por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
Após 1972 o declínio
da competitividade desportiva iniciou uma marcha imparável de acompanhamento da
crise financeira.
Foram anos
aterrorizantes que persistiam em acabar com o Botafogo, enquanto a torcida era
uma fortaleza que jamais se renderia e mantinha acesa a sua paixão pelo
Glorioso tal como dantes, nos tempos dourados do futebol e das demais
atividades desportivas, que de tão diversas e importantes permitiram ao
Botafogo inaugurar as ‘Olimpíadas Botafoguenses’, plenas de inovação, que
duraram sete anos (1957 a 1963), tendo o seu epílogo no ano em que o Presidente
Paulo Antônio Azeredo (1954-1963) cessou definitivamente funções como o maior
presidente da história do Glorioso até à data.
Foram anos muito
difíceis, de certo modo trágicos, com a perda do maior símbolo material do
Glorioso – o Palacete de General Severiano e tudo aquilo que representava, e continua
a representar, quebrando várias linhas de continuidade do desporto
botafoguenses.
Carlito Rocha,
dirigente-símbolo do espírito botafoguense e último grande lutador contra a
negociata entre o Botafogo e a Companhia Vale do Rio Doce: – “O Botafogo não pode sair daqui, o Botafogo é
o maior clube do Brasil, é uma instituição nacional. O Botafogo não pode sair
daqui, esse chão é nosso, é a vida do Clube.”
O octogenário
presidente – uma espécie de pai-espiritual que viveu intensamente o Botafogo
por sete décadas –, perdeu a sua última batalha desportiva e provavelmente apressou,
sob uma tristeza profunda, o acontecimento da sua partida.
21 anos…
Após 1968 e de Mário
Zagallo como treinador, sucederam-se Paulinho de Almeida (1971), Paraguaio
(1971), Tim (1972), Sebastião Leônidas (1972-73), Paraguaio (1973-74),
Paulistinha (1974), Mário Zagallo (1974-75), Telê Santana (1975-76), Paulo
Amaral (1976), Sebastião Leônidas (1976-77), Zezé Moreira (1977), Paulistinha
(1977), Danilo Alves (1977), Mário Zagallo (1977-78), Danilo Alves (1978), Joel
Martins (1979), Jorge Vieira (1979), Paulo Amaral (1979-80), Othon Valentim
(1980), Paulo Emílio (1980), Paulinho de Almeida (1980-81), Jorge Vieira
(1981-82), Ernesto Guedes (1982), Zé Mário (1982-83), Sebastião Leônidas
(1983), Didi (1983-84), Humberto Rêdes (1984), Jair Pereira (1984), Orlando
Fantoni (1984), Jorge Vieira (1985), Abel Braga (1985), Carbone (1985-86),
Mário Zagallo (1986), Joel Martins (1986-87), Jair Pereira (1987), Zé Carlos
(1987-88), Pinheiro (1988) e Jair Pereira (1988).
De 1971 a 1988 foram
38 entradas à média de 2,1 treinadores anualmente, muitas repetições dos mesmos
treinadores afetos ao Botafogo, sucessivas interrupções precoces, somente Mário
Zagallo (1974-75, 518 dias) e Zé Mário (1982-83, 369 dias) conseguiram sobreviver
mais do que 365 dias na função de treinador.
Nenhum logrou
conquistar um título carioca – a linhagem de conquistadores iniciada por
Charles Williams e Nicolas Ladanyi em 1929 foi interrompida em Mário Zagallo
desde a sua saída em 1970.
70 anos depois de
Williams e Ladanyi chegarem ao Botafogo, e quebrada a linhagem técnica, eis que
é contratado um treinador sem relação de espécie alguma com o Glorioso: o
gaúcho Valdir Atahualpa Ramires Espinosa.
Espinosa jogou no sul
e no nordeste, e como jogador e treinador apenas havia passado por um grande
clube brasileiro: o Grêmio, mas conquistara a Copa Libertadores da América
(1983), a Copa Intercontinental (1983) e o Campeonato Gaúcho (1986) como
treinador, entre os 36 e os 39 anos de idade.
Vinha também de duas
experiências recentes e bem sucedidas no estrangeiro: o saudita Al-Hilal e o
paraguaio Cerro Porteño, tendo conquistado um campeonato nacional em cada um
desses países.
Pelas suas
características profissionais e pessoais, provavelmente Espinosa foi o treinador
ideal para conduzir o Botafogo à reconquista do futebol carioca, devolvendo-lhe
a glória de vencer.
Valdir Espinosa enfrentou
uma equipe de muita ‘malandragem’, especialmente de Josimar, Maurício e Renato
Gaúcho, os quais procuravam recorrentemente driblar as regras da concentração,
e para tornear o problema mostrou-se um treinador muito maleável e
compreensivo, mas que em seguida cobrava desempenho dos jogadores.
Espinosa convivia
inteligentemente com as brincadeiras e fugas dos jogadores. Em certa ocasião os
jogadores encobriram Josimar, que tinha saído da concentração para uma festa,
mas entretanto Espinosa deu pela sua falta e os jogadores inventaram desculpas
rápidas para ganhar tempo de modo a Josimar entrar pelas traseiras do prédio.
Espinosa conhecia
perfeitamente o perfil folgazão de Josimar e em lugar de o punir, fingia que era
enganado de modo a manter o ambiente leve, cobrando depois o rendimento em
campo através de conversas privadas regadas a churrasco.
Outra tática que o
próprio Espinosa contou mais tarde reportava aos momentos em que tentavam esconder
dele que iam beber cerveja u fazer feitas. Então, percebendo que era enganado,
Espinosa inverteu o jogo e passou ele próprio a organizar e liberar o churrasco
e a cerveja para o elenco um dia após as partidas. A única regra consistia nas
esposas ficarem numa mesa e os jogadores noutra, só podendo falar de futebol.
Espinosa era considerado um predestinado para a psicologia. Na véspera da segunda partida decisiva para se encontrar o campeão carioca de 1989, 21 anos depois do último título botafoguense na competição, Valdir Espinosa ‘sonhou’ que Maurício marcaria o gol do título, e foi o próprio Maurício e companheiros que, mais tarde, contaram esse ‘histórico sonho’.
Ao intervalo Maurício
estava febril, chorava e pediu para ser substituído. Sucede que as superstições
acompanharam toda a campanha de 1989, porque Espinosa também foi contagiado
pela tradição botafoguense nessa matéria. Então, Espinosa recusou a saída do
jogador e disse-lhe que tinha sonhado que Maurício faria o gol do título,
mandou-o lavar o rosto e regressar ao campo.
Maurício regressou e
aos 12’ do 2º tempo, ou se o leitor quiser, aos 57’ de jogo (5+7 = 12), a
cruzamento de Mazolinha, Maurício marcou o gol da vitória e do título de
campeão carioca de 1989, encerrando o jejum o botafoguense.
Campanha completa aqui:
https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-campeao-estadual-invicto-de.html
Foi a consagração das
superstições, tanto do ‘sonho’ de Espinosa como do lado da aritmética: o jogo
realizou-se no dia 21 de junho; após 21 anos sem o título; o gol saiu aos 12’
do segundo tempo (invertido é 21), ou se o leito quiser, aos 57’ de jogo
(5+7=12, invertido também é 21); e o placar do Maracanã registrava 21 graus
centígrados.
O mais fantástico do
lado do ‘sonho’ do treinador-psicólogo é que, após o jogo, Maurício foi à fala
com o treinador mostrando-se satisfeito sobre o ‘sonho’. Então, para seu
espanto, Espinosa confessou que não tinha sonhado coisa nenhuma – estava tão
nervoso que nem sequer tinha dormido.
O resultado da
deliberada invenção de Espinosa é que a doença aconteceu e o sonho era falso,
mas o título foi verdadeiro.
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br







