Praça Onze, espaço no qual as
primeiras escolas de samba desfilaram até à década de 1930 (gravura de Alfredo
Herculano)
por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o blogue
Mundo Botafogo]
O DESENVOLVIMENTO DO CARNAVAL
Os blocos e os cordões começaram a se formar nas décadas de 1880 e
1890. E os ranchos carnavalescos, depois
de 1892, com instrumentos de percussão, sopro e cordas, tocando melodias em
ritmo lento. Em 1897, o bairro de Madureira e outros subúrbios distantes do
Centro organizam seu próprio carnaval.
Em 1899 é composta por Chiquinha
Gonzaga (1847-1935), pianista, maestrina e iconoclasta, a primeira música
essencialmente carnavalesca – a marcha-rancho ‘Ô Abre-Alas’, feita para o cordão ‘Rosa de Ouro’. Em 1900, ocorreria o primeiro baile de carnaval em
Copacabana, considerada insalubre e um imenso areal. As músicas carnavalescas já refletiam e
satirizavam os fatos sociais e políticos da época.
Na Praça Onze, na casa da baiana Hilária Batista de Almeida (1854-1924), a famosa Tia Ciata – ‘mãe de santo’ e ‘partideira’
que trouxe o ‘samba de roda’ para o
Rio de Janeiro em 1876 –, reuniam-se malandros e compositores para saraus
musicais fartamente regados a acepipes. Essa hospitalidade festiva contribuía
para o desenvolvimento deles na cidade.
O CORSO NA AVENIDA CENTRAL
Em 1906, com a abertura da Avenida Central (mais tarde Av. Rio
Branco), os folguedos para lá se deslocam. O jornal ‘Gazeta de Notícias’ lança o primeiro concurso de cordões. Em 1907,
surge o legendário ‘Ameno Resedá’, “o rancho que foi escola”. E ainda,
inspirado em um desfile no carro presidencial, em 1º de fevereiro, por toda a
Avenida Central, das filhas do Dr.
Afonso Pena (1847-1909), inicia-se a moda do corso: automóveis e caminhões
abertos, enfeitados e apinhados de foliões fantasiados, que brincavam entre si
e com os passantes das ruas e calçadas.
Uma curtição! Realizavam batalhas de confete e serpentinas, duelos
de lança-perfume, e atiravam pequenas balas envoltas em papel crepom, os ‘jetons’. Em filas indianas, os
veículos transitavam em marcha reduzida, saindo geralmente da Praça Mauá,
atravessando a Avenida Central e estendendo-se pela Avenida Beira-Mar até o
antigo Pavilhão Mourisco, na Praia de Botafogo.
Acervo da Fundação Joaquim
Nabuco (América Ilustrada, nº 6, p. 48, 1879)
O HIGH LIFE E O MUNICIPAL
Em 1908 deixava-se de lado a Rua do Ouvidor. Era inaugurado neste
ano o célebre ‘High Life’, na Rua
Santo Amaro, no Catete. Um casarão de dois andares, com amplos salões e
varandas, no qual se promoviam quatro grandes e animadíssimos bailes,
exclusivamente no Carnaval – eram festas de arromba! Em 1909, o ’High Life’ instituiu o primeiro baile
premiando fantasias e folionas mais bonitas.
Em 1911, a Avenida Central recebe iluminação elétrica. Pula-se o
carnaval por toda parte. Um dos locais mais badalados era a saudosa Galeria Cruzeiro, no Hotel Avenida (atual Edifício Avenida
Central). Em Vila Isabel tornaram-se famosas as batalhas de confetes da Rua
Dona Zulmira e do Bulevar Vinte e Oito de setembro.
Em 1916, arrendado a um particular, o restaurante Assyrio, no Teatro Municipal (inaugurado em 1909), deu seis bailes noturnos de
carnaval, em 19 e 26 de fevereiro, e em 4, 11, 18 e 19 de março, com entradas a
dez mil réis por pessoa, vestindo traje a rigor ou fantasia mascarada.
AS PRIMEIRAS GRAVAÇÕES EM DISCO
Em janeiro de 1917, grava-se o histórico ‘Pelo Telefone’, de Donga
(1890-1974) e Mauro de Almeida (1882-1956),
inicialmente com a Banda Odeon e,
logo, na voz de Baiano (1870-1944) e
coro. Sucesso nacional, ele é considerado formalmente o primeiro samba
registrado em disco no Brasil. Porém, o musicólogo Roberto Moura (1947-2005) garante que dois outros sambas já haviam
sido gravados antes pela mesma Casa Edison: ‘Em Casa da Baiana’, em 1913, e ‘A
Vila Está Magoada’, em 1914.
Mais oito músicas caracteristicamente carnavalescas e o samba iria
virar modismo, penetrando na sociedade de consumo, notadamente a partir de
1923, quando o advento da radiodifusão no país ensejou o surgimento de uma nova
geração de cantores e compositores populares.
Foliões no carnaval do Rio
Antigo
O CARNAVAL SE TRANSFORMA
Em 1918 funda-se o clube ‘Cordão
da Bola Preta’ e, no antigo Teatro Fênix, acontece pela primeira vez o ‘Baile dos Artistas’. Em 1920, começa a
sair o bloco do ‘Eu Sozinho’,
constituído – como o nome indica – de um folião apenas.
Banhos de mar à fantasia realizam-se no estreito balneário do
Flamengo durante os carnavais no decênio de 1920, com sucesso entre os
praianos, e plateia aglomerada na mureta.
A Praça Onze, na Cidade nova, transforma-se no ponto alto dos
festejos carnavalescos. Em 1926, trazidos por uma empresa estrangeira, vieram
os primeiros turistas do exterior para apreciar o carnaval carioca.
Em 1929 ficam célebres as batalhas de confetes dos bondes São Januário e São Cristóvão. Nesta década de 1920 sumiram do carnaval os
tradicionais e barulhentos ‘Zé Pereiras’.
Após 1930 foi-se acabando o corso, em decorrência da dificuldade de aquisição
de automóveis de capota arriável (caros e rarefeitos no mercado) e de problemas
causados no trânsito, crescente e congestionado.
AS ESCOLAS DE SAMBA E OS DESFILES
INICIAIS
Na opinião de Sérgio Cabral
(1937–), jornalista, escritor, pesquisador e divulgador da MPB, “na
história das escolas de samba, os fatos, muitas vezes, misturam-se com as
lendas. Isso acontece principalmente quando se quer saber quais foram os primeiros
a fazer determinadas coisas. Cada um defende para si ou para o seu grupo o
pioneirismo de tudo o que aconteceu e acontece com as escolas de samba”.
Em 12 de agosto de 1928, nas redondezas do bairro do Estácio de
Sá, nasce a primeira ‘escola de samba’,
a ‘Deixa Falar’ – na verdade, o ‘Bloco Carnavalesco Deixa Falar’; mais
tarde, ‘Rancho Carnavalesco Deixa Falar’.
Em parte originária dos ranchos, muitas outras adviriam,
acentuadamente nos morros e subúrbios. A designação ‘escola de samba’, sugerida por Ismael Silva (1905-1978) no Estácio, seria adotada gradativamente,
firmando-se a partir de 1935.
Baile Infantil no clube ‘Botafogo’
(Revista ‘O Malho’, 1930)
Amigo de Villa-Lobos (1887-1959),
o baiano José Gomes da Costa ‘Spinelli’
(1901-1943), conhecido também por ‘Zé
Espinguela’, presidente do ‘Bloco
dos Arengueiros’ – que em 30 de abril de 1929 se tornaria a ‘Escola de Samba Estação Primeira de
Mangueira’ – e, desde 1927, realizador de encontros musicais de sambistas
no Engenho de Dentro – em um terreiro de macumba de sua propriedade –
promoveria em 1930 o primeiro desfile público das ‘escolas de samba’, num local ao lado de um armarinho que ficava
entre a Cervejaria Brahma e a Praça Onze. Venceu a Mangueira, com o enredo ‘Baianinha
de São Salvador’.
Em 9 de fevereiro de 1932, domingo de carnaval, o jornal ‘Mundo Esportivo’ – dirigido por Milton Rodrigues (1905-1972), e em cuja
redação militavam diversos jornalistas ligados diretamente à música popular
brasileira, como Orestes Barbosa (1893-1966),
Antônio Nássara (1910-1996) e Armando
de Lima Reis (1910-1983) – bancava o certame, divulgando amplamente o
evento por toda a imprensa. Eram dezenove as ‘escolas’ concorrentes, reunidas na Praça Onze pelo repórter Carlos Pimentel (s/d). Ganhou outra vez a Mangueira, sob o entrecho ‘Sorrindo’.
Em 1933, o patrocínio coube a ‘O
Globo’ (nova vitória da Mangueira,
com o tema ‘Uma Segunda-Feira no Bonfim’);
em 1934, ao jornal ‘A Hora’ (deu ‘Recreio de Ramos’, com ‘Brasil, Legião de Estrangeiros’); em
1935, ao jornal ‘A Nação’ (venceu a ‘Vai Como Pode’, hoje Portela, apresentando ‘O Samba Dominando o Mundo’). Em 1934
formara-se a ‘União Geral das Escolas de
Samba’, UGES, o primeiro órgão
de classe dos sambistas. Em 1935, o prefeito do então Distrito Federal, Pedro Ernesto (1884-1942), oficializou
os desfiles e tornou obrigatória a utilização de uma temática nacional nos
enredos das escolas.
Jornalista e pesquisadora, Dulce
Tupy (1948–) afirma que “o êxtase das escolas de samba só virá, de
fato, muito mais tarde. Se o rádio foi o veículo de afirmação do sambista
prestes a se profissionalizar, a escola de samba foi a trincheira onde o negro
se defendia de sua situação marginal. No momento em que a sociedade brasileira
fazia uma revisão de seus valores políticos/culturais, a escola de samba estava
apta a revelar um universo preservado
pela comunidade negra desde o período colonial”.
FERNANDO
MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)




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