por FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI
0952-C)
[Deferência especial para o
blogue Mundo Botafogo]
[N.A. Obra de juventude, escrita em
1971, com narrativa do ponto de vista feminino, o texto foi publicado em 1994 na antologia VALORES
DA NOVA LITERATURA BRASILEIRA, da Litteris
Editora, Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio
de Edição.]
“Acabou de escrever aliviada. A gente escreve porque sabe – pensou
– a gente escreve para aprender. Escrever é um modo de descobrir o que se passa
conosco através dos outros. A gente é escrito, concluiu”.
– ARTUR DA TÁVOLA (1936-2008), in ‘Uma História Irritantemente Comum’
Aqui estou, sozinha. Neste imenso apartamento vazio. Ninguém a
perturbar. Da mesa de trabalho avisto as janelas e uma paisagem que tanto
admiro. Hoje, porém, experimento a carga disso tudo. Bate um vento azul e leve,
lento e penetrante.
Observo a mesa e os papéis que se amontoam displicentemente
espalhados pela casa, os livros formando pilhas. O labor me espera. Lápis,
borracha e a antiga máquina de escrever, tudo contribui para o meu remorso.
Remorso de quê? Porque lá de dentro, bem do fundo de meu íntimo, vem uma
pergunta há muito presente. Que fazer nesta tarde?
O vento continua balançando mansamente as velhas janelas que
sentem o seu peso e rangem. Por todo o apartamento percebe-se um longo e quase
inaudível lamento, assim como uma presença amiga, distante. Em busca de
palavras murmuradas, praticamente mudas.
E penso... Não é o vento, mas a solidão que geme. Esta vista que
desfila ante meus olhos não leva a evocações, daqui não me transporta, como em
tantas outras vezes. As ondas do mar e o seu barulho longínquo, que sempre me
acalentam, ficaram hoje diferentes. Incorporaram-se a mim como se fossem o meu
inconsciente. Como se fossem eu mesma. Não as entendo. Elas estão como estou. E
o silêncio se sobrepõe à solidão... Não sei se a solidão gera o silêncio ou o
contrário. Ou ainda, se ambos se completam.
Não, não é a solidão que geme. Nem o silêncio ou as janelas. Mas,
sim, esta sensação morna de que nada acontecerá, que o telefone não irá tocar e
que nenhuma voz se debruçará no vazio das horas para uma palavra qualquer,
mesmo banal e sem importância.
Continuo a olhar os livros e papéis empilhados. Lápis, borracha,
caneta e máquina de escrever. Vejo a quantidade de coisas que deverão ser
produzidas em um determinado tempo. E mais uma vez me pergunto. Que fazer nesta
tarde?
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