segunda-feira, 26 de junho de 2017

Voz de 'Órfãos de uma paixão assassinada'


Enquanto as mesas redondas discutiam as polêmicas da rodada e os programas de TV reprisavam os gols mais bonitos deste domingo (25), a Portuguesa desaparecia do cenário nacional ao ser eliminada na Série D do Campeonato Brasileiro. Os raros minutos de destaque e as tímidas linhas de texto davam conta de uma derrota por 1 a 0 para a Desportiva Ferroviária no Espírito Santo. Como que apenas mais uma entre tantas quedas em uma competição. Um dia certamente alguém que não frequenta as alamedas do Canindé sentirá falta da Lusa e tentará saber por que razão o clube sumiu. Aí virão atrás de nós, os órfãos de uma agremiação assassinada na base da covardia e da omissão.” – Luiz Nascimento, in “Portuguesa, com certeza!”, Blog do Torcedor.

Rayane Rezende

O que é ser botafoguense

Saudade das Ostras do Rio


por LÚCIA SENNA, escritora e cantora
escrito para o blogue Mundo Botafogo

Antes de conhecer o lugarejo, já havia me apaixonado pelo nome: Rio das Ostras. Criei todo um cenário de ludicidade para aquele balneário da Região dos Lagos. Posso dizer que não me decepcionei quando lá estive pela primeira vez, há algumas décadas. Rio  das Ostras era mais que um sonho; era real! Lá, tudo, absolutamente tudo, cheirava a poesia, a começar pelas ruas que ganhavam nomes deliciosamente charmosos: Rua das Corujas, dos Guaiamuns, das Formigas, dos Caranguejos.

Os Flamboyants, sempre floridos, invadiam a cidade e eram deslumbrantes nas suas variadas tonalidades que iam do rosa pálido ao vermelho paixão. No verão, eram as cigarras – criaturinhas extraordinárias, com sabor de notas musicais – que neles vinham procurar abrigo.

Além dos Flamboyants, as Amendoeiras também exibiam toda a sua majestade! Trazidas da Índia, de onde são nativas, adaptaram-se tão bem ao nosso clima tropical que pareciam crescer com alegria, cheias de vida, porto seguro para dezenas de pássaros que ali faziam seus ninhos, bem escondidinhos, protegidos pelas densas copas desta extraordinária árvore, tal qual uma mãe a agasalhar seus filhotes.

No outono, antes de caírem, suas folhas nos proporcionavam um espetáculo incomum.  A natureza, faceira como ela só, pincelava-as com inúmeros tons de amarelo, laranja e vermelho, formando um tapete multicolorido de impressionante beleza, mais parecendo um dos quadros de Van Gogh, mestre do expressionismo, que um dia teve a ousadia de ‘libertar’ as cores!

As praias desertas e selvagens, de mar calmo e águas transparentes, eram um convite irrecusável ao mergulho, orgulho de alguns pescadores que por ali habitavam.  À noite, enquanto realizavam o ritual secular da pesca, contavam, para quem quisesse ouvir, suas deliciosas e exageradas histórias vividas no mar que, a mim, confesso, deixavam-me fascinada.

Do nada, já estava eu acreditando em sereias que, com seu magnífico canto, afundavam os barcos; das temíveis baleias rondando as traineiras, atraídas pelo forte cheiro de peixes vindo da embarcação; de Iemanjá, rainha do mar, enfeitiçando os pescadores com sua beleza infinita. Eram "causos" e mais "causos" que só terminavam quando a lua já ia alta e o cansaço acabava por vencer aqueles verdadeiros heróis anônimos que, dia após dia, enfrentavam o mar em busca da sobrevivência e que, muitas vezes, misteriosamente, de lá não voltavam...

Mas deslumbrante mesmo, sereno e encantador, era olhar o céu estrelado de Rio das Ostras em uma noite de luar. Uma infinidade de astros, ali tão pertinho, tão ao nosso alcance, que podíamos jurar que, estendendo bem os braços, sem muito esforço, tocaríamos as Três Marias ou, quem sabe, seríamos capazes de agarrar uma estrela cadente pela cauda e, em profundo silêncio, como reza a lenda, fazer três pedidos. Ela prontamente atenderia.

A lua, soberana, cobria com sua luz toda a extensão do mar que, envaidecido por estar tão belo, quebrava suas ondas na praia fazendo grande estardalhaço, com a clara intenção de exibir sua imagem narcísica, de modo a atrair todos que por ali passavam.

A noite ainda nos reservava muitas outras emoções.  Eram as corujas que se escondiam nas sombrias árvores, piando o seu pio um tanto ou quanto misterioso e amedrontador, fazendo-nos crer que a magia era possível e era real. Eram os vaga-lumes, piscando e piscando para alegria da criançada que saia correndo atrás daquelas luzinhas verdes que se acendiam e se apagavam, em frenético ritmo.

Eram ainda os sapos que, com suas vozes de tenores, entoavam verdadeiras sinfonias na calada da noite. Eram os morcegos que, com seus voos rasantes por cima das nossas cabeças, vinham em busca dos frutos das amendoeiras...

E era um vento pra lá de gostoso que se metia por dentro das folhagens das árvores, produzindo um som tão agradável que a vontade que se tinha era a de dormir ao relento fazendo, como dizia a antiga cantiga de ninar, "das pedras, travesseiro e das estrelas cobertor ".

Hoje, tudo mudou. Os nomes das ruas perderam a poesia. Homenageiam prefeitos, nobres deputados e senadores. A minha, antes denominada Rua dos Sabiás, passou a se chamar Elba de Pádua Lima. Flamboyants e Amendoeiras perderam espaço para a fúria imobiliária. Cigarras, corujas, vaga-lumes e morcegos, em protesto, bateram asas em retirada. As praias há muito deixaram de ser desertas e selvagens. A selvageria fica por conta dos turistas que chegam em ônibus lotados e que mal-educados deixam um rastro de imundície por onde quer que passam.  O céu estrelado perdeu o esplendoroso brilho para a poluente iluminação de mercúrio.

E a vontade de dormir ao relento, ao som do vento, arrefeceu-se. No lugar das pedras, asfalto. Ao invés de brilhantes estrelas, luzes artificiais. E por todo canto, o meu triste e nostálgico canto de saudade daquele RIO que passou em minha vida e meu coração se deixou levar...

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Crédito: mercadoazul.pt . por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo Domingos Paulo Andrade nasceu no dia 7 de maio de 2003, em Luanda, ...