por FERNANDO MOURA PEIXOTO
[deferência do autor ao Mundo Botafogo]
[deferência do autor ao Mundo Botafogo]
A história se repete. O poeta Adão
Jorge dos Santos, gaúcho de Porto Alegre, não necessitou ascender à
Eternidade – como o colega Fernando
Pessoa (1888 – 1935), um dos maiores vates da nossa língua portuguesa –
para ter um excerto de poesia grafitado no banheiro do - a essa altura -
“famoso” Alfa Bar, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro.
Estava lá,para quem quisesse ver, exposto na borda superior da
lâmina de mármore que separa os dois mictórios masculinos de louça. “Eu sou eu mesmo”, início e título do
poema do mesmo nome, escrito em 2005 por Adão
dos Santos.
Novamente o Fernando Fotógrafo – que sou eu mesmo – não titubeou e clicou a inscrição, em 13 de maio –
uma data marcante, a da assinatura da Lei Áurea em 1888, que aboliu a
escravatura no Brasil – durante uma pausa no almoço. As fotos não mentem. Há um cliente de bom
gosto – e muita criatividade – neste estabelecimento. Quem sabe, é influência
do vizinho Comuna, um espaço
alternativo de arte e cultura, de frequência eclética, inaugurado há quatro
anos do outro lado da rua.
Adão Jorge dos Santos tem diversos trabalhos publicados
e recebeu prêmios em concursos do Projeto
Poesia no Ônibus, em Novo Hamburgo. Eis o poema “Eu Sou Eu Mesmo”, na sua plenitude – e complexidade:
Eu sou eu mesmo.
Eu não sou o outro.
Eu sou eu.
O outro é o outro.
Eu, do latim ego,
pronome pessoal,
primeira pessoa do singular,
indica a pessoa que fala.
No caso eu que vos falo,
Quero dizer, que escrevo,
É também o sujeito pensante,
“Penso, logo existo”.
E sendo eu, eu mesmo,
O outro não pode ser eu,
Apenas eu posso ser eu mesmo,
Ninguém mais, só eu.
Aonde quero chegar com isto,
Com esta obviedade toda,
Com esta conversa de que eu não posso ser outro,
E de que o outro não pode ser eu?
Eu sei quem sou,
Sei interagir comigo mesmo,
E o outro, saberia ser eu?
Duvido!
E se fosse possível,
Se eu pudesse,
só por um instante, ser o outro,
como seria?
Seria uma situação deveras interessante,
Desconcertante eu diria,
De uma hora para outra,
Como num passe de mágica, ser o outro.
O outro por outro lado,
Será que gostaria de ser eu,
Eu já estou cansado
de ser eu mesmo.
Porque o outro não é o mesmo,
É diferente, diverso,
Imediato, seguinte...
É, para efeito prático, o outro.
Pensando bem,
Este outro poderia ser você,
Você não é eu,
Eu não sou você.
Você é você,
Segunda pessoa do singular,
Mas com as flexões verbais
E formas predominais de terceira.
Porque até agora você leu e achou graça,
Fez pouco caso do texto,
Mas mudou quando leu
que poderia ser o outro...
Se eu sou eu,
Você é você,
E nós não somos o outro,
Quem afinal é o outro?
O outro só pode ser Ele,
Pronome pessoal,
Terceira pessoa do singular,
Do caso reto.
Mas se ele não quiser ser o outro,
Nem você,
E nem eu,
Quem será?
Eu queria ser o outro,
Achei que você ou ele poderiam sê-lo,
O outro já é o outro,
Não há de querer ser outro que não ele mesmo.
Cabe então a Mim,
Forma obliqua do Eu,
Resolver esta questão
cabeluda do outro.
A Ideia no começo pareceu absurda,
Complexa e irrealizável
Não toda, é claro,
Mas que era absurda, isto era.
Você ainda é você,
Ele, que não quis ser o outro,
Permanece sendo ele mesmo,
Eu ainda sou eu mesmo.
Será que eu realmente sou eu mesmo?
E eu sendo eu mesmo,
Sou então eu mesmo.
Eu sou eu mesmo...??????
2 comentários:
Meu Amigo Rui,
Quanto tempo que não falamos, mas a culpa é toda minha.
Muito bom o poema, a cara do Botafogo.
O Botafogo é o Botafogo e não poderia,
nem saberia ser outro.
Um grande abraço.
Osmar (Jatahy)
Olá, Companheiro! Quanto tempo!
Espero que esteja tudo bem consigo.
Um abraço Gloriosos e cumprimentos à esposa.
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