domingo, 21 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1978: consagração de Kempes, pressão da ditadura, manobras várias e goleada suspeita

Cartaz da Copa do Mundo de 1978. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1978 realizou-se na Argentina, entre 1 e 25 de junho, com 16 seleções. Foi ganha pela Argentina, que venceu os Países Baixos por 3x1 após prorrogação, conquistando o seu primeiro título mundial. Mario Kempes foi a grande figura da prova e terminou como artilheiro, com 6 gols.

O primeiro grande marco foi a vitória da Argentina em casa, num contexto de enorme pressão política e social. A equipa treinada por César Luis Menotti chegou ao título com um futebol ofensivo, tendo como figuras centrais Mario Kempes, Daniel Passarella, Ubaldo Fillol, Osvaldo Ardiles, Leopoldo Luque e Daniel Bertoni. A final, no Estádio Monumental de Buenos Aires, terminou empatada em 1x1 no tempo regulamentar, depois de Dick Nanninga igualar para os Países Baixos. Na prorrogação Kempes marcou novamente e Bertoni fechou o resultado em 3x1.

Os Países Baixos chegaram à segunda final consecutiva de uma Copa do Mundo, depois de já terem perdido em 1974 contra a Alemanha Ocidental. Em 1978 voltou a perder contra a seleção anfitriã. A equipa neerlandesa já não tinha Johan Cruyff, cuja ausência foi muito discutida durante anos; mais tarde, o próprio explicou que a decisão não se deveu apenas a razões políticas de oposição à ditadura argentina, mas também a um episódio grave de tentativa de sequestro contra a sua família em Barcelona.

A Argentina fez o seu ‘trabalho de casa’ para se beneficiar e prejudicar o conjunto brasileiro, sempre candidato ao título: enquanto os argentinos para disputarem os seus 7 jogos percorreram 618 quilômetros, os brasileiros tiveram que percorrer… 4.659 quilômetros!

Um acontecimento muito significativo para o futebol do continente africano foi a Tunísia tornar-se a primeira Seleção africana a ganhar um jogo numa Copa do Mundo, vencendo o México por 3x1 e empatando também com a Alemanha Ocidental em 0x0, perdendo apenas para a Polônia.

Gol do Brasil em vitória por 2x1 sobre a Itália. Crédito: Eurico Dantas | Agência O Globo.

A vitória da Tunísia sobre o México foi tanto mais importante quanto o país norte-americano efetuou um investimento astronômico na preparação da equipe, gastando 200 milhões de dólares com o objetivo de conseguir o melhor resultado de sempre num Mundial. Porém, o balanço foi amplamente catastrófico: três jogos, três derrotas, dois gols marcados e 12 sofridos.

Como curiosidade muito típica da parcialidade do dono do apito em jogos de futebol, vale lembrar que o Brasil x Suécia, na estreia da competição, terminou em polêmica. Com o placar empatado em 1x1, já na prorrogação houve um escanteio a favor do Brasil e, na sequência do lance, Zico fez de cabeça o 2x1. Gol invalidado pelo árbitro galês Clive Thomas alegando que apitara o fim do jogo quando a bola estava... no ar (!). O Brasil protestou, de nada valeu e o árbitro nunca mais apitou um jogo da Copa do Mundo.

Outro acontecimento decisivo foi o jogo Argentina x Peru, na segunda fase de grupos. A Argentina precisava vencer por uma diferença elevada para ultrapassar o Brasil e chegar à final. Ganhou por 6x0, resultado que lhe permitiu passar à final por diferença de gols. Este jogo tornou-se uma das maiores polêmicas da história dos Mundiais, porque a Argentina sabia antecipadamente de quantos gols precisava, uma vez que o Brasil já tinha jogado.

O Brasil, que contou com os atletas botafoguenses Rodrigues Neto (4 partidas, titular substituto de Edinho a partir do 3º jogo) e Gil (titular em 6 das 7 partidas), terminou em terceiro lugar, depois de vencer a Itália no jogo de atribuição do 3º e 4º lugares. A seleção brasileira ficou invicta na competição, o que levou alguns comentadores e protagonistas da época a considerá-la uma espécie de “campeã moral”, sobretudo devido à polémica em torno da passagem da Argentina à final.

Botafogo de 1977: da esquerda para a direita, em pé, Perivaldo, Zé Carlos, Luisinho Rangel, Rodrigues Neto, Renê e Osmar; em baixo, Gil, Mendonça, Nilson Dias, Bráulio e Paulo Cézar.

Porém, a maior marca extradesportiva do Mundial de 1978 foi o facto de ter decorrido sob a ditadura militar argentina, instaurada após o golpe de Estado de 1976. O regime usou a competição (ato típico de todas ditaduras de extrema-direita e de extrema esquerda) como instrumento de propaganda e de legitimação internacional, enquanto o país vivia repressão política, desaparecimentos forçados e graves violações dos direitos humanos. Houve movimentos internacionais de boicote, especialmente na Europa, com slogans como “Football yes, torture no”.

O jogo Argentina 6x0 Peru permanece envolto em suspeitas. Ao longo dos anos surgiram acusações, testemunhos contraditórios e teorias sobre pressões políticas, possíveis acordos entre governos ou incentivos indevidos.

Contudo, não existe consenso histórico definitivo nem prova universalmente aceite que demonstre de modo conclusivo uma combinação do resultado. O que é seguro é que o calendário favoreceu a Argentina, porque jogou depois do Brasil e sabia exatamente o resultado de que precisava.

A própria final também teve episódios tensos. Os neerlandeses acusaram os argentinos de atrasarem deliberadamente o início do jogo e de criarem pressão psicológica, nomeadamente através da contestação ao gesso/proteção usado por René van de Kerkhof no braço. Os Países Baixos recusaram comparecer à cerimônia oficial de entrega das medalhas, sinal claro do mal-estar após a final.

Houve ainda o episódio dramático de Rob Rensenbrink, que quase deu o título aos Países Baixos no último minuto do tempo regulamentar: com o jogo empatado em 1x1, o seu remate bateu na trave. Se tivesse entrado, os Países Baixos teriam provavelmente sido campeões mundiais. Na arquibancada, um espectador argentino, de 49 anos, teve um problema cardíaco no momento em que Rensenbrink acertou a trave do goleiro Ubaldo Fillol. Foi socorrido a tempo e recuperou, assistindo minutos depois ao triunfo da Argentina na prorrogação.

Gol de Kempes na final, rematando por detrás da marcação e fazendo a bola passar sob o corpo do goleiro. Gol de craque. Captura de tela (colorizada) | Reprodução.

Em resumo, a Copa do Mundo de 1978 ficou marcada por três dimensões: a consagração futebolística da Argentina, liderada por Mario Kempes; a segunda derrota consecutiva dos Países Baixos numa final; e uma forte carga política, associada à ditadura argentina e à polêmica do jogo com o Peru. Foi, por isso, um dos Mundiais mais controversos da história do futebol, a par das suspeitas sobre doping da Alemanha Ocidental na final de 1954 e do claro favorecimento da Inglaterra na final de 1966.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Argentina 3x1 Países Baixos

» Gols: Mario Kempes, aos 38’ e 105’, e Daniel Bertoni, aos 115’ (Argentina); Dick Nanninga, aos 82’ (Países Baixos)

» Competição: Copa do Mundo de 1978

» Data: 25 de junho de 1978

» Local: Estádio Monumental / River Plate Stadium, em Buenos Aires (Argentina)

» Público: 71.483 espectadores

» Árbitro: Sergio Gonella (Itália); Assistentes: Ramón Barreto (Uruguai) e Erich Linemayr (Áustria)

» Disciplina: cartão amarelo – Osvaldo Ardiles e Omar Larrosa (Argentina) e Ruud Krol, Wim Suurbier e Jan Poortvliet (Países Baixos)

» Argentina: Ubaldo Fillol; Jorge Olguín, Luis Galván, Daniel Passarella e Alberto Tarantini; Américo Gallego, Osvaldo Ardiles (Omar Larrosa) e Mario Kempes; Daniel Bertoni, Leopoldo Luque e Oscar Ortiz (René Houseman). Técnico: César Luis Menotti.

» Países Baixos: Jan Jongbloed; Wim Jansen (Wim Suurbier, Ernir Brandts, Ruud Krol e Jan Poortvliet; Johan Neeskens, Arie Haan e Willy van de Kerkhof; René van de Kerkhof, Johnny Rep (Dick Nanninga) e Rob Resenbrink. Técnico: Ernst Happel.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; nationalfootballmuseum.com; sports.yahoo.com; www.britannica.com; www.fifa.com; www.historyworkshop.org.uk; www.thetimes.com

sábado, 20 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1974: Beckenbauer, Cruyff e Mwepu Ilunga, as figuras da Copa

Cartaz da Copa do Mundo de 1974. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1974, disputada na então Alemanha Ocidental, foi muito diferente da de 1970. Se 1970 ficou associada ao brilho ofensivo do Brasil, 1974 ficou marcada por três grandes ideias: a afirmação do ‘Futebol Total’ da Países Baixos, a vitória pragmática da Alemanha Ocidental e um torneio atravessado por várias peripécias políticas, táticas e disciplinares.

O Botafogo de Futebol e Regatas contribuiu com três atletas para a Copa do Mundo: Marinho Chagas e Jairzinho, que atuaram nos 7 jogos da Seleção Brasileira, e Dirceu, que atuou contra Argentina, Países Baixos e Polônia. Marinho Chagas, grande destaque do Brasil, foi considerado o melhor lateral-esquerdo, integrando a Seleção Oficial da Copa.

A Alemanha Ocidental venceu a final por 2x1 contra os Países Baixos, em Munique, no dia 7 de julho de 1974. Foi o segundo título mundial alemão, depois do de 1954. A final opôs duas figuras simbólicas: Franz Beckenbauer, líder alemão, e Johan Cruyff, grande estrela neerlandesa.

Os Países Baixos começou de forma impressionante: Cruyff arrancou com a bola, foi derrubado na área e Johan Neeskens marcou de pênalti antes de qualquer jogador alemão tocar na bola. Depois a Alemanha empatou com um pênalti de Paul Breitner e virou o jogo com um gol de Gerd Müller, ainda antes do intervalo.

Botafogo de 1974: da esquerda para a direita, em cima, Miranda, Wendell, Waltencir, Carbone, Osmar e Marinho Chagas; em baixo, Puruca, Carlos Roberto, Nilson Dias, Jairzinho e Dirceu. Foto colorizada | Reprodução.

Apesar de não ter sido campeã, a Países Baixos de 1974 tornou-se uma das seleções mais influentes da história, tendo os seus reflexos ainda hoje no futebol. O seu modelo de jogo ficou conhecido por ‘Laranja Mecânica’, por um lado, devido aos neerlandeses jogarem com camisas cor de laranja, associada à cor nacional da Casa de Orange-Nassau, da família real dos Países Baixos; por outro lado, porque apresentava um estilo de jogo quase automático e revolucionário, conhecido por praticar um ‘futebol total’. O modelo foi desenvolvido sobretudo no Ajax, tricampeão europeu à época (1970/1971, 1971/1972, 1972/1973), e baseava-se numa grande mobilidade através da qual os jogadores trocavam constantemente de posição, criando superioridade, pressão e fluidez ofensiva. A associação entre cor e automatismo/mecanicismo, levou os jornalistas a designarem a Seleção neerlandesa por ‘Laranja Mecânica’, em português, inspirados no famoso filme à época intitulado de ‘Clockwork Orange’.

A equipa neerlandesa dominou grande parte do torneio. Na segunda fase, goleou a Argentina por 4x0, venceu a Alemanha Oriental por 2x0 e derrotou o Brasil por 2x0, resultado que a levou à final.

O Brasil chegou como campeão mundial em título, mas já não tinha o mesmo brilho de 1970. Na segunda fase derrotou a Alemanha Oriental por 1x0 e a Argentina por 2x1, gol da vitória marcado por Jairzinho, mas perdeu com os Países Baixos por 2x0 num jogo duro e ficou afastado da final. Depois, perdeu também com a Polónia por 1x0 no jogo do terceiro lugar, terminando em quarto.

Marinho Chagas, veloz e impetuoso ao ataque. Fonte:  www.uol.com.br.

A Polónia fez um torneio extraordinário. Na primeira fase, venceu Argentina, Haiti e Itália, ficando em primeiro no seu grupo. Depois, na segunda fase, só não chegou à final porque perdeu com a Alemanha Ocidental por 1x0, gol de Gerd Müller. Acabou em terceiro lugar, após vencer o Brasil. O artilheiro da Copa foi o polaco Grzegorz Lato, com 7 gols.

A Itália não e apurou o perdeu o jogo decisivo com Polônia, p 2x1. O empate bastava a ambos para se classificarem, mas ao intervalo a Polônia já vencia por 2x0. Teria surgido, então, mais uma peripécia narrada mais tarde pelo polonês Wladyslaw Zmuda: ao intervalo, quando a equipe entrou no túnel de acesso ao vestiário, apareceu-lhe um indivíduo engravata com uma mala cheia de dinheiro, “maços de notas de dólares”, afirmando que seria oferta por permitirem o empate. “Eu não queria acreditar naquilo. Um dos nossos funcionários começou a discutir cm ele e mandaram os jogadores entrar no vestiário” – contou Wladyslaw Zmuda.

O Mundial de 1974 teve um formato particular: depois da primeira fase de grupos, não houve quartas de final nem semifinais tradicionais. As oito equipas apuradas foram divididas em dois novos grupos; os vencedores desses grupos jogaram a final e os segundos classificados disputaram o terceiro lugar. Este formato também seria usado em 1978.

Como o Brasil tinha conquistado definitivamente a Taça Jules Rimet em 1970, a Copa do Mundo de 1974 foi a primeira vez em que se entregou o atual troféu da Copa do Mundo FIFA, criado pelo escultor italiano Silvio Gazzaniga.

O jogo simbolicamente mais marcante de um ponto de vista político foi o encontro entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, ainda durante a ‘Guerra Fria’ (*), politicamente opostas e tendo o ‘Muro de Berlim’ a separar a bela cidade de Berlim para um e outro lado das ‘Alemanhas’.

Jairzinho faz o gol da vitória sobre a Argentina por 2x1. Crédito: Agência O Globo.

A Alemanha Oriental venceu por 1x0, com gol de Jürgen Sparwasser, tendo sido uma derrota embaraçosa para a equipe anfitriã, outra versão sustenta que foi um efeito paradoxal e ‘conveniente’ para os ocidentais, porque assim evitou ficar no fortíssimo grupo de Brasil e Holanda, permitindo que a Seleção Ocidental se reorganizasse taticamente e emocionalmente, contribuindo decisivamente para a caminhada até ao título.

Antes da final houve um atraso curioso: a equipa responsável pelo relvado tinha retirado as bandeirinhas de escanteio para a cerimónia de encerramento e esqueceu-se de as recolocar. Só depois disso o jogo pôde começar.

A final de 1974 teve pela primeira vez dois pênaltis assinalados numa decisão de Copa do Mundo. O primeiro favoreceu a Países Baixos, logo no início; o segundo permitiu à Alemanha empatar. Esse detalhe aumentou ainda mais a tensão e a discussão em torno da arbitragem.

Embora os cartões amarelo e vermelho já tivessem sido introduzidos em 1970, só em 1974 surgiu a primeira expulsão por cartão vermelho numa Copa do Mundo. O chileno Carlos Caszely foi o ‘presenteado’ por uma expulsão no jogo contra a Alemanha Ocidental. Curiosamente, Caszely, que era opositor assumido do ditador chileno August Pinochet, foi posteriormente proibido de jogar no seu país, usando-se a expulsão como argumento – jogaria em vários clubes espanhóis.

A Escócia viveu uma situação rara, porque terminou a fase de grupos sem derrotas, mas foi eliminada pela diferença de gols. Empatou os jogos com Brasil e Jugoslávia, venceu o Zaire por 2x0, mas isso não chegou, porque Brasil e Jugoslávia tinham vencido o Zaire por margens maiores.

Beckenbauer, o ‘Kaiser’ (Imperador) alemão. Fonte: Facebook Atrox Casual Club.

O Zaire foi a primeira Seleção da África subsariana a participar de um Mundial e como recompensa o governo ditatorial zairense premiou cada jogador com uma casa e um automóvel, mas depois das derrotas por 2x0, 0x0 e 3x0, o governo confiscou-lhes a casas e s automóveis. A Seleção ficou ligada a outras duas das peripécias mais conhecidas da Copa de 1974.

No jogo entre Zaire e Iuguslávia o goleiro africano Kazadi Mwamba pediu substituição aos 20’ porque ainda não tinha tocado na bola e a sua equipe já pedia por 2x0.Entrou Tubilandi Ndimbi, que logo após agarrou a bola, mas… para buscá-la ao fundo das redes no 3º gol iuguslavo. O Zaire perdeu por 9x0!

O zagueiro Mwepu Ilunga defesa acrobática contra a Iuguslávia. Crédito: Rolls Press | Popperfoto | Getty Images.

A outra peripécia zairense foi protagonizada por Mwepu Ilunga, do Zaire, no jogo contra o Brasil. Antes da marcação de uma falta favorável ao Brasil, ele saiu da barreira e chutou a bola para longe antes do apito do árbitro. Durante muito tempo, o lance foi tratado como cômico, sugerindo que os jogadores africanos não sabiam muito bem as regras do jogo. Porém, anos depois, soube-se que Mobutu Sese Seko, violento ditador do Zaire, depois das derrotas da Seleção por 2x0 e 9x0, ameaçou de morte os jogadores e as suas famílias se perdessem por mais de 3x0 com o Brasil e, por isso, com o placar em 3x0, Mwepu Ilunga, num contexto de enorme pressão política e psicológica, chutou a bola para longe para fazer escoar mais um minuto precioso a fim de manter o placar em 3x0. E conseguiu assim contribuir para se salvar, salvar os companheiros e as famílias.

Outra situação de realce ocorreu com o Haiti, que perdeu todos os jogos, mas teve um momento histórico contra a Itália quando Emmanuel Sanon marcou e quebrou uma sequência de 1.142 minutos do goleiro Dino Zoff sem sofrer gols. A Itália acabou por vencer 3x1, mas o gol haitiano ficou como uma das histórias simbólicas do torneio.

Cruyff, a grande figura da Laranja Mecânica. Fonte: enciclopediadascopas.com.br.

A Copa do Mundo de 1974 foi importante porque marcou a passagem de uma ideia mais artística do futebol, simbolizada por 1970, para uma fase mais tática, física e coletiva. Os Países Baixos de Cruyff não ganharam, mas mudou-se a forma de pensar o futebol, e Cruyff foi eleito o Craque do Mundial, tendo sido o jogador com mais dribles (34), com mais oportunidades criadas (36 e 5,1 em média por jogo) e com passes mais certos no último terço do campo (136).

A Alemanha Ocidental, ao vencer a Copa do Mundo, permitiu a cinco dos seus jogadores terem sido os primeiros a conquistar as medalhas de Ouro (1974), Prata (1966) e Bronze (1970): foram eles Franz Beckenbauer, Sepp Maier, Wolfgang Overtah, Jurgen Graboeski e Horst-Dieter Hottges.

Em resumo, a Alemanha Ocidental venceu com organização, competitividade e liderança, e a competição ficou repleta de episódios memoráveis, entre os quais se contam o duelo das duas Alemanhas, a primeira expulsão por cartão vermelho, a eliminação invicta da Escócia, o gol do Haiti à Itália, o episódio do Zaire e uma final dramática decidida por Beckenbauer, Müller e companhia.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Alemanha Ocidental 2x1 Países Baixos

» Gols: Paul Breitner, aos 25’ (pênalti), e Gerd Müller, aos 43’ (Alemanha Ocidental): Johan Neeskens, aos 2’ (pênalti)

» Data: 7 de julho de 1974

» Local: Estádio Olympiastadion, em Munique (Alemanha)

» Público: 78.200 espectadores

» Árbitro: Jack Taylor (Inglaterra)

» Disciplina: cartão amarelo – Berti Vogts (Alemanha Ocidental) e Willem van Hanegem, Johan Neeskens e Johan Cruyff (Países Baixos)

» Alemanha: Sepp Maier; Berti Vogts, Franz Beckenbauer, Hans-Georg Schwarzenbeck e Breitner; Rainer Bonhof, Wolfgang Overath e Uli Hoeneß; Jürgen Grabowski, Bernd Hölzenbein e Gerd Müller. Técnico: Helmut Schön.

» Países Baixos: Jan Jongbloed; Wim Suurbier, Wim Rijsbergen (Theo de Jong), Arie Haan e Ruud Krol; Wim Jansen, Johan Neeskens e Willem van Hanegem; Johnny Rep, Rob Resenbrink (René van de Kerkhof) e Johan Cruyff. Técnico: Rinus Michels.

(*) A ‘Guerra Fria’ foi um período de tensão geopolítica e ideológica (1947-1991) entre o bloco capitalista (liderado pela América) e o bloco comunista (liderado pela União Soviética). O conflito foi ‘frio’ porque nunca houve combate militar direto entre os oponentes devido ao temor de uma destruição nuclear maciça. A rivalidade manifestou-se através da corrida armamentista (acumulação de arsenais nucleares) e da corrida espacial em que ambas as partes competiam para demonstrar superioridade tecnológica. Sem se confrontarem diretamente, as potências apoiaram lados opostos em conflitos regionais por todo o planeta, por exemplo, a União Soviética na Guerra da Coreia e a América na Guerra do Vietnã. O período encerrou-se com a queda do ‘Muro de Berlim’ em 1989 e a dissolução oficial da União Soviética.

Fontes principais: en.wikipedia.org; enciclopediadascopas.com.br; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.fifa.com; www.theguardian.com.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1970: Jairzinho, o ‘Furacão da Copa’, Pelé e Zagallo tricampeões

Cartaz da Copa do Mundo de 1970. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo FIFA de 1970 realizada no México, entre 31 de maio e 21 de junho, em condições difíceis em altitude e calor intenso, é frequentemente lembrada como uma das edições mais memoráveis da história do futebol, tendo sido a primeira disputa fora da Europa e da América do Sul, teve 16 Seleções, 32 jogos, terminou com o brilhante tricampeonato do Brasil e marcou uma virada na própria história do futebol como espetáculo global.

Pela primeira vez foi permitido efetuar, em cada equipe, duas substituições durante as partidas, tendo sido o soviético Viktor Serebryanikov, no jogo inaugural da competição, o substituto estreante em Copas do Mundo, que ao intervalo deu lugar a Anatoly Puzach.

Por outro lado, a Copa de 1970 estreou o método de amostragem de cartões vermelhos e amarelos, que passaram a ser utilizados como sistema visual de advertência e expulsão, sendo curioso, ou talvez por causa deles, que a competição ficou conhecida pela sua lisura competitiva, sem recorrência a jogadas violentas.

Também pela primeira vez os jogos do campeonato do mundo foram transmitidos ao vivo em cores para diversos países, o que ampliou enormemente o alcance do evento e ajudou a fixar na memória coletiva imagens que até hoje são revisitadas. O cenário também impôs desafios inéditos: jogos realizados em grande altitude, como na Cidade do México, exigiram preparação física diferenciada, e muitas seleções chegaram semanas antes para se adaptar.

Botafogo de 1970: da esquerda para a direita, em cima, Moreira, Ubirajara, Nei Conceição, Moisés, Leônidas e Valtencir; em baixo, Zequinha, Careca, Roberto, Jairzinho e Paulo Cézar. Fonte: revista ‘O Cruzeiro’ | foto colorizada.

Dentro de campo, o protagonismo absoluto foi da seleção brasileira, liderada por Pelé. No entanto, o caminho até aquele equipe, considerada por muitos como a melhor de todos os tempos, não foi simples.

Meses antes da realização da Copa do Mundo, o ambiente na seleção era tenso. O técnico João Saldanha havia classificado o Brasil com autoridade, mas entrou em conflito com dirigentes e até com o governo militar da época. Há relatos de que sua recusa em convocar determinados jogadores e a sua postura independente desagradaram o regime, o que culminou na sua demissão pouco antes da Copa.

Efetivamente, o presidente do regime militar, Emílio Garrastazu Médici, manifestou, através da imprensa, o seu gosto em que Dadá Maravilha fosse convocado, mas Saldanha respondeu, também via imprensa, que “nem eu escalo ministério e nem o presidente escala time”.

Bastou para João Saldanha ser demitido e em seu lugar Mário Zagallo assumir a equipe, que tratou de fazer a vontade ao presidente Medici convocando Dadá Maravilha (que não atuou em nenhuma partida) e apostou em um modelo de jogo surpreendente, reunindo vários ‘camisa 10’ no mesmo time.

O resultado foi um futebol fluido e criativo, com jogadores como Jairzinho, Tostão, Rivelino e Gerson atuando de forma quase intercambiável. Jairzinho, aliás, protagonizou um feito único até aos dias de hoje: marcou gols em todos os jogos da campanha, foi o grande desequilibrar do Brasil em campo e, naturalmente, deveria ter sido eleito como ‘Bola de Ouro’, mas Pelé tinha lobby e foi um modo de coroar a sua presença em quatro Copas do Mundo, das quais três foram vencidas pelo Brasil

Jairzinho comemorando um dos seus gols. Fonte: X / Sofascore.

Pelé, por sua vez, já não era o jovem explosivo de 1958, mas atuava com muita inteligência tática e protagonizou alguns lances icônicos, mesmo não os coroando com gols.

Contra a Inglaterra, então campeã mundial, Pelé protagonizou uma cabeçada aparentemente indefensável, mas o goleiro Gordon Banks realizou aquela que ficou conhecida como “a defesa do século”. Após o jogo, Pelé teria dito: “eu já estava comemorando”. E Banks respondeu à medida, com humor: “e eu também, até conseguir defender”.

Outro episódio curioso envolveu uma tentativa ousada de Pelé contra a Seleção Tchecoslovaca de Futebol: ele percebeu o goleiro adiantado e arriscou um chute do meio-campo. A bola passou raspando, e o lance entrou para a história como exemplo de sua visão de jogo – embora nunca tenho marcado um gol do meio-campo. Já contra o Uruguai, na semifinal, Pelé executou um drible sem tocar na bola — deixou-a passar de um lado do goleiro e correu pelo outro. O movimento desconcertou completamente a defesa, embora a finalização tenha ido para fora.

Estas e outras peripécias dos jogadores brasileiros, designadamente os arranques fulminantes e os gols de Jairzinho, bem apelidado de ‘Furacão da Copa’, encantaram as arquibancadas.

Porém, se o Brasil encantava, a semifinal entre a Itália e a Alemanha entrou para a história como o ‘Jogo do Século’. Os italianos venciam por 1x0 na reta final da partida, mas aos 90’ Schnellinger empatou. Após uma prorrogação absolutamente libertina, italianos e alemães marcaram cinco gols em 30 minutos, alternando diversas vezes no marcador até ser estabelecido o resultado final de 4x3 favorável aos italianos.

Pelé comemorando o título abraçado a Jairzinho. Divulgação / FIFA.

Uma imagem icônica desse confronto foi Franz Beckenbauer, que permaneceu em campo com o braço imobilizado após uma lesão, já que o técnico Helmut Schön efetuara as duas substituições autorizadas e o craque jogou com uma clavícula fraturada até ao fim do jogo.

A final, disputada no Estádio Azteca diante de mais de 100 mil pessoas, colocou frente a frente Brasil e Itália. O jogo terminou 4x1 para os brasileiros, mas o placar não traduz completamente o significado da partida – faltava um encantamento final.

Esse encantamento foi ‘guardado’ para o último gol da Copa, como se estrategicamente tivesse sido ensaiado, marcado por Carlos Alberto Torres. O gol nasceu de uma sequência de passes envolventes que percorreu praticamente toda a equipe — uma síntese perfeita daquele futebol coletivo. Anos depois, o próprio Carlos Alberto revelaria que nem esperava receber a bola; Pelé apenas olhou, percebeu a sua chegada e rolou no momento exato.

Fora das quatro linhas, havia também histórias menos visíveis. A seleção brasileira conviveu com forte pressão política, sendo utilizada como instrumento de propaganda pelo regime militar após a conquista. Ao mesmo tempo, muitos jogadores tentavam se manter alheios a isso, concentrados apenas no futebol. Outro detalhe curioso é que a comissão técnica levou um grande número de profissionais para a época, incluindo preparadores físicos e até estudos sobre adaptação à altitude — algo ainda pouco comum naquele período.

Terminada a Copa do Mundo, Mário Zagallo tornou-se o primeiro tricampeão mundial como jogador (1958, 1962) e técnico (1970) e o Brasil não conquistou apenas o tricampeonato, como também garantiu a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Mais do que isso, deixou uma marca estética e cultural: a ideia de um futebol bonito, ofensivo e coletivo, que até hoje serve como referência.

Mário Zagallo, tricampeão como jogador e técnico. Fonte: tntsports.com.br.

A Copa de 1970 acabou por se tornar um ponto de encontro entre talento individual, organização tática e contexto histórico — um daqueles raros momentos em que o esporte ultrapassa o jogo e se transforma em memória duradoura.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 4x1 Itália

» Gols: Pelé, aos 18’, Gérson, aos 66’, Jairzinho, aos 71’, e Carlos Alberto, aos 86’ (Brasil); Boninsegna, aos 37’ (Itália)

» Data: 21 de junho de 1970

» Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)

» Público: 107.412 espectadores

» Árbitro: Rudi Glöckner

» Brasil: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Técnico: Mário Zagallo.

» Itália: Enrico Albertosi; Tarcísio Burgnich, Pierluigi Cera, Roberto Rosato e Giacinto Facchetti; Mario Bertini (Antonio Juliano) e Giancarlo De Sisti; Angelo Domenghini, Sandro Mazzola, Roberto Boninsegna (Gianni Rivera) e Luigi Riva. Técnico: Ferruccio Valcareggi.

Fontes principais: Bellos, A. (2014). Futebol: The Brazilian Way of Life; en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; tntsports.com.br; Wilson, J. (2013). Inverting the Pyramid: The History of Football Tactics; www.britannica.com; www.fifa.com.; X / Sofascore.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Entre o céu e o inferno (IX): da conquista do Estadual e dos títulos continentais de basquete e pólo aquático à 3ª despromoção à Série B do Brasileirão (2018-2020)

Campeões estaduais de 2018. Crédito: Vitor Silva | SSPress | Botafogo.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A duração dos mandatos de gestão do Botafogo foi sendo alterada com a mudança de estatutos, e na passagem da gestão de Maurício Assumpção para Carlos Eduardo Pereira os mandatos passaram de dois anos, com possibilidade de reeleição, para mandato único de três anos, de modo a reduzir os mandatos presidenciais.

No entanto, a dupla anterior conseguiu ‘iludir’ a intenção do legislador mantendo-se nos cargos com alternância, o ex-presidente Carlos Eduardo Pereira passou a vice-presidente da chapa da ‘situação’ e o ex-vice-presidente Nelson Mufarrej passou a presidente.

E assim Nelson Mufarrej foi eleito para presidir os destinos do Botafogo no período 2018-2020 com Carlos Eduardo Pereira a vice-presidente. Coisas que só acontecem no Botafogo? Provavelmente sim…

O início do mandato começou com alguma sorte, mascarando o que viria a seguir. O regulamento do campeonato estadual mudara mais uma vez e o critério de finalistas já não foi pela conquista da Taça Guanabara e da Taça Rio, mas de um quadrangular final, que incluiu o Botafogo apesar de não ter conquistado nenhuma das taças.

Nas semifinais o Botafogo defrontou o Flamengo e venceu por 1x0, gol de Luiz Fernando, aos 38’. Foi o jogo e o gol de resposta à clássica zoação dos jogadores flamenguistas quando marcam gol ao Botafogo, imitando gestualmente o ‘chororô’. Luiz Fernando fez o gol da classificação e saiu para a comemoração apertando o nariz, clássica zoação dos torcedores aos flamenguistas quando são eliminados e ficam apenas no ‘cheirinho’ do título.

Luiz Fernando encenando o 'cheirinho' e devolvendo ao Flamengo a zoação do 'chororô'. Crédito: Reprodução.

Nas finais defrontaram-se Botafogo e Vasco da Gama no Maracanã. No dia 1 de abril de 2018, em jogo de ida, o Vasco da Gama saiu na frente vencendo por 3x2, com o gol da vitória marcado por Andrés Rios, aos 90+3’.

O jogo da volta, a 8 de janeiro de 2018, foi tenso e o Vasco da Gama segurou o 0x0, abeirando-se da conquista do campeonato estadual. Porém, o capitão Joel Carli decidiu resistir e responder ao gol de Andrés Rios aos 90+3’ no jogo de ida: o relógio cravava 90+4’ no jogo de volta quando Carli, em cabeçada de campeão, ofereceu a vitória a todos os alvinegros.

Na decisão por pênaltis, perante 64.000 espectadores, o Botafogo venceu por 4x3 e conquistou o Campeonato Estadual de 2018. Comandado por Alberto Valentim, o Botafogo formou com Gatito Fernández; Marcinho, Joel Carli, Igor Rabello e Moisés (Gilson); Matheus Fernandes, Marcelo (Kieza) e Renatinho; Valencia, Luiz Fernando (Rodrigo Pimpão) e Brenner.

Súmulas da campanha em https://mundobotafogo.blogspot.com/2018/04/botafogo-campeao-estadual-2018.html

O beijo da vitória. Crédito: Reprodução.

No Campeonato Brasileiro de 2018 o Botafogo acercou-se novamente dos lugares de acesso à pré-Libertadores, mas acabou por se classificar em 9º lugar, a 3 pontos de acesso à maior competição continental, registrando 13V, 12E, 13D e saldo negativo de 8 gols (38 a favor e 46 contra).

No que respeita às demais modalidades desportivas mais relevantes, ainda em 2018 sagrou-se hepta-campeão brasileiro de Remo, conquistando o CBI de Barcos Curtos e o CBI de Barcos longos, além do campeonato estadual.

No entanto, no início de 2019, em busca de recorrer a todos os meios financeiros internos para investir no futebol, a diretoria socorreu-se dos fundos financeiros do remo e a modalidade perdeu a possibilidade de pagar os salários mais altos, verificando-se uma fuga de remadores para o nosso maior rival carioca. Desde aí, o Botafogo passou a ser vice-campeão de remo nas competições nacionais e estadual, cujos títulos têm sido arrecadados pelo rival.

Assim, o Clube caminhou para uma tendência de menorização das suas modalidades e o futebol não escapou a uma gestão fracassada: no Campeonato Brasileiro de 2019 o Botafogo classificou-se em 15º lugar, sem acesso a nenhuma das competições continentais, registrando 13V, 4E, 21D e um saldo negativo de 14 gols (31 a favor e 45 contra).

Alguns membros do Comitê Executivo de Futebol – Agostini, Mufarrej, Rotenberg e Montenegro. Crédito: Carlos Eduardo Sangenetto | FogãoNET.

No dia 9 de dezembro de 2019, visando fortalecer o futebol com uma estratégia vitoriosa, foi decidido criar o Comitê Executivo de Futebol, composto por seis membros, no qual pontificava Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente que influenciou profundamente eleições e decisões nos últimos 35 anos, e que Durcesio Mello, amigo de Montenegro desde a infância, o classificou como “o maior botafoguense da história” (sic), ignorando as dimensões maiores de formidáveis botafoguenses como Paulo Antônio Azeredo, Carlos Martins da Rocha (‘Carlito’), Adhemar Bebianno, Sergio Darcy e tantos outros dirigentes de grande nobreza.

Foi esse Comitê que montou o elenco protagonista da mais trágica participação do Botafogo no Campeonato Brasileiro de futebol no ano de 2020. Montenegro, face mais visível desse grupo, envolveu-se em várias polêmicas e conviveu com o profundo desagrado da torcida botafoguense que o considerou um dos principais responsáveis pela dramática campanha repleta de equívocos e erros de gestão desportiva.

Em outubro de 2020, em plena crise, quando já se avistava a 3ª descida do futebol à Série B, Montenegro decidiu afastar-se dos holofotes, sendo anunciado que o próprio e Manoel Renha sairiam do Comitê no dia 30 de novembro, enquanto Ricardo Rotenberg, Claudio Good e Marco Agostini (este substituíra o vice-presidente do Clube Carlos Eduardo Pereira, no início de 2020) sairiam em 31 de dezembro, mesma data do fim da presidência de Nelson Mufarrej, também pertencente ao Comitê – extinguindo-se esse órgão já depois da descida oficial do futebol botafoguense para a Série B.

A desorientação do Comitê Executivo do Futebol foi tão elevada que entre 1º de janeiro de 2020 até à despromoção para a Série B (25.02.2021) o Botafogo contratou 6 treinadores – Alberto Valentim, Paulo Autuori, Bruno Lazaroni, Ramón Díaz, Eduardo Barroca e Marcelo Chamusca (neste caso para começar de raiz na Série B).

Nesse trágico Campeonato Brasileiro de 2020 o colossal desastre do Botafogo saldou-se na classificação geral pelo 20º e último lugar com 5V, 12E, 21D, aproveitamento de 23.7%, e um saldo negativo de 30 gols (32 a favor e 62 contra).

No dia 25 de fevereiro de 2021 o Botafogo encerrou o Brasileirão de 2020 (campeonato prorrogado para 2021 devido à pandemia COVID-19) com uma triste derrota por 2x1 frente ao Ceará, na Arena Castelão, cuja equipe, comandada por Lúcio Flávio, formou com Diego Loureiro; Kevin, Marcelo Benevenuto, Sousa e Hugo; Kayque (Wendel) e Luiz Otávio (Lecaros); Warley (Davi Araújo), Cesinha (Matheus Nascimento) e Ênio; Matheus Babi (Rafael Navarro).

Os títulos continentais de 2019 no basquete e no pólo aquático, conquistados no espaço de uma semana. Fonte: Reprodução | Montagem do Mundo Botafogo.

As demais modalidades desportivas acompanharam o desastre, tendo o basquete, que se sagrara Campeão da Liga Sul-americana de Basquetebol em 2019, sido prejudicado nas suas finanças – que eram baseadas em participações exteriores especificamente orientadas para o basquete – e a equipe de basquete desmoronou-se.

Campanha completa do basquete em https://mundobotafogo.blogspot.com/2019/12/botafogo-e-campeao-da-liga-sul.html

O polo aquático, que era tetracampeão Sul-americano em 2016-2017-2018-2019 não competiu em 2020 por falta de verbas para deslocações.

Campanha completa do polo aquático em  https://mundobotafogo.blogspot.com/2019/12/botafogo-tetracampeao-sul-americano-de.html

O remo sobreviveu à custa do extraordinário e devotado técnico Paulinho, que juntamente com os remadores que ficaram, lutaram por todos os meios para se manterem à tona e, apesar do enormes contratempos, conseguirem segurar-se como o segundo clube mais importante do país no remo.

É bem provável que se o Remo não fosse obrigatório por estatuto também seria desmembrado, ou extinto, como viria a ocorrer com outras modalidades desportivas em 2021, já sob a presidência de Durcesio Mello, o amigo de infância de Montenegro, que em 24 de novembro de 2020 venceu as eleições do Botafogo para o quadriênio 2021-2024.

Fontes principais: interativos.ge.globo.com; mundobotafogo.blogspot.com; www.fogaonet.com.

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