sábado, 5 de setembro de 2026

Arthur Chaves: zagueiro polivalente, forte nos duelos e veloz

Arthur Chaves na Seleção Brasileira Sub-20. Fonte: Instagram ‘mercadodabola_newsoficial’.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Arthur Largura Chaves nasceu no dia 29 de janeiro de 2001, Em Florianópolis, estado de anta Catarina, possui dupla nacionalidade brasileira e italiana, atua como zagueiro, é destro, mede 1,88m de altura e pesa 81kg.

Arthur Chaves foi formado no Avaí, entre 2012 e 2021, e aos 13 anos já atuara como volante e lateral, mas entretanto afinou a sua posição como zagueiro, conquistando 11 títulos e alguns prêmios individuais nas categorias de base.

Estreou-se na equipe principal do Leão em 2021, atuando simultaneamente nas categorias Sub-20 e Sub-23, nas quais era o capitão. Nesse ano sagrou-se campeão catarinense e em novembro renovou o contrato até 2024.

A sua estreia ocorreu no dia 4 de abril de 2021, na vitória por 1x0 sobre o Metropolitano, gol de Marcos Serrato, em partida válida pelo campeonato catarinense. A equipe formou com Glédson; Iury, Alemão, Rafael Pereira e Diego Renan; Luan Silva (Arthur Chaves, ao 73’), Marcos Serrato e Giovanni; Gabriel, Getúlio e Jonathan.

Em 2022 ganhou a titularidade e o seu 1º gol profissional do atleta foi marcado no dia 24 de julho de 2022, na derrota para o Flamengo por 1x2, gol de Arthur Chaves aos 47’, de cabeça, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro, A equipe, comandada por Eduardo Barroca, formou com Vladimir; Kevin, Bressan (Rafael Vaz), Arthur Chaves e Cortez; Raniele (Lucas Ventura), Eduardo e Bruno Silva (Jean Pyerre); Pottker (Nathan), Bissoli e Natanael (Marcinho).

Ainda em 2022 Arthur Chaves renovou novamente o contrato em abril até ao final de 2025. Porém, a 16 de agosto de 2022, após 31 jogos e 1 gol pela equipe principal do Avaí, o Grupo Hoffenheim, da Alemanha, comprou o jogador.

Embora tenha sido comprado pelo Grupo Hoffenheim, o atleta foi emprestado ao Acadêmico de Viseu FC, clube da Segunda Liga de Portugal, cuja SAD – Sociedade Anônima Desportiva (SAF, no Brasil) era liderada pelo Grupo Hoffenheim.

Arthur Chaves estreou pelo Acadêmico de Viseu no dia 3 de setembro de 2022, na derrota por 2x1 para o Torreense, gol de Jonathan Rubio, em jogo válido pela Segunda Liga.

Em janeiro de 2023 era o zagueiro mais caro da Segunda Liga e no mês seguinte foi eleito o melhor defensor da competição; em dezembro marcou o seu 1º gol ao serviço do clube viseense no empate por 1x1 com o CD Mafra.

Em setembro de 2023 foi convocado para a Seleção Brasileira Sub-23, integrando o elenco que conquistou a medalha de Ouro dos Jogos Pan-americanos desse ano, tendo efetuado a assistência para o gol de empate do Brasil no derradeiro jogo, que terminou empatado por 1x1 e os brasileiros venceram por 4x2 no desempate por penalidades máximas, conquistando o título que fugia há 36 anos.

O jogo realizou-se no dia 4 de novembro de 2023, o gol foi marcado por Ronald, aos 83’, e a equipe formou com Mycael; Miranda, Arthur Chaves, Michel (Gustavo Martins) e Patryck; Matheus Dia (Ronald) e Igor Jesus; Marquinhos (Figueiredo), Gabriel Pirani (Thauan Lara), Guilherme Biro; Matheus Nascimento.

Em 2024 também foi convocado para o Torneio Pré-Olímpico Sub-23, na Venezuela.

Na temporada de 2024-2025, após 58 jogos e 4 gols ao serviço do Acadêmico de Viseu, Arthur Chaves ingressou no TSG 1899 Hoffenheim, da Alemanha, comprado por 6 milhões de euros e com vínculo até 2029.

Na equipe alemã disputou a Bundesliga, a Copa da Alemanha e a Liga Europa, tendo marcado o seu 1º gol na vitória por 2x1 sobre o FC Nürnberg, aos 71’, o qual valeu a classificação da equipe para a etapa seguinte da prova.

Porém, em 2025-2026 perdeu espaço na equipe, realizou apenas 4 jogos e perdeu a titularidade, não sendo novamente escalado. Após 39 jogos e 2 gols, foi emprestado ao FC Augsburg, que lutava contra a despromoção da liga principal da Alemanha.

Arthur Chaves no Hoffenheim. Crédito: TSG Hoffenheim/Reprodução/ND.

Arthur Chaves estreou no dia 24 de janeiro de 2026, na vitória por 2x1 sobre o poderoso Bayern München, gols de Arthur Chaves, aos 75’, e Han-Noah Massengo, aos 81’, em partida válida pela Bundesliga. Foi uma vitória histórica de virada porque o Bayern era invencível há 27 jogos e o Augsburg não vencia em Munique há 11 anos. A equipe formou com Dahmen; Arthur Chaves (Wolf, aos 85’), Schlotterbeck e Zesiger; Felhauer, Massengo, Rexhbecaj (Keitel) e Giannoulis; Rieder (Kömür) e Claude-Maurice; Kade (Essende).

O Augsburg acabou por não ser despromovido e chegou mesmo ao 9º lugar, mas Arthur Chaves lesionou-se e a equipe alemã não exerceu a opção de compra a que tinha direito. O atleta realizou 11 jogos pelo Augsburg e marcou e gols.

Entretanto o São Paulo e o Vasco da Gama tentaram contratar o atleta, mas o Hoffenheim recusou as ofertas. Acaba de ser contratado pela SAF Botafogo.

Os especialistas consideram que Arthur Chaves é uma boa aquisição para o âmbito do futebol brasileiro. Resta saber se a sua lesão não deixou marcas na performance do atleta – algo que em uma ou outra ocasião o Botafogo se deixou iludir.

As suas características sugerem ser forte nos duelos e capaz de atuar em três posições da linha defensiva. Não é um zagueiro meramente passivo, procurando encurtar o espaço, entrar no duelo e recuperar a bola. Significa que é capaz de deixar momentaneamente a linha para duelar com o atacante.

Por outro lado, embora Arthur Chaves seja bastante alto, tem boa mobilidade, pode defender longe da baliza e simultaneamente corrigir situações perigosas nas costas da linha defensiva.

Essas características permitem efetuar muita ações defensivas. Segundo os estatísticos (FotMob), acumulou na Bundesliga, em 1.068 minutos (cerca de 12 jogos completos), 125 ações defensiva, 26 desarmes, 12 interceções, 11 remates bloqueados e 76 alívios.

Complementarmente, Arthur Chaves é perigoso nas bolas paradas ofensivas e marcou dois gols na Bundesliga.

O que constitui maior reserva relativamente ao seu desempenho é a sua ação como zagueiro construtor de primeira linha, porque enquanto teve cerca de 82% de passes completos, mostrou apenas 38% de eficácia nos passes longos, pelo que não é exímio a quebrar linhas com passes verticais, nem conduz a bola para atrair pressão do adversário.

Há quem defenda (Eduardo Barroca, por exemplo) que o jogador tem forte jogo aéreo, mas os números desmentem: na temporada passada ganhou apenas 25 duelos aéreos, correspondendo apenas a 51% de acertos – é competente e fisicamente competitivo no jogo aéreo, mas não é um zagueiro dominante neste fundamento.

Um aspecto importante é que Arthur Chaves tem experiência profissional variada: representou o Sub-23 da Seleção Brasileira, jogou na Segunda Liga de Portugal e atuou na Bundesliga e em competições europeias, o que significa que possui uma trajetória que supostamente lhe deu ferramentas para atuar em condições diversas.

Em suma, parece ser bastante bem dotado nos duelos defensivos, na agressividade por antecipação, na velocidade defensiva, na versatilidade posicional na defesa e boa experiência competitiva para os seus 25 anos de idade; é menos bom nos passes longos, na construção sob pressão e na progressão em condução da bola.

Tudo somado, no contexto do futebol brasileiro poderá chegar a uma nota de 8 numa escala de 1 a 10, o que para a atual fragilidade defensiva da equipe é um bom sinal.

Fontes principais: https://ge.globo.com; https://news.bet365.bet.br; https://pt.wikipedia.org; https://www.fotmob.com; https://www.ogol.com.br; Instagram mercadodabola_newsoficial.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Edmundo ‘Animal’, o juvenil botafoguense que circulava pelado

Edmundo nos juvenis do Botafogo. Crédito: Facebook ‘Botafogo, Fotos Históricas e Opinião’. Imagem melhorada por IA.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Edmundo Alves de Souza Neto, conhecido por Edmundo ‘Animal’, apelido famoso dado pelo narrador desportivo Osmar Santos, em virtude de Edmundo mesclar técnica e raça, explosão e competitividade, nasceu no dia 2 de abril de 1971, em Niterói, teve uma infância humilde e viu no futebol a oportunidade de uma vida melhor.

Edmundo começou jogando futsal, passou para o futebol e esteve nas bases do Vasco da Gama entre 1982-1986, antes de ingressar nas categorias de base do Botafogo, onde permaneceu entre 1987-1989, regressando posteriormente ao Vasco da Gama (1990-1991), onde terminou a sua formação, em virtude de ter sido expulso do Botafogo.

A história que correu sobre a dita expulsão baseou-se numa das primeiras polêmicas de Edmundo no futebol, antes de ser largamente conhecido por provocar os adversários, discutir com jogadores, técnicos, dirigentes e jornalistas, e adorar baladas.

Por onde passava Edmundo deixava a marca da sua indisciplina e excentricidade, enfileirando tantas confusões quanto perdões, porque a profissionalização do futebol brasileiro era ainda incipiente e Edmundo em campo resolvia jogos.

Não obstante, o caso mais grave do seu tempo de jogador foi quando, em 1995, bateu com a sua Cherokee no Fiat Uno dirigido por Carlos Frederico Pontes, que faleceu juntamente com duas passageiras, enquanto Edmundo foi condenado a quatro anos e meio de prisão em regime semiaberto (in https://ge.globo.com).

As confusões que entretanto foi acumulando na carreira permitem afirmar que Edmundo fez parte dos bad boys do futebol brasileiro na década de 1990, a par de Romário e de tantos outros.

Conta-se que o incidente da expulsão do Botafogo, ocorrido durante a etapa da sua formação no Alvinegro, se deveu a Edmundo andar nu nas instalações do Clube, sendo que as fontes divergem quanto a andar nu na piscina, ou na concentração, ou em outras zonas sociais, constrangendo as funcionárias.

Em virtude de tais episódios irreverentes e falta de decoro, Edmundo acabou por ser afastado do Clube e regressou ao Vasco da Gama.

O próprio Edmundo confirma tais incidentes em General Severiano, asseverando que “eu considerava aquilo lá a minha casa, então para mim fazer isso era normal”. Claro que é uma resposta descontextualizada, porque seguramente Edmundo sabia que estava provocando os preceitos sociais dos usos e costumes vigentes.

De resto, Edmundo também asseverou que não foi essa a razão pela qual foi expulso. Um provável mito urbano do futebol brasileiro assevera que Edmundo teria tido um caso amoroso com a esposa de alguém dentro do Botafogo.

Mito urbano?... Não?... Em qualquer dos casos esta dúvida ficará para sempre: se Edmundo não foi expulso por andar nu nas instalações do Clube como o próprio mencionou, então qual terá sido a razão?

Seja ela qual for, a polêmica figura de Edmundo, o ‘Animal’, ficará para sempre gravada no futebol brasileiro e o Glorioso mais uma vez não escapou à celebre frase – “Há coisas que só acontecem ao Botafogo!”

Fontes principais: https://ge.globo.com; https://www.museudapelada.com; https://www.netvasco.com.br; https://www.verminososporfutebol.com.br

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Valdir Espinosa (II): o galã de Marechal Hermes

Crédito: Marco Antônio Cavalcanti | revista Placar. Imagem melhorada por IA.

por ROSA NEPOMUCENO | O Globo, 24.06.1989

«Fabricar sonhos e deuses – e liquidificá-los e esquecê-los rapidamente é uma diversão carioca, conhecida – e temida – em todo o País. E isso assusta um pouco o mais novo personagem do Olimpo abençoado pelo Cristo de braço abertos, o gaúcho Valdir Espinoza, 41 anos, técnico que conferiu confiança ao time do Botafogo, time que foi de Garrincha, Nilton Santos, Gérson e Jairzinho, e que vinha de cabeça baixa há duas décadas. As velas do bolo da vitória foram sopradas por ele.

Há seis meses ancorado na cidade, desde quarta-feira Espinoza é deus, aplaudido nos lugares públicos e pode-se transformar no muso do inverno, sex-symbol grisalho, com perfil do Marlon Brando, olhos azuis de Paul Newman, pele bronzeada, sorridente, bem-humorado. Ele adora uma gravata de seda, um blazer, é soft, chique, mas não dispensa um ouro vistoso, como o relógio, Vageron Constantin, que usa no pulso.

Um técnico que poderia fazer um galã bem sucedido em alguma novela das que gosta de assistir. Como lateral direito do Grêmio, mesmo no auge de sua forma física, em 69, não conheceu glória semelhante. Nem como técnico de tantos time. Ele agora saboreia o sucesso, mas teme a virada dos ventos.

– Penso o tempo todo: isso vai passar. E rezo para a santa uruguaia Virgem dos 33, para que ela me dê calma pra que eu não me deslumbre – diz.

Isso não vai ser fácil para esse libriano que gosta de simplicidade e de fazer amigos. Quando entrou na Churrascaria Porcão – seu lugar preferido para almoçar ou jantar – na quinta-feira, foi aplaudido e pensou que as palmas eram para Lima Duarte, que também chegava ao restaurante. “É, mas o Sassá tem a Clotilde”, brinca. Que nenhuma loura de olhos verdes se anime. Espinoza é casado há 27 anos com Maria da Graça, sua primeira namorada e se orgulha de, nessa área, nunca ter trocado de camisa (já que nos últimos dez anos passou por vários clubes).

Os filhos Rivelino – uma homenagem a um dos 11 maires craques de todos os tempos na sua opinião – de 19 anos, e Alan de 11 e o cocker spaniel Ealam Ibn Marduk adoram a cidade e não pensam em voltar para Porto Alegre. O Rio seduziu a família, “com seu estilo e vida solto, alegre, divertido”, explica Espinoza, na varanda do apartamento do condomínio Pontal do Bosque, onde mora, na Barra.

– Adorei esse lugar. Minha vida hoje ainda se resume à Barra e a Marechal Hermes, onde trabalho muitas horas por dia – conta.

A caminho da sede do clube – via Jacarepaguá e Vila Valqueire – Espinoza admira as montanhas da cidade e acha isso relaxante. “Mas sofro com o trânsito, o pior defeito do Rio”, diz. Acorda às sete da manhã, vai para o clube e volta para almoçar as massas saborosas feitas por sua mulher.

– Faço questão de preservar hábitos antigos, a “siesta paraguaia”, por exemplo; um bom sono de uma hora e meia, antes de voltar aos treinos – conta.

Quando as tardes são livre, Espinoza fica pelo condomínio onde encontra parceiro para jogar tênis ou vôlei, duas paixões antigas. O futebol, como conta, foi o último esporte a entrar na sua vida, quando tava no segundo ano científico. Antes participava de torneios de vôlei e basquete. Quarto filho de um gráfico – entre cinco irmãos – de repente descobriu que gostava de jogar bola. Mas só sentiu que era “pé quente” quando virou técnico. Credita seu sucesso pessoal e profissional, num rasgo de imodéstia, ao seu alto-astral.

– Quando entro num ambiente e ele está meio baixo, consigo levantar os ânimos – confessa.

Nada melhor que a vitória do Botafogo para provar o que diz. Ele chegou manso, falando com calma – a voz é bonita – costurou o time e levou-o à vitória, sem precisar de chicote.

– Gosto de ficar no mesmo degrau dos jogadores. Não preciso comandar de cima. Converso, me divirto com eles, aceito as diferenças de temperamento. Até meus dois filhos têm gênios diferentes – conta.

Cervejeiro declarado, não dispensa várias garrafas quando vai a churrascarias. Parece conformado com a barriguinha que se impõe sob as camisas de viscose. “Não há a menor possibilidade de eu fazer uma ginástica. Abdominal nunca!”, diz.

Nas folgas vai com Maria da Graça ao Shopping da Barra, ver vitrines ou comprar alguma roupa. É ela quem a escolhe: ele se confessa incapaz de administrar seu guarda-roupa. Gosta de ternos, de blazers, de gravatas e mocassins mas, para não ferir o figurino tradicional de técnico, só veste essas roupas quando sai à noite, para ver shows de Caetano, de Ivan Lins ou de Dóris Monteiro. No seu toca-fitas, também ouve Rosane, Joana, Roberto Carlos e Chitãozinho e Chororó.

– Gosto de todo tipo de música brasileira. Mas adoro bolero – confessa.

A culpa é certamente do seu nome, Valdir Ataualpa Ramírez. Por conta do último sobrenome – o mesmo de Spinoza, filósofo holandês do século XVII –, ele gosta mesmo é de filosofar sobre a melhor forma de colocar uma bola na rede do time adversário. Melhor para nós, que amamos samba, feijão e futebol.»

Fonte: O Globo, 24.06.1989.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Valdir Espinosa (I): os ‘segredos’ de um técnico premonitório

Crédito: Marco Antônio Cavalcanti | revista Placar. Imagem melhorada por IA.

Entrevista de MARTHA ESTEVES | revista Placar, 30.06.1989

PLACAR – Como é quebrar um jejum de títulos tão longo?

ESPINOSA – Uma verdadeira glória. Uma valorização enorme em todos os sentidos. Pelo lado profissional, consegui minha afirmação no difícil mercado do Rio de Janeiro.

PLACAR – O Botafogo poderia perder o campeonato, caso não vencesse o jogo da quarta-feira passada?

ESPINOSA – Estávamos preparados para isso. Avisei os jogadores que não tínhamos a obrigação de ganhar o título naquela partida especialmente. De qualquer jeito, tinha certeza de que seríamos campeões em qualquer dia.

PLACAR – O que determinou a vitória?

ESPINOSA – Sem dúvida a saída de Zico. Coincidência ou não, o Botafogo fez seu gol 1 minuto depois que ele deixou o campo. O Flamengo sentiu a falta de sua liderança e acabou se perdendo.

PLACAR – Por que, ao contrário da primeira partida, você não armou uma marcação especial para Zico?

ESPINOSA – Começamos o jogo tentando marcá-lo em cima, mas espertamente ele se movimentou muito, trocando de posição com outros jogadores. A solução foi vigiá-lo por zona, o que acabou dando certo.

PLACAR – Até que ponto a invencibilidade do time mexeu com os jogadores?

ESPINOSA – Minha maior preocupação foi não passar tensão para os jogadores. A cada jogo me sentia como um castelo de areia pronto a desmoronar.

PLACAR – Qual foi o jogo mais difícil do campeonato?

ESPINOSA – O último com o Bangu (na Rodada Final da Taça Rio). Foi o jogo em que fiquei mais nervoso porque poderíamos não passar para a decisão e isso não passava pela minha cabeça. Sem medo de arriscar, foi o mais tenso de minha carreira.

PLACAR – O que foi melhor: ser campeão mundial com o Grêmio em 1983 ou campeão carioca pelo Botafogo?

ESPINOSA – Sem dúvida, fiquei muito mais feliz com o Campeonato Carioca. Ganhar um título tão esperado junto da torcida é muito melhor que vencer em Tóquio.

PLACAR – Três outros técnicos (Pinheiro, Zé Carlos e Jair Pereira) fracassaram com esse mesmo time. Qual seu segredo?

ESPINOSA – Acho que minha arma foi não despertar ansiedade de ganhar nada. Desde que cheguei ao Botafogo, ensinei aos jogadores que o medo de perder tira a vontade de ganhar. Resolvemos enfrentar tudo sem pensar no futuro, lutando naturalmente, sem forçar nada.

PLACAR – Em que momento você sentiu que poderia ser campeão?

ESPINOSA – Quando disse que a única equipe que me despertava esse desafio era o Botafogo. Nesse momento, eu sabia que seria campeão. Tinha saído do Coritiba e tomado a decisão de parar um tempo porque não via um time que me interessasse. Foi assim com o Cerro Porteño, o Grêmio e o próprio Botafogo. Deve ser premonição ou intuição.

PLACAR – Por isso também você resolveu ficar no Brasil depois de tudo acertado para dirigir a Seleção do Kuwait?

ESPINOSA – Sou muito intuitivo e desde o começo senti algo estranho em relação a essa mudança.

PLACAR – O quê?

ESPINOSA – Não sei explicar, mas acho que até que posso morrer no Kuwait. Vejo muita coisa ruim. Nada em relação a um possível fracasso profissional, porque isso eu não temo. Corro esse risco mesmo ficando no Botafogo.

PLACAR – E você vai continuar no Botafogo?

ESPINOSA – Entreguei uma proposta para o vice-presidente Emil Pinheiro antes mesmo de classificar o time para as finais. Fiz isso para não dizerem que me aproveitei da situação.

PLACAR – Mas você sempre trabalhou em times grandes e organizados. Como foi enfrentar um sem estrutura alguma?

ESPINOSA – Cheguei em Marechal Hermes preparado porque o Cerro Porteño era muito pior. Então, avisei todos: “O Botafogo durante a semana é um time pequeno, mas no domingo se torna grande”.

PLACAR – A torcida alvinegra é muito exigente e, depois de ser campeã, pode cobrar ainda mais do time. Você não acha que pode fazer um mau negócio trocando os dólares por muita dor de cabeça?

ESPINOSA – Não tenho medo de perder e sei bem o que pode acontecer se a equipe não mantiver o nível. Depois de ganhar o Mundial pelo Grêmio, fui várias vezes vaiado. O importante é a consciência de ter realizado um excelente trabalho.

PLACAR – Como conseguiu um ótimo relacionamento com todos os jogadores?

ESPINOSA – Eles me respeitam porque estou no mesmo degrau, apesar de ser chefe. Consegui induzi-los a andar no caminho sem precisar de chicote na mão. Trabalhamos com unidade de pensamento. Ninguém é mais do que ninguém.

PLACAR – Esta é a razão de o Botafogo não ter estrelas?

ESPINOSA – Exatamente. Bons exemplos são Mauro Galvão, que tem um destaque técnico, e Paulinho Criciúma, com seu forte carisma junto à torcida. Eles não se consideram estrelas.

PLACAR – E de que forma você resolveu a divisão do time entre s que pertenciam a Emil Pinheiro (Paulinho Criciúma, Mauro Galvão, Wílson Gotardo, Mazolinha…) e os demais?

ESPINOSA – Mostrei para todos que precisávamos trabalhar unidos de verdade. Sem divisões ou panelinhas, montei um time competitivo e unificado pelo mesmo objetivo.

PLACAR – Como se explica a invencibilidade de 28 jogos?

ESPINOSA – Simplesmente valorizei a principal qualidade do time: a força de marcação. Assim como Vítor, os meias Carlos Alberto e Luisinho também marcam com eficiência e disciplina. Eu só dei alma a isso.

PLACAR – O Botafogo pode dar algum exemplo à Seleção Brasileira?

ESPINOSA – Ele provou que, independentemente da qualidade técnica, o time deve ser competitivo sempre. Um grupo unido, buscando só a vitória. Na Seleção, os jogadores pensam em aparecer para jogar na Europa. O resultado é que cada um quer mostrar o seu e ninguém consegue mostrar nada.

PLACAR – Você é um homem predestinado?

ESPINOSA – A grande maioria das coisas que previ para minha vida aconteceram e muitas ainda estão por acontecer.

PLACAR – Ser técnico da Seleção, por exemplo?

ESPINOSA – Digamos que eu sonhei com isso. Se um dia acontecer, direi se estava marcado nomeu destino ou não.

Fonte: Revista Placar, 30.06.1989.

Arthur Chaves: zagueiro polivalente, forte nos duelos e veloz

Arthur Chaves na Seleção Brasileira Sub-20. Fonte: Instagram ‘mercadodabola_newsoficial’. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo Arthu...