por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
Exatamente três meses foi o tempo perdido com o ‘inventor’
do desposicionamento de todos os jogadores do meio para a frente e do
estapafúrdio sistema de três centrais a que nenhum atleta se habituou. Seria preciso
muita inteligência para perceber o clamoroso equívoco?
Rodrigo Bellão comprovou, através da evidência, que um
técnico esclarecido não precisa de ‘muita inteligência’, mas sobretudo o
discernimento, face ao que é claro, manifesto e incontestável, de rever a
organização, a filosofia e a dinâmica de uma equipe que durante três meses não
passou de 42,6% e não venceu um único clássico carioca, sendo uma boa parte
dessa percentagem baseada em vitórias contra equipes modestas como Portuguesa,
Volta Redonda e Bangu.
Dois jogos bastaram a Bellão para perceber que o plantel
atual, sem capacidade para “atacar, atacar, atacar” (sic, Textor), teria que
montar uma muralha defensiva e transições rápidas para surpreender o adversário
em contra-ataques velozes.
Resultou que, após três jogos (sendo a vitória contra o
Mirassol já um indício de que Bellão estava tentando mudar a equipe para uma organização
‘normal’), os infrutíferos Arthur Cabral e Matheus Martins tenham desencantado com
gols de outro mundo, que Villalba mostrasse o ar da sua graça e que até Raul
tenha sido seguro e autor de duas defesas difíceis.
Em suma, o Botafogo percebeu que precisa saber jogar sem
bola, possuir uma defesa segura e não a pior do campeonato, e atacar em transições
velozes e rematar de fora da grande área – efetivamente, com menos posse de bola,
o Botafogo rematou 16 vezes à baliza, tal como o Vasco, mas conseguiu o dobro
dos remates enquadrados na baliza adversária.
Sobre as decorrências do jogo, o Vasco tomou a dianteira
atacante e dominou a posse de bola durante os primeiros vinte minutos. As nossas
saídas de bola eram perdidas no contra-ataque, mas a equipe no seu todo estava
se esforçando para seguir um posicionamento diferente daquele a que os jogadores
foram obrigados durante três meses em posições desconfortáveis.
Eis que aos 22’ o Botafogo contra-atacou velozmente por Arthur
Cabral, que enviou um passe açucarado para Júnior Santos, que sem adversários e
frente à baliza arrancou um remate incrivelmente frouxo à figura do goleiro –
embora eu admita que a flagrante perda se deveu à irregularidade da relva.
O Vasco continuou a porfiar no tal tik-tak de posse de
bola totalmente ineficaz e que pessoalmente me desagrada, mas o Botafogo
engrenou uma série de contra-ataques em transições rápidas e aos 36’, na
sequência de um escanteio cobrado por Alex Telles, Barboza cabeceou rente à
baliza.
Aos 41’ novo contra-ataque do Botafogo, Matheus Martins
isolou-se, foi derrubado por Saldivia, último homem da defesa, e o árbitro assinalou
a falta com um… cartão amarelo! Percebo a interpretação de que Matheus Martins estava
descaído para o lado esquerdo e não no enfiamento da baliza, mas creio que o
derrube foi demasiado acintoso e mereceria cartão vermelho naquele que se pode
considerar o único erro significativo da arbitragem durante a partida – e talvez
até, face ao resultado final, tenha sido benéfico para a equipe não embarcar em
ataques descoordenados na ânsia de inaugurar o marcador jogando contra 10.
Ao 45’, um grande passe de Danilo para Matheus Martins obrigou Léo Jardim a executar, provavelmente, a maior defesa da noite. Chegados
ao intervalo o zero a zero permaneceu com o Vasco a dominar a posse de bola e o
Botafogo a criar as melhores oportunidades de gol.
Ao intervalo Bellão mandou Caio Roque entrar no lugar de
Alex Telles, com problemas musculares, e o jovem atleta saiu-se bastante bem na
sua exibição.
No segundo tempo o Vasco acelerou, aumentando a velocidade
na saída de bola da defesa e começou criando maior perigo. Aos 53’ o Vasco teve
uma boa chance de inaugurar o marcador, mas o remate foi fraco para a defesa de
Raul. Porém, aos 55’, Raul foi chamado a uma intervenção difícil e evitou o
gol, e no rebote Tchê Tchê fez-nos o favor de rematar para fora com a baliza
escancarada, mas o Vasco perigava anunciando gol…
E eis que aos 61’, numa jogada em que Vitinho foi lento e
não acompanhou o lance, o Vasco inaugurou o marcador. A torcida do Vasco, que
já entrara na zoação ao Botafogo (absurdo, num ‘clássico da amizade’), ficou meio
alucinada e em êxtase – a vitória estava no papo e ia ser fácil.
Pois… mas não era Anselmi quem estava no banco, e sim Rodrigo
Bellão.
E então o Botafogo reagiu inesperadamente. Lucas Villalba
entrara há um minuto e aos 65’, a cruzamento de Caio Roque da ala esquerda,
Villalba inventou uma cabeçada fenomenal, em arco, que entrou no ângulo oposto
da baliza e decretou o empate – e apenas quatro minutos depois de os vascaínos alucinarem
com o primeiro gol, Caio Roque e Villalba estamparam a apreensão no rosto da torcida
adversária.
Aos 68’ entraram Montoro e Kadir e aos 71’ Danilo perdeu
uma enorme oportunidade para a virada. Mas… como algumas pessoas gostam de dizer,
estava “escrito nas estrelas” que era o dia de Arthur Cabral, Villalba, Matheus
Martins e… Rodrigo Bellão.
E assim, aos 79’, numa iluminação rara, Matheus Martins
dominou a bola pelo lado esquerdo, avançou e subitamente, ainda fora da grande
área, rematou em arco para o ângulo oposto e faz a virada num golaço de ‘craque’.
Botafogo 2x1.
E daí até ao fim do jogo o Botafogo controlou, o Vasco
não saiu do seu inútil joguinho improdutivo (apenas uma cabeça rente ao poste),
não conseguia entrar na área e… perdeu o Clássico de virada em casa!
Resumo da ‘coisa’: Rodrigo Bellão ‘comeu’ o arrogante
Renato Gaúcho!
Biografia de Rodrigo Bellão: https://mundobotafogo.blogspot.com/2025/05/rodrigo-bellao-veni-vidi-vici-dallas-cup.html
FICHA TÉCNICA
Botafogo 2x1 Vasco da Gama
» Gols: Lucas Villalba, aos
65’, e Matheus Martins, aos 79’ (Botafogo); David, aos 61’ (Vasco da Gama)
» Competição: Campeonato Brasileiro
» Data: 04.04.2026
» Local: Estádio São Januário, no Rio de Janeiro (RJ)
» Árbitro: Wagner do Nascimento Magalhães (RJ); Assistentes: Bruno Boschilia (PR) e Luiz Claudio Regazone (RJ); VAR: Rodrigo D’Alonso Ferreira (SC)
» Disciplina: cartão amarelo – Júnior Santos e Ferraresi (Botafogo) Saldivia (Vasco
da Gama);
» Botafogo: Raul; Vitinho, Ferraresi, Alexander Barboza e Alex Telles (Caio Roque);
Allan (Newton), Edenílson (Álvaro Montoro) e Danilo; Matheus Martins, Júnior
Santos (Lucas Villalba) e Arthur Cabral (Kadir). Técnico: Rodrigo Bellão.
» Vasco da Gama: Léo Jardim; Pumita Rodríguez, Saldivia, Robert Renan e Cuiabano; Barros,
Thiago Mendes e Tchê Tchê (Hinestroza); Rojas (Nuno Moreira), Andrés Gómez e
David (Spinelli). Técnico: Renato Gaúcho.



