sexta-feira, 13 de março de 2026

A VARANDA ENCANTADA

Arquivo pessoal.

por SOL DE ANLAREC | Colunista do Mundo Botafogo

Há cerca de 25 anos trouxe para casa os vasos de plantas de minha mãe. Ela era uma mulher simples que adorava ter por perto nem que fosse um vasinho, desde que com algo verde dentro.

Não importava onde morássemos. Mesmo nos lugares mais apertados, ela sempre dava jeito de cuidar de alguma plantinha. Lembro-me, em especial, de uma com cachos perfumados, que ela apelidou de “rosa menina”, talvez pela delicadeza das miúdas pétalas que se fechavam em alvos botõezinhos tingidos suavemente por uma nuance rosada. Somente vi essa flor na infância. Anos mais tarde, na tentativa de resgatar essa lembrança, pus-me a procurá-la em feiras de plantas. Foi inútil. Ninguém a conhecia.

Mamãe sabia os nomes de árvores e matos variados. Em meio à Natureza, também gostava de coletar recuerdos, ― aquelas pequenas coisas que lhe capturavam a atenção ― tais como: pedrinhas com formatos interessantes, penas coloridas, florezinhas mimosas, sementes com desenhos estranhos, conchinhas exóticas, qualquer coisa...

Examinava as peças com interesse e depois partilhava comigo seus preciosos achados. Eu olhava rápido, soltava um muxoxo displicente, julgando que minha mãe perdia tempo com besteiras.

Quando percebia que suas plantas precisavam de um trato, lá me requisitava para irmos “pegar terra”. Traduzindo: iríamos para algum parque da cidade e ela, após esquadrinhar o terreno, localizaria a “terra boa”. Daí começaríamos a cavar até juntar as sacolas suficientes.

De volta à casa, mamãe punha literalmente as mãos à obra. Munida apenas de uma faca, passaria a retirar a terra velha, cortar as raízes, dividir as mudas, e replantar as mais fortes no novo composto, para que ganhassem força.

Eu não me envolvia com esse processo e nem lhe dava a mínima atenção.

O interesse pelas plantas veio muito tempo depois.

Eis que ao trazer os vasos deixados por ela, pus todos em minha varanda. Lá ficaram de forma meio desordenada.

Olhando para o espaço, pouco a pouco fui sentindo a necessidade de ter mais cor no meu entorno. Não queria apenas os Cafés-de-salão, os Lírios-da-paz e nem as Samambaias que trouxera. Queria coisas que dessem flores. Precisava de alegria!

Comecei adquirindo uma Buganvília com flores laranja ― cor que adoro ― e, para meu espanto, na florada seguinte surgiram flores rosa. Espantada, fui reclamar com o vendedor, que, então, esclareceu que se tratava de uma espécie híbrida com floradas alternadas de cada cor.

Comprei depois dois bonsais: um de Ficus, por gostar da arvorezinha com folhas verdes manchadas por um amarelo pálido, e o outro com uma Pata de Elefante. Um dia me enchi e resolvi mudá-los para vasos maiores. Surpresa! Os pequenos seres adoraram a liberdade: o Ficus abriu muitos galhos e agora está mais alto do que eu, enquanto a Pata de Elefante desenvolveu-se tanto que passou a exibir algo semelhante a duas longas cabeleiras verdes, as quais, vez ou outra, tenho que aparar.

Nem tudo foi para a frente, contudo. Decepcionei-me com as begônias, bromélias e outras folhagens vistosas, cujos desenhos e cores aprecio ― como Crótons e Marantas―, que não se adaptaram ao ambiente e tiveram uma vida breve.

Do gênero exótico, lembro-me, em especial, das Gloxínias que via na casa de minha tia e que me encantavam com seus formatos e cores vibrantes. Muito gentilmente, ela preparou-me vasinhos com alguns exemplares. Felicíssima, trouxe-os para a varanda, mas, depois de um tempo, as plantinhas não sobreviveram. Fiquei frustrada e desisti das gloxínias...

Eis que chegou a pandemia...

Presa em casa, passei a aproveitar o sol da manhã. Sentada na varanda, foquei a atenção nos jarros à minha volta. Devagarzinho foi despontando em mim um sentimento de agradecimento àquelas plantas, que me brindavam com cores, formas e, principalmente, beleza. Pequenas belezas, quase que surgidas por magia...

Naquele momento tão triste e complicado, tive noção do conforto que sentia ao olhar para o microcosmo que me cercava. Curiosa, passei a observá-lo pela lente da câmera do celular. Abriu-se um mundo de coisas despercebidas até então como, por exemplo, as gavinhas espiraladas de um pé de maracujá, dotadas de uma impressionante riqueza de detalhes. Fascinada pelos formatos caprichosos, habituei-me a fotografá-los e publicá-los sob o título de “Enrolados”.

Outro exemplo foram as flores dos Kalanchoés ― arranjadas pela Natureza em miúdos buquês ― que, quando vistas ampliadas, se revelam extremamente fotogênicas: o desenho das pétalas e as cores belíssimas são atrativos para as abelhas.

No quesito “atração”, as flores da Buganvília são as estrelas da varanda ― beija-flores e passarinhos amarelos pousam em seus galhos para breves descansos.

Em alguns períodos do ano, as rolinhas aparecem e, espaçosas como ninguém, circulam pelo ambiente sempre aos pares. Namoradeiras que são, levam grande parte do tempo se catando e catando o companheiro, em adoráveis cenas românticas. Sem pudores, se metem dentro dos vasos e ficam lá, deitadinhas, nos seus arrulhos. Um pequeno musgo acabou não resistindo a tantos carinhos!

Eis que um dia, divagando sobre o cenário que tinha diante de mim, percebi que algumas daquelas plantas já faziam parte do meu cotidiano há muitas décadas.

Espantada, calculei que se tratava das descendentes das que minha mãe cuidara cerca de trinta anos atrás! Uma jiboia ― que quase desapareceu há alguns meses por conta de uma praga – é um dos exemplos. Suas folhas, em formato de corações, geram belas imagens fotográficas.

Compreendo agora a admiração que minha mãe tinha perante a Natureza. Quanta magia já presenciei nessa varanda!

Fiquei perplexa quando uma Suculenta – já velha de guerra – começou a florir. O mesmo se repetiu quando encontrei, por acaso, as incríveis flores da Espada de São Jorge e da Zamioculca escondidas em meio às touceiras.

É encantadoramente mágico ver minúsculos tomates e pimentões brotarem dos restos orgânicos que uso para adubar os vasos. Parecem de brinquedo!

Mais magia aparece no desenvolvimento dos Arantos e das Orquídeas.

Para essas últimas, a mágica se faz de forma particular, quando notamos surgirem pequenos botões nos estranhos galhos que parecem dedos de bruxa. A cada dia, eles crescem até atingir o tamanho que a Natureza determinou. Daí para a frente, inicia-se sua lenta abertura, que culminará no momento em que a magia decidir revelar ao mundo a exuberância delicada da mais feminina das flores.

Por tudo isso, Leitor, concluí que minha varanda é mesmo encantada, afinal, onde mais posso ver uma árvore que dá flores em duas tonalidades e uma outra com uma longa cabeleira verde? Onde posso descobrir flores em arbustos de que não suspeitava e me surpreender com outras extremamente sensuais? E onde posso me divertir com pequeninas colheitas e terminar sendo voyeur dos encontros de aves enamoradas?

Assim, convido-o a partilhar dessa experiência: corra agora mesmo para a sua varanda (ou para qualquer outro canto da casa onde tenha uma plantinha) e olhe atentamente!

Descobriu a magia que anda acontecendo por lá?

Nota do Mundo Botafogo: todas as crônicas da autora podem ser lidas na etiqueta/rubrica com a seguinte denominação: letras soldeanlarec.

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A VARANDA ENCANTADA

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