quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Breve relato histórico dos 181 anos de carnaval carioca (II)

Praça Onze, espaço no qual as primeiras escolas de samba desfilaram até à década de 1930 (gravura de Alfredo Herculano)

por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)
[Deferência especial para o blogue Mundo Botafogo]

O DESENVOLVIMENTO DO CARNAVAL

Os blocos e os cordões começaram a se formar nas décadas de 1880 e 1890.  E os ranchos carnavalescos, depois de 1892, com instrumentos de percussão, sopro e cordas, tocando melodias em ritmo lento. Em 1897, o bairro de Madureira e outros subúrbios distantes do Centro organizam seu próprio carnaval.

Em 1899 é composta por Chiquinha Gonzaga (1847-1935), pianista, maestrina e iconoclasta, a primeira música essencialmente carnavalesca – a marcha-rancho ‘Ô Abre-Alas’, feita para o cordão ‘Rosa de Ouro’. Em 1900, ocorreria o primeiro baile de carnaval em Copacabana, considerada insalubre e um imenso areal.  As músicas carnavalescas já refletiam e satirizavam os fatos sociais e políticos da época.

Na Praça Onze, na casa da baiana Hilária Batista de Almeida (1854-1924), a famosa Tia Ciata – ‘mãe de santo’ e ‘partideira’ que trouxe o ‘samba de roda’ para o Rio de Janeiro em 1876 –, reuniam-se malandros e compositores para saraus musicais fartamente regados a acepipes. Essa hospitalidade festiva contribuía para o desenvolvimento deles na cidade.

O CORSO NA AVENIDA CENTRAL

Em 1906, com a abertura da Avenida Central (mais tarde Av. Rio Branco), os folguedos para lá se deslocam. O jornal ‘Gazeta de Notícias’ lança o primeiro concurso de cordões. Em 1907, surge o legendário ‘Ameno Resedá’, “o rancho que foi escola”. E ainda, inspirado em um desfile no carro presidencial, em 1º de fevereiro, por toda a Avenida Central, das filhas do Dr. Afonso Pena (1847-1909), inicia-se a moda do corso: automóveis e caminhões abertos, enfeitados e apinhados de foliões fantasiados, que brincavam entre si e com os passantes das ruas e calçadas.

Uma curtição! Realizavam batalhas de confete e serpentinas, duelos de lança-perfume, e atiravam pequenas balas envoltas em papel crepom, os ‘jetons’. Em filas indianas, os veículos transitavam em marcha reduzida, saindo geralmente da Praça Mauá, atravessando a Avenida Central e estendendo-se pela Avenida Beira-Mar até o antigo Pavilhão Mourisco, na Praia de Botafogo.

Acervo da Fundação Joaquim Nabuco (América Ilustrada, nº 6, p. 48, 1879)

O HIGH LIFE E O MUNICIPAL

Em 1908 deixava-se de lado a Rua do Ouvidor. Era inaugurado neste ano o célebre ‘High Life’, na Rua Santo Amaro, no Catete. Um casarão de dois andares, com amplos salões e varandas, no qual se promoviam quatro grandes e animadíssimos bailes, exclusivamente no Carnaval – eram festas de arromba! Em 1909, o ’High Life’ instituiu o primeiro baile premiando fantasias e folionas mais bonitas.

Em 1911, a Avenida Central recebe iluminação elétrica. Pula-se o carnaval por toda parte. Um dos locais mais badalados era a saudosa Galeria Cruzeiro, no Hotel Avenida (atual Edifício Avenida Central). Em Vila Isabel tornaram-se famosas as batalhas de confetes da Rua Dona Zulmira e do Bulevar Vinte e Oito de setembro.
Em 1916, arrendado a um particular, o restaurante Assyrio, no Teatro Municipal (inaugurado em 1909), deu seis bailes noturnos de carnaval, em 19 e 26 de fevereiro, e em 4, 11, 18 e 19 de março, com entradas a dez mil réis por pessoa, vestindo traje a rigor ou fantasia mascarada.

AS PRIMEIRAS GRAVAÇÕES EM DISCO

Em janeiro de 1917, grava-se o histórico ‘Pelo Telefone’, de Donga (1890-1974) e Mauro de Almeida (1882-1956), inicialmente com a Banda Odeon e, logo, na voz de Baiano (1870-1944) e coro. Sucesso nacional, ele é considerado formalmente o primeiro samba registrado em disco no Brasil. Porém, o musicólogo Roberto Moura (1947-2005) garante que dois outros sambas já haviam sido gravados antes pela mesma Casa Edison: ‘Em Casa da Baiana’, em 1913, e ‘A Vila Está Magoada’, em 1914.

Mais oito músicas caracteristicamente carnavalescas e o samba iria virar modismo, penetrando na sociedade de consumo, notadamente a partir de 1923, quando o advento da radiodifusão no país ensejou o surgimento de uma nova geração de cantores e compositores populares.

Foliões no carnaval do Rio Antigo

O CARNAVAL SE TRANSFORMA

Em 1918 funda-se o clube ‘Cordão da Bola Preta’ e, no antigo Teatro Fênix, acontece pela primeira vez o ‘Baile dos Artistas’. Em 1920, começa a sair o bloco do ‘Eu Sozinho’, constituído – como o nome indica – de um folião apenas.

Banhos de mar à fantasia realizam-se no estreito balneário do Flamengo durante os carnavais no decênio de 1920, com sucesso entre os praianos, e plateia aglomerada na mureta.

A Praça Onze, na Cidade nova, transforma-se no ponto alto dos festejos carnavalescos. Em 1926, trazidos por uma empresa estrangeira, vieram os primeiros turistas do exterior para apreciar o carnaval carioca.

Em 1929 ficam célebres as batalhas de confetes dos bondes São Januário e São Cristóvão. Nesta década de 1920 sumiram do carnaval os tradicionais e barulhentos ‘Zé Pereiras’. Após 1930 foi-se acabando o corso, em decorrência da dificuldade de aquisição de automóveis de capota arriável (caros e rarefeitos no mercado) e de problemas causados no trânsito, crescente e congestionado.

AS ESCOLAS DE SAMBA E OS DESFILES INICIAIS

Na opinião de Sérgio Cabral (1937–), jornalista, escritor, pesquisador e divulgador da MPB, “na história das escolas de samba, os fatos, muitas vezes, misturam-se com as lendas. Isso acontece principalmente quando se quer saber quais foram os primeiros a fazer determinadas coisas. Cada um defende para si ou para o seu grupo o pioneirismo de tudo o que aconteceu e acontece com as escolas de samba”.

Em 12 de agosto de 1928, nas redondezas do bairro do Estácio de Sá, nasce a primeira ‘escola de samba’, a ‘Deixa Falar’ – na verdade, o ‘Bloco Carnavalesco Deixa Falar’; mais tarde, ‘Rancho Carnavalesco Deixa Falar’.

Em parte originária dos ranchos, muitas outras adviriam, acentuadamente nos morros e subúrbios. A designação ‘escola de samba’, sugerida por Ismael Silva (1905-1978) no Estácio, seria adotada gradativamente, firmando-se a partir de 1935.

Baile Infantil no clube ‘Botafogo’ (Revista ‘O Malho’, 1930)

Amigo de Villa-Lobos (1887-1959), o baiano José Gomes da Costa ‘Spinelli’ (1901-1943), conhecido também por ‘Zé Espinguela’, presidente do ‘Bloco dos Arengueiros’ – que em 30 de abril de 1929 se tornaria a ‘Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira’ – e, desde 1927, realizador de encontros musicais de sambistas no Engenho de Dentro – em um terreiro de macumba de sua propriedade – promoveria em 1930 o primeiro desfile público das ‘escolas de samba’, num local ao lado de um armarinho que ficava entre a Cervejaria Brahma e a Praça Onze. Venceu a Mangueira, com o enredo ‘Baianinha de São Salvador’.
Em 9 de fevereiro de 1932, domingo de carnaval, o jornal ‘Mundo Esportivo’ – dirigido por Milton Rodrigues (1905-1972), e em cuja redação militavam diversos jornalistas ligados diretamente à música popular brasileira, como Orestes Barbosa (1893-1966), Antônio Nássara (1910-1996) e Armando de Lima Reis (1910-1983) – bancava o certame, divulgando amplamente o evento por toda a imprensa. Eram dezenove as ‘escolas’ concorrentes, reunidas na Praça Onze pelo repórter Carlos Pimentel (s/d).  Ganhou outra vez a Mangueira, sob o entrecho ‘Sorrindo’.

Em 1933, o patrocínio coube a ‘O Globo’ (nova vitória da Mangueira, com o tema ‘Uma Segunda-Feira no Bonfim’); em 1934, ao jornal ‘A Hora’ (deu ‘Recreio de Ramos’, com ‘Brasil, Legião de Estrangeiros’); em 1935, ao jornal ‘A Nação’ (venceu a ‘Vai Como Pode’, hoje Portela, apresentando ‘O Samba Dominando o Mundo’). Em 1934 formara-se a ‘União Geral das Escolas de Samba’, UGES, o primeiro órgão de classe dos sambistas. Em 1935, o prefeito do então Distrito Federal, Pedro Ernesto (1884-1942), oficializou os desfiles e tornou obrigatória a utilização de uma temática nacional nos enredos das escolas.

Jornalista e pesquisadora, Dulce Tupy (1948–) afirma que “o êxtase das escolas de samba só virá, de fato, muito mais tarde. Se o rádio foi o veículo de afirmação do sambista prestes a se profissionalizar, a escola de samba foi a trincheira onde o negro se defendia de sua situação marginal. No momento em que a sociedade brasileira fazia uma revisão de seus valores políticos/culturais, a escola de samba estava apta  a revelar um universo preservado pela comunidade negra desde o período colonial”.

FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)

Sem comentários:

Botafogo campeão brasileiro de barcos longos geral masculino e sub-19

Entrega do Troféu de Campeão Geral Masculino. Crédito: JBC TV, captura de tela, 18.10.2026. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo O B...