segunda-feira, 8 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1934: estreia da associação entre futebol versus política

Cartaz da Copa do Mundo de 1934. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália, entre 27 de maio e 10 de junho, foi a segunda edição do torneio e terminou com a Itália campeã, vencendo a Tchecoslováquia por 2x1 após prolongamento, em Roma. Foi também a primeira Copa vencida por uma seleção europeia.

O acontecimento mais marcante fora de campo foi o uso político do torneio pelo regime fascista de Benito Mussolini (*), aliado da Alemanha de Hitler. A competição serviu como alavanca internacional para projetar uma imagem de força, organização e prestígio da Itália fascista. Por isso, a Copa de 1934 é frequentemente lembrada como um dos primeiros grandes exemplos de megaevento esportivo usado como propaganda de Estado.

Em termos esportivos, a edição também foi histórica porque tratou-se da primeira Copa com eliminatórias. Trinta e duas seleções se inscreveram, mas apenas dezesseis disputaram a fase final. Outro aspecto importante foi a ausência do Uruguai, campeão de 1930, que boicotou o torneio em resposta à baixa participação europeia na Copa anterior.

Charles Sutcliffe era um dos responsáveis pela Liga Inglesa na década de 1930 e acérrimo defensor da superioridade do futebol britânico, o qual se manteve afastado do resto do mundo. Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda jogavam entre si no International Championship desde 1883. Sutcliffe, com a arrogância clássica dos ingleses do século XIX afirmou: – “O International Championship parece-me um Campeonato do Mundo muito melhor do que o que vai acontecer em Roma.”

Porém, em 92 anos de Copas do Mundo, os ingleses apenas conquistaram a Copa que decorreu no seu país, em 1966, e com a imensa simpatia das arbitragens da semifinal e da final.

Na Copa de 1934 o Botafogo tornou-se recordista até hoje em número de convocados para a Seleção Brasileira numa só Copa, cedendo Ariel, Átilla, Canalli, Carvalho Leite, Germano, Martim, Octacílio, Pedrosa e Waldyr.

Seleção Brasileira embarcando com 9 titulares do Botafogo FC. Fonte: Arquivo Nacional.

Dentro de campo, a campanha italiana foi intensa e controversa. Nas quartas-de-final a Itália enfrentou a Espanha num duelo duríssimo: o primeiro jogo terminou 1x1 após prolongamento, exigindo o primeiro jogo de desempate da história das Copas. A Itália venceu a repetição por 1x0, mas a eliminatória ficou marcada por violência e lesões, inclusive a do goleiro espanhol Ricardo Zamora, que não pôde jogar o desempate.

Na semifinal a Itália derrotou a Áustria por 1x0. Essa vitória também foi significativa porque a Áustria possuía uma das equipes mais admiradas da época, o chamado Wunderteam. Do outro lado da chave a Tchecoslováquia chegou à final ao bater a Alemanha por 3x1.

A final, em 10 de junho de 1934, foi disputada no Stadio Nazionale, em Roma. A Tchecoslováquia saiu na frente com gol de Antonín Puč, mas a Itália empatou perto do fim com Raimundo Orsi. No prolongamento Angelo Schiavio marcou o gol do título italiano. A partida foi jogada sob calor extremo, com relatos de temperatura próxima dos 40°C.

Também houve controvérsias sobre arbitragem e favorecimento à Itália. Ao longo dos anos, historiadores e jornalistas apontaram suspeitas de interferência política, pressão sobre árbitros e ambiente hostil para adversários, embora a vitória italiana também tenha sido defendida posteriormente por diversos analistas devido aquela geração ter vencido o ouro olímpico em 1936 e a Copa seguinte de 1938.

Em suma, os acontecimentos mais importantes foram a consolidação da Copa como torneio mundial com eliminatórias, o boicote uruguaio, a transformação do evento em propaganda fascista, a campanha física e controversa da Itália, a eliminação da forte Áustria, e a final dramática em que a Itália virou sobre a Tchecoslováquia para conquistar o seu primeiro título mundial.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Itália 2x1 Tchecoslováquia (ap)

» Gols: Raimundo Orsi, aos 81’, e Angelo Schiavio, aos 95’ (Itália); Antonin Puč, aos 71’ (Tchecoslováquia)

» Data: 10.06.1934

» Local: Stadio Nazionale, em Roma (Itália)

» Itália: Giampiero Combi, Angelo Schiavio, Attilio Ferraris, Enrique Guaita, Eraldo Monzeglio, Giovanni Ferrari, Giuseppe Meazza, Luigi Allemandi, Luigi Bertolini, Luis Monti e Raimundo Orsi. Técnico: Vittorio Pozzo.

» Tchecoslováquia: Frantisek Planicka, Antonin Puč, Frantisek Junek, Frantisek Svoboda, Jiri Sobotka, Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Ladislav Zenisek, Oldrich Nejedly, Rudolf Krcil e Stefan Cambal. Técnico: Karel Petru.

(*) A etimologia da expressão ‘fascismo’ tem por origem fascio (feixe) que era um símbolo romano de autoridade e unidade. O fascismo foi criado pelo líder nacionalista Benito Mussolini, em Itália, oficializado em movimento como Partido Nacional Fascista (1921). Defendia a supremacia do Estado, o corporativismo e a exaltação da guerra, tendo Mussolini declarado em 1925: – “Somos um estado totalitário”. Entretanto a expressão ‘fascista’ passou a aplicar-se generalizadamente aos regimes de extrema-direita, independentemente de serem corporativistas ou não, enquanto os regimes de extrema-esquerda (designadamente os comunistas) também foram apelidados com a expressão ‘social-fascista’ por defenderem o Estado de partido único.

Fontes principais: maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com.


O nascimento do futebol brasileiro e o abraço do esquecimento

por MEIA ENCARNADA | Excerto de https://ge.globo.com.

«Eis que, na véspera da Copa do Mundo, outra questão se ergueu no horizonte. […] O abraço do esquecimento está atingindo Garrincha. […]

Garrincha simplesmente é o futebol brasileiro (assim mesmo, no presente). Se Pelé representou toda a majestade imaginável dentro das quatro linhas, o mais famoso pau-grandense da história é a própria encarnação de um ideal brasileiro de jogar bola – e, por que não, um ideal de como o brasileiro decidiu olhar para o mundo. O homem para quem o drible era um espasmo. Um dos únicos que fez a arquibancada sorrir, e não apenas no sentido metafórico. […]

O começo do jogo contra a temida União Soviética [na estreia de Garrincha e Pelé na Copa do Mundo de 1958] foi definido pelo jornalista Gabriel Hanot, que estava no estádio, como "os melhores três minutos que o futebol já presenciou" – com poucos segundos, Garrincha já havia deixado três soviéticos capotados pelo caminho para castigar a trave de Yashin. Aquele momento, simbolicamente, representou o nascimento do futebol brasileiro, e o atacante do Botafogo era o autor do parto, escrevendo com as pernas tortas todas as possibilidades imagináveis sobre a grama.

No entanto, o mesmo Garrincha de alma indomável, […] inegociavelmente inocente, tornou-se, durante alguns dias, o gênio absolutamente centrado que jogou por ele e pelo lesionado Pelé para ganhar o bicampeonato de 1962, marcando gols de tudo que era jeito e colocando-se, ao lado de Maradona, como o jogador mais determinante em uma edição de Copa do Mundo. O argentino, aliás, é um dos poucos que podem ser comparados a Garrincha: ambos transformaram os maiores estádios do mundo em campinhos de bairro e demonstravam uma humanidade excessiva, quase transbordante. [...]

E talvez a impiedosa ironia esteja no fato de que Garrincha corre o risco de ser esquecido exatamente porque o futebol moderno não é capaz de reproduzi-lo.»

Leia o texto completo em https://ge.globo.com/blogs/meia-encarnada/post/2026/06/05/esquecer-garrincha-e-apagar-uma-parte-do-brasil.ghtml

domingo, 7 de junho de 2026

Botafogo conquistou sensacionalmente a 3ª Regata e a liderança do Campeonato Estadual

Oito Com do Botafogo em aproximação à meta com a embarcação do Flamengo ao fundo. Crédito: Youtube Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro, captura de tela, 2026.06.06.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O remo do Botafogo FR venceu sensacionalmente a 3ª Regata do Campeonato Estadual de Remo ‘Dr. Hugo Ibeas’ (glória do remo botafoguense) e simultaneamente assumiu a liderança da competição, relegando o CR Flamengo para vice. A regata foi organizada pela Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro, que decorreu no Estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, no dia 6 de junho de 2026.

O editor do Mundo Botafogo, fã do remo e assistindo a todas as regatas do Clube desde há décadas, não tem memória de uma competição de remo tão sensacionalmente conquistada pelo Botafogo.

Efetivamente, todos os apaixonados do remo vibram quando os clubes conseguem disputar acirradamente os títulos e, no caso concreto, o remo saiu altamente vitorioso com a extraordinária luta pelo título entre o Botafogo FR e o CR Flamengo.

A meio da regata, cada prova que era concluída levava um dos dois clubes, Botafogo ou Flamengo, à liderança da regata e do campeonato, mas logo na prova seguinte o segundo colocado ganhava-a e assumia a liderança da regata e do campeonato, tendo a conquista da regata sido decidida apenas na última prova – o Oito Com, a ‘prova rainha’ do remo.

Absolutamente emocionante até ao fim – com a vitória robusta do Oito Com do Glorioso!

E ao final da estratégia montada para a competição, o Botafogo FR venceu a Regata com 6 Medalhas de Ouro contra 4 do CR Flamengo, 1 do CR Piraquê e 1 do CR Rio de Janeiro, conquistando cirurgicamente a liderança do Campeonato Estadual com 297 pontos contra 284 do rubro-negro e 121 do cruzmaltino, após três regatas disputadas e outras três ainda por disputar.

Depois de vários desinvestimentos no remo do Botafogo em todas as presidências do Clube desde a saída de Maurício Assumpção, eis que novamente se desinvestiu financeiramente no remo em 2025 durante a atual presidência, saldando-se pelo afastamento do coordenador Xoxô e de vários atletas, três deles olímpicos, entre os quais o melhor remador e a melhor remadora do país. Foi então decidido recomeçar pela base e o trabalho a realizar assentou no magistral técnico Paulinho que com um labor incansável, apoiado pelo diretor de remo João Gualberto de Mello, conseguiu que neste ano o Botafogo ganhasse duas das três regatas realizadas e chegasse finalmente à liderança.

O campeonato não está ganho, longe disso, até porque o Flamengo realiza enormes investimentos no remo e dispõe de alguns do nossos ex-remadores campeões, mas a reestruturação concretizada no departamento de remo deve ser realçada pelo trabalho intensivo com as categorias infantil, juvenil, júnior e sub-23, tanto no masculino como no feminino.

O técnico Paulinho e o diretor João Gualter de Mello merecem os nossos parabéns!

João Gualter de Mello erguendo o Troféu. Crédito: Youtube Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro, captura de tela, 2026.06.06.

Eis os pódios das Medalhas de Ouro do Botafogo:

SINGLE SKIFF SUB-19 MASCULINO

1º Botafogo FR – A (João Guilherme Viana)

2º CR Vasco da Gama – A (Alberto Lima da Silva)

3º Botafogo FR – B (Alexandre Nóbrega Drumond)

DOUBLE SKIFF SUB-23 MASCULINO

1º Botafogo FR (Bernardo Barreto de Oliveira e Alan Rocha Rodrigues)

2º CR Flamengo (Miguel Marques e Kayki Rocha)

3º CR Flamengo (Kauã Vital e Daniel Rocha)

SINGLE SKIFF SUB-17 FEMININO

1º Botafogo FR – A (Julie de Aragão Azevedo)

2º CR Vasco da Gama – A (Mallu Corrêa Gnecco)

3º CR Flamengo – A (Maria Luiza Alves Fortunato Jacob de Jesus)

FOUR SKIFF ASPIRANTE / MASCULINO

1º Botafogo FR – B (Gabriel Bryan Barbosa de Araújo, Nicolas Moller, Emanuel da Silva Mendes, Nickyson e Leonardo da Conceição Souza Santos)

2º CR Flamengo – A (Guilherme da Silva Simplício de Oliveira, Daniel Oliveira de Assis Pereira Júnior, Norberto Pires da Silva e João Victor Freira da Silva)

3º CR Vasco da Gama – A (Kevin Lucas dos Santos Silveira, Yuri Henrique da Paixão Barbosa da Silva, e Artur Cunha de Sá Freire Sermarinni)

DOUBLE SKIFF SUB-19 FEMININO

1º Botafogo BFR – A (Ana Clara Farias da Silva e Luna Nicole Mongelot)

2º CR Flamengo – A (Lavinnia de Oliveira Cabral e Yasmin Matias Viana)

3º Botafogo FR – B (Pietra e Sophia Santos de Almeida)

As embarcações do Oito Com após cruzamento da meta. Crédito: Youtube Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro, captura de tela, 2026.06.06.

OITO COM MASCULINO

1º Botafogo FR (Nicolas de Oliveira Ladeira, Willian Daniel Alves dos Santos, Pedro Igor Soares dos Anjos Cândido, George Lucas Martins da Silva, Felipe da Rocha Miranda Fernandes, João Pedro Santos da Silva, João Pedro Sampaio Pimentel, Rômulo Fernandes da Silva e Bento Junqueira Neves da Silva - timoneiro)

2º CR Flamengo (Canaã Mothé Alves, Cauli Campelo da Silva, Davi Gouvêa Nascimento de Almeida, Enzo Costa Carvalho, Israel Antonio Oliveira Galdino, Mateus Quitar Vieira, Miguel Angelo Nicolau Matos, Cauã da Rocha dos Santos e Nathaly do Santos Pereira - timoneiro)

Assista aqui https://www.youtube.com/watch?v=qma-NnOKVUM à 3ª Regata Estadual; a prova do Oito Com começa no vídeo às 2:41’40”.

Visão estratégica e destruição imprevidente num só personagem

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

«Vamos construir um centro de treinamento. Vamos alterar a organização do clube. Vamos querer ser campeões da Libertadores daqui a três anos. Vamos ser campeões brasileiros daqui a três anos”.» – Luís Castro, falando sobre a primeira abordagem de John Textor ao treinador que acabaria por contratar em 2022.

«Desculpe-me interromper» – disse o auxiliar Vítor Severino. «A frase foi esta, que eu nunca mais me esqueci, porque eu costumo partilhar. ‘No primeiro ano, não estou preocupado. E vocês fiquem já a saber que se cairmos, caímos juntos, porque vocês não vão sair. Fiquem à vontade para construir. No segundo ano, vamos ficar perto dos títulos. E no terceiro, vamos buscar títulos’»

Faltou Textor acrescentar: «Nos anos seguintes destruirei as equipes vendendo os melhores atletas, aumentarei estrategicamente a dívida, levarei o caos ao clube e colocarei diversos interessados e ‘interesseiros’ a disputar o parco espólio existente para depois por via jurídica regressar triunfante reunindo os cacos e ser erguido a ‘salvador da pátria botafoguense’

John Textor teve o condão de trazer magia e desencanto aos nossos corações num ínfimo lapso de tempo. Estamos acostumados a oportunistas e impostores que nos alternam o céu e o inferno, embora nunca com tanta intensidade como na curta vida da SAF, mas somos resilientes e, como sempre durante a nossa inigualável história desportiva e social, aconteça  que acontecer, renasceremos das cinzas livres de lóbis e oligarquias que nos queiram impor, porque "o Botafogo é uma fortaleza e sua torcida jamais se renderá!".

Copa do Mundo de 1934: estreia da associação entre futebol versus política

Cartaz da Copa do Mundo de 1934. Crédito: Reprodução. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A Copa do Mundo de 1934 , realizada na Itália...