por ROSA NEPOMUCENO |
O Globo, 24.06.1989
«Fabricar sonhos e deuses – e liquidificá-los
e esquecê-los rapidamente é uma diversão carioca, conhecida – e temida – em
todo o País. E isso assusta um pouco o mais novo personagem do Olimpo abençoado
pelo Cristo de braço abertos, o gaúcho Valdir Espinoza, 41 anos, técnico que
conferiu confiança ao time do Botafogo, time que foi de Garrincha, Nilton Santos,
Gérson e Jairzinho, e que vinha de cabeça baixa há duas décadas. As velas do
bolo da vitória foram sopradas por ele.
Há seis meses ancorado na cidade, desde
quarta-feira Espinoza é deus, aplaudido nos lugares públicos e pode-se transformar
no muso do inverno, sex-symbol
grisalho, com perfil do Marlon Brando, olhos azuis de Paul Newman, pele
bronzeada, sorridente, bem-humorado. Ele adora uma gravata de seda, um blazer,
é soft, chique, mas não dispensa um
ouro vistoso, como o relógio, Vageron
Constantin, que usa no pulso.
Um técnico que poderia fazer um galã bem
sucedido em alguma novela das que gosta de assistir. Como lateral direito do
Grêmio, mesmo no auge de sua forma física, em 69, não conheceu glória semelhante.
Nem como técnico de tantos time. Ele agora saboreia o sucesso, mas teme a
virada dos ventos.
– Penso o tempo todo: isso vai passar. E rezo
para a santa uruguaia Virgem dos 33, para que ela me dê calma pra que eu não me
deslumbre – diz.
Isso não vai ser fácil para esse libriano que
gosta de simplicidade e de fazer amigos. Quando entrou na Churrascaria Porcão –
seu lugar preferido para almoçar ou jantar – na quinta-feira, foi aplaudido e
pensou que as palmas eram para Lima Duarte, que também chegava ao restaurante.
“É, mas o Sassá tem a Clotilde”, brinca. Que nenhuma loura de olhos verdes se
anime. Espinoza é casado há 27 anos com Maria da Graça, sua primeira namorada e
se orgulha de, nessa área, nunca ter trocado de camisa (já que nos últimos dez
anos passou por vários clubes).
Os filhos Rivelino – uma homenagem a um dos
11 maires craques de todos os tempos na sua opinião – de 19 anos, e Alan de 11
e o cocker spaniel Ealam Ibn Marduk
adoram a cidade e não pensam em voltar para Porto Alegre. O Rio seduziu a
família, “com seu estilo e vida solto, alegre, divertido”, explica Espinoza, na
varanda do apartamento do condomínio Pontal
do Bosque, onde mora, na Barra.
– Adorei esse lugar. Minha vida hoje ainda se
resume à Barra e a Marechal Hermes, onde trabalho muitas
horas por dia – conta.
A caminho da sede do clube – via Jacarepaguá
e Vila Valqueire – Espinoza admira as montanhas da cidade e acha isso
relaxante. “Mas sofro com o trânsito, o pior defeito do Rio”, diz. Acorda às
sete da manhã, vai para o clube e volta para almoçar as massas saborosas feitas
por sua mulher.
– Faço questão de preservar hábitos antigos,
a “siesta paraguaia”, por exemplo; um bom sono de uma hora e meia, antes de
voltar aos treinos – conta.
Quando as tardes são livre, Espinoza fica
pelo condomínio onde encontra parceiro para jogar tênis ou vôlei, duas
paixões antigas. O futebol, como conta, foi o último esporte a entrar na sua
vida, quando tava no segundo ano científico. Antes participava de torneios de
vôlei e basquete. Quarto filho de um gráfico – entre cinco irmãos – de repente
descobriu que gostava de jogar bola. Mas só sentiu que era “pé quente” quando
virou técnico. Credita seu sucesso pessoal e profissional, num rasgo de
imodéstia, ao seu alto-astral.
– Quando entro num ambiente e ele está meio
baixo, consigo levantar os ânimos – confessa.
Nada melhor que a vitória do Botafogo para
provar o que diz. Ele chegou manso, falando com calma – a voz é bonita –
costurou o time e levou-o à vitória, sem precisar de chicote.
– Gosto de ficar no mesmo degrau dos jogadores.
Não preciso comandar de cima. Converso, me divirto com eles, aceito as
diferenças de temperamento. Até meus dois filhos têm gênios diferentes – conta.
Cervejeiro declarado, não dispensa várias
garrafas quando vai a churrascarias. Parece conformado com a barriguinha que se
impõe sob as camisas de viscose. “Não há a menor possibilidade de eu fazer uma
ginástica. Abdominal nunca!”, diz.
Nas folgas vai com Maria da Graça ao Shopping da Barra, ver vitrines ou
comprar alguma roupa. É ela quem a escolhe: ele se confessa incapaz de
administrar seu guarda-roupa. Gosta de ternos, de blazers, de gravatas e mocassins mas, para não ferir o figurino
tradicional de técnico, só veste essas roupas quando sai à noite, para ver
shows de Caetano, de Ivan Lins ou de Dóris Monteiro. No seu toca-fitas, também ouve Rosane, Joana, Roberto Carlos e Chitãozinho e Chororó.
– Gosto de todo tipo de música brasileira.
Mas adoro bolero – confessa.
A culpa é certamente do seu nome, Valdir Ataualpa
Ramírez. Por conta do último sobrenome – o mesmo de Spinoza, filósofo holandês
do século XVII –, ele gosta mesmo é de filosofar sobre a melhor forma de colocar
uma bola na rede do time adversário. Melhor para nós, que amamos samba, feijão
e futebol.»
Fonte:
O Globo, 24.06.1989.

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