por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo de
2022, disputada no Qatar, assinalou a primeira vez em que um Mundial foi
organizado num país árabe e no Médio Oriente, tendo um significado geopolítico
evidente. O Qatar utilizou a competição como instrumento de afirmação
internacional, projeção diplomática e demonstração de capacidade organizativa.
Os estádios modernos, as infraestruturas e a concentração geográfica do torneio
criaram uma experiência muito diferente das Copas anteriores.
Ao contrário de
Mundiais mais dispersos, como Brasil 2014 ou Rússia 2018, em 2022 as
deslocações eram curtas e vários jogos podiam ser acompanhados no mesmo dia, o
que atribuiu à competição uma lógica quase compacta e concentrada.
Outro acontecimento
inédito foi o calendário que, pela primeira vez, se deslocou de junho/julho
para novembro/dezembro, tendo com principal razão o intenso calor do verão
qatariano, alterando radicalmente a relação entre o Mundial e a época dos clubes
europeus, porquanto os atletas chegaram à competição em plena temporada
futebolística e com ritmo competitivo – embora com escasso tempo para a preparação
coletiva.
A organização do
Mundial foi acompanhada por forte debate internacional sobre direitos humanos,
condições dos trabalhadores migrantes, liberdade de expressão, direitos das
mulheres, entre outros, ocorrendo discussões sobre braçadeiras, protestos
simbólicos, limitações à expressão política e tensão entre normas culturais
locais e expectativas internacionais.
Em campo a competição
foi brilhante, mas fora dele a Copa foi permanentemente atravessada por debates
éticos e geopolíticos.
Antes e durante a
competição várias seleções europeias discutiram o uso da braçadeira OneLove, associada a mensagens contra a
discriminação. A FIFA acabou por impor limites e possíveis sanções desportivas,
levando as seleções a recuar, mas a Alemanha divulgou uma fotografia de equipe
tapando a boca, em sinal de protesto contra a restrição da liberdade de
expressão.
Por seu lado, a Seleção
do Irã também esteve no centro de forte carga política por causa dos protestos
no país após a morte de Mahsa Amini, e os jogadores iranianos não cantaram o
hino nacional, em sinal de solidariedade.
Tais acontecimentos evidenciaram muita tensão política entre ativismo, regulação institucional, cultura local e interesses desportivos, tornando-se a Copa, sobretudo para os iranianos, uma extensão visível de conflitos sociais e políticos muito profundos.
Uma das maiores
peripécias aconteceu logo na primeira jornada: a Arábia Saudita venceu a
Argentina por 2x1. Foi uma surpresa monumental porque a Argentina vinha de
longa série invicta e era uma das favoritas, mas a Arábia Saudita, com uma
linha defensiva muito subida e enorme coragem, virou o jogo.
Porém, a maior
de todas as surpresas foi a Seleção de Marrocos, que se consagrou como a primeira
seleção africana, e árabe, a chegar às semifinais de uma Copa do Mundo. A
equipe de Walid Regragui, eliminou a Espanha nos pênaltis e depois venceu
Portugal por 1x0 nas quartas de final. Antes disso, já tinha liderado um grupo
com Croácia, Bélgica e Canadá.
Dois nomes ficaram
particularmente associados à campanha marroquina: Yassine Bounou, goleiro de serenidade,
segurança e liderança, que foi decisivo nos pênaltis contra a Espanha; Achraf
Hakimi marcou o pênalti decisivo contra a Espanha com uma cavadinha (ou à Panenka,
no léxico europeu), num gesto de enorme confiança. Depois celebrou com a mãe,
levando para a Copa uma simbologia familiar e comunitária muito forte, juntando
mães, famílias, bandeiras, fé, diáspora e pertença.
Além da vitória
saudita sobre a Argentina e do percurso notável de Marrocos, também houve
outros resultados simbólicos de seleções árabes e africanas. A vitória da
Tunísia por 1x0 sobre a França foi um deles, embora fosse eliminada na fase de
grupos.
Camarões venceu o
Brasil por 1x0 na fase de grupos, com gol de Aboubakar. O Brasil já estava
apurado e jogou com uma equipe alternativa, mas o resultado teve valor
histórico porque foi a primeira vitória de uma seleção africana contra o Brasil
num Mundial – o craque recebeu o 2º amarelo e foi expulso pós despir a camisa
para celebrar. Numa Copa no mundo árabe, africanos e árabes foram bem
sucedidos.
Gana e Uruguai teve
enorme carga simbólica na fase de grupos em virtude do episódio de 2010, quando
Luis Suárez impediu com a mão um gol ganês nas quartas de final. Gana. O Uruguai venceu o jogo, mas acabou
eliminado na mesma, por diferença de gols – e Suárez desfez-se em lágrimas no
banco, fechando um ciclo iniciado há 12 anos.
A Espanha começou goleando
a Costa Rica por 7x0, mas depois empatou com a Alemanha, perdeu com o Japão e
foi eliminada por Marrocos nos pênaltis, num jogo com muita posse de bola e pouca
capacidade para desmontar o adversário – reabrindo a discussão sobre a posse
estéril: controlar a bola não é igual a controlar o perigo.
A Bélgica foi uma das
grandes desilusões, chegando com a geração de De Bruyne, Hazard, Lukaku,
Courtois, Vertonghen, Alderweireld, entre outros, e foi eliminada na fase de
grupos. Contra a Croácia Lukaku desperdiçou gols e simbolizou o fim de ciclo
belga – a ‘geração dourada’ nunca chegou a uma final de Mundial ou de Europeu.
O Canadá regressou aos Mundiais após longa ausência e mostrou-se uma equipe rápida, intensa e entusiástica, mas foi eliminada na fase de grupos, deixando, n entanto, sinais importantes antes de coorganizar o Mundial de 2026.
Por seu lado, a Alemanha
simbolizou a pior das surpresas, tornando a ser eliminada na fase de grupos,
como em 2018: venceu a Costa Rica no último jogo, mas foi comprometida pela
derrota para o Japão e o empate com a Espanha, confirmando que a Alemanha
continuava em crise competitiva pós-2014 [que atualmente se veio a estender com
a 3ª eliminação sucessiva na Copa de 2026 na América do Norte].
O Japão consolidou a
sua caminhada como a Seleção asiática mais consistente, vencendo a Alemanha e a
Espanha na fase de grupos, ambas por 2x1, sempre de virada, e perdeu com a
Costa Rica. Nas oitavas de final foi eliminada pelo Croácia nos pênaltis, mas
tornou a evidenciar organização, humildade, disciplina e capacidade de competir
com potências mundiais.
Portugal chegou às
quartas de final com esperança renovada, sobretudo depois da goleada à Suíça por
6x1, jogo em que Gonçalo Ramos marcou três gols. Porém, contra Marrocos,
Portugal perdeu por 1x0, com gol de Youssef En-Nesyri, ficando a imagem de
Cristiano Ronaldo saindo em lágrimas pelo túnel.
A Copa de 2022 foi
difícil para Cristiano Ronaldo. Após tensão com o Manchester United e perda da
titularidade na Seleção portuguesa durante a fase a eliminar, ainda marcou
contra o Gana, tornando-se o primeiro jogador a estufar as redes em cinco
Mundiais sucessivos, mas terminou a competição como suplente nos jogos
decisivos.
O Brasil chegou ao Mundial como uma das seleções favoritas. A equipe de Tite tinha grande profundidade ofensiva: Neymar, Vinicius Júnior, Richarlison, Raphinha, Rodrygo, Gabriel Jesus e Antony, entre outros.
O Brasil teve momentos
de brilho, especialmente na vitória por 4x1 contra a Coreia do Sul, com futebol
ofensivo e celebrações dançadas. O gol de Richarlison contra a Sérvia, de
pontapé acrobático, foi provavelmente o mais bonito da competição.
Porém, a equipe caiu
nas quartas de final contra a Croácia, nos pênaltis. Neymar marcou na
prorrogação e parecia ter decidido o jogo, igualando Pelé como artilheiro da
seleção brasileira, mas a Croácia empatou perto do fim, venceu nos pênaltis e
seguiu para as semifinais.
Para Neymar, 2022 foi outra Copa de grande ambivalência: lesionou-se na fase de grupos, regressou nas eliminatórias e marcou um grande gol, mas Neymar terminou o Mundial como Suárez e Cristiano Ronaldo – em lágrimas.
O jogo entre Argentina
e Países Baixos nas quartas de final foi um dos mais tensos da competição: a
Argentina vencia por 2x0, os Países Baixos empataram no final e a Argentina
classificou-se nos pênaltis.
A Argentina esteve a
vencer por 2x0, mas os Países Baixos empataram no final, com uma jogada
ensaiada num livre. O jogo foi para pênaltis, e a Argentina venceu.
Depois do jogo, Messi protagonizou uma frase que se tornou viral: “¿Qué mirás, bobo? Andá pa’
allá?” (“Que estás olhando, tolo? Anda pra lá”), dirigida a Wout Weghorst. O episódio mostrou o protegido da FIFA sem a
máscara de ‘inocência’ habitual, evidenciando uma postura bem mais irritada e
provocadora do que a imagem pública habitual.
Enzo Hernández e
Julián Álvarez foram decisivos: Hernández ganhou espaço durante a competição,
marcou um grande gol contra o México e tornou-se peça fundamental no
meio-campo, além de ser eleito o melhor jovem jogador da competição; Álvarez
ganhou a titularidade no ataque, pressionou, atacou a profundidade e marcou
gols importantes.
Di María tornou a ser decisivo: já tinha marcado na final da Copa América de 2021 contra o Brasil e em 2022 rubricou uma exibição brilhante na final do Mundial.
Porém, a grande
narrativa desportiva foi a Argentina campeã do mundo, liderada por Messi.
Começou perdendo por 2x1 para a Arábia Saudita por 2x1, mas a derrota acabou
por funcionar como ponto de viragem. A Argentina cresceu emocionalmente,
ajustou a equipe e foi construindo uma campanha de sofrimento, intensidade e
identidade coletiva – e Messi chegou finalmente ao título com uma boa dose de
sorte na final da Copa.
A imagem de Messi a
levantar a Taça do Mundo encerrou uma das grandes narrativas da história do
futebol: o gênio que já tinha vencido tudo a nível de clubes, finalmente
conquistou o troféu mais desejado pela sua Seleção.
Maradona estava
presente na memória coletiva e a Argentina de 2022 parecia jogar também com
essa herança simbólica: unir a era de Maradona e a era de Messi num mesmo
imaginário nacional – e quando Messi levantou a Taça, Maradona continuava o
grande mito popular, mas Messi entrava definitivamente no mesmo território
simbólico.
A final de 2022, entre
França e Argentina, foi uma das mais dramáticas da história do futebol: a Argentina
chegou a 2x0, com gols de Messi e Di María; a França parecia sem resposta, mas,
perto do fim, Mbappé marcou dois gols em poucos minutos e levou o jogo para
prorrogação.
Messi tornou a marcar
na prorrogação, colocando a Argentina em vantagem, mas Mbappé empatou
novamente, de pênalti, fazendo o 3x3 e completando um hat-trick numa final de Mundial.
Depois tudo foi decidido nos pênaltis, numa final que concentrou tudo: gênio, drama, colapso, recuperação, legado, juventude, ansiedade e catarse.
Kylian Mbappé fez uma
final extraordinária, marcou três gols e converteu o seu pênalti no desempate
final, mas antes dos pênaltis, no último minuto da prorrogação, desperdiçou o
gol que daria o título à França e o póquer de gols a si mesmo num só jogo – a
sorte esteve do lado de Messi e companhia.
Messi quase perdeu a
final que parecia ganha e Mbappé quase a reescreveu, mas mesmo derrotado saiu da
final com rosto do futuro.
Em suma, a Copa do
Mundo de 2022 foi o primeiro Mundial
realizado no Médio Oriente, o primeiro disputado no outono/inverno europeu, o
Mundial da consagração de Messi e da Argentina, do “quase” tricampeonato de
Mbappé herdeiro da próxima Era, da afirmação histórica de Marrocos, da queda de
várias seleções tradicionais e de muitas tensões políticas, culturais, éticas e
mediáticas.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Argentina
3(4)x3(2) França
» Gols: Messi, aos 23’
(pen.) e 108’, e Di María, aos 36’ (Argentina) Kylian Mbappé, aos 80’ (pen.),
81’ e 118’ (pen.) (França)
» Pênaltis: Messi,
Dybala, Paredes e Montiel (Argentina);Mbappé e Kolo Muani (França)
» Data: 18.12.2022
» Local: Estádio
Nacional Lusail, em Lusail (Qatar)
» Público: 88.966
espectadores
» Árbitro: Szymon
Marciniak (Polônia)
» Disciplina: cartão
amarelo –
» Argentina: Emiliano
Martínez; Nahuel Molina, Cristian Romero, Nicolás Otamendi e Nicolás
Tagliafico; Rodrigo de Paul, Alexis Mac Allister, Enzo Fernández e Julián
Álvarez; Lionel Messi e Di María. Técnico: Lionel Scaloni.
» França: Hugo Lloris;
Jules Koundé, Raphaël Varane, Dayot Upamecano e Theo Hernández; Tchouaméni, Adrien
Rabiot e Antoine Griezmann; Ousmane Dembélé, Olivier Giroud e Mbappé. Técnico:
Didier Deschamps.
Fontes
principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt;
www1.folha.uol.com.br; www.britannica.com;
www.espn.com.br; www.fifa.com;
www.rsssf.org; www.theguardian.com.






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