sexta-feira, 12 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1954: o duvidoso ‘Milagre de Berna’

Cartaz da Copa do Mundo de 1954. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 1954, disputada na Suíça entre 16 de junho e 4 de julho, foi uma das edições mais espetaculares e estranhas da história: muitos gols, formato pouco comum, violência em campo, chuva, calor extremo, uma Hungria aparentemente imbatível e, no fim, uma das maiores surpresas de sempre – o ‘Milagre de Berna’, com a Alemanha Ocidental campeã.

A grande favorita era a Hungria, a equipa dos ‘Mágicos Magiares’, com Ferenc Puskás, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik, Zoltán Czibor e Gyula Grosics. A equipa vinha invicta há anos, era campeã olímpica e já tinha humilhado a Inglaterra em Wembley por 6x3 em 1953 e por 7x1 em Budapeste pouco antes do Mundial.

O Brasil terminou a competição em 6º lugar e estreou o uniforme da famosa camisa amarela e calção azul, substituindo o anterior uniforme branco, considerado azarado após a derrota de 1950.

No que respeita ao Botafogo, o seu único representante foi novamente Nilton Santos, mais tarde apelidado de ‘Enciclopéia’ por se considerar que sabia tudo sobre futebol. O craque participou nas oito partidas que o Brasil realizou na Copa do Mundo de 1954.

Nilton Santos em ação na Copa de 1954. Crédito: Reprodução (colorizada).

Uma das primeiras peripécias foi o formato da competição. Havia quatro grupos de quatro equipas, mas cada seleção só fazia dois jogos: os cabeças de série não se enfrentavam entre si, e os não cabeças de série também não. Além disso, jogos empatados na fase de grupos podiam ter prolongamento, e empates em pontos para a segunda vaga eram resolvidos por jogos de desempate. Isso levou a situações curiosas, como a Alemanha Ocidental ter de jogar novamente contra a Turquia, apesar de já a ter vencido na fase inicial.

Logo na primeira fase, a Hungria assustou o mundo: venceu a Coreia do Sul por 9x0 e depois goleou a Alemanha Ocidental por 8x3. Esse jogo parecia confirmar a superioridade húngara, mas teve duas consequências importantes: Puskás saiu lesionado após uma entrada de Werner Liebrich, e o treinador alemão Sepp Herberger usou uma equipa parcialmente poupada, algo que mais tarde alimentou a ideia de que ele preparava uma revanche na final.

O torneio também ficou marcado pelo número absurdo de gols. A Copa de 1954 ainda detém a maior média de gols da história dos Mundiais masculinos: 5,38 por jogo. A própria Hungria marcou 27 gols no torneio, e Sándor Kocsis terminou como artilheiro com 11 gols.

Ferenc Puskás, o grande craque húngaro do Honved e depois do Real Madrid e da Seleção de Espanha.

Uma das partidas mais loucas foi Áustria 7x5 Suíça, nas quartas-de-final, em Lausanne. É até hoje o jogo com mais gols na história das Copas masculinas. A partida ficou conhecida como a “Batalha do Calor de Lausanne”, pois foi jogada sob temperatura altíssima, perto dos 40°C. A Suíça chegou a abrir 3x0, mas a Áustria virou e venceu por 7x5.

Outra peripécia célebre foi a ‘Batalha de Berna’, entre Hungria e Brasil, também nas quartas-de-final. A Hungria venceu por 4x2, mas o jogo ficou famoso pela violência: três jogadores foram expulsos – Nílton Santos e Humberto, do Brasil, e József Bozsik, da Hungria – e a confusão continuou depois do apito final, inclusive nos corredores e vestiários. A FIFA acabou por deixar a disciplina a cargo das federações.

Nas semifinais, a Alemanha Ocidental goleou a Áustria por 6x1, enquanto a Hungria teve de sofrer muito contra o Uruguai, campeão de 1950. A Hungria venceu por 4x2 após prolongamento, num jogo importantíssimo porque foi a primeira derrota uruguaia em fases finais de Copas do Mundo.

A final colocou novamente frente a frente Hungria e Alemanha Ocidental. Quase todos esperavam nova vitória húngara, ainda mais porque a Hungria já vencera os alemães por 8x3 no grupo. Mas a final foi disputada com chuva no Wankdorf Stadium, em Berna, e as condições ajudaram a tornar o jogo ainda mais dramático.

A Hungria começou como um furacão: Puskás marcou aos 6’ e Czibor fez 2x0 aos 9’. Parecia que a final seria uma consagração tranquila. Mas a Alemanha reagiu imediatamente: Max Morlock reduziu aos 11’ e Helmut Rahn empatou aos 18’. No fim, aos 84’, Helmut Rahn marcou o 3x2 que deu o título aos alemães.

Gol de Max Morlock na final. Crédito: Jason Coles, Golden Kicks The Shoes That Changed Sports.

Ainda houve drama no fim: Puskás marcou um gol que seria o empate húngaro, mas o lance foi anulado por impedimento. A decisão gerou discussão durante décadas, assim como outras polêmicas da final, incluindo fortes suspeitas posteriores de doping na equipa alemã, nunca resolvidas de forma plenamente conclusiva (*).

O impacto histórico foi enorme. Para a Alemanha Ocidental, o título de 1954 tornou-se um símbolo de recuperação moral e identidade nacional no pós-guerra. Para a Hungria, foi uma tragédia esportiva: a melhor equipa do mundo perdeu justamente o jogo que mais importava. O “Milagre de Berna” permanece como uma das maiores zebras e uma das finais mais famosas da história do futebol.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Alemanha Ocidental 3x2 Hungria

» Gols: Max Morlock, aos 11’, Helmut Rahn, as 18’ e 84’ (Alemanha Ocidental); Ferenc Puskás, aos 6’, e Zoltán Czibor, aos 9’ (Hungria)

» Data: 4 de julho de 1954

» Local: Wankdorf Stadium, em Berna (Suíça)

» Público: 62.500 espectadores

» Árbitro: William Ling (Inglaterra)

» Alemanha Ocidental: Toni Turek; Jupp Posipal e Werner Kohlmeyer; Horst Eckel, Werner Liebrich e Karl Mai; Helmut Rhan, Max Morlock, Ottmar Walter, Fritz Walter e Hans Schäfer. Técnico: Sepp Herberger.

» Hungria: Gyula Grosics; Jenö Buzánszky e Mihály Lantos; József Bozsik, Gyula Lóránt e József Zakariás; Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, Ferenc Puskás e Nihály Tóth. Técnico: Gusztáv Sebes.

(*) A suspeita era alicerçada na súbita resistência alemã e em razão de a Hungria pertencer à designada “Cortina de Ferro”, expressão que descrevia a divisão política, militar e ideológica da Europa durante a “Guerra Fria”, usada pelo primeiro-ministro inglês Winston Churchill num discurso em 1946, quando afirmou que uma “cortina de ferro” descera sobre a Europa, separando o Bloco Ocidental – E.U. da América e democracias europeias – e o Bloco Oriental – dominado pela União Soviética e composto por regimes comunistas no leste europeu, incluindo a Hungria – os quais representavam censura e controlo político, limitação da circulação de pessoas e forte dispositivo militar que incluía muros, cercas e vigilância fronteiriça – cujo símbolo mais conhecido foi o “Muro de Berlim”, derrubado em 1989. Do ponto de vista político não seria conveniente uma vitória Oriental. Porém, é uma hipótese sem comprovação.

Fontes principais: gq.globo.com; maisfutebol.iol.pt; pt.wikipedia.org; www.britannica.com; www.planetworldcup.com; www.theguardian.com; www.the-sun.com

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