por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Começo este texto pelo fim, isto é, pelo que realmente fica
para a história: uma importantíssima vitória, tanto por valer a liderança no
Grupo da Copa Sul-americana, como por vir a constituir um eventual tônico para
a equipe e permitir novas lições que o técnico pode retirar sobre os seus erros
e acertos e sobre como gerir os atletas dentro e fora de campo de modo a
alavancar as potencialidades de cada um.
Dito isso, a vitória foi procurada, primeiro, na crença e
ousadia de que era possível virar o placar, como efetivamente ocorreu no 1º
tempo, e, segundo, resistir e nunca desistir, como se verificou em todo o 2º
tempo.
Não posso, contudo, deixar de referir que a derrota poderia
ter muito bem acontecido desde cedo. A escolha de Neto para titular alvoroçou
as hostes alvinegras e o próprio confirmou esses receios aos 3’ de jogo quando
o Racing inaugurou o marcador numa saída intempestiva de Neto. A comprovação desses
temores viria aos 10’ quando, após falhanço incrível da defensiva do Botafogo e
nova saída absolutamente estabanada de Neto, o goleiro andou ‘nadando’ na
grande área, foi ultrapassado pelo atacante do Racing e se não fosse Ferraresi
substituir a falta de presença do goleiro na baliza, estaríamos, aos dez
minutos de jogo, perdendo por 2x0 – provavelmente com Neto perdido para o resto
da partida, com a equipe fora de si mesma, com o técnico sem saber o que fazer
para travar a avalancha anunciada e os torcedores alvinegros encolerizados.
E as culpas não seriam tanto de Neto nem de Franclim
Carvalho, mas de John Textor que, levianamente, considerou que tínhamos goleiro
depois de todos os três terem falhado incrivelmente em defesas fáceis.
Habituados que estamos a diretorias maioritariamente ‘carniceiras’ nos últimos
60 anos, Textor quer que nos habituemos a um acionista maioritário que vende os
ativos humanos mais preciosos assim que se destacam na equipe e não contrata
ninguém à altura deles – assim foi com Lucas Perri, Adryelson, Luiz Henrique, Thiago
Almada, Igor Jesus, Gregore, Jair, Cuiabano, Savarino, etc. e… o goleiro John, sem
que tivesse havido substituto em tão crucial posição.
No entanto, apesar dos falhanços de Neto até aos 10’ de
jogo, momentos depois disso Neto fez uma grande defesa, dando algumas
esperanças de ser capaz de recuperar das suas falhas e o Botafogo conseguiu segurar-se
emocionalmente, foi crescendo progressivamente e num lance de alguma sorte, em
que a bola ricocheteou num defesa argentino, o esférico sobrou para Arthur
Cabral, que avançou velozmente e face a face com o goleiro não perdoou,
empatando a partida aos 22’.
Curiosamente, após Cabral retratar publicamente a sua
insatisfação com o próprio desempenho – frase de humildade profissional e de
persistente busca, que mereceu realce no Mundo Botafogo –, eis que subitamente
começou marcando gols, 4 nos últimos cinco jogos.
O Botafogo continuou atacando a partir de boa articulação
entre Allan e Medina, buscando o tridente de ataque, e após várias insistências,
eis que Barboza enviou um chutão para a frente e o robusto e rápido Júnior
Santos desmarcou-se no meio campo, dominou a bola, disparou em direção à baliza
adversária por dezenas de metros e à saída do goleiro fez a virada aos 41’:
Botafogo 2x1.O Jacaré recuperou o seu estilo de cavalgada que o consagrou na
Libertadores de 2024, constituindo um perigo para a defensiva do Racing, a par do
bom desempenho de Arthur Cabral, que acabou substituído por exaustão.
Porém, nada estava garantido, porque apesar da virada o
Botafogo ainda sentia algumas dificuldades na defesa, e aos 43’ o Racing perdeu
um gol quase feito na pequena área. Dois minutos depois, aos 45’, Neto fez uma
defesa espetacular de reflexo a uma cabeçada fulminante na pequena área.
Em suma, seria preciso ter cuidado no 2º tempo porque os
argentinos iriam certamente em busca do empate. Dito e feito: aos 52’ nova
cabeçada na pequena área do Botafogo com selo de gol, mas Neto assinou, pela 3ª
vez, uma defesa incrível, espalmando para escanteio.
Ao contrário da 1ª parte, o Racing tornou-se mais
perigoso, o Botafogo respondeu baixando a defensiva, mas aos 63’, em jogada
muito parecida com o lançamento de Barboza para o gol de Júnior Santos, Cannavo
dominou um chutão vindo da sua defesa e centrou rasteiro para Adrián Martínez
empatar novamente o jogo dentro da pequena área.
Porém, a espaços, o Botafogo não desistia de atacar, o
jogo amoleceu e na reta final da partida a equipe argentina aparentava estar
conformada com o empate que lhe asseguraria a liderança.
Mas não o Botafogo…
Kadir acabara de entrar e quis deixar a sua marca: a
jovem promessa cobrou lateral para Barrera, correu pela ala esquerda, Barrera
devolveu-lhe a bola, Kadir disparou velozmente até à linha de fundo acossado
por um adversário e centrou com açúcar de cana, mel e outros ingredientes
gulosos para o miolo da grande área onde Danilo apenas se deu ao trabalho de
estabelecer o placar final aos 90+3’: Botafogo 3x2!
Esperemos que a ‘separação de águas’ se tenha iniciado,
mas muito trabalho há que fazer. Em primeiro lugar, no treino de goleiros,
depois na montagem de uma defesa segura, porque somos a pior defesa do
campeonato brasileiro, em seguida tratar de identificar as melhores
articulações entre meio-campistas e explorar novas jogadas de ataque.
A questão da estratégia e das táticas é também um
elemento crucial: montar uma estratégia definidora de um modelo de jogo
consistente e simultaneamente flexível, bem como esquemas táticos que possam confundir
os adversários, independentemente de um sistema tático predominante.
Aliás, nessa matéria, convém deixar aqui a ideia de que um
tridente de ataque nem sempre é o ideal, tal como ocorreu ontem: por exemplo,
um sistema mais baseado em 4-4-2 que permita montar linhas consistentes e
próximas pode ser fundamental para solidificar a defesa sem perder de vista um
ataque veloz, sobretudo baseado na recorrência às alas, porque não temos
atletas vocacionados para atacar pelo meio, embora Danilo deva ter mais
liberdade em campo para o poder fazer.
Não vai ser fácil. Mas o sol ‘nasce’ todos os dias…
FICHA TÉCNICA
Botafogo 3x2 Racing
» Gols: Arthur Cabral, aos
22’, Júnior Santos, aos 41’, e Danilo, aos 90+3’ (Botafogo); Santiago Sosa, aos
3’, e Adrián Martínez, aos 63’ (Racing)
» Competição: Copa Sul-americana
» Data: 15.04.2026
» Local: Estádio Presidente Perón (‘El Cilindro’), em Avellaneda,
Argentina
» Público: Portões fechados.
» Árbitro: Cristián Garay (Chile); Assistentes: Claudio Urrutia (Chile) e Alejandro Molina (Chile); VAR: Rodrigo Carvajal (Chile)
» Disciplina: cartão amarelo – Allan, Arthur Cabral, Mateo
Ponte e Franclim Carvalho, técnico (Botafogo) e Baltasar Rodríguez, Cannavo e
Adrian Fernández (Racing)
» Botafogo: Neto; Mateo Ponte, Ferraresi, Alexander
Barboza e Alex Telles (Caio Roque); Allan, Edenílson (Danilo) e Cristian
Medina; Júnior Santos (Lucas Villalba), Arthur Cabral (Kadir) e Matheus Martins
(Jordan Barrera). Técnico: Franclim Carvalho.
» Racing: Cambeses; Cannavo, Pardo, Colombo e Ignacio
Rodríguez; Santiago Sosa, Baltasar Rodríguez (Zuculini) e Gonzalo Sosa (Adrian
Fernández); Martirena (Vergara), Adrián Martínez e Conechny (Solari). Técnico:
Gustavo Costas.





