por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
Em publicações anteriores encontramos associações
diretas e indiretas da expressão ‘Botafogo’ relacionadas tanto ao Bairro de
Botafogo como ao Clube do mesmo nome.
Quanto ao Clube Botafogo de Futebol e Regatas
foram referidas em recentes publicações do Mundo Botafogo associações
simbólicas, institucionais e desportivas relacionadas às atividades desportivas
que dominavam o panorama social carioca nos fins do século XIX e inícios do
Século XX, destacando-se o futebol, o remo e o turfe, mas também o ciclismo e,
nesta publicação, a tourada.
Não há uma relação direta ou indireta da
tourada com o nosso Clube, mas, uma vez mais, foi o quinto ‘desporto’ que mais se
destacou no final do século XIX no Rio de Janeiro, e particularmente no Bairro
de Botafogo.
É discutível sobre como classificar a
tourada. É desporto?... É arte?... Ou é simplesmente uma atividade de diversão
violenta e sangrenta vinda do fundo dos tempos ‘bárbaros’, inspirada na caça ao
touro bravo iniciada na Península Ibérica (Espanha e Portugal) no século III
a.C.?...
Seja como for, o jornal O Paiz noticiava touradas
na coluna ‘Diversões’, sob a rúbrica ‘Sport’, em 1888, mostrando que a
tauromaquia era parte integrante do vocabulário desportivo da época.
Uma década antes, em 1877, foi fundado o
Clube Tauromáquico, no Rio de Janeiro, que reunia amadores que participavam em
touradas sem cunho profissional, cujos sócios organizavam atividades
tauromáquicas tratando-as como exercício físico ligado à ginástica e à coragem.
Assim, tal noção de tauromaquia aproximava-a à
lógica dos clubes desportivos, que dispõem de diretoria, associados, realização
de eventos e arrecadação de renda diretamente ligados a uma designada
‘performance física’.
Essas atividades não têm relação direta ao
Clube Botafogo, mas pertencem à história da formação da cultura desportiva
carioca em que o Bairro de Botafogo desempenhou um papel crucial na viragem do
século XIX para o século XX.
A ligação mais forte da tourada é com o
topónimo Botafogo, porquanto na década de 1870 existia uma praça de touros no
‘Caminho Novo de Botafogo’, que era uma arena muito concorrida pela população
carioca e nela se apresentou o Clube Tauromáquico.
Mais tarde, em 1883, foi inaugurada outra
praça de touros no ‘Caminho Velho de Botafogo’, que tinha sempre em torno de
mil pagantes por evento. Em outros bairros do Rio de Janeiro também existiam
algumas praças de touros, especialmente nas Laranjeiras.
No século XIX, grande parte da área que
atualmente compreende o atual bairro do Flamengo, particularmente nas
proximidades da praia e das vias importantes, era parte integrante da região ou
freguesia de Botafogo, principalmente os caminhos velho e novo de Botafogo onde
se desenrolavam as atividades tauromáquicas.
Portanto, as touradas passavam-se no Botafogo
urbano e tinham uma forte presença da colônia portuguesa, designadamente
comerciantes, industriais e instituições lusitanas envolvidas, como o Liceu
Literário Português e o Gabinete Português de Leitura, ambientes ligados à
organização das ‘festas tauromáquicas’ e cuja arrecadação se destinava à defesa
de causas sociais.
Consequentemente, tais festas eram
impregnadas por um ambiente luso-carioca, parecido com o universo social dos
clubes, e faziam parte do circuito de entretenimento urbano do Bairro de
Botafogo e da Cidade, consolidando a sociabilidade urbana e os espetáculos
desportivos nos finais do século XIX.
‘Botafogo’ enquanto Bairro surge na geografia
das antigas praças de touros do Rio de Janeiro de modo direto, não havendo
relação específica da tourada ao Botafogo de Futebol e Regatas, embora o Clube
pertença ao mesmo processo de formação da cultura desportiva urbana carioca.
A não ser que…
…se relate que há quatro anos o Clube
Botafogo também ficou simbolicamente ligado a uma espécie de tourada por via da
linguagem jornalística: no dia 17 de abril de 2022, após o Botafogo de Futebol
e Regatas ter vencido o Ceará por 3x1, na Arena Castelão, com dois gols de
Erison, o Terra/Lance publicou a manchete
“Tourada! Erison
brilha, Botafogo supera Ceará e vence a primeira no Brasileirão”
O texto, referente à 2ª rodada do Brasileirão
de 2022, mencionou que “foi noite de
tourada no Nordeste. […] O ‘Touro’
deixou Messias para trás”, acrescentando que “o Touro ficou maluco!” E foi assim que o atacante Erison ganhou o
apelido de ‘El Toro’, devido à sua robustez física rasgando zagas inteiras, e o
Botafogo ganhou uma associação moderna e simbólica às touradas devido ao seu
‘Touro’ lidar, ludibriar e vencer brilhantemente o seu oponente na arena dele.
[Nota final: A tourada começou a ser
contestada na viragem do século, sobretudo por pate da Sociedade Protetora dos
Animais, que pressionou os poderes instituídos, e as touradas foram proibidas no
Rio de Janeiro pelo Decreto nº 1.173, de 12 de maio de 1908; mais tarde, o
governo de Getúlio Vargas publicou o Decreto nº 24.645, de 10 de julho de 1934,
que proibiu as touradas em todo o território nacional.]
Fontes principais:
cev.org.br; multi.rio; riomemorias.com.br; www.terra.com.br.


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