por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de 1966,
disputada em Inglaterra, ficou marcada pela primeira vitória inglesa na
competição mundial, pela afirmação de Eusébio como artilheiro da Copa, pela
campanha histórica de Portugal, pela surpresa da Coreia do Norte e por uma das
finais mais discutidas da história do futebol. A Copa decorreu entre 11 e 30 de
julho de 1966, com 16 seleções, 32 jogos e 89 golos.
O grande acontecimento foi
indiscutivelmente a vitória da Inglaterra, orientada por Alf Ramsey, que
derrotou a Alemanha Ocidental por 4x2 após prolongamento, no Estádio de
Wembley. Foi o primeiro título mundial inglês e continua a ser o único da sua
história.
A final teve enorme carga
simbólica porque se jogava em Wembley, perante cerca de 97 mil espectadores,
com a entrega da Taça Jules Rimet pela Rainha Isabel II. A Inglaterra
transformou esse jogo num momento fundador da sua memória futebolística.
A final começou com golo alemão
de Helmut Haller, mas Geoff Hurst empatou ainda na primeira parte. Já perto do
fim, Martin Peters colocou a Inglaterra em vantagem, mas Wolfgang Weber fez o
2x2 no último minuto, levando o jogo para prorrogação.
Na prorrogação surgiu a grande
controvérsia: um remate de Geoff Hurst bateu no travessão, ressaltou em cima da
linha da meta, não a ultrapassando totalmente, e o árbitro apitou para
escanteio. Todavia, perante os festejos de gol dos ingleses, o árbitro suíço
Gottfried Dienst foi consultar o assistente soviético Tofiq Bahramov e o gol
foi validado. A fortíssima dúvida sobre se a bola ultrapassou totalmente a
linha tornou-se uma das discussões mais persistentes da história dos Mundiais,
mas… a final disputava-se em Inglaterra...
Hurst ainda marcou o quarto gol
inglês, completando um feito raríssimo: tornou-se o primeiro jogador a marcar
um hat-trick numa final da Copa do
Mundo.
Para Portugal, 1966 foi uma
edição absolutamente histórica. Na sua primeira participação num Mundial, a
Seleção Portuguesa terminou em 3º lugar, a melhor classificação de sempre do
país na competição. O grande protagonista foi Eusébio, apelidado de ‘Diamante
Negro’, que terminou como artilheiro do torneio, com 9 gols.
Eusébio marcou golos decisivos, liderou a equipa nos momentos mais difíceis e tornou-se uma das figuras centrais do futebol mundial. A prestação em Inglaterra consolidou a sua dimensão internacional e fez da seleção portuguesa uma das equipas mais marcantes da competição.
Uma das grandes peripécias do
Mundial aconteceu nos quartas-de-final, em Goodison Park, na cidade de
Liverpool: Portugal venceu a Coreia do Norte por 5x3, depois de estar perdendo
por 3x0.
A Coreia do Norte surpreendeu
tudo e todos ao marcar três golos a Portugal com apenas 25’ de jogo. Depois,
Eusébio assumiu o jogo e marcou quatro gols, conduzindo Portugal a uma
reviravolta extraordinária; José Augusto marcou o quinto. Este jogo ficou como
uma das recuperações mais célebres da história de Copas do Mundo.
Antes desse jogo com Portugal, a
Coreia do Norte já tinha protagonizado uma das maiores surpresas da competição
ao vencer a Itália por 1x0 na fase de grupos, resultado que eliminou os
italianos e colocou os norte-coreanos nos quartas de final.
Foi um choque para o futebol
europeu. A Itália, uma potência histórica, caiu perante uma seleção quase
desconhecida no cenário internacional. Esse resultado continua a ser recordado
como uma das maiores surpresas da história dos Mundiais.
Portugal encontrou a Inglaterra
nas semifinais, em Wembley. A equipa portuguesa perdeu por 2x1, com dois golos
de Bobby Charlton para os ingleses e um golo de Eusébio, de grande penalidade,
para Portugal. Apesar da derrota, Portugal ainda venceu a União Soviética por
2x1 no jogo do terceiro lugar e terminou no pódio.
Essa campanha teve enorme
importância histórica: Portugal passou de estreante a uma das seleções mais
admiradas da competição, com um futebol tecnicamente forte e com Eusébio como
referência maior.
A Copa não foi isenta de
peripécias curiosas. O argentino Antonio Rattín foi o primeiro atleta a ser
expulso num jogo de seleções em Wembley porque o árbitro alemão Rudolf
Kreitlein não gostou da forma como ele o olhou nos olhos. Rattín sentou-se
junto à linha lateral e levou 10 minutos a sair de campo, escoltado pela
polícia. Este incidente levou a FIFA a instaurar os cartões amarelo e vermelho,
que começariam em 1970, para facilitar a comunicação entre árbitros e jogadores
que falassem idiomas diferentes.
A Copa de 1966 também teve a primeira mascote da competição, o leão Willie, mas a peripécia mais curiosa ocorreu antes do início da competição. A Taça Jules Rimet foi roubada em Londres, em março de 1966, durante uma exposição filatélica. Dias depois foi encontrada embrulhada em jornal, por um cão chamado Pickles, durante um passeio com o seu dono, em South London.
O episódio tornou-se lendário:
antes de a bola começar a rolar, o Mundial já tinha uma história de mistério,
polícia, imprensa e um cão transformado em herói nacional.
Pickles virou celebridade, ganhou
prêmios monetários, programas de televisão e comida gratuita por um ano. Morreu
tragicamente no ano seguinte estrangulado acidentalmente pela coleira quando perseguia
um gato. A coleira que usava quando encontrou o troféu está em exposição no
National Football Museum, em Manchester.
Tal como em 1962, a Copa do Mundo
de 1966 teve 89 gols em 32 jogos, o que revela uma competição relativamente
equilibrada e menos aberta do que outras edições mais ofensivas. A Inglaterra
de Alf Ramsey ficou associada a uma organização tática forte, com uma equipa
compacta, disciplinada e muito eficaz,além de arbitragens 'amigas'.
Foi também um Mundial de
afirmação do futebol moderno: maior atenção à preparação física, ao controlo
tático do jogo e à gestão estratégica das diferentes fases da competição.
Em resumo, a Copa do Mundo de
1966 ficou na história pela vitória da Inglaterra em Wembley, pelo golo
polémico de Geoff Hurst na final, pela extraordinária campanha de Portugal,
pelos 9 golos de Eusébio, pela surpresa da Coreia do Norte contra a Itália, pela
reviravolta portuguesa de 0x3 aos 25’ para 5x3 no final da partida e pelo
episódio quase cinematográfico do roubo e recuperação da Taça Jules Rimet pelo
cão Pickles. Foi um Mundial de forte carga simbólica, polémica e
desportivamente decisivo para a memória do futebol europeu.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Inglaterra 4x2 Alemanha Ocidental
» Gols: Geoff Hurst, aos 18’, 101’ e 120’, e
Martin Peters, aos 78’ (Inglaterra); Helmut Haller, aos 12’, e Wolfgang Weber,
aos 90’ (Alemanha Ocidental)
» Data: 30.07.1966
» Local: Estádio de Wembley, em Londres (Inglaterra)
» Público: 96.924 espectadores
» Árbitro: Gottfried Dienst
(Suíça); Assistentes: Tofiq Bahramov (União Soviética) e Karol Galba (Tchecoslováquia)
» Inglaterra: Gordon Banks; George Cohen, Jack Charlton, Bobby Moore,
Ray Wilson; Nobby Stiles, Alan Ball, Bobby Charlton, Martin Peters; Geoff
Hurst, Roger Hunt. Técnico: Alf Ramsey.
» Alemanha Ocidental: Hans Tilkowski; Horst-Dieter Höttges, Willi
Schulz, Wolfgang Weber, Karl-Heinz Schnellinger; Franz Beckenbauer, Wolfgang
Overath; Helmut Haller, Uwe Seeler, Sigfried Held, Lothar Emmerich. Técnico:
Helmut Schön.
Fontes principais: en.wikipedia.org; Facebook
Sports Directory; maisfutebol.iol.pt; www.britannica.com; www.fifa.com.



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