sexta-feira, 5 de junho de 2026

Entre o céu e o inferno (VII): da bancarrota financeira à segunda despromoção do futebol (2014)

Fonte: Youtube.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Em janeiro de 2014, após ano e meio no Botafogo, 81 jogos, 24 gols e uma sequência de invencibilidade durante 19 jogos, Clarence Seedorf disse adeus ao último Clube da sua vencedora carreira.

Sem a ‘mola impulsionadora’ do holandês, a gestão presidencial do Botafogo, em fim de segundo mandato, evidenciou a incapacidade de Maurício Assumpção conduzir o grande barco botafoguense e de se manter distante do saber futebolístico.

O presidente conseguiu iludir as suas incapacidades financeiras e futebolísticas por duas razões principais: dispunha das receitas do Engenhão desde o seu 1º ano de mandato e em 2010 e 2013 apostou em duas contratações de ‘fechar aeroporto’, altamente responsáveis pelos bons anos de futebol em 2010 e 2013 – Loco Abreu e Clarence Seedorf, respectivamente.

Porém, Assumpção estava debaixo de fogo desde março de 2013 na medida em que dentro do Botafogo, e na própria torcida, era acusado de ceder a interesses político-económicos aquando da interdição do Engenhão porque, eventualmente, buscaria fazer caminho na política do estado do Rio de Janeiro quando deixasse a presidência no final ano seguinte.

Por outro lado, a desconfiança sobre a gestão financeira do Clube foi crescendo dentro do Botafogo e no seio da torcida. Carlos Eduardo Pereira tornou-se crítico acirrado do presidente e prometeu, aquando da sua candidatura como sucessor de Assumpção para o triênio 2015-2017, proceder a uma rigorosa auditoria para esclarecer o que teria sido uma gestão financeira ‘opaca’.

Paulatinamente, por entre problemas financeiros e desaires desportivos após a saída de Seedorf e do técnico Oswaldo de Oliveira, substituído por Eduardo Húngaro (apenas 114 dias no posto), o cerco foi-se fechando em torno de Assumpção.

A nível estadual o Botafogo classificou-se na 1ª Fase em 9º lugar (entre 16 clubes), com a pífia campanha de 4 vitórias, 5 empates e 6 derrotas (37,8% de aproveitamento), encerrando assim a sua participação.

Na Copa Libertadores o Botafogo eliminou o Deportivo de Quito na 1ª Fase pelo saldo de gols (0x1 e 4x0), mas na 2ª Fase o desastre foi total: San Lorenzo, 2x0 e 0x3; Unión Española, 1x1 e 0x1; Independiente del Valle, 1x2 e 1x0. O Botafogo quedou-se pela 4ª e última posição com 2 vitórias, 1 empate e 3 derrotas (38,9% de aproveitamento).

O Campeonato Brasileiro decorreu tão mal ou pior para o Botafogo do que o Campeonato Estadual e a Copa Libertadores. O afundamento foi total e absoluto: 19º e penúltimo lugar com uns absurdos 29,8% de aproveitamento.

Crédito: Michel Filho | O Globo.

Desde o início do campeonato o Botafogo girou sempre em torno do Z4, sendo muito mal treinado por Eduardo Húngaro (114 dias) e Vagner Mancini (239 dias), aumentando gradualmente a crise desportiva.

Por outro lado, as finanças deterioravam-se assustadoramente e no final do ano o défice era de cerca de 1 bilhão de reais, levantando diversas suspeitas sobre a gestão.

Em tal situação o Botafogo regressou aos salários em atraso e os cinco principais jogadores da equipe lideraram as reclamações contra a presidência de Assumpção: Bolívar, Edílson, Emerson Sheik, Jefferson e Júlio César.

Tal conjuntura agravou-se subitamente no dia 17 de setembro de 2014 no jogo contra o Bahia, que terminou com uma derrota por 3x2 no Maracanã, apesar de o Botafogo ter saído na frente do placar com dois gols de Emerson Sheik. No fim, Sheik foi expulso, houve muita reclamação contra a arbitragem e a partida virou símbolo de descontrolo emocional e institucional da equipe.

Nos bastidores do Clube considerava-se que os atrasos salariais, estrutura precária e atritos com a direção justificavam a insatisfação da equipe representada pelo quinteto de atletas. Acossado internamente Assumpção procurou, uma vez mais, iludir os problemas radicalizando-se e rescindindo o contrato com quatro dos atletas líderes.

Assumpção e os líderes do Grupo tinham fortes divergências e o presidente argumentou que o problema financeiro era a desculpa deles para tudo, rescindindo unilateralmente com Bolívar, Edílson, Emerson Sheik e Júlio César, expulsando-os do treinamento. E por que razão não rescindiu com Jefferson, o quinto membro do grupo-líder? Não o fez por falta de coragem, receando a reação da torcida se colocasse fora do Clube o seu maior ídolo do século XXI!

Fica-se por saber se o ‘desvario demissionário’ se deveu a Assumpção optar por fuga para a frente dentro do Clube, se o fez simplesmente por ira pessoal contra os atletas que o contestavam, se ‘lavou as mãos’ das consequências desportivas de despedir 4 dos 5 mais influentes jogadores nas manobras da equipe ou se foi tudo junto – e esse despedimento foi o golpe decisivo para o Botafogo desabar na tabela até ao penúltimo lugar, apenas a dois pontos do último classificado.

O Botafogo terminou o campeonato brasileiro em penúltimo e pior lugar de sempre até aquela data, por única responsabilidade de Maurício Assumpção. Fonte: Internet | Reprodução.

Salvou-se da pavorosa gestão de Maurício Assumpção no que respeita ao futebol – secundando as péssimas presidências de José Luiz Rolim e Mauro Ney Palmeiro –, o incremento significativo das demais modalidades ‘olímpicas’, sobretudo as grandes conquistas do remo botafoguense resgatado de décadas sem títulos estaduais ou nacionais: em 2014 o Botafogo assegurou a Tríplice Coroa do Remo Brasileiro (‘Campeão de Tudo’) pelo segundo ano consecutivo, sagrando-se Bicampeão Brasileiro Sênior, Bicampeão Brasileiro Júnior e Bicampeão Estadual.

Conquistas do Botafogo em todas as modalidades em 2014: https://mundobotafogo.blogspot.com/2015/01/todos-os-titulos-do-botafogo-em-2014.html

Porém, Assumpção interpretou mal o seu mandato na medida em que o que conta verdadeiramente é o futebol como carro-chefe, enquanto os sucessos das modalidades são realçados pela maioria dos torcedores basicamente quando a equipe de futebol se encontra desenvolvendo bom futebol.

E nessa matéria Assumpção não poderia ter sido pior: incapaz de frear o descarrilhamento financeiro e não proteger os interesses desportivos do futebol, despedindo aqueles que poderiam ser os maiores atores na manutenção do Clube na Série A, deixou como legado à diretoria seguinte o estádio encerrado, a derrocada financeira à beira do abismo e a despromoção do futebol ao segundo escalão nacional.

Fontes principais: mundobotafogo.blogspot.com; oglobo.globo.com; www.terra.com.br; www.uol.com.br

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