sexta-feira, 24 de abril de 2026

Paulo Azeredo versus Carlito Rocha, a razão e a emoção nos destinos alvinegros (I)

Reprodução | Montagem MB.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Botafogo Football Club e o Botafogo de Futebol e Regatas tiveram grandes dirigentes, desde as presidências iniciais de Joaquim Antônio de Souza Ribeiro (presidente entre 1905-1907, 1909-1910 e 1915-1916), que faturou os dois primeiros títulos estaduais (1907, 1910) e desempenhou um papel decisivo para que o nosso Clube não desaparecesse quando estivemos reduzidos a 12 sócios, até às presidências renovadoras de Paulo Antônio Azeredo (presidente em 1923-1924, 1926-1936 e 1954-1963), que colecionou títulos estaduais na equipe de futebol Principal (1930, 1932, 1933, 1934, 1935, 1957, 1961, 1962), nos Juvenis (1935, 1961, 1962), nos Infantis (1932, 1957), nos Aspirantes (1958, 1959) e nos Terceiros Quadros (1928, 1931), inaugurou duas sedes e foi o mais longevo de todos os presidentes (21 anos), além de inúmeros títulos sul-americanos, brasileiros e estaduais em múltiplas modalidades desportivas.

Paulo Azeredo, nascido em 1895, teve ainda como característica muito particular ter sido o primeiro ´gandula’ do Botafogo Football Club, quando ainda existiam as palmeiras do Largo dos Leões como baliza, e só não foi fundador do Botafogo porque tinha menos de 10 anos de idade. Mais tarde, Flávio Ramos referiu-se a Paulo Azeredo como “menino também, desmontando do seu ‘poney’ e encostando-se a uma palmeira, para torcer, como nosso primeiro gandula” (Castro, 1951: 14-15).

O gandula, ainda de calções, acabou por se tornar atleta e foi campeão estadual da categoria infantil em 1910, pelo Primeiro Quadro, marcando dois gols, tornou-se veterano em 1916, benemérito em 1925 e grande benemérito em 1939.

Em 1923 Paulo Azeredo ascendeu à presidência do Botafogo. Desde 1912 o Botafogo buscava uma garantia de campo para expandir o seu patrimônio, visando aumentar a arquibancada e construir a sede social. Foi precisamente o presidente Azeredo que iniciou a campanha, influenciando o pai, Senador Antônio Azeredo, a interceder pelo Botafogo, e no dia 2 de janeiro de 1925, o Presidente da República, Arthur Bernardes, sancionou o decreto do Congresso Nacional que autorizava o aforamento do imóvel ao Botafogo.

No ano seguinte regressou à presidência do Glorioso, muito prestigiado pelo seu entusiasmo e empreendedorismo, e levou uma alma nova ao Clube, renovando a administração e revolucionando o futebol botafoguense. Alceu Castro refere-se assim ao presidente: – “Foi eleito presidente o vulto inconfundível de Paulo Azeredo, que assim iniciou a sua magnífica administração […] que daria ao Botafogo as maiores glórias esportivas, morais e materiais” (Castro, 1951: 265).

Efetivamente Azeredo percebeu quão era fundamental regressar aos títulos e montou uma nova comissão técnica euro-brasileira composta pelo médico Victor Guisar, pelo técnico inglês Charles Williams e por um superintendente, o húngaro Nicolas Ladanyi. O superintendente tinha tão grande prestígio que Williams demitiu-se para lhe dar o lugar, passando Nilo Braga a auxiliar do húngaro.

O resultado foi o Botafogo tornar-se tetracampeão carioca e conquistar 5 títulos em seis anos, cujas campanhas averbaram globalmente 75 vitórias, 22 empates e 16 derrotas (76% de aproveitamento, segundo os critérios de pontuação da época), 320 gols a favor e 176 contra, e o artilheiro Carvalho Leite assinalou 79 gols. O Clube ainda conquistou o título nacional de 1931, lançado embrionariamente como campeonato brasileiro (título que deveria ter sido homologado pela CBF), mas sem continuidade.

O Botafogo começou a ganhar novamente após longos 18 anos e Paulo Azeredo teve um papel essencial na crise entre o amadorismo e o profissionalismo e apoiou a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) na montagem da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 1934, em Itália, que incluiu 9 jogadores titulares do Botafogo.

Na presidência de Paulo Azeredo foi construída a sede em 1928 e foi aberto, em 1931, o caminho para a fusão do Botafogo do futebol com o Botafogo das regatas. Quer os botafoguenses de terra, quer os botafoguenses de mar, desejavam a fusão, e foi Paulo Azeredo, juntamente com Viveiros de Castro, que incumbiu Alceu Mendes de Oliveira Castro de sondar o seu primo, Antônio Mendes de Oliveira Castro, apelidado de ‘Almirante’, maior figura do Club de Regatas Botafogo e legendário campeão brasileiro de remo, em 1902, sobre a fusão dos dois clubes – que só não ocorreu à época porque, apesar da decisão favorável do Almirante, a influência dos tricolores no CR Botafogo ainda era muito grande.

No entanto, embora tenha solicitado a sua dispensa da presidência em 1936, por razões profissionais, Paulo Azeredo esteve presente na fusão e a sua influência era enorme. A ele se deve a atual designação do nosso Clube: a designação que foi proposta, por via de ‘antiguidade, era de ‘Botafogo de Regatas e Futebol’, o que gramaticalmente não soava bem, e foi Paulo Azeredo que acabou por inverter as modalidades e fazer valer o ‘Futebol e Regatas’.

O ‘homem providencial’ saiu da presidência deixando títulos e uma sede nova para o Clube. Durante os 13 anos seguintes não foram conquistados mais campeonatos cariocas, o que só aconteceu novamente em 1948.

Entretanto regressou à presidência, novamente em tempo de crise, para conduzir o Botafogo entre 1954 a 1963, tornou a imprimir o seu dinamismo e capacidade empreendedora, formando um novo plantel repleto de futuros campeões que, após 9 anos sem títulos cariocas, se viriam a sagrar campeões estaduais em 1957, 1961 e 1962, e campeões interestaduais do Rio-São Paulo em 1962 – e mundiais pela Seleção Brasileira em 1958 e 1962 com linhas atacantes predominantemente tituladas por botafoguenses.

No ano de 1962 o Botafogo alcançou a magna relevância de potência nacional multiesportiva conquistando 80 campeonatos e 40 vice-campeonatos coletivos, nacionais e estaduais, em múltiplas modalidades, que ocorreram na sequência de mais uma inovação de enorme craveira – a criação das Olimpíadas Botafoguenses iniciadas em 1957 e realizadas anualmente até à saída de Paulo Azeredo da presidência.

Nesse fabuloso ano de 1962 – também o ‘Ano de Mané’ – o Botafogo conquistou o título simbólico de ‘Campeão de Terra, Mar e Ar’ e de ‘Campeão da Cabeça aos Pés’, vencendo no aeromodelismo, futebol, remo, voleibol e xadrez.

O presidente Azeredo solicitou outra vez a sua dispensa da presidência, desta vez por razões de saúde, em 1963, deixando novamente o Botafogo com muitos títulos no futebol e em inúmeras modalidades desportivas, assim como uma segunda sede, o Mourisco-Pasteur, em finais da década de 1950 e início da década de 1960. Foi ele o presidente dos anos gloriosos do Botafogo, tanto na ‘Era Amadora’ como na ‘Era Profissional’ – anos que projetaram o Botafogo Football Club e o Botafogo de Futebol e Regatas em todo o Brasil, em todo o continente sul-americano e em todo o Mundo.

Dotado de um raciocínio soberbo, a sua condução desportiva era pautada pela racionalidade, pela assertividade dos seus argumentos e pela capacidade de realização; era um homem do mundo, gestor de negócios e com faro político/diplomático notável, seja em momentos de grande relevância, seja em momentos de menor relevância. Por exemplo, em uma reunião com os grandes clubes do Rio de Janeiro envolveu também o América e o Bangu. Após a reunião um dos diretores mencionou o caso desses dois clubes não serem ‘grandes’, mas ‘médios’, e o presidente Azeredo respondeu que não ganhava nada com essa distinção e tal ‘promoção’ os traria para o seu lado.

Foi esse o homem que comandou a ‘barcaça’ durante 21 anos intercalados: profissionalmente racional, socialmente politizado e sagazmente assertivo, zelando desse modo pelos interesses e pelas glórias do Botafogo.

Um verdadeiro símbolo da vontade de vencer!

De permeio com as duas figuras presidenciais mencionadas (presidentes Souza Ribeiro e Paulo Azeredo) surgiu um rapaz que atravessaria toda a vida do Botafogo durante quase 7 décadas (1913-1981) como atleta, técnico, dirigente e presidente: Carlos Martins da Rocha, o ‘Carlito Rocha’, personagem multifuncional e destacado dirigente do Glorioso.

O impacto da sua vida e obra desportivas será publicada na II Parte desta publicação.

Fontes: [1] Blogue Mundo Botafogo (publicações sobre Paulo Azeredo, Carlito Rocha, sortilégios e superstições). [2] Boletins Oficiais do Botafogo de Futebol e Regatas. [3] Castro, Alceu Mendes de Oliveira (1951).O Futebol no Botafogo (1904-1950). Rio de Janeiro: Gráfica Milone. [4] www.otempo.com.br.

2 comentários:

Sergio disse...

Não há dúvida de que Paulo Paulo Azeredo foi o maior presidente do Botafogo de Futebol e Regatas. Outro grande feito de Azeredo entre muitos feitos, foi a união interna de seus sócios, beneméritos e grades beneméritos. Não tenho certeza, mas acho que foi ele que disse:"governar o Botafogo unido já é difícil, imagina desunido".
Só quem não conhece a história do Botafogo é capaz de se referir a um certo ex presidente como o " maior botafoguense da história" e subentende -se que este seria seu maior presidente.
Uma pena que no momento atual não tenhamos um dirigente do quilate de Paulo Azeredo.
Confesso que estou muito decepcionado com o momento ao que chegou o nosso clube. Infelizmente o John Textor teve atitudes extremamente temerarias, que levaram o clube a atual situação. Entretanto, apesar do momento caótico do Botafogo, não podemos deixar de negar bons benefícios para o BFR, não só dois títulos importantes, sendo a LA o mais importante da história do clube, como melhoria na estrutura do clube, com o CT Lonier, que segundo o Alex Telles e Bruno Guimarães não deixa nada a dever aos melhores centros da Europa. Também destaco as melhorias do Estádio Nilton Santos, abandonado e mal aproveitado pelo associativo, tão abandonado que quando Luís Castro visitou o local, tomou um susto. E o que dizer dos investimentos na base, algo que não era levado a sério há décadas.
E por que escrevo isso? Simples. Durante quase 5 décadas o Botafogo perdeu a expressão em termos nacionais, comum brilho aqui e ali, e chegou a uma dívida astronômica, e pouquíssimas conquistas justificam essa dívida. Um clube a deriva, sem base, sem estádio e sem centro de treinamento. O que o Textor fez em 2025 e parte de 2026 é realmente absurdo, mas se serva de consolo, ele fez mais pelo Botafogo do que os "amadores" em mais de 5 décadas, inclusive o aumento absurdo da dívida, mas pelo menos conseguimos ter um ano de muitas alegrias. E pouco, sim, e sinceramente não esperava que o Botafogo retornasse ao caos que está no momento. Parece ser uma sina o clube estar sempre "entre o Céu e o Inferno"
Desculpe o desabafo, mas temos que o Botafogo caia novamente nas mãos do social. Abs e SB!

Ruy Moura disse...

A segunda arte da publicação contrapõe Azeredo e Carlito no valor acrescentado aos destinos do Botafogo. Dois personagens únicos na vida do Botafogo por razões muito diferentes.

Porém, como o Sergio expressou, a arte de governar pela união transformou o Botafogo em protagonista planetário.

Do Textor sempre soube, desde o início, as suas características e que, evidentemente,
quereria lucrar com o futebol. Absolutamente legítimo. Mas meteu-se em altas cavalarias para as quais não estava preparado com sabedoria suficiente acerca do futebol. O 1º semestre de 2025 foi fatal para ele e para o Botafogo quando erradamente colocou os ovos todos no cesto do Lyon, achando que pelo Botafogo estava seguro e os títulos conquistados serviam-lhe de escudo. Lentamente o castelo de cartas foi caindo: no Crystal Palace não consideravam as suas recomendações, no Lyon a sociedade futebolística francesa fez-lhe cama de faquir para se deitar, no Molenbeek a torcida foi à ira com as suas peripécias e finalmente, no Botafogo, que foi o único lugar em teve sucesso, está em queda livre. Em suma, eu sabia - grosso modo - quem ele era, mas nunca imaginei que percebesse tão pouco de futebol e de macro teias financeiras. Para um bilionário é coisa muito estranha...

Conseguiu algo muito difícil em tão pouco tempo: de figura admirada e desejada na chegada ao átrio da catedral do futebol a figura indesejada no salão de convivas por todos com quem lidou. Difícil fazer pior...

Do Clube propriamente dito, popularmente designado por 'social', não creio que queira gerir o futebol - porque não tem a mínima capacidade para o fazer (não tinha antes, não tem depois com dívida duplicada). A intenção deve ser a de desenhar uma nova estratégia para se obter maior influência junto de novos investidores. Para que fim, não sabemos.

Abraços Gloriosos.

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