por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1954, disputada na Suíça entre 16 de junho e 4 de julho,
foi uma das edições mais espetaculares e estranhas da história: muitos gols,
formato pouco comum, violência em campo, chuva, calor extremo, uma Hungria
aparentemente imbatível e, no fim, uma das maiores surpresas de sempre – o ‘Milagre de Berna’, com a
Alemanha Ocidental campeã.
A grande favorita era a Hungria, a equipa dos
‘Mágicos Magiares’, com Ferenc Puskás, Sándor
Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik, Zoltán Czibor e Gyula Grosics. A equipa vinha
invicta há anos, era campeã olímpica e já tinha humilhado a Inglaterra em
Wembley por 6x3 em 1953 e por 7x1 em Budapeste pouco antes do Mundial.
O Brasil terminou a competição em
6º lugar e estreou o uniforme da famosa camisa amarela e calção azul,
substituindo o anterior uniforme branco, considerado azarado após a derrota de
1950.
No que respeita ao Botafogo, o seu único representante foi novamente Nilton Santos, mais tarde apelidado de ‘Enciclopéia’ por se considerar que sabia tudo sobre futebol. O craque participou nas oito partidas que o Brasil realizou na Copa do Mundo de 1954.
Uma das primeiras peripécias foi
o formato da competição.
Havia quatro grupos de quatro equipas, mas cada seleção só fazia dois jogos: os
cabeças de série não se enfrentavam entre si, e os não cabeças de série também
não. Além disso, jogos empatados na fase de grupos podiam ter prolongamento, e
empates em pontos para a segunda vaga eram resolvidos por jogos de desempate.
Isso levou a situações curiosas, como a Alemanha Ocidental ter de jogar
novamente contra a Turquia, apesar de já a ter vencido na fase inicial.
Logo na primeira fase, a Hungria
assustou o mundo: venceu a Coreia do Sul por 9x0 e depois goleou a Alemanha Ocidental por 8x3. Esse jogo parecia
confirmar a superioridade húngara, mas teve duas consequências importantes:
Puskás saiu lesionado após uma entrada de Werner Liebrich, e o treinador alemão
Sepp Herberger usou uma equipa parcialmente poupada, algo que mais tarde
alimentou a ideia de que ele preparava uma revanche na final.
O torneio também ficou marcado pelo número absurdo de gols. A Copa de 1954 ainda detém a maior média de gols da história dos Mundiais masculinos: 5,38 por jogo. A própria Hungria marcou 27 gols no torneio, e Sándor Kocsis terminou como artilheiro com 11 gols.
Uma das partidas mais loucas foi Áustria 7x5 Suíça, nas
quartas-de-final, em Lausanne. É até hoje o jogo com mais gols na história das
Copas masculinas. A partida ficou conhecida como a “Batalha do Calor de
Lausanne”, pois foi jogada sob temperatura altíssima, perto dos 40°C. A Suíça chegou a abrir
3x0, mas a Áustria virou e venceu por 7x5.
Outra peripécia célebre foi a ‘Batalha de Berna’, entre Hungria e Brasil, também nas
quartas-de-final. A Hungria venceu por 4x2,
mas o jogo ficou famoso pela violência: três jogadores foram expulsos – Nílton
Santos e Humberto, do Brasil, e József Bozsik, da Hungria – e a confusão
continuou depois do apito final, inclusive nos corredores e vestiários. A FIFA
acabou por deixar a disciplina a cargo das federações.
Nas semifinais, a Alemanha
Ocidental goleou a Áustria por 6x1,
enquanto a Hungria teve de sofrer muito contra o Uruguai, campeão de 1950. A
Hungria venceu por 4x2 após
prolongamento, num jogo importantíssimo porque foi a primeira
derrota uruguaia em fases finais de Copas do Mundo.
A final colocou novamente frente
a frente Hungria e Alemanha Ocidental.
Quase todos esperavam nova vitória húngara, ainda mais porque a Hungria já
vencera os alemães por 8x3 no grupo. Mas a final foi disputada com chuva no Wankdorf Stadium, em Berna, e
as condições ajudaram a tornar o jogo ainda mais dramático.
A Hungria começou como um furacão: Puskás marcou aos 6’ e Czibor fez 2x0 aos 9’. Parecia que a final seria uma consagração tranquila. Mas a Alemanha reagiu imediatamente: Max Morlock reduziu aos 11’ e Helmut Rahn empatou aos 18’. No fim, aos 84’, Helmut Rahn marcou o 3x2 que deu o título aos alemães.
Ainda houve drama no fim: Puskás
marcou um gol que seria o empate húngaro, mas o lance foi anulado por
impedimento. A decisão gerou discussão durante décadas, assim como outras
polêmicas da final, incluindo fortes suspeitas posteriores de doping na equipa alemã, nunca resolvidas
de forma plenamente conclusiva (*).
O impacto histórico foi enorme.
Para a Alemanha Ocidental, o título de 1954 tornou-se um símbolo de recuperação
moral e identidade nacional no pós-guerra. Para a Hungria, foi uma tragédia
esportiva: a melhor equipa do mundo perdeu justamente o jogo que mais
importava. O “Milagre de Berna” permanece como uma das maiores zebras e uma das
finais mais famosas da história do futebol.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Alemanha Ocidental 3x2 Hungria
» Gols: Max Morlock, aos 11’,
Helmut Rahn, as 18’ e 84’ (Alemanha Ocidental); Ferenc Puskás, aos 6’, e Zoltán
Czibor, aos 9’ (Hungria)
» Data: 4 de julho de 1954
» Local: Wankdorf Stadium, em
Berna (Suíça)
» Público: 62.500 espectadores
» Árbitro: William Ling
(Inglaterra)
» Alemanha Ocidental: Toni Turek;
Jupp Posipal e Werner Kohlmeyer; Horst Eckel, Werner Liebrich e Karl Mai;
Helmut Rhan, Max Morlock, Ottmar Walter, Fritz Walter e Hans Schäfer. Técnico:
Sepp Herberger.
» Hungria: Gyula Grosics; Jenö
Buzánszky e Mihály Lantos; József Bozsik, Gyula Lóránt e József Zakariás;
Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, Ferenc Puskás e Nihály Tóth.
Técnico: Gusztáv Sebes.
(*) A suspeita era alicerçada na súbita resistência alemã e em razão
de a Hungria pertencer à designada “Cortina de Ferro”, expressão
que descrevia a divisão política, militar e ideológica da Europa durante a
“Guerra Fria”, usada pelo primeiro-ministro inglês Winston Churchill num
discurso em 1946, quando afirmou que uma “cortina de ferro” descera sobre a
Europa, separando o Bloco Ocidental – E.U. da América e democracias europeias –
e o Bloco Oriental – dominado pela União Soviética e composto por regimes
comunistas no leste europeu, incluindo a Hungria – os quais representavam
censura e controlo político, limitação da circulação de pessoas e forte
dispositivo militar que incluía muros, cercas e vigilância fronteiriça – cujo
símbolo mais conhecido foi o “Muro de Berlim”, derrubado em 1989. Do ponto de
vista político não seria conveniente uma vitória Oriental. Porém, é uma hipótese
sem comprovação.












