Baile de carnaval no clube
‘Fluminense’
por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o
blogue Mundo Botafogo]
OS ANOS DOURADOS DA FOLIA
“Quem foi que inventou o Brasil? / Foi seu Cabral! / Foi seu
Cabral! // No dia vinte e um de abril / Dois meses depois do carnaval...”.
– LAMARTINE BABO (1904-1963),
compositor de música popular (in ‘História do Brasil’)
Os concursos de músicas carnavalescas haviam sido regulamentados
em 1932 pelo prefeito Pedro Ernesto,
embora muitos deles já existissem extrarregularmente antes. O ano de 1932 conheceu
ainda a oficialização do carnaval carioca e da realização do primeiro grande
baile do Teatro Municipal do Rio de
Janeiro, patrocinado pelo Touring
Club do Brasil e efetuado às onze horas da noite de 8 de fevereiro, com
ingressos a sessenta mil réis. A decoração do salão do teatro coube ao
colunista social Gilberto Trompowsky
(1912-1982), que se assinava G. de A.
Nos anos vindouros seguiram-se outros bailes no Municipal, virando
uma tradição. E também os dos hotéis Glória
e Copacabana Palace, dos cassinos da
Urca e Atlântico, do Automóvel
Clube, dos Cronistas Carnavalescos,
dos Pierrôs, do Rádio, das Atrizes, dos Travestis, dos clubes Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Marimbás,
Monte Líbano e centenas mais.
Criada em 1933 pelos jornalistas Vasco Lima (s/d) e Pilar
Drummond (s/d), de ‘A Noite’, a
figura do ‘Rei Momo I e Único’ – “do
latim ‘Momus’, derivado do grego ‘Mómos’, deus, filho do Sono e da Noite,
personificação da maledicência, e
representado com máscara, tendo na mão um bastão”. Inicialmente era um grande boneco de papelão, modelado pelo
artista plástico Hipólito Colomb (–
1947). Mas em 1934, em consequência do êxito alcançado e para incentivar os
foliões, a dupla deu-lhe vida, fazendo de Moraes
Cardoso (–1948), cronista de turfe daquele jornal, o primeiro Rei Momo de
carne e osso – que permaneceria no cargo de 1934 a 1948, quando veio a falecer
em dezembro. Mantendo o costume, sucederam-se outros ocupantes no cargo do rei
do carnaval.
Dançando o frevo (Revista
‘Cruzeiro’, 1951)
Em 1935, com a apresentação do Clube dos Vassourinhas, vindo do Recife, Pernambuco, introduziu-se no carnaval carioca o frevo: um
ritmo apoiado no baião e na marcha, mesclado com o maracatu, e que tomou o
acréscimo de metais. O nome ‘frevo’
é uma corruptela da primeira pessoa do singular do indicativo presente do verbo
‘ferver’, já que a cadência
frenética da dança põe as multidões literalmente em ebulição.
Ainda em 1935, contestando o Rei
Momo, surgiu o Cidadão Momo – o cantor Sílvio Caldas (1908-1998), o primeiro
– e, em 1937, elegeu-se o Cidadão Samba
– o sambista e compositor Paulo da
Portela (1901-1949). Em 1942 a Prefeitura estimulou a animação do carnaval,
ofertando prêmios aos ranchos, blocos e escolas de samba, com julgamentos
feitos por comissões especializadas por ela designadas.
Em 1944 promovem-se banhos de mar à fantasia na Praia do Leme, a
exemplo do que já ocorrera na Praia do Flamengo. Havia também os concursos de
melhores fantasias que, confeccionadas em papel, se desmanchavam na água.
Em 1947 formou-se a Confederação
das Escolas de Samba e, em 1949, a Federação
das Escolas de Samba do Brasil, ano em que o desfile oficial dos sambistas
transferiu-se da Praça Onze para a Av. Presidente Vargas, na altura do Campo de
Santana.
Em 1950, a Associação dos
Cronistas Carnavalescos lançou o certame de Rainha do Carnaval Carioca, vencido pela vedete e atriz Elvira Pagã (1920-2003), uma paulista
escultural – 90 cm de busto, 55 de cintura e 90 de quadris. Até 1959 a
competição se dava no sistema de votos vendidos pelas próprias candidatas.
Em 1952, aliam-se as três entidades representativas das Escolas.
Em 1953 a mídia impressa considera a apresentação dos sambistas como “a maior atração do carnaval”. Em 1954
criou-se a Associação das Escolas de
Sambada Guanabara, AESEG. Em 1957 desloca-se o desfile, ainda gratuito,
para a Avenida Rio Branco. Em 1958 comparecem moradores da zona sul às quadras
das escolas. A classe média começou a descobrir as escolas de samba, que, até
então, só interessavam aos habitantes dos subúrbios e das favelas. Nesta década
de 1950 os concursos de fantasias do Teatro Municipal, em luxo e originalidade,
alcançaram o auge da fama.
Carnaval de rua em 1960 (foto de
Marcel Gautherot)
CARNAVAL CARIOCA, ATRAÇÃO
INTERNACIONAL
“Eu conheci o samba de pé descalço, hoje o samba está de smoking.”
– ISMAEL SILVA (1905-1978),
músico e sambista
Na década de 1960 houve o declínio do rádio e a ascensão da
televisão. Circulavam muito por toda a cidade os denominados ‘blocos de embalo’, sendo os principais
os rivais ‘Bafo da Onça’ e ‘Cacique de Ramos’. Os componentes desses
blocos marcavam o ritmo batendo dois tamancos com as mãos.
Em 1963, já instituídas pelos órgãos de turismo as entradas pagas,
há o crescimento e o retorno dos desfiles à Av. Presidente Vargas. Em 1965 – já
em pleno regime militar de exceção –, o governador Carlos Lacerda (1914-1977) financiou amplamente as escolas de samba
a fim de que se exibissem rica e luxuosamente – as fantasias eram obrigatórias
pelo regulamento, desde 1952 – durante o carnaval do quarto centenário de
fundação da Cidade.
Nos anos seguintes as Escolas foram se tornando o centro das
atenções do carnaval do Rio de Janeiro. Cobravam-se ingressos para que os
certames pudessem ser apreciados por um público em expansão: milhares de
populares e turistas, acomodados em improvisadas arquibancadas, desmontáveis.
As transmissões feitas pelas emissoras de televisão contribuíram para uma
afluência de segmentos dos setores artísticos, culturais e da sociedade aos
desfiles.
A partir de 1965, com a pioneira ‘Banda de Ipanema’, desenvolveram-se nos bairros e nas ruas grande
número de bandas carnavalescas que esquentavam mais ainda as folias de Momo. Em
1967 a classe média engrossa a frequência dos ensaios das escolas de samba e o
samba-enredo ‘O Mundo Encantado de
Monteiro Lobato’, da futura campeã Mangueira,
fez inusitado sucesso nos salões dos bailes de carnaval.
Ao final do ano de 1967 era gravado um disco de vinil em LP com os
sambas-enredos do Carnaval de 1968, antecipando assim ao povo, pela primeira
vez, letra e música das escolas de samba. Em 1969/1970 a Portela traz os seus ensaios para a sede náutica do clube Botafogo, no Mourisco, na zona sul carioca.
Na década de 1970 comercializam-se e agigantam-se as Escolas. O
samba e os sambistas são ofuscados pelo brilho das fantasias e da beleza dos
carros alegóricos. Para evitar os constantes atrasos nos desfiles limitou-se o
tempo de exibição de cada escola na pista.
Em 1974 e 1975 a apresentação dos sambistas foi deslocada para a
Avenida Presidente Antônio Carlos e, em 1978, para a Rua Marquês de Sapucaí. É
interessante ressaltar que já havia um plano elaborado, desde 1974, na Associação das Escolas de Samba, AESEG,
manifestando a necessidade imperiosa de se fixar os desfiles em um lugar
apropriado e permanente, exatamente naquele logradouro.
Rei Momo, década de 1960 (Revista
‘Cruzeiro’)
DO SAMBÓDROMO À INTERNET
Em 1984, com o projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer (1907-2012), e em rápida execução, inaugurou-se, no
governo de Leonel Brizola (1922-2004),
a designada ‘Passarela do Samba’
(Passarela Professor Darcy Ribeiro, 1922-1997), na Rua Marquês de Sapucaí.
Local aparentemente definitivo – salvo especulações sobre novas mudanças que
ora ou outra surgem eventualmente – para ser o palco das escolas. Logo
apelidado de ‘Sambódromo’, é dotado
de espaçosas e imponentes arquibancadas de concreto armado e de reversíveis
camarotes que se tornam salas de aula no período letivo, em um CIEP, Centro Integrado de Educação Pública. Há ainda uma gigantesca ‘Praça da Apoteose’, na qual as escolas
deveriam evoluir após as apresentações. Esta ideia da ‘apoteose’, considerada inviável, foi revogada pelos próprios
sambistas dois anos depois.
Na estreia da Passarela do
Samba, no carnaval de 1984, deu
Mangueira na cabeça, com o enredo ‘Yes,
Nós Temos Braguinha’. Descontentes com a sua Associação, um grupo de
dirigentes das principais organizações do samba fundou, em 24 de julho daquele
ano, a Liga Independente das Escolas de
Samba, LIESA, que se encarregaria dos interesses das agremiações e da
preparação dos desfiles, utilizando a informática.
No vai e vem dos deslocamentos, da Praça Onze de Junho à Marquês
de Sapucaí, passando pelas avenidas Rio Branco, Pres. Vargas e Pres. Antônio
Carlos, os desfiles das escolas de samba transformaram-se em uma atração
internacional, constituindo-se no ponto alto do carnaval brasileiro e num dos
mais belos, ricos e luxuosos espetáculos visuais do mundo, em que não falta
tecnologia, engenho e arte.
No entanto, o crítico e pesquisador José Ramos Tinhorão (1928–) acha que “os sambistas cometeram um
suicídio cultural. Eles, ingenuamente, acreditaram que com a participação de
cenógrafos e gente da alta sociedade nas suas escolas seriam melhor aceitos.
Não ficaram mais bonitos, continuam pobres e agora só participam do carnaval
pelo esforço físico da caminhada e pelo trabalho braçal de empurrar carros”.
Carnaval de 1981 (Revista
‘Manchete’)
Polêmicas infindáveis à parte, estamos vivendo o décimo sexto
carnaval do século 21. Hoje temos festa,
samba e desfiles transmitidos via internet para todo o planeta. Felizmente não
se materializou o vaticínio do sambista Martinho
da Vila (1938–), feito há mais de vinte anos. Segundo o compositor e cantor
de Vila Isabel, as escolas de samba, patrocinadas e oligopolizadas, iriam se
apresentar nos folguedos momescos do Terceiro Milênio exibindo marcas e
logotipos de produtos e empresas. Será que quem sobreviver ainda verá?
“Sem bicho [o jogo] e bicha não há carnaval.”
– CARLOS IMPERIAL (1935-1992),
polêmico produtor artístico, autodeclarado ‘rei da pilantragem’ e adepto do
Botafogo de Futebol e Regatas
FERNANDO
MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)





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