terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Botafogo 2022-2023: exultações e angústias, um traço persistente (IV)

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Lage, tal como Castro, fez algumas experiências para afinar a equipe e os jogadores inicialmente consideraram muito positivos os ajustamentos. Por exemplo, tentou reforçar o corredor interior com reposicionando de jogadores numa perspectiva de jogo mais vertical, abrindo maior profundidade e capacidade de execução, sobretudo após a lesão de Tiquinho.

Efetivamente, a 7 de agosto a espinha crucial do Botafogo, que era Tiquinho Soares no seu vai-e-vem da defesa ao ataque, e no qual tudo se concentrava, lesionou-se, abrindo espaço ao epicentro da crise técnica da equipe enquanto conjunto.

Lage viu-se na necessidade de corrigir movimentações táticas quando percebeu que sem Tiquinho estava funcionando previsivelmente. Isso afigurava-se normal e Lage até conseguiu, mesmo sem Tiquinho, colecionar 3 vitórias e 3 empates no Brasileirão, o que seria suficiente para continuar com uma liderança robusta, significando que tecnicamente, apesar das dificuldades de alguns ajustamentos que a equipe teria que interiorizar, os problemas poderiam ser ultrapassados, mesmo sem Tiquinho.

No entanto, o jogo com o Flamengo – tal como acontecera com a crise de Castro no Carioca, justamente contra o Flamengo – precipitou novos acontecimentos completamente diferentes. O Botafogo descontrolou-se emocionalmente contra o Flamengo – será isso trauma interno deste século independentemente dos planteis? – e o próprio Bruno Lage evidenciou, durante a Coletiva após a derrota, que do ponto de vista atitudinal é um treinador com problemas emocionais na sua conduta, assumindo uma atitude insensata de publicamente colocar o seu cargo à disposição após mal-estar interno e as críticas que foram feitas pela torcida durante o jogo (a ele e a JP Galvão). Terá sido uma resposta de proteção ao/s jogador/es e provavelmente porque também não sentia solidariedade interna dos bastidores da SAF, que haviam pressionado Textor para manter Caçapa e não contratar Lage.

Porém, como os jogadores não entenderam o argumento da proteção e estavam em atrito com o treinador por não conseguirem interiorizar um modelo mais vertical de jogo, decidiram levar a cabeça de Lage a jogo. 

Foi um momento de angústia. E fatal.

Iniciou-se o descontrolo no Botafogo. O que é absurdo quando Lage mantivera a equipe invicta sob a sua liderança no campeonato até ali e conquistara 12 pontos em 6 jogos. E, na opinião do Mundo Botafogo, a crise iniciada com a lesão de Tiquinho, continuada por Lage após o jogo contra o Flamengo e aprofundada pela oposição interna, pelas críticas muito fortes da torcida e pelos próprios jogadores que se envolveram na polêmica, foi da responsabilidade de todos. Amadorismo comportamental a todos os níveis.

Após três derrotas sucessivas (Flamengo, Atlético Mineiro e Corinthians) em que o regresso de Tiquinho foi uma desilusão, com o atleta se arrastando em campo e sem produzir coisa alguma, eis que Lage barrou Tiquinho no empate por 1x1 com o Goiás contra a vontade de todos, precipitando os acontecimentos.

Provavelmente Lage tinha argumentos racionais para barrar Tiquinho, porque desde a lesão não estava a render e produziu muitíssimo pouco com Lage, Lúcio Flávio e Tiago Nunes. Porém, o modo como Lage o fez inquinou toda a possibilidade de continuar à frente da equipe em razão da conjuntura que se gerara. Vejamos qual.

Lage nunca conseguiu um discurso público atrativo, mostrando-se um mau comunicante. Além de não estar familiarizado com a cultura do país, pode-se verificar, hoje, que o seu problema é muito mais de natureza mental / atitudinal e menos de natureza técnica. Efetivamente teve sucesso no Benfica logo no 1º ano de treinador principal, recuperando 7 pontos de atraso e sagrando-se campeão português, mas no ano seguinte a equipe desperdiçou 7 pontos na liderança e o Benfica perdeu o campeonato, atribuindo-se a sua saída, nos bastidores do futebol, a desavenças de vestiário, lideradas por dois jogadores; no Wolverhampton fez um grande ano seguinte, mas na 2ª época ao serviço do clube inglês teve uma série de maus resultados e foi demitido; no Botafogo começou com 3 vitórias e 3 empates e acabou saindo com derrotas e um mau clima interno no Glorioso.

Raciocinando sobre o assunto, é fácil perceber certas razões: consta que no Benfica criou mal-estar entre os jogadores e os líderes de opinião derrubaram-no; e pode-se admitir que o mesmo ocorreu no Wolverhampton já que no Botafogo sucedeu caso semelhante. Isto é, Lage não tem capacidade de liderança nem de comunicação, o que é fatal para um treinador.

Ora, via-se nas Coletivas o seu pouco à vontade nas respostas – muito longe da assertividade de Castro – e ficou-se a saber que os jogadores não gostaram das suas atitudes públicas e, quiçá, do modo como comunicava com eles.

“Ninguém sabia daquilo! Ficamos a olhar uns para os outros. Chamou a atenção… Foi como ele explicou depois: disse que queria chamar a responsabilidade para ele porque vinha a sentir pressão. […] Alguns jogadores não gostaram da forma como ele se pronunciou. […] Os jogadores começaram a falar num grupo de whatsapp…” – Lúcio Flávio, sobre a ameaça de demissão de Bruno Lage, in Charla Podcast.

Em suma, Lage ditou o seu destino quando colocou o lugar à disposição publicamente de um modo comunicacionalmente muito infeliz. Os jogadores, cientes do seu poder e convictos que tinham muitíssimas capacidades (que não têm), começaram a mexer-se – o que se mostrou absolutamente desastroso – e é claro que também os bastidores do Botafogo já eram adversos a Lage e a torcida não estava morrendo de amores por ele.

Por outro lado, todos estavam embandeirando em arco depois de Caçapa ter desfocado a equipe dos 3 pontos jogo a jogo, introduzindo o foco do título. Um erro crucial seguido por Textor – que aparecia como torcedor de arquibancada gesticulando para os adversários em vez de assumir uma discreta e ponderada atitude de líder –, da torcida que dedicava música a Martín Segovia porque fazia uns dribles improdutivos sem gerar resultados visíveis nem assistências a gol e concretamente produzindo pouquíssimo, que andava pela rua envergando camisetas com o título de campeão brasileiro 2023 e até mesmo tatuagens com os mesmos dizeres – e da galera dos bastidores absolutamente crente que 13 pontos de avanço não eram alcançáveis.

Porém, no futebol só se ganha quando o apito determina o fim do jogo ou, no caso concreto, o fim do campeonato. Em 2009 o Palmeiras de Muricy Ramalho chegou a ter 10 pontos de vantagem sobre o Flamengo, que acabou campeão nesse ano (embora com auxílio dos erros do apito, evidentemente, tal como o mesmo Palmeiras foi altamente beneficiado por erros do mesmo tipo em 2023). Mas melhor ainda fizeram os ‘galáticos’ do Real Madrid – a equipe mais estrelada do mundo à época – que no campeonato espanhol de 2003/2004, contando com Ronaldo Fenômeno, Zinédine Zidane, David Beckham, Raúl e Roberto Carlos, liderava a competição com 7 pontos de vantagem sobre o Valencia a 12 rodadas do fim e acabou em quarto lugar após perder 6 dos últimos 7 jogos, tendo que ir disputar a classificação para a fase de grupos da Champions League, exatamente o que ocorre com o Botafogo na Copa Libertadores em 2024.

Resumindo, Lage acaba por cair após barrar Tiquinho no jogo contra o Goiás, o que do ponto de vista psicológico, sem que fosse explicado com racionalismo e sensatez, seria inaceitável para a torcida. Especialmente porque quando Tiquinho entrou no 2º tempo fez o empate da partida, praticamente na única jogada que lhe saiu bem. Talvez tenha sido um gol ‘perverso’. Se Tiquinho não tivesse marcado teria sido mais evidente que estava ainda completamente fora de forma, como se confirmou nos jogos seguintes – e então talvez Lage tivesse continuado à frente da equipe, apesar dos seus erros atitudinais e se conseguisse evitar o maior equívoco do ano com a escolha de Lúcio Flávio para treinador principal, que agravou consideravelmente a campanha da equipe.

Se o Mundo Botafogo soubesse que a alternativa seria Lúcio Flávio, jamais apoiaria a saída de Lage, fosse pelo que fosse. A sua saída gerou Lúcio Flávio e o fracasso rotundo.

No entanto, com a nomeação, o Mundo Botafogo não quis desapoiar Lúcio Flávio para não ajudar a desestabilizar a equipe, mas quando a dupla L. Flávio e J. Carli foram empossados o editor deste espaço escreveu aqui o seguinte excerto em artigo de opinião a 5 de outubro:

“Todavia, os decisores do Botafogo optaram por oficializar Lúcio Flávio como técnico e Joel Carli como auxiliar. […] Quanto a mim, uma decisão desacertada, porque nem Lúcio Flávio, nem Joel Carli têm qualquer experiência de condução de uma equipe principal. Os resultados da equipe B comandada por Lúcio Flávio são desoladores e de Joel Carli nada se sabe. Ora, face à enorme responsabilidade de se conduzir o Botafogo a um título que há quase três décadas não se concretiza, parece ao editor do Mundo Botafogo que essa decisão é um risco tremendo par todos nós e mesmo para a dupla que agora conduzirá o nosso destino em campo. […] A decisão da cúpula botafoguense faz-nos regressar aos nossos eternos erros de amadorismo, dê ou não dê certa a opção agora tomada, porque não é uma decisão de gestão profissional, sobrecarrega de responsabilidade dois homens que não foram preparados para os novos cargos e é altamente perigosa para as nossas aspirações.”

Relembrando a informação de @PedroUmberto97 sobre “uma galera do dep futebol” relativamente aos bastidores do futebol botafoguense, chegou o momento de se apresentar a citação completa anteriormente mencionada, incluindo a referência à promoção de Lúcio Flávio:

“A info que eu tenho é que existia uma galera do dep de futebol incomodada com a centralização do castro, e por isso o sabotava vazando infos. A mesma coisa aconteceu com o Lage, pra defender a permanência do Caçapa. Essa galera tomou conta quando o LF assumiu o time no final.” – @PedroUmberto97.

Isto é, aos erros de Lage associaram-se equívocos maiores que, juntos, criaram um contexto conturbado que mexeu com o ambiente do Botafogo, em vez de se procurar contornar a crise (que é um dos atributos das lideranças eficazes) e realinhar os protagonistas em torno do interesse maior de conquista do título, serenando os ânimos – e o resultado foi a chegada de mais dois treinadores (L. Flávio e T. Nunes) numa reta final em que a serenidade teria sido fundamental para se evitar a implosão da equipe.

Os gestores do futebol, certamente em coalizão com os principais jogadores do plantel, pressionaram Textor a aceitar a solução caseira de Lúcio Flávio e Joel Carli, e Textor cedeu amadoristicamente aos gestores e aos jogadores.

São as típicas lutas pelo poder interno no Botafogo após os anos de maior Glória futebolística: na década de 1970, na década de 1990, no período 2003-2008 com intrusões permanentes à liderança de Bebeto de Freitas ou durante período posterior até John Textor adquirir maioritariamente o Clube.

Aparentemente, a luta pelo poder retirou discernimento quando se propôs a substituição de Lage por L. Flávio e J. Carli, descartando a hipótese de se procurar um treinador cascudo e de ‘tiro curto’ para reorientar a equipe com celeridade em tempo útil. Porém, o mais significativamente negativo é que Textor tenha seguido os desígnios de ‘soldados’ sem discernimento suficiente, sabendo-se que os generais não seguem soldados, mas o inverso.

E assim o Botafogo ficou sem Líder ao mais alto nível: Thairo Arruda porque não se encontrava apto (independentemente da vontade) para a função exercida ao nível do futebol e John Textor porque abdicou da sua liderança fundamental.

A conquista do poder é uma ação legítima e sempre necessária no médio/longo prazo, mas não à custa da imprudência e de eventuais prejuízos para terceiros – neste caso, a instituição Botafogo de Futebol e Regatas e todos os seus torcedores que fazem do Clube um exemplo de gente apaixonada.

No meio de tudo isto o oba-oba continuava na torcida e John Textor à beira do campo falava em corrupção, atacando publicamente a CBF a propósito das arbitragens e prometendo processos em tribunal, contrariando uma postura de dirigente de topo, que deve tratar destes assuntos ao nível das instituições e não criar ainda mais anticorpos contra nós.

E foi neste estado de precipitações que se entregou a conquista do título a dois comandantes inexperientes e a jogadores cuja resiliência não era deles, como muitos pensavam, mas sim a resiliência que Castro moldou e conseguiu incutir numa equipe muito diversificada que levou muito tempo a unir, cimentar, tornar resiliente e com espírito vencedor, e que desapareceu tão rapidamente como uma chama de fósforo por virtude de erros de todos os intervenientes – incluindo os próprios jogadores.

O que fundamentalmente distingue os humanos de outras naturezas é a racionalidade. Por isso, deve-se começar pelo uso da razão para se chegar a valores e a emoções favoráveis e não começar tudo pelas emoções com risco de se perder o norte dos valores e da racionalidade.

E chegados aqui resta-nos o epílogo, a V e última parte desta análise com a avaliação do período ‘flavista’ e do período ‘nunista’, as conclusões e as lições maiores que se podem tirar para se profissionalizar o Botafogo definitivamente e abrir novas esperanças para o futuro.

Tatuagens (104) - Oba-oba é mau conselheiro...

 
Fonte: https://extra.globo.com; Crédito: arquivo pessoal do autor.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

FELIZ 2024!

 

Botafogo 2022-2023: exultações e angústias, um traço persistente (III)

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Mundo Botafogo acredita que Textor cometeu erros cruciais começando por Giovanna Waksman e Jeffinho. Ainda em 2022, Giovana, de 13 anos, mostrou-se uma revelação superior a Marta, segundo alguns especialistas. Textor tratou de levá-la para a América, preparando-lhe futuro na equipe feminina do Lyon, campeã europeia. E em janeiro de 2023, a grande revelação Jeffinho seguiu para o Lyon, em mais um erro de quem não sabe muito de futebol e aparentemente anseia por colocar Jeffinho na montra europeia para uma elevada venda posterior. Em ambos os casos pode-se admitir que a prioridade de Textor era o Lyon.

Outros erros desembocaram na demissão de Castro, aos quais acrescentou posteriormente novos equívocos fatais.

Apesar de respaldar Castro, Textor não acreditava no que sucedeu a seguir: liderança disparada do Brasileirão. E não cumpriu a promessa de contratações capazes. Nenhuma contratação da janela de transferências revelou mais-valia. Diversos jogadores estrangeiros foram contratados e não renderam. John Textor optou por contratações baratas, e o barato sai caro.

Precisávamos de dois laterais (esquerdo e direito), um zagueiro polivalente, um criador a meio-campo e um atacante ‘matador’ capaz de substituir Tiquinho Soares no comando do ataque. Promessa gorada por falta de qualidade das contratações. Os dois laterais eram essenciais para cobrir problemas que a equipe evidenciou durante todo o ano; o zagueiro para substituir a ausência de Adryelson ou Cuesta; o meio-campista para cobrir quedas de desempenho e melhorar a criação; o atacante ‘matador’ para substituir Tiquinho nas suas ausências e assegurar os gols que ganham os jogos.

Efetivamente, o Mundo Botafogo sempre temeu uma eventual lesão de Tiquinho, porque todo o ataque da equipe foi preparado e centrado nele, e sem ele o ataque desfazia-se por falta de capacidade de comando e de oportunismo de Vítor Sá, Carlos Alberto, Luís Henrique, Júnior Santos ou Martín Segovia. Somente Júnior Santos, já na reta final do Brasileirão, em novembro, honrou o ataque botafoguense. Tal como em 2007, em que o ataque do Botafogo desfez-se com o doping e a ausência de Dodô, também em 2023 ocorreu coisa semelhante com Tiquinho Soares. Algo elementar que qualquer torcedor perceberia, mas que Textor e os responsáveis pelo futebol esqueceram.

Textor olhou muito mais para investir o mínimo possível – e por isso o que investiu na janela de transferência a meio do ano não rendeu – do que capacitar a componente desportiva, omitindo-se de entender que sem sucesso desportivo não alavancaria a valorização dos jogadores, não ajudaria a que os melhores se aproximassem do Clube, não chamaria melhores parceiros publicitários, não faria crescer outras receitas de bilheteira, vendas de camisas ou promoções de artefactos ligados aos jogadores.

Castro estava verdadeiramente insatisfeito com Textor, com o staff de futebol que aparentemente não o desejava e com a falta de reforços. E magoado com os ataques da mídia à equipe e a si próprio, bem como da torcida, porque tinha consciência de saber bem o caminho para o sucesso. E quando alcançou a liderança disparada do Brasileirão sentiu-se ainda mais injustiçado, e eis que subitamente querem-no noutro sítio do mundo.

Recentemente, René Simões, que conheceu Castro de perto, clarificou um aspecto central da personalidade de Castro e do contexto que a maioria de nós não reconheceu à época:

“Penduraram o pescoço dele, pediram para ir embora, saiu vaiado no Campeonato Carioca, estava muito machucado. A torcida machucou muito ele, que é muito sério. Conheci o Castro em um curso, batemos papo por muito tempo e vi a seriedade dele. E a sensibilidade dele. […] Não sei se saiu pelo dinheiro, não acredito que sairia, porque estava para ser campeão, para pegar clubes da Europa. […] E tem também o fato de treinar Cristiano Ronaldo.”

Na opinião do Mundo Botafogo foi tudo isso e outras coisas também: promessas falhadas de Textor, staff não solidário, CEO (Thairo Arruda) sem experiência de futebol para o apoiar eficazmente e dar sequência ao trabalho desenvolvido, xingamentos e ofensas por parte da torcida e ainda a possibilidade de treinar Cristiano Ronaldo e, segundo informações que circularam, Textor terá lhe negado qualquer aumento de salário face à proposta saudita.

Pôs tudo na balança e parece não ter hesitado: Arábia Saudita, muitos milhões, Cristiano Ronaldo e prestígio internacional numa Liga cheia de craques.

O Mundo Botafogo compreende que se queira deixar o local onde não se é grato para rumar a um local onde se é desejado. Porém, Castro nunca será perdoado neste espaço, nem Textor pontualmente pelas suas omissões, nem o staff do departamento de futebol pela falta de solidariedade e por não se ter até hoje entendido a mais-valia de alguns dos seus elementos.

Sobretudo não será perdoado neste espaço porque anunciando sempre como valores essenciais a ética, o caráter e o prestígio, afirmou que nunca fora despedido e cumprira todos os seus contratos, quando na verdade acabou por revelar – certamente já depois de decisão tomada – que em algumas ocasiões houve rompimento de contratos quando pagaram a sua cláusula de rescisão. E ainda mentiu à torcida sobre a sua decisão de sair, porque garantiu que só depois do jogo contra o Magallanes decidiria sobre isso, quando, na verdade, já decidira bastante antes e, segundo circulou, tendo-o comunicado a Textor.

Porém, o Mundo Botafogo considera, principalmente, que Castro foi ingrato com Textor. Quando todos queriam a sua saída, Textor respaldou-o e manteve-o à frente da equipe. Se Textor o tivesse demitido Castro não teria trunfos nem visibilidade para novos convites interessantes no imediato, já que sairia pela porta baixa e sem projeção internacional. E a ingratidão é um dos piores defeitos da humanidade.

Foi um momento de angústia.

De tal modo foi angustiante que a torcida, a partir da saída de Castro, passou a lotar sistematicamente o estádio logo no jogo seguinte contra o Vasco da Gama, dando sinal que iria estar ao lado da equipe líder até ao fim do campeonato.

Textor foi rápido, chamou o brasileiro Cláudio Caçapa do Lyon para aguentar o ‘barco’ até contratar novo treinador. Caçapa aguentou-o bem com 3 vitórias no Brasileirão e 1 vitória na Copa Sul-americana, devendo o seu sucesso a não ter mexido na estrutura da equipe ainda jogando segundo o modelo implementado, além de dar oportunidades a Carlos Alberto. A torcida ovacionou Caçapa e uma boa parte queria-o à frente da equipe, mas não se deve confundir o Caçapa que vinha apenas para realizar 4 jogos com o Caçapa a quem tivesse sido dada continuidade. Ele faria mudanças seguramente e nada garantia que tivesse sucesso, porque faltava-lhe experiência como treinador principal – o que, aliás, aparentemente se tem visto à frente do Molenbeek. Em todo o caso, adotou a postura inteligente de não mexer na equipe, fazendo o quanto baste, embora houvesse pontos fracos ainda a burilar.

As pressões internas para a manutenção de Caçapa e o bloqueio à chegada de Bruno Lage não tiveram eco suficiente em John Textor, que contrariou o departamento de futebol e manteve a sua decisão.

Não obstante a inexperiência como treinador principal, Caçapa foi muito positivo com a conquista de 9 pontos em 3 jogos, mas, ainda assim, cometeu um erro que Castro jamais cometera: pela 1ª vez falou na conquista do título, e esse era assunto tabu para Castro e para o plantel. O Mundo Botafogo defende há muitos anos o que Castro defendeu e depois Bruno Lage também seguiu: treino a treino, jogo a jogo, com foco exclusivamente nos 3 pontos seguintes, evitando-se qualquer distração exterior ao foco definido. Caçapa quebrou a regra e a torcida adotou o discurso. Um erro pelo qual pagamos muito caro.

Foi mais um momento de exultação.

Entretanto, Textor voltou as suas baterias para Bruno Lage. Crê-se publicamente que foi Castro que indicou Lage ao acionista maioritário do Botafogo, mas um rumor que circulou em Lisboa admite que o escolhido inicialmente não fora Castro, mas o próprio Lage, que Textor conheceu. Efetivamente, Textor estivera fascinado pelo Benfica e quis adquirir parte das ações do clube, que acabou por lhe fechar as portas. Nessa altura, Lage estava bem visto, porque fora treinador das bases do Benfica e campeão da equipe principal, e treinava o Wolverhampton com sucesso. Teria sido sondado por Textor, mas não quis sair da Premier League e, segundo consta, foi ele que indicou Luís Castro devido à sua experiência nas bases do Porto e sucesso internacional em curso.

Estando Bruno Lage sem emprego aquando da saída de Castro, Textor voltou à carga e contratou-o, porque reunia o que o empresário desejava: alguém experiente nas bases que assegurasse revelações para a equipe principal, com ida posterior para a Europa e, simultaneamente, que fosse competente na equipe principal.

Bruno Lage chegou aureolado e as coisas até correram razoavelmente bem no início, tendo os jogadores mencionado que Lage estava aprimorando alguns aspetos da equipe em pontos mais fracos, especialmente laterais e meio campo.

A chegada de Lage foi, ainda, um momento de alguma exultação.

É certo que Lage cometeu erros crassos, sobretudo de natureza atitudinal e comportamental que o levaram à demissão, colocando-se numa posição frágil de alvo fácil. Todavia, fora isso, ele procurou resolver o que Textor não quis resolver com contratações adequadas, sobretudo na lateral e no meio campo.

Mesmo sem ter chegado a mostrar os seus eventuais atributos técnicos evidenciados no Benfica e no 1º ano de Wolverhampton, o que precipitou as suas atitudes e as vãs tentativas de superar deficiências técnicas da equipe, foi o verdadeiro epicentro que iniciou o descalabro: a lesão de Tiquinho Soares!

Foi o começo de um conjunto de situações indesejáveis e inimagináveis numa equipe que sem Tiquinho valia menos de metade das suas capacidades técnicas de conjunto e que desde aí foi sucessivamente caindo de produção.

Essa breve Era de Lage, bem como a breve Era de Lúcio Flávio e a falhada ação de Tiago Nunes na tentativa de recuperar uma equipe psicologicamente arrasada, serão objeto da IV Parte da análise ao Botafogo 2022-2023.

Treinadores e contextos (I): de Charles Williams à psicanálise de Nicolas Ladanyi

Charles Williams. Fonte: Wikipédia. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A história dos treinadores do Botafogo de Futebol e Regatas...