segunda-feira, 13 de julho de 2026

Copa do Mundo de 2022: genial duelo Messi-Mbappé, emergência de Seleções africanas e árabes, golaço de Richarlison, lágrimas de CR7, Neymar e Suárez

Cartaz da Copa do Mundo de 2022. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo de 2022, disputada no Qatar, assinalou a primeira vez em que um Mundial foi organizado num país árabe e no Médio Oriente, tendo um significado geopolítico evidente. O Qatar utilizou a competição como instrumento de afirmação internacional, projeção diplomática e demonstração de capacidade organizativa. Os estádios modernos, as infraestruturas e a concentração geográfica do torneio criaram uma experiência muito diferente das Copas anteriores.

Ao contrário de Mundiais mais dispersos, como Brasil 2014 ou Rússia 2018, em 2022 as deslocações eram curtas e vários jogos podiam ser acompanhados no mesmo dia, o que atribuiu à competição uma lógica quase compacta e concentrada.

Outro acontecimento inédito foi o calendário que, pela primeira vez, se deslocou de junho/julho para novembro/dezembro, tendo com principal razão o intenso calor do verão qatariano, alterando radicalmente a relação entre o Mundial e a época dos clubes europeus, porquanto os atletas chegaram à competição em plena temporada futebolística e com ritmo competitivo – embora com escasso tempo para a preparação coletiva.

A organização do Mundial foi acompanhada por forte debate internacional sobre direitos humanos, condições dos trabalhadores migrantes, liberdade de expressão, direitos das mulheres, entre outros, ocorrendo discussões sobre braçadeiras, protestos simbólicos, limitações à expressão política e tensão entre normas culturais locais e expectativas internacionais.

Em campo a competição foi brilhante, mas fora dele a Copa foi permanentemente atravessada por debates éticos e geopolíticos.

Antes e durante a competição várias seleções europeias discutiram o uso da braçadeira OneLove, associada a mensagens contra a discriminação. A FIFA acabou por impor limites e possíveis sanções desportivas, levando as seleções a recuar, mas a Alemanha divulgou uma fotografia de equipe tapando a boca, em sinal de protesto contra a restrição da liberdade de expressão.

Por seu lado, a Seleção do Irã também esteve no centro de forte carga política por causa dos protestos no país após a morte de Mahsa Amini, e os jogadores iranianos não cantaram o hino nacional, em sinal de solidariedade.

Tais acontecimentos evidenciaram muita tensão política entre ativismo, regulação institucional, cultura local e interesses desportivos, tornando-se a Copa, sobretudo para os iranianos, uma extensão visível de conflitos sociais e políticos muito profundos.

Marrocos: Yassine Bounou e Achraf Hakimi. Crédito: Photo | Icon Sport.

Uma das maiores peripécias aconteceu logo na primeira jornada: a Arábia Saudita venceu a Argentina por 2x1. Foi uma surpresa monumental porque a Argentina vinha de longa série invicta e era uma das favoritas, mas a Arábia Saudita, com uma linha defensiva muito subida e enorme coragem, virou o jogo.

Porém, a maior de todas as surpresas foi a Seleção de Marrocos, que se consagrou como a primeira seleção africana, e árabe, a chegar às semifinais de uma Copa do Mundo. A equipe de Walid Regragui, eliminou a Espanha nos pênaltis e depois venceu Portugal por 1x0 nas quartas de final. Antes disso, já tinha liderado um grupo com Croácia, Bélgica e Canadá.

Dois nomes ficaram particularmente associados à campanha marroquina: Yassine Bounou, goleiro de serenidade, segurança e liderança, que foi decisivo nos pênaltis contra a Espanha; Achraf Hakimi marcou o pênalti decisivo contra a Espanha com uma cavadinha (ou à Panenka, no léxico europeu), num gesto de enorme confiança. Depois celebrou com a mãe, levando para a Copa uma simbologia familiar e comunitária muito forte, juntando mães, famílias, bandeiras, fé, diáspora e pertença.

Além da vitória saudita sobre a Argentina e do percurso notável de Marrocos, também houve outros resultados simbólicos de seleções árabes e africanas. A vitória da Tunísia por 1x0 sobre a França foi um deles, embora fosse eliminada na fase de grupos.

Camarões venceu o Brasil por 1x0 na fase de grupos, com gol de Aboubakar. O Brasil já estava apurado e jogou com uma equipe alternativa, mas o resultado teve valor histórico porque foi a primeira vitória de uma seleção africana contra o Brasil num Mundial – o craque recebeu o 2º amarelo e foi expulso pós despir a camisa para celebrar. Numa Copa no mundo árabe, africanos e árabes foram bem sucedidos.

Gana e Uruguai teve enorme carga simbólica na fase de grupos em virtude do episódio de 2010, quando Luis Suárez impediu com a mão um gol ganês nas quartas de final.  Gana. O Uruguai venceu o jogo, mas acabou eliminado na mesma, por diferença de gols – e Suárez desfez-se em lágrimas no banco, fechando um ciclo iniciado há 12 anos.

A Espanha começou goleando a Costa Rica por 7x0, mas depois empatou com a Alemanha, perdeu com o Japão e foi eliminada por Marrocos nos pênaltis, num jogo com muita posse de bola e pouca capacidade para desmontar o adversário – reabrindo a discussão sobre a posse estéril: controlar a bola não é igual a controlar o perigo.

A Bélgica foi uma das grandes desilusões, chegando com a geração de De Bruyne, Hazard, Lukaku, Courtois, Vertonghen, Alderweireld, entre outros, e foi eliminada na fase de grupos. Contra a Croácia Lukaku desperdiçou gols e simbolizou o fim de ciclo belga – a ‘geração dourada’ nunca chegou a uma final de Mundial ou de Europeu.

O Canadá regressou aos Mundiais após longa ausência e mostrou-se uma equipe rápida, intensa e entusiástica, mas foi eliminada na fase de grupos, deixando, n entanto, sinais importantes antes de coorganizar o Mundial de 2026.

Alemanha eliminada na fase de grupos. Crédito: GE.

Por seu lado, a Alemanha simbolizou a pior das surpresas, tornando a ser eliminada na fase de grupos, como em 2018: venceu a Costa Rica no último jogo, mas foi comprometida pela derrota para o Japão e o empate com a Espanha, confirmando que a Alemanha continuava em crise competitiva pós-2014 [que atualmente se veio a estender com a 3ª eliminação sucessiva na Copa de 2026 na América do Norte].

O Japão consolidou a sua caminhada como a Seleção asiática mais consistente, vencendo a Alemanha e a Espanha na fase de grupos, ambas por 2x1, sempre de virada, e perdeu com a Costa Rica. Nas oitavas de final foi eliminada pelo Croácia nos pênaltis, mas tornou a evidenciar organização, humildade, disciplina e capacidade de competir com potências mundiais.

Portugal chegou às quartas de final com esperança renovada, sobretudo depois da goleada à Suíça por 6x1, jogo em que Gonçalo Ramos marcou três gols. Porém, contra Marrocos, Portugal perdeu por 1x0, com gol de Youssef En-Nesyri, ficando a imagem de Cristiano Ronaldo saindo em lágrimas pelo túnel.

A Copa de 2022 foi difícil para Cristiano Ronaldo. Após tensão com o Manchester United e perda da titularidade na Seleção portuguesa durante a fase a eliminar, ainda marcou contra o Gana, tornando-se o primeiro jogador a estufar as redes em cinco Mundiais sucessivos, mas terminou a competição como suplente nos jogos decisivos.

O Brasil chegou ao Mundial como uma das seleções favoritas. A equipe de Tite tinha grande profundidade ofensiva: Neymar, Vinicius Júnior, Richarlison, Raphinha, Rodrygo, Gabriel Jesus e Antony, entre outros.

Golaço acrobático de Richarlison contra a Sérvia. Fonte: Youtube | FIFA.

O Brasil teve momentos de brilho, especialmente na vitória por 4x1 contra a Coreia do Sul, com futebol ofensivo e celebrações dançadas. O gol de Richarlison contra a Sérvia, de pontapé acrobático, foi provavelmente o mais bonito da competição.

Porém, a equipe caiu nas quartas de final contra a Croácia, nos pênaltis. Neymar marcou na prorrogação e parecia ter decidido o jogo, igualando Pelé como artilheiro da seleção brasileira, mas a Croácia empatou perto do fim, venceu nos pênaltis e seguiu para as semifinais.

Para Neymar, 2022 foi outra Copa de grande ambivalência: lesionou-se na fase de grupos, regressou nas eliminatórias e marcou um grande gol, mas Neymar terminou o Mundial como Suárez e Cristiano Ronaldo – em lágrimas.

Lágrimas de Suárez, Neymar e Cristian Ronaldo. Crédito: www.diariocambio.com.uy.

O jogo entre Argentina e Países Baixos nas quartas de final foi um dos mais tensos da competição: a Argentina vencia por 2x0, os Países Baixos empataram no final e a Argentina classificou-se nos pênaltis.

A Argentina esteve a vencer por 2x0, mas os Países Baixos empataram no final, com uma jogada ensaiada num livre. O jogo foi para pênaltis, e a Argentina venceu.

Depois do jogo, Messi protagonizou uma frase que se tornou viral: “¿Qué mirás, bobo? Andá pa’ allá?” (“Que estás olhando, tolo? Anda pra lá”), dirigida a Wout Weghorst. O episódio mostrou o protegido da FIFA sem a máscara de ‘inocência’ habitual, evidenciando uma postura bem mais irritada e provocadora do que a imagem pública habitual.

Enzo Hernández e Julián Álvarez foram decisivos: Hernández ganhou espaço durante a competição, marcou um grande gol contra o México e tornou-se peça fundamental no meio-campo, além de ser eleito o melhor jovem jogador da competição; Álvarez ganhou a titularidade no ataque, pressionou, atacou a profundidade e marcou gols importantes.

Di María tornou a ser decisivo: já tinha marcado na final da Copa América de 2021 contra o Brasil e em 2022 rubricou uma exibição brilhante na final do Mundial.

“¿Qué mirás, bobo?” Fonte: X / @DjMaRiiO

Porém, a grande narrativa desportiva foi a Argentina campeã do mundo, liderada por Messi. Começou perdendo por 2x1 para a Arábia Saudita por 2x1, mas a derrota acabou por funcionar como ponto de viragem. A Argentina cresceu emocionalmente, ajustou a equipe e foi construindo uma campanha de sofrimento, intensidade e identidade coletiva – e Messi chegou finalmente ao título com uma boa dose de sorte na final da Copa.

A imagem de Messi a levantar a Taça do Mundo encerrou uma das grandes narrativas da história do futebol: o gênio que já tinha vencido tudo a nível de clubes, finalmente conquistou o troféu mais desejado pela sua Seleção.

Maradona estava presente na memória coletiva e a Argentina de 2022 parecia jogar também com essa herança simbólica: unir a era de Maradona e a era de Messi num mesmo imaginário nacional – e quando Messi levantou a Taça, Maradona continuava o grande mito popular, mas Messi entrava definitivamente no mesmo território simbólico.

A final de 2022, entre França e Argentina, foi uma das mais dramáticas da história do futebol: a Argentina chegou a 2x0, com gols de Messi e Di María; a França parecia sem resposta, mas, perto do fim, Mbappé marcou dois gols em poucos minutos e levou o jogo para prorrogação.

Messi tornou a marcar na prorrogação, colocando a Argentina em vantagem, mas Mbappé empatou novamente, de pênalti, fazendo o 3x3 e completando um hat-trick numa final de Mundial.

Depois tudo foi decidido nos pênaltis, numa final que concentrou tudo: gênio, drama, colapso, recuperação, legado, juventude, ansiedade e catarse.

O duelo entre Messi e Mbappé. Fonte: Paris Saint-Germain.

Kylian Mbappé fez uma final extraordinária, marcou três gols e converteu o seu pênalti no desempate final, mas antes dos pênaltis, no último minuto da prorrogação, desperdiçou o gol que daria o título à França e o póquer de gols a si mesmo num só jogo – a sorte esteve do lado de Messi e companhia.

Messi quase perdeu a final que parecia ganha e Mbappé quase a reescreveu, mas mesmo derrotado saiu da final com rosto do futuro.

Em suma, a Copa do Mundo de 2022 foi  o primeiro Mundial realizado no Médio Oriente, o primeiro disputado no outono/inverno europeu, o Mundial da consagração de Messi e da Argentina, do “quase” tricampeonato de Mbappé herdeiro da próxima Era, da afirmação histórica de Marrocos, da queda de várias seleções tradicionais e de muitas tensões políticas, culturais, éticas e mediáticas.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Argentina 3(4)x3(2) França

» Gols: Messi, aos 23’ (pen.) e 108’, e Di María, aos 36’ (Argentina) Kylian Mbappé, aos 80’ (pen.), 81’ e 118’ (pen.) (França)

» Pênaltis: Messi, Dybala, Paredes e Montiel (Argentina);Mbappé e Kolo Muani (França)

» Data: 18.12.2022

» Local: Estádio Nacional Lusail, em Lusail (Qatar)

» Público: 88.966 espectadores

» Árbitro: Szymon Marciniak (Polônia)

» Disciplina: cartão amarelo –

» Argentina: Emiliano Martínez; Nahuel Molina, Cristian Romero, Nicolás Otamendi e Nicolás Tagliafico; Rodrigo de Paul, Alexis Mac Allister, Enzo Fernández e Julián Álvarez; Lionel Messi e Di María. Técnico: Lionel Scaloni.

» França: Hugo Lloris; Jules Koundé, Raphaël Varane, Dayot Upamecano e Theo Hernández; Tchouaméni, Adrien Rabiot e Antoine Griezmann; Ousmane Dembélé, Olivier Giroud e Mbappé. Técnico: Didier Deschamps.

Fontes principais: en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; www1.folha.uol.com.br; www.britannica.com; www.espn.com.br; www.fifa.com; www.rsssf.org; www.theguardian.com.

Sem comentários:

Copa do Mundo de 2022: genial duelo Messi-Mbappé, emergência de Seleções africanas e árabes, golaço de Richarlison, lágrimas de CR7, Neymar e Suárez

Cartaz da Copa do Mundo de 2022. Crédito: Reprodução. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo A Copa do Mundo de 2022, disputada no Qat...