Nota do Mundo Botafogo: O texto que se segue foi
publicado no Mundo Ilustrado sob o título «Olé» provoca crise no futebol,
talvez ‘explicativo’ de uma das origens de certos ‘ódios’ e agressões que
proliferaram no futebol. O texto replica a ortografia da época, sem correções e
respeitando-se os autores.
«Olé» provoca crise no futebol
por GERALDO ESCOBAR | foto de RUBEN PEREIRA | in Mundo Ilustrado, nº
269, 1963
CÊRA TÉCNICA OU GOZO NO
ADVERSÁRIO?
O tão discutido «olé» que o
time do Botafogo aplica com tanta perfeição e habilidade, chamando-o de «cêra
técnica», criou, agora, um caso interno. O torcedor alvinegro gosta, os
adversários repudiam, e, no fim de tudo, o «olé» que é bonito para uns e
desrespeitoso para outros, jogou técnico contra diretor. Marinho quis o «olé»,
Renato Estelita foi contra.
O técnico diz que, enquanto
fôr o responsável por uma equipe, treinará sempre a tática dos «dois toques»,
que êle prefere chamar de «cêra técnica», prendendo a bola no chão, dando de pé
em pé, para esfriar o entusiasmo do adversário e fazer o tempo correr, com a
bola sempre dominada pelos seus jogadores.
Diretor é contra, porque considera «faca de
dois gumes». Com score pequeno, é correr risco, não alcançar a vitória e ser
duplamente desmoralizadora para o time. Há, sobretudo, o risco de revide do
adversário com violência.
O «olé» provocou tanta
celeuma no futebol que já tentaram criar até uma lei, um regulamento, proibindo
seu uso pelo Brasil inteiro. A ideia partiu de Mendonça Falcão, quando os
cariocas deram «olé» nos paulistas, naquele bonito jôgo em benefício do
Sindicato dos Jogadores.
Há craques que não condenam
o «olé». Acham que só chiam quem os leva, mas quando se vence todos gostam de
dar o «baile» do desabafo. Por isso, o «olé» ganhou duas interpretações: «cêra
técnica» e «gozo no adversário».
SÓ MUDA O TÍTULO
O «Olé» nasceu no México.
Foi um jôgo do Botafogo com o River Plate, como nos contou João Saldanha que
era o técnico alvinegro naquela época. Vencendo e revidando o jôgo pesado dos
argentinos com aplicação da troca de passes, por mais de dez minutos, os
alvinegros inspiraram na torcida mexicana o grito de «olé» como nas grandes
touradas, porque cada drible de um jogador brasileiro e a passagem furiosa de
um argentino driblado era como o toureiro que se esquiva do touro.
Mas o «olé» já existia no
Brasil com outro nome. Já foi chamado de «baile», já teve o grito de botar os
«cabeçudos na roda», hoje é também chamado de «dois toques». Mas o fato é que,
desde que quando era chamado simplesmente de «baile», já havia o grito dos que
eram bailados sofrendo o achincalhe da derrota e a desmoralização do «passeio».
SEM DEBOCHE
Hoje, os árbitros de futebol
só não permitem o «olé» cantado em campo. Amílcar Ferreira, Armando Marques,
Eunápio Malcher, acham que ninguém pode proibir a troca de passes, seja para a
frente, para o lado ou para trás. Jogador joga como quer desde que não grite em
campo «olé» ou coisa parecida. Mas acham que é perigoso porque irrita quem está
perdendo, provocando reações violentas e consequências imprevisíveis,
prejudicando até as arbitragens, porque da violência surge a agressão.
Outros acham que é
desrespeito ao público e falta de consideração com os colegas de profissão o
uso do «baile», «olé» ou «dois toques». O futebol deve ser praticado com
dignidade.
Mas os que aplicam o «olé»,
e isso o Botafogo é especialista ao ponto de criar agora uma crise interna
entre técnico e diretor, julgam normal e bonito como espetáculo porque a bola
não para. Chamam-no de «cêra técnica» e que só aplica quem sabe. A polêmica vai
continuar sempre a dividir opiniões entre o público, cronistas, dirigentes,
árbitros e jogadores. Ninguém sabe com quem está a razão. Hoje o Botafogo
aplica bem, mas amanhã poderá ser vítima da mesma chave.
Os rubronegros, tricolores,
vascaínos, paulistas, enfim, todos os que chegarem a aplicar o «olé» também
acharão que foi desrespeito?
Diz Flávio Costa que o time
dêle jamais fará isso e se o fizer êle não gostará. Mas os jogadores do
Flamengo dizem que o dia em que tiverem chance vão tirar a forra.

4 comentários:
O Botafogo precursor do Ajax, Barcelona, Real Madrid e dos catitiformes...? PS: catito = rato! (Kkkkk)
É, Vanilson. Creio que me parece indiscutível que o Botafogo foi o primeiro clube a forjar grandes revelações a partir das bases, porque entre finais de 1940 e meados de 1965 revelou inúmeras campeões do mundo que jogaram, ao contrário do Santos, que teve muitos jogadores na Seleção nesse tempo, mas que muitos deles NUNCA JOGARAM uma partida nas Copas do Mundo (1958-62-70). O Botafogo teve diversos campeões do mundo QUE JOGARAM e foram revelados pelo Glorioso: Nilton Santos, Garrincha, Amarildo (jogou 6 partidas nos aspirantes do Flamengo mas foi dispensado, sendo ainda sub-18 no Botafogo), Jairzinho, Paulo César Caju e Roberto Miranda. E outros campeões do mundo pelo Botafogo, ainda que não revelados por nós, foram Didi e Zagalo. Isto é, no tricampeonato mundial tivemos 8 campeões, sendo 6 deles a darem os primeiros passos pelo Alvinegro.
Abraços Glorisos.
A base do Botafogo foi referência no Brasil durante décadas. Infelizmente com a derrocada do clube uma das consequências mais nefastas foi o clube não ter mais condições de ter uma base sólida. Mesmo assim com toda a limitação e em especial uma falta de um CT digno o clube ainda conseguiu revelar alguns bons jogadores como Alemão, Djair, Helinho, Josimar, Luisinho Quintanilha, Mendonça,. Entretanto isso é muito pouco para um clube que foi referência no país.
Infelizmente o Bebeto de Freitas cometeu esse erro e não se preocupou com a base. Espero que a SAF volte a dar importância às divisões inferiores, e parece que esse é um dos objetivos dela
Porém, enquanto não tivermos um CT de qualidade, continuaremos a revelar poucos bons jogadores. ABS e SB!
Ainda tive alguma esperança quando o Manoel Renha foi nomeado como diretor das bases (2014-2019), porque o considero sério, mas creio que nenhuma revelação especial aconteceu. Aliás, Manoel Renha já anteriormente fora indicado para suceder Bebeto de Freitas, mas declinou concorrer alegando que em família foi tomada a decisão de não avançar. Renha foi uma das minhas desilusões. Se tivesse aceite teria sido eleito e em vez do Maurício Assumpção, que nos deixou na 2ª divisão.
Abraços Gloriosos.
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