por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
Em janeiro de 2014, após ano e meio no
Botafogo, 81 jogos, 24 gols e uma sequência de invencibilidade durante 19
jogos, Clarence Seedorf disse adeus ao último Clube da sua vencedora carreira.
Sem a ‘mola impulsionadora’ do holandês, a gestão
presidencial do Botafogo, em fim de segundo mandato, evidenciou a incapacidade
de Maurício Assumpção conduzir o grande barco botafoguense e de se manter
distante do saber futebolístico.
O presidente conseguiu iludir as suas
incapacidades financeiras e futebolísticas por duas razões principais: dispunha
das receitas do Engenhão desde o seu 1º ano de mandato e em 2010 e 2013 apostou
em duas contratações de ‘fechar aeroporto’, altamente responsáveis pelos bons
anos de futebol em 2010 e 2013 – Loco Abreu e Clarence Seedorf, respectivamente.
Porém, Assumpção estava debaixo de fogo desde
março de 2013 na medida em que dentro do Botafogo, e na própria torcida, era
acusado de ceder a interesses político-económicos aquando da interdição do
Engenhão porque, eventualmente, buscaria fazer caminho na política do estado do
Rio de Janeiro quando deixasse a presidência no final ano seguinte.
Por outro lado, a desconfiança sobre a gestão
financeira do Clube foi crescendo dentro do Botafogo e no seio da torcida.
Carlos Eduardo Pereira tornou-se crítico acirrado do presidente e prometeu,
aquando da sua candidatura como sucessor de Assumpção para o triênio 2015-2017,
proceder a uma rigorosa auditoria para esclarecer o que teria sido uma gestão
financeira ‘opaca’.
Paulatinamente, por entre problemas
financeiros e desaires desportivos após a saída de Seedorf e do técnico Oswaldo
de Oliveira, substituído por Eduardo Húngaro (apenas 114 dias no posto), o
cerco foi-se fechando em torno de Assumpção.
A nível estadual o Botafogo classificou-se na
1ª Fase em 9º lugar (entre 16 clubes), com a pífia campanha de 4 vitórias, 5
empates e 6 derrotas (37,8% de aproveitamento), encerrando assim a sua
participação.
Na Copa Libertadores o Botafogo eliminou o
Deportivo de Quito na 1ª Fase pelo saldo de gols (0x1 e 4x0), mas na 2ª Fase o
desastre foi total: San Lorenzo, 2x0 e 0x3; Unión Española, 1x1 e 0x1; Independiente
del Valle, 1x2 e 1x0. O Botafogo quedou-se pela 4ª e última posição com 2
vitórias, 1 empate e 3 derrotas (38,9% de aproveitamento).
O Campeonato Brasileiro decorreu tão mal ou pior para o Botafogo do que o Campeonato Estadual e a Copa Libertadores. O afundamento foi total e absoluto: 19º e penúltimo lugar com uns absurdos 29,8% de aproveitamento.
Desde o início do campeonato o Botafogo girou
sempre em torno do Z4, sendo muito mal treinado por Eduardo Húngaro (114 dias)
e Vagner Mancini (239 dias), aumentando gradualmente a crise desportiva.
Por outro lado, as finanças deterioravam-se
assustadoramente e no final do ano o défice era de cerca de 1 bilhão de reais,
levantando diversas suspeitas sobre a gestão.
Em tal situação o Botafogo regressou aos
salários em atraso e os cinco principais jogadores da equipe lideraram as
reclamações contra a presidência de Assumpção: Bolívar, Edílson, Emerson Sheik,
Jefferson e Júlio César.
Tal conjuntura agravou-se subitamente no dia
17 de setembro de 2014 no jogo contra o Bahia, que terminou com uma derrota por
3x2 no Maracanã, apesar de o Botafogo ter saído na frente do placar com dois
gols de Emerson Sheik. No fim, Sheik foi expulso, houve muita reclamação contra
a arbitragem e a partida virou símbolo de descontrolo emocional e institucional
da equipe.
Nos bastidores do Clube considerava-se que os
atrasos salariais, estrutura precária e atritos com a direção justificavam a
insatisfação da equipe representada pelo quinteto de atletas. Acossado
internamente Assumpção procurou, uma vez mais, iludir os problemas
radicalizando-se e rescindindo o contrato com quatro dos atletas líderes.
Assumpção e os líderes do Grupo tinham fortes
divergências e o presidente argumentou que o problema financeiro era a desculpa
deles para tudo, rescindindo unilateralmente com Bolívar, Edílson, Emerson
Sheik e Júlio César, expulsando-os do treinamento. E por que razão não rescindiu
com Jefferson, o quinto membro do grupo-líder? Não o fez por falta de coragem,
receando a reação da torcida se colocasse fora do Clube o seu maior ídolo do
século XXI!
Fica-se por saber se o ‘desvario demissionário’ se deveu a Assumpção optar por fuga para a frente dentro do Clube, se o fez simplesmente por ira pessoal contra os atletas que o contestavam, se ‘lavou as mãos’ das consequências desportivas de despedir 4 dos 5 mais influentes jogadores nas manobras da equipe ou se foi tudo junto – e esse despedimento foi o golpe decisivo para o Botafogo desabar na tabela até ao penúltimo lugar, apenas a dois pontos do último classificado.
Salvou-se da pavorosa gestão de Maurício
Assumpção no que respeita ao futebol – secundando as péssimas presidências de
José Luiz Rolim e Mauro Ney Palmeiro –, o incremento significativo das demais
modalidades ‘olímpicas’, sobretudo as grandes conquistas do remo botafoguense
resgatado de décadas sem títulos estaduais ou nacionais: em 2014 o Botafogo
assegurou a Tríplice Coroa do Remo Brasileiro (‘Campeão de Tudo’) pelo segundo
ano consecutivo, sagrando-se Bicampeão Brasileiro Sênior, Bicampeão Brasileiro
Júnior e Bicampeão Estadual.
Conquistas do Botafogo em todas as
modalidades em 2014: https://mundobotafogo.blogspot.com/2015/01/todos-os-titulos-do-botafogo-em-2014.html
Porém, Assumpção interpretou mal o seu
mandato na medida em que o que conta verdadeiramente é o futebol como carro-chefe, enquanto os sucessos das modalidades são realçados pela maioria dos torcedores basicamente
quando a equipe de futebol se encontra desenvolvendo bom futebol.
E nessa matéria Assumpção não poderia ter
sido pior: incapaz de frear o descarrilhamento financeiro e não proteger os
interesses desportivos do futebol, despedindo aqueles que poderiam ser os
maiores atores na manutenção do Clube na Série A, deixou como legado à
diretoria seguinte o estádio encerrado, a derrocada financeira à beira do
abismo e a despromoção do futebol ao segundo escalão nacional.
Fontes principais: mundobotafogo.blogspot.com; oglobo.globo.com; www.terra.com.br; www.uol.com.br



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