquista não foi alheia, por exemplo, à enorme experiência do campeoníssimo Sylvio Pirillo, que deixou o Flamengo para substituir Heleno de Freitas, e que apenas não jogou uma partida durante todo o campeonato, justamente aquela que valeu a única derrota do Botafogo na abertura da competição.

Título: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/02/botafogo-campeao-carioca-de-futebol.html

É claro que a narrativa histórica predominante não privilegia tanto o lado racional do valor crucial de Zezé Moreira, Pirillo e demais atletas, cuja união foi inquebrantável durante toda a competição, preferindo favorecer o lado emocional, supersticioso e religioso de Carlito Rocha, presidente do Botafogo, que se tornou a narrativa principal daquela conquista, quer pelas inúmeras superstições partilhadas com o seu ‘braço direito’ Aloísio Birruma, roupeiro da equipe, quer através das gemadas que obrigava os jogadores a comerem antes dos jogos, quer através das cortinas amarradas no seu gabinete de General Severiano e, principalmente, através de Biriba, a mascote do Glorioso, que Carlito Rocha associou ter sido o sinal místico de sorte ao entrar em campo durante uma partida de futebol.

Carlito Rocha levava o Biriba para os jogos como talismã e antes da decisão contra o Vasco, a história atingiu níveis quase surreais: receando que alguém envenenasse o animal, o Botafogo manteve Biriba num hotel sob vigilância e, segundo o relato histórico do próprio clube, o seu bife era previamente provado por outro cachorro. Biriba entrou em campo e o Botafogo foi campeão.

Daí para a frente o badalado e ‘principesco’ Biriba não deu mais sorte e acabou sendo lentamente esquecido pela torcida como elemento de sorte, mas Carlito Rocha tornou-se e tornou-o imortal entre a ‘cachorrada’ botafoguense da torcida mais sedutora, supersticiosa e encantadora do Brasil.

Carlito Rocha venceu três campeonatos cariocas como jogador nas bases, como treinador e como presidente, e não foi o melhor jogador, o melhor treinador, nem o melhor presidente, mas o seu carisma altamente místico contagiou todos em seu redor durante décadas ao serviço do Glorioso e marcou para sempre os torcedores botafoguenses, sobretudo com as suas superstições.

Biriba, o símbolo da ‘cachorrada’ gloriosa. Fonte: www.mundobotafogo.blogspot.com.

De todo o clamor e folclore em torno das superstições de Carlito Rocha e do cachorro Biriba, resultou que o precioso trabalho de Zezé Moreira foi ofuscado pelo contexto e, posteriormente, os jornais da época salientaram que era injusto atribuir tudo a Carlito Rocha, porque havia ali um verdadeiro trabalho transformador da autoria do treinador – iniciado com uma derrota de goleada e terminado com a restante época invicta até à conquista do campeonato.

Zezé Moreira era um perfecionista e vale a pena ilustrar essa característica de quando treinou novamente o Botafogo (1955-1956) e não se conformava com os sucessivos dribles de Garrincha, porque considerava que deviam obedecer a um objetivo concreto. Então, teve a ideia de alinhar quatro cadeiras e disse para Garrincha: – “Vamos lá, Mané. Dribla as cadeiras e quando driblar a última você cruza ou então chuta em gol.”

Garrincha obedeceu sem questionar. Pegou a bola, driblou as quatro cadeiras e cruzou; na segunda driblou as quatro cadeiras e chutou a gol; na terceira fez a mesma coisa; na sexta vez driblou as cadeiras, driblou a última e, de repente, driblou de novo e foi driblando a terceira, a segunda e a primeira, exclamando matreiramente para Zezé Moreira: – “Desculpe, seu Zezé, mas não aguentei! Elas nem se mexeram!”

A prova das capacidades de Zezé Moreira foi, aliás, comprovada através de tantos títulos que conquistou ao longo da sua restante carreira: Campeonato Sul-Americano pelo Brasil (1952), Copa Libertadores da América (1976), Torneio Rio-São Paulo (1966), Campeonato Uruguaio (1963, 1969), Copa Rio (1952), diversos Campeonatos Estaduais (1948, 1951, 1959, 1970, 1975, 1978, 1979), bem como outros torneios nacionais e internacionais importantes.

Zezé Moreira também representou, de algum modo, a continuidade de uma linhagem técnica que passou pelo seu contato com a equipe tetracampeã idealizada pelo Capitão Ladanyi e pela experiência vivida com Dori Kürschner, em 1939-1940, linhagem essa que será retomada posteriormente com João Saldanha, o intérprete de Kürschner que tornará a dar vida à linhagem técnica em 1957.

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com.

2 comentários:

Sergio disse...

É sempre muito bom ouvir essas histórias sobre as conquistas botafoguenses.
Um colega meu, já falecido, foi campeão infanto juvenil pelo Botafogo em 1957, o nome dele era Ubiratan Alves, carinhosamente chamado de Bira. No livro Botafogo em Preto e Branco ele está na fotografia dos vencedores do torneio em 57. Ele garoto viu esse time do Botafogo de 1948, sabia a escalação e dizia que era um grande time. Curiosamente , apesar do Didi gostar dele, inclusive no dia de receber as medalhas do título, entrando no Maracanã de mãos dadas com o mestre, ele desistiu do futebol, pela simples razão de que além de ele ser muito baixo, ele não via como jogar no Botafogo em 1957. Curiosamente ele se tornou trompista, trabalhamos juntos por vários anos. Ele dizia que não tinha time e que o pai dele detestava o Flamengo, pela razão de não ter dado oportunidade ao seu filho. E o Bira sempre falava que o gol que definiu o jogo na final de 57 contra o Flamengo foi dele, e ele sentia uma certa satisfação nisso, uma espécie de vingança.
Gostava muito de conversar com ele, ouvir as histórias, pois ele conviveu com muitos craques botafoguenses e da seleção brasileira, treinando inclusive com a seleção de 1958 e, várias das histórias que nós lemos sobre o Botafogo, muitas delas ele presenciou. Abs e SB!

Ruy Moura disse...

Essa história é muito boa, Sergio. Já por diversas vezes me transportei para esse período convivendo virtualmente com as histórias e estórias de 1957-58-59, com o Mundial de 58 pelo meio, antes de ser torcedor do Botafogo (1960). Já me manifestei várias vezes, em resposta a comentários dos leitores, que adoraria ter estado no Maracanã na final de 1957 para assistir ao espetáculo de Paulinho Valentim. Na verdade, foi o único grande jogador do período áureo de 1957-1968 que não vi jogar e gostaria de tê-lo visto. Depois foi-se embora com a Hilda 'Furacão', ganhou um monte de dinheiro, acabou na miséria e a Hilda nunca o abandonou até à sua morte. Históorias incríveis!

Abraços Gloriosos.

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