quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (V): de 38 contratações de treinadores em 18 anos à chegada de Valdir Espinosa

Crédito: Marco Antônio Cavalcanti | revista Placar.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Após 1972 o declínio da competitividade desportiva iniciou uma marcha imparável de acompanhamento da crise financeira.

Foram anos aterrorizantes que persistiam em acabar com o Botafogo, enquanto a torcida era uma fortaleza que jamais se renderia e mantinha acesa a sua paixão pelo Glorioso tal como dantes, nos tempos dourados do futebol e das demais atividades desportivas, que de tão diversas e importantes permitiram ao Botafogo inaugurar as ‘Olimpíadas Botafoguenses’, plenas de inovação, que duraram sete anos (1957 a 1963), tendo o seu epílogo no ano em que o Presidente Paulo Antônio Azeredo (1954-1963) cessou definitivamente funções como o maior presidente da história do Glorioso até à data.

Foram anos muito difíceis, de certo modo trágicos, com a perda do maior símbolo material do Glorioso – o Palacete de General Severiano e tudo aquilo que representava, e continua a representar, quebrando várias linhas de continuidade do desporto botafoguenses.

Carlito Rocha, dirigente-símbolo do espírito botafoguense e último grande lutador contra a negociata entre o Botafogo e a Companhia Vale do Rio Doce: – “O Botafogo não pode sair daqui, o Botafogo é o maior clube do Brasil, é uma instituição nacional. O Botafogo não pode sair daqui, esse chão é nosso, é a vida do Clube.”

O octogenário presidente – uma espécie de pai-espiritual que viveu intensamente o Botafogo por sete décadas –, perdeu a sua última batalha desportiva e provavelmente apressou, sob uma tristeza profunda, o acontecimento da sua partida.

21 anos…

Após 1968 e de Mário Zagallo como treinador, sucederam-se Paulinho de Almeida (1971), Paraguaio (1971), Tim (1972), Sebastião Leônidas (1972-73), Paraguaio (1973-74), Paulistinha (1974), Mário Zagallo (1974-75), Telê Santana (1975-76), Paulo Amaral (1976), Sebastião Leônidas (1976-77), Zezé Moreira (1977), Paulistinha (1977), Danilo Alves (1977), Mário Zagallo (1977-78), Danilo Alves (1978), Joel Martins (1979), Jorge Vieira (1979), Paulo Amaral (1979-80), Othon Valentim (1980), Paulo Emílio (1980), Paulinho de Almeida (1980-81), Jorge Vieira (1981-82), Ernesto Guedes (1982), Zé Mário (1982-83), Sebastião Leônidas (1983), Didi (1983-84), Humberto Rêdes (1984), Jair Pereira (1984), Orlando Fantoni (1984), Jorge Vieira (1985), Abel Braga (1985), Carbone (1985-86), Mário Zagallo (1986), Joel Martins (1986-87), Jair Pereira (1987), Zé Carlos (1987-88), Pinheiro (1988) e Jair Pereira (1988).

De 1971 a 1988 foram 38 entradas à média de 2,1 treinadores anualmente, muitas repetições dos mesmos treinadores afetos ao Botafogo, sucessivas interrupções precoces, somente Mário Zagallo (1974-75, 518 dias) e Zé Mário (1982-83, 369 dias) conseguiram sobreviver mais do que 365 dias na função de treinador.

Nenhum logrou conquistar um título carioca – a linhagem de conquistadores iniciada por Charles Williams e Nicolas Ladanyi em 1929 foi interrompida em Mário Zagallo desde a sua saída em 1970.

70 anos depois de Williams e Ladanyi chegarem ao Botafogo, e quebrada a linhagem técnica, eis que é contratado um treinador sem relação de espécie alguma com o Glorioso: o gaúcho Valdir Atahualpa Ramires Espinosa.

Espinosa jogou no sul e no nordeste, e como jogador e treinador apenas havia passado por um grande clube brasileiro: o Grêmio, mas conquistara a Copa Libertadores da América (1983), a Copa Intercontinental (1983) e o Campeonato Gaúcho (1986) como treinador, entre os 36 e os 39 anos de idade.

Vinha também de duas experiências recentes e bem sucedidas no estrangeiro: o saudita Al-Hilal e o paraguaio Cerro Porteño, tendo conquistado um campeonato nacional em cada um desses países.


Os resultados que obteve como jovem treinador convenceram Emil Pinheiro, figura forte e dirigente do futebol botafoguense, a contratá-lo, tendo ido a Porto Alegre propositadamente para levar Espinosa para o Botafogo.

Pelas suas características profissionais e pessoais, provavelmente Espinosa foi o treinador ideal para conduzir o Botafogo à reconquista do futebol carioca, devolvendo-lhe a glória de vencer.

Valdir Espinosa enfrentou uma equipe de muita ‘malandragem’, especialmente de Josimar, Maurício e Renato Gaúcho, os quais procuravam recorrentemente driblar as regras da concentração, e para tornear o problema mostrou-se um treinador muito maleável e compreensivo, mas que em seguida cobrava desempenho dos jogadores.

Espinosa convivia inteligentemente com as brincadeiras e fugas dos jogadores. Em certa ocasião os jogadores encobriram Josimar, que tinha saído da concentração para uma festa, mas entretanto Espinosa deu pela sua falta e os jogadores inventaram desculpas rápidas para ganhar tempo de modo a Josimar entrar pelas traseiras do prédio.

Espinosa conhecia perfeitamente o perfil folgazão de Josimar e em lugar de o punir, fingia que era enganado de modo a manter o ambiente leve, cobrando depois o rendimento em campo através de conversas privadas regadas a churrasco.

Outra tática que o próprio Espinosa contou mais tarde reportava aos momentos em que tentavam esconder dele que iam beber cerveja u fazer feitas. Então, percebendo que era enganado, Espinosa inverteu o jogo e passou ele próprio a organizar e liberar o churrasco e a cerveja para o elenco um dia após as partidas. A única regra consistia nas esposas ficarem numa mesa e os jogadores noutra, só podendo falar de futebol.

Espinosa era considerado um predestinado para a psicologia. Na véspera da segunda partida decisiva para se encontrar o campeão carioca de 1989, 21 anos depois do último título botafoguense na competição, Valdir Espinosa ‘sonhou’ que Maurício marcaria o gol do título, e foi o próprio Maurício e companheiros que, mais tarde, contaram esse ‘histórico sonho’.

Ao intervalo Maurício estava febril, chorava e pediu para ser substituído. Sucede que as superstições acompanharam toda a campanha de 1989, porque Espinosa também foi contagiado pela tradição botafoguense nessa matéria. Então, Espinosa recusou a saída do jogador e disse-lhe que tinha sonhado que Maurício faria o gol do título, mandou-o lavar o rosto e regressar ao campo.

Maurício regressou e aos 12’ do 2º tempo, ou se o leitor quiser, aos 57’ de jogo (5+7 = 12), a cruzamento de Mazolinha, Maurício marcou o gol da vitória e do título de campeão carioca de 1989, encerrando o jejum o botafoguense.

Campanha completa aqui: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-campeao-estadual-invicto-de.html

Foi a consagração das superstições, tanto do ‘sonho’ de Espinosa como do lado da aritmética: o jogo realizou-se no dia 21 de junho; após 21 anos sem o título; o gol saiu aos 12’ do segundo tempo (invertido é 21), ou se o leito quiser, aos 57’ de jogo (5+7=12, invertido também é 21); e o placar do Maracanã registrava 21 graus centígrados.

O mais fantástico do lado do ‘sonho’ do treinador-psicólogo é que, após o jogo, Maurício foi à fala com o treinador mostrando-se satisfeito sobre o ‘sonho’. Então, para seu espanto, Espinosa confessou que não tinha sonhado coisa nenhuma – estava tão nervoso que nem sequer tinha dormido.

O resultado da deliberada invenção de Espinosa é que a doença aconteceu e o sonho era falso, mas o título foi verdadeiro.

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br

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