por SOL DE ANLAREC |
Colunista do Mundo Botafogo
Há cerca de
25 anos trouxe para casa os vasos de plantas de minha mãe. Ela era uma mulher
simples que adorava ter por perto nem que fosse um vasinho, desde que com algo
verde dentro.
Não
importava onde morássemos. Mesmo nos lugares mais apertados, ela sempre dava
jeito de cuidar de alguma plantinha. Lembro-me, em especial, de uma com cachos
perfumados, que ela apelidou de “rosa menina”, talvez pela delicadeza das
miúdas pétalas que se fechavam em alvos botõezinhos tingidos suavemente por uma
nuance rosada. Somente vi essa flor na infância. Anos mais tarde, na tentativa
de resgatar essa lembrança, pus-me a procurá-la em feiras de plantas. Foi
inútil. Ninguém a conhecia.
Mamãe sabia
os nomes de árvores e matos variados. Em meio à Natureza, também gostava de
coletar recuerdos, ― aquelas pequenas coisas que lhe capturavam a
atenção ― tais como: pedrinhas com formatos interessantes, penas coloridas,
florezinhas mimosas, sementes com desenhos estranhos, conchinhas exóticas,
qualquer coisa...
Examinava as
peças com interesse e depois partilhava comigo seus preciosos achados. Eu
olhava rápido, soltava um muxoxo displicente, julgando que minha mãe perdia
tempo com besteiras.
Quando
percebia que suas plantas precisavam de um trato, lá me requisitava para irmos
“pegar terra”. Traduzindo: iríamos para algum parque da cidade e ela,
após esquadrinhar o terreno, localizaria a “terra boa”. Daí começaríamos a
cavar até juntar as sacolas suficientes.
De volta à
casa, mamãe punha literalmente as mãos à obra. Munida apenas de uma faca,
passaria a retirar a terra velha, cortar as raízes, dividir as mudas, e
replantar as mais fortes no novo composto, para que ganhassem força.
Eu não me
envolvia com esse processo e nem lhe dava a mínima atenção.
O interesse
pelas plantas veio muito tempo depois.
Eis que ao
trazer os vasos deixados por ela, pus todos em minha varanda. Lá ficaram de
forma meio desordenada.
Olhando para
o espaço, pouco a pouco fui sentindo a necessidade de ter mais cor no
meu entorno. Não queria apenas os Cafés-de-salão, os Lírios-da-paz e nem as
Samambaias que trouxera. Queria coisas que dessem flores. Precisava de alegria!
Comecei
adquirindo uma Buganvília com flores laranja ― cor que adoro ― e, para meu
espanto, na florada seguinte surgiram flores rosa. Espantada, fui reclamar com
o vendedor, que, então, esclareceu que se tratava de uma espécie híbrida com
floradas alternadas de cada cor.
Comprei
depois dois bonsais: um de Ficus, por gostar da arvorezinha com folhas verdes
manchadas por um amarelo pálido, e o outro com uma Pata de Elefante. Um dia me
enchi e resolvi mudá-los para vasos maiores. Surpresa! Os pequenos seres
adoraram a liberdade: o Ficus abriu muitos galhos e agora está mais alto do que
eu, enquanto a Pata de Elefante desenvolveu-se tanto que passou a exibir algo
semelhante a duas longas cabeleiras verdes, as quais, vez ou outra, tenho que
aparar.
Nem tudo foi
para a frente, contudo. Decepcionei-me com as begônias, bromélias e outras
folhagens vistosas, cujos desenhos e cores aprecio ― como Crótons e Marantas―,
que não se adaptaram ao ambiente e tiveram uma vida breve.
Do gênero
exótico, lembro-me, em especial, das Gloxínias que via na casa de minha tia e
que me encantavam com seus formatos e cores vibrantes. Muito gentilmente, ela
preparou-me vasinhos com alguns exemplares. Felicíssima, trouxe-os para a
varanda, mas, depois de um tempo, as plantinhas não sobreviveram. Fiquei
frustrada e desisti das gloxínias...
Eis que
chegou a pandemia...
Presa em
casa, passei a aproveitar o sol da manhã. Sentada na varanda, foquei a atenção
nos jarros à minha volta. Devagarzinho foi despontando em mim um sentimento de
agradecimento àquelas plantas, que me brindavam com cores, formas e, principalmente,
beleza. Pequenas belezas, quase que surgidas por magia...
Naquele
momento tão triste e complicado, tive noção do conforto que sentia ao olhar
para o microcosmo que me cercava. Curiosa, passei a observá-lo pela lente da
câmera do celular. Abriu-se um mundo de coisas despercebidas até então como,
por exemplo, as gavinhas espiraladas de um pé de maracujá, dotadas de uma
impressionante riqueza de detalhes. Fascinada pelos formatos caprichosos,
habituei-me a fotografá-los e publicá-los sob o título de “Enrolados”.
Outro
exemplo foram as flores dos Kalanchoés ― arranjadas pela Natureza em miúdos
buquês ― que, quando vistas ampliadas, se revelam extremamente fotogênicas: o
desenho das pétalas e as cores belíssimas são atrativos para as abelhas.
No quesito
“atração”, as flores da Buganvília são as estrelas da varanda ― beija-flores e
passarinhos amarelos pousam em seus galhos para breves descansos.
Em alguns
períodos do ano, as rolinhas aparecem e, espaçosas como ninguém,
circulam pelo ambiente sempre aos pares. Namoradeiras que são, levam grande
parte do tempo se catando e catando o companheiro, em adoráveis cenas
românticas. Sem pudores, se metem dentro dos vasos e ficam lá, deitadinhas, nos
seus arrulhos. Um pequeno musgo acabou não resistindo a tantos carinhos!
Eis que um
dia, divagando sobre o cenário que tinha diante de mim, percebi que algumas
daquelas plantas já faziam parte do meu cotidiano há muitas décadas.
Espantada,
calculei que se tratava das descendentes das que minha mãe cuidara cerca de
trinta anos atrás! Uma jiboia ― que quase desapareceu há alguns meses por conta
de uma praga – é um dos exemplos. Suas folhas, em formato de corações, geram
belas imagens fotográficas.
Compreendo
agora a admiração que minha mãe tinha perante a Natureza. Quanta magia já
presenciei nessa varanda!
Fiquei
perplexa quando uma Suculenta – já velha de guerra – começou a florir. O mesmo
se repetiu quando encontrei, por acaso, as incríveis flores da Espada de São
Jorge e da Zamioculca escondidas em meio às touceiras.
É
encantadoramente mágico ver minúsculos tomates e pimentões brotarem dos restos
orgânicos que uso para adubar os vasos. Parecem de brinquedo!
Mais magia
aparece no desenvolvimento dos Arantos e das Orquídeas.
Para essas
últimas, a mágica se faz de forma particular, quando notamos surgirem pequenos
botões nos estranhos galhos que parecem dedos de bruxa. A cada dia, eles
crescem até atingir o tamanho que a Natureza determinou. Daí para a frente,
inicia-se sua lenta abertura, que culminará no momento em que a magia decidir
revelar ao mundo a exuberância delicada da mais feminina das flores.
Por tudo
isso, Leitor, concluí que minha varanda é mesmo encantada, afinal, onde mais
posso ver uma árvore que dá flores em duas tonalidades e uma outra com uma
longa cabeleira verde? Onde posso descobrir flores em arbustos de que não
suspeitava e me surpreender com outras extremamente sensuais? E onde posso me
divertir com pequeninas colheitas e terminar sendo voyeur dos encontros de aves enamoradas?
Assim, convido-o a partilhar dessa experiência: corra agora mesmo para a sua varanda (ou para qualquer outro canto da casa onde tenha uma plantinha) e olhe atentamente!
Descobriu a magia que anda acontecendo por lá?
Nota do Mundo Botafogo: todas as crônicas da autora podem ser lidas na etiqueta/rubrica com a seguinte denominação: letras soldeanlarec.

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