domingo, 15 de agosto de 2010

Casa cheia para saudar Garrincha

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por Bernardo Costa

O público lotou a Sala Belisário de Souza, no edifício-sede da ABI, nesta quinta-feira, para prestigiar o saudoso Mané Garrincha, que completaria 75 anos este mês. A mesa foi composta pelos jornalistas Roberto Porto e Luís Fernando, os ex-jogadores Índio e Gilson e o ex-técnico Jorge Vieira, que contaram histórias do craque botafoguense e relembraram momentos marcantes do futebol brasileiro.

Dando início à homenagem, José Rezende, Coordenador do Centro Histórico-Esportivo da ABI, vinculado à Diretoria de Cultura e Lazer da Casa, distribuiu cópias de uma charge do homenageado feita por Adail e anunciou a criação do MemoFut, “um grupo de pesquisadores e escritores que se ocupará do resgate e da preservação da memória esportiva brasileira, tendo como carro-chefe o futebol”. Em seguida, chamou à mesa o jornalista Roberto Porto, que foi logo exibindo uma cópia da certidão de nascimento de Garrincha, para desfazer mal-entendidos:

– Em primeiro lugar, ele não se chamava Manoel Francisco dos Santos, como dizem, apenas Manoel dos Santos. E nasceu em 18 de outubro de 1933, não no dia 28, e morreu em 20 de janeiro de 1983.

Botafoguense, o jornalista relembrou o primeiro jogo de Garrincha com a camisa alvinegra, em 19 de julho de 53, a que assistiu, ainda criança, em companhia de um tio. Após a partida, Roberto entrou em campo para pedir um autógrafo do jogador que, semi-analfabeto, assinou “Garrinha”. Depois, comentou as participações do craque no time carioca e na seleção brasileira:

– Ao todo, ele fez pelo Botafogo 613 jogos e marcou 242 gols. Sua última partida pelo time foi em 15 de setembro de 65, contra a Portuguesa. Pela seleção brasileira, seu primeiro jogo foi, curiosamente, um mês antes de completar 22 anos, no dia 18 de setembro de 55. Com a camisa canarinho, foram 60 jogos, 52 vitórias, sete empates e uma derrota, contra a Hungria na Copa do Mundo de 66, que não tinha Pelé e Garrincha juntos. Nessa partida, ele já estava mal, sofrendo de artrose nos dois joelhos e muito acima do peso.

Mané Garrincha

Roberto passou a palavra a Gilson, que era goleiro do time principal do Botafogo quando Garrincha estreou marcando três gols na vitória de 6x3 contra o Bonsucesso, em General Severiano, em 1953:

– Estreei no time principal do Botafogo junto com Garrincha e me orgulho muito disso; é uma honra que guardo até hoje e conto sempre aos meus filhos e netos as aventuras dele. Como seu companheiro de equipe, posso dizer que ele tinha um coração bom, puro, sem maldade nenhuma, e jogava por prazer. Aqueles dribles desconcertantes que dava nos adversários, aquilo nunca foi para desmoralizar ninguém, ele jogava futebol com se estivesse brincando na praia ou num terreno baldio. Foi um grande sujeito e, para mim, o melhor jogador de todos os tempos. Tenho orgulho de ter jogado no mesmo time que ele e de ser botafoguense.

Companheiro de Garrincha na seleção carioca que jogou contra um time de paulistas, Índio – centro-avante que marcou época no Flamengo quando formou a linha de frente do primeiro ano do tricampeonato estadual de 53, junto com Joel, Rubens, Benitez e Esquerdinha, como lembrou José Rezende –, falou do amigo com carinho:

– Garrincha era meu camarada. Ele me chamava de “homem-espelho”, porque eu ficava espremendo espinhas no vestiário. Lembro que depois dos jogos nós ficávamos o dia inteiro jogando bilhar. O Mané foi único, era meio time do Botafogo e não tinha marcador para ele. Falar desse grande craque é maravilhoso. Que Deus o tenha em bom lugar.

Alegria

Luis Fernando, “o repórter que sabe de tudo”, contou que Garrincha estava sempre alegre. Mesmo quando perdia uma partida, “ele se divertia jogando, a bola para ele era um brinquedo”, disse o jornalista, lembrando-se de um fato pitoresco ocorrido logo depois da Copa do Mundo de 62, no Chile, onde o Brasil sagrou-se bicampeão mundial, com Garrincha sendo o grande astro do título:

– Na volta, ele renovou o contrato com o Botafogo, que não lhe deu o dinheiro que havia prometido. Na época, o time estava indo para Recife, jogar três amistosos contra o Náutico, o Sport e o Santa Cruz. Naquele tempo, nos intervalos dos jogos de domingo pelos campeonatos, todos os grande times brasileiros faziam excursões para ganhar dinheiro, e é claro que nessas viagens era obrigatória a presença dos campeões do mundo, principalmente Garrincha. Na hora do embarque, no Aeroporto Santos Dumont, ele não apareceu. Então, os diretores Renato Estelita e Djalma Moreira chamaram Nilton Santos e disseram: “Nilton, vai a Pau Grande buscar o Mané, que nós vamos remanejar o vôo de vocês para as 18h.” Eu estava ao lado dele e perguntei se podia ir junto. Então entramos no carro e partimos para Magé. Quando chegamos na porta da casa, encontramos uns garotos jogando uma pelada com bola de meia. Nilton foi entrando e Dona Nair, que foi a primeira esposa do Garrincha, o recebeu e disse que o marido estava pescando com os amigos Swing e Pincel. Dona Nair chamou um dos garotos para nos guiar e, quando chegamos à beira do riacho, encontramos todos adormecidos ao lado de três garrafas de cachaça vazias. O Nilton acordou o Garrincha e disse: “Vai para casa tomar um banho gelado e botar um terno, porque você vai viajar comigo para Pernambuco.” E assim foi. Ele respeitava muito o Nilton Santos e disputou os três jogos.

Tática

O ex-técnico de futebol Jorge Vieira, que dirigiu o América no seu último título estadual, em 1960, e foi técnico de Garrincha na seleção carioca de 61, falou da tática que usava para tentar neutralizar a eficiência do craque quando seu time jogava contra o Botafogo:

– Treinávamos a semana toda uma tática que, pelo menos, impedisse que ele chegasse ao fundo com facilidade. No esquema, o Ivan fechava a lateral para não deixar ele partir com a perna direita, forçando-o a jogar com a esquerda, com a qual não tinha o domínio completo, e dava um drible mais largo, permitindo que o João Carlos pudesse roubar a bola. Às vezes dava certo, mas quase sempre o Garrincha arrumava um jeito de passar.

Terminada a mesa-redonda, a homenagem a Garrincha teve prosseguimento com a exibição do filme “1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil”, do cineasta José Carlos Asbeg.

24 de Outubro de 2008

Pesquisa de Rui Moura (blogue Mundo Botafogo)

sábado, 14 de agosto de 2010

G4?!?!?!... É mesmo!!!

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Caros amigos, estreei-me com a primeira febre em toda a minha vida. Coisa ruim. Corpo completamente moído pela temperatura e outras coisas mais. Só tive coragem de ligar no jogo já aos 35 minutos do segundo tempo para… o 2º gol do Glorioso.

O caminho está a ajeitar-se. Se pusessem outra gente na zaga começaria a pensar que poderíamos ser um caso sério neste campeonato… E agora são dois jogos acessíveis em casa, julgo eu...

FICHA TÉCNICA
Botafogo 2x0 Atlético Goiano
» Gols: Somália 51’ e Jobson 81’ (Botafogo)
» Competição: Campeonato Carioca
» Data: 14.08.2010
» Local: Estádio Serra Dourada
» Arbitragem: Carlos Eugênio Simon (RS); Autemir Hausmann (RS) e Marcelo Bertanha Barison (RS)
» Cartões amarelos: Alessandro e Marcelo Mattos (Botafogo); Daniel Marques (Atlético Goiano)
» Atlético Goiano: Márcio; Victor Ferraz, Daniel Marques, Welton Felipe e Thiago Feltri (Chiquinho); Pituca, Ramalho, William (Marcão), Anailson (Pedro Paulo) e Carlinhos Bala; Rodrigo Tiuí. Ténico: Renê Simões.
» Botafogo: Jefferson, Antônio Carlos, Leandro Guerreiro e Fábio Ferreira; Alessandro, Somália (Fahel), Marcelo Mattos (Caio), Maicosuel e Marcelo Cordeiro; Herrera (Edno) e Jobson. Técnico: Joel Santana.

Jogos inesquecíveis: Botafogo 6x0 Flamengo

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No dia 15 de Novembro de 1972 o Botafogo jogou contra o Flamengo em dia de feriado nacional e de comemoração do aniversário do clube da Beira da Lagoa.

No dia anterior, Carlito Rocha, ex-jogador do Botafogo, ex-técnico, ex-presidente, até ex-árbitro e benemérito do clube, sonhou que o nosso Botafogo iria golear historicamente o Flamengo, seu maior rival.

Carlito Rocha sonhou, está sonhado. No aniversário do Flamengo, em pleno estádio do Maracanã, comandado por um endiabrado Jairzinho, a famosa equipa de General Severiano goleou o Flamengo por 6x0, fazendo Mário Zagallo, técnico do Flamengo, sofrer a sua pior derrota na longa carreira que teve.

O Botafogo, orientado pelo humilde Leônidas, bicampeão carioca em 1967-1968, sob o comando do próprio Mário Zagallo, alinhou com: Cao; Mauro Cruz, Valtencir, Osmar e Marinho Chagas; Nei Conceição, Carlos Roberto e Ademir; Zequinha, Jairzinho e Fischer.

A festa começou aos 15 minutos de jogo com o campeão do mundo Jairzinho a inaugurar o marcador. Tinho rebate fracamente a bola e surge Jairzinho com um poderoso chute no ângulo esquerdo de Renato: Botafogo 1x0.

Aos 35 minutos Jairzinho passa a bola a Zequinha, ele vai à linha de fundo, centra à medida e o notável centroavante argentino Fischer fuzila sem piedade a baliza adversária: Botafogo 2x0.

Aos 41 foi fechada a conta da primeira parte. Zequinha cruza novamente e Fischer, de cabeça, faz: Botafogo 3x0.

Mário Zagallo e os flamenguistas não queriam acreditar no que viam, tentaram reagir, mas as substituições de Rogério por Caio Cambalhota e Mineiro por Zanata apenas permitiram mais três gols.

À procura do gol, o Flamengo deixava a sua defesa à mercê dos gloriosos jogadores e, aos 23 minutos, Jairzinho recebeu novamente de Zequinha, fez corta-luz com Fischer e emendou à direita de Renato: Botafogo 4x0.

Com a torcida do Botafogo engalanada pela goleada, Jairzinho recebeu – outra vez! – passe de Zequinha e fez um gol d eletra: Botafogo 5x0.


Aos gritos de “Chega! Chega!” da torcida botafoguense, Ferretti entrou a substituir Fischer e fechou a contagem histórica: Botafogo 6x0.

Os festejos da torcida, perante os seis a zero, passaram a ser comandados pelo lema: “Gostamos de Vo6!”
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Texto e pesquisa de Rui Moura (blogue Mundo Botafogo)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Por que o Botafogo é o time que mais combina com quem lida com literatura?

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“Nas crônicas que escrevia semanalmente para a Manchete Esportiva, Nelson Rodrigues vez ou outra elegia o personagem da semana. Era quase sempre um jogador o tal personagem, alguém que havia se destacado na rodada e merecera sua atenção. Pois numa dessas crônicas, Nelson elegeu como personagem da semana não um jogador mas uma torcida: a do Botafogo.

A certa altura da crônica, o tricolor Nelson afirma que “nem todo mundo pode imaginar o que é ‘ser Botafogo’. Vejam um vascaíno, um rubro-negro e um tricolor. Eles se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Reagem diante da derrota, da vitória e do empate de maneiras bem parecidas. Suas euforias e depressões são equivalentes. Mas há, no botafoguense, coisas que só ele tem e que o distinguem de tudo e de todos”.

Numa crônica anterior, Nelson já havia escrito que há sempre, nas vitórias do Botafogo, “uma pungência, um patético que faltam às demais”. Tanto que ele, naquela semana, passa por cima de uma goleada do América sobre o Corinthians para falar da vitória de 2 x 0 do Botafogo sobre a Portuguesa. O jogo, segundo o cronista, tinha tudo para ser uma festa: o alvinegro, capitaneado por Didi e Garrincha, passeou em campo, dominando plenamente o adversário, e poderia, sem exagero, ter ganhado de 10 x 0. A tal ponto que Nelson se perguntou, ao final da partida, temendo pela sorte do seu Fluminense: “o que seria de nós se o Botafogo jogasse sempre assim?”

A partida, no entanto, terminou apenas num dramático, num suado 2 x 0. Por quê? Responde o cronista: “tudo é mais difícil para o Botafogo e o povo, com seu instinto agudo, costuma dizer: ‘Há coisas que só acontecem ao Botafogo!’ Exato”. E Nelson decifra o enigma ao dizer que o problema todo é que o time “tem contra si a fatalidade, mesmo quando assombra, mesmo quando esmaga, mesmo quando arrebenta.”

O botafoguense Arthur Dapieve sabe bem o que é isso. Numa crônica recente, intitulada Esse nosso amor, Dapieve comenta o espetáculo dantesco que teve como palco o Estádio dos Aflitos (o nome do estádio: ironia do destino?), em Recife, na partida Botafogo e Náutico pelo campeonato brasileiro. Aliás, você por favor me responda, caro leitor: algum jogador do seu time já foi preso em pleno gramado e levado à força por policiais pelo meio da torcida adversária? E caso isso tenha acontecido, o presidente do seu time foi atrás do jogador para protegê-lo e acabou preso também, como naquele jogo? Duvido.

Nessa crônica, Dapieve escreve: “tenho dois amigos jornalistas paulistas e são-paulinos que trabalharam no Rio de Janeiro durante algum tempo. Ambos se tornaram botafoguenses porque se assombraram com a nossa incrível concentração dramática. Eles dizem que em um ano de Botafogo acontece o suficiente para encher cinco anos do São Paulo. Sem os títulos, infelizmente”.

Imprevisível

Se torcer para um time de futebol é sempre uma aventura, torcer para o Botafogo é um pouco mais do que isso. Nunca se sabe como vai acabar a partida, se é que vai acabar. Aliás, não se sabe exatamente nem como é que vai começar. Quer um exemplo? Essa aconteceu comigo. Em 1996, o time estava disputando a Taça Teresa Herrera, na Espanha, e ia jogar contra o Juventus, da Itália. Só consegui chegar em casa no início do segundo tempo e quando liguei a televisão vi o Juventus com sua camisa tradicional (com listras verticais, brancas e pretas) e o adversário (supostamente o Botafogo) de camisa azul!

Levei um tempo até entender aquilo. Parecia outro time. Mas não, lá estava o figuraça Túlio Maravilha, na sua vistosa camisa cor de anil. O que aconteceu: o árbitro achou que as camisas do Juventus e do Botafogo eram parecidas e fez um sorteio para ver quem mudava. O Botafogo foi o escolhido. Como não tinha levado uniforme reserva, pegou emprestadas as camisas do… La Coruña!

Agora me responda com sinceridade: é normal isso? E o Botafogo ainda foi o campeão do torneio! A valer a superstição – outro traço típico da torcida botafoguense – o time só deveria jogar de camisa azul, ou pelo menos só deveria disputar outras vezes esse torneio com camisa dessa cor.

Por curiosidade, resolvi investigar se isso já havia acontecido antes. Claro que não me surpreendi quando descobri que sim, várias vezes.

Alguns exemplos. Contra o Americano de Campos, em 1923, o time usou – repare bem – o segundo uniforme do Andarahy Athletico Club! Cor da camisa? Verde! Dez anos depois, mesma confusão de uniforme e o Botafogo novamente joga com camisas emprestadas, agora contra o Engenho de Dentro, entrando em campo com camisas vermelhas (dessa vez sequer se tem registro de quem emprestou o uniforme).

Em 1968, em pleno Maracanã (portanto com mando de campo naquela partida), o time entra com a tradicional camisa listrada, o Grêmio também (com a sua de cores preta, branca e azul) e quem é que vai mudar de uniforme? Adivinha. O Botafogo pega emprestadas as camisas azuis da Adeg (a associação desportiva do antigo estado da Guanabara).

Já na década de 70, o episódio se repete. O estádio é o mesmo Maracanã, o jogo é contra o Paissandu, de Belém. A Adeg agora virou Suderj, quer dizer, o nome é diferente mas a função continua a mesma: emprestar camisa para o Botafogo – dessa feita, amarelas!

Nave louca

Talvez por isso, por essa absoluta imprevisibilidade, o Botafogo seja, até prova em contrário, o time que mais combina com quem lida com literatura. Se você, meu amigo ou minha amiga, é poeta, contista, romancista ou exerce a crítica literária e ainda não tem time, não se acanhe: as portas estão abertas. Entre, aperte os cintos e se prepare para embarcar na nave louca!

Não era assim que pensava, por exemplo, o Paulo Mendes Campos? É dele a frase: “Enfim, senhoras e senhores, o Botafogo é um tanto tantã (que nem eu). E a insígnia de meu coração é também (literatura) uma estrela solitária”.

E o Vinicius de Moraes? Diz ele que escolheu torcer pelo alvinegro por um muito nobre motivo: alguns nomes de ruas do bairro de Botafogo. Nomes sublimes, sugerindo belas senhoras: Bambina, Mariana, Clarisse.

Dizem que o poeta, em seus tempos de diplomata, conheceu em Los Angeles o magnata Mr. Buster, arquimilionário que se espantou quando o brasileiro decidiu abandonar o poder e a grana que lhe oferecia o cargo e voltar para o Rio. Mais tarde, Vinicius escreveria um poema criticando a vida de luxo de Mr. Buster e afirmando os motivos de sua decisão. Entre eles: torcer para o Botafogo.

E aí estão escritores contemporâneos que não me deixam mentir. De estilos e gerações variados, eles se espalham pelo país e até pelo exterior, como a Adriana Lisboa, botafoguense por herança paterna, materna e o que mais possa existir, e que hoje espalha a glória do clube no país em que futebol se chama soccer.

Agora, nem a Adriana nem o Luis Fernando Verissimo têm manias de torcedor, o que é digno de nota em se tratando de botafoguenses. Quer dizer, o Verissimo só não gosta de falar durante o jogo, mas o Verissimo não querer falar não chega a ser, convenhamos, uma grande novidade. O que é diferente, no caso, é que ele também não gosta que falem com ele enquanto o Botafogo (ou o seu Internacional) está jogando.

De manias o Jorge Viveiros de Castro diz que se livrou, depois de tantos anos e várias mandingas fracassadas. Tudo bem que continua roendo unha, xingando juiz, mandando algum jogador para aquele lugar, coisas assim, normais. Agora, mania não tem mais não. Cansou. Quer dizer, dia desses ele foi flagrado assistindo a um jogo do Botafogo, na televisão, encostado na parede e plantando bananeira. Jorge explicou que era apenas um exercício de ioga, para amenizar a tensão. Sei.

Estratégias

Fernando Molica é um botafoguense autêntico, o que equivale a dizer que não regula muito bem da bola (com o perdão do trocadilho). Repetir (ou não) determinada camisa, rezar para que, depois de um primeiro tempo ruim, algo o obrigue a mudar de lugar no estádio (não pode ser por vontade própria, tem que acontecer alguma coisa), variar (ou não) de amigos na arquibancada, pedir aos céus para ver, no dia do jogo, alguém com a camisa do Botafogo antes que apareça alguém com a camisa do adversário são algumas de suas, digamos, estratégias.

O historiador Raul Milliet Filho, autor de Vida que segue: João Saldanha e as Copas de 1996 e 1970, não gosta de ver jogo do Botafogo na televisão. Diz que prefere o estádio porque dali pode ter uma ampla visão do campo e analisar taticamente a partida. “Na televisão você o lance, mas não vê o jogo”, justifica. Tudo bem, mas que pode haver algo estranho por trás disso, pode. Para alguém que jamais cruza as pernas quando está vendo jogo do Botafogo, tudo é possível.

Essas histórias todas levam a crer que, se dependesse de manias, o Botafogo seria campeão mundial todos os anos, com folga. E por que não é? Porque se trata de tolice, mera superstição, dirá você, leitor incrédulo. Pois tenho outra hipótese para a explicação do fenômeno: uma esquisitice atrapalha a outra. Isso mesmo, uma está anulando a outra. E são tantas que, claro, nos perdemos.

Faço aqui, portanto, nesse momento histórico, uma proposta que pode devolver ao alvinegro seus dias de glória: uma uniformização das manias. Se estão aí a querer uniformizar a língua portuguesa, que façamos também isso, nós que na história já trocamos tantas vezes de uniforme: uma gramática das manias botafoguenses. Sentar bem no meio do sofá: certo ou errado? Vestir a meia do avesso na véspera do clássico: certo ou errado? Entrar de lado na catraca do Maracanã: certo ou errado? Quem sabe funciona.”

Fontes: Rascunho – Jornal de Literatura do Brasil
http://www.botachopp.blog.br/por-que-o-botafogo-e-o-time-que-mais-combina-com-quem-lida-com-literatura/

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