por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
Ir do Inferno ao Céu entre quarta e domingo é algo a
que incrivelmente nos habituámos: esperando o melhor, sai o pior; esperando o
pior, sai o melhor.
No entanto, até se compreende: de um lado, talvez uma
equipe envergonhada pelo péssimo exemplo de postura futebolística face à Chapecoense,
querendo redimir-se; de outro lado, que equipe ideal para a nossa redenção se
não uma equipe-exemplo do ‘dinizismo’?
É fácil, pois, entender o resultado. Contra diversas
equipes o sistema de jogo pretende ser attack,
attack, attack – embora nem isso seja – e desconjunta totalmente a equipe,
com jogadores remendados em posições inadequadas. Quando se espera a posse de
bola pouco objetiva e muitas vezes fútil do ‘dinizismo’, eis que a equipe
funciona em futebol vertical, defendendo-se melhor e criando contra-ataques perigosos
nos espaços abertos pela defesa adversária ou em lançamentos longos.
Não temos qualidade na saída de bola e, por isso, é
muito difícil armar ataques. Não porque não haja jogadores para isso, mas porque
o sistema tático é inconsistente, os jogadores, que não são propriamente
polivalentes, tanto jogam numa posição como noutra e acabam por não conseguir bons
desempenhos em nenhuma delas.
Jogando na vertical, especialmente contra equipes ‘dinizistas’,
e em contra-ataque, com sistema tático consolidado e jogadores nas sua posições
criando rotinas de jogo e mecânicas bem afinadas, então podemos pensar em
vitórias.
Porque jogadores como Alex Telles, Vitinho, Justino,
Santi Rodriguez, Montoro, Medina ou Villaba não me parece discutível que não sejam bons
jogadores, mas alguns têm desaprendido com certas decisões de Franclim Carvalho
que roçam o absurdo.
Dito isso, o Botafogo entrou no jogo com disposição, foi
combativo desde o início e manteve o foco durante os noventa minutos – tudo aquilo
que é fundamental para que depois funcione o sistema tático (se for bem
definido) e a capacidades individuais consigam emergir.
E logo aos 6’ Ferraresi efetuou um lançamento longuíssimo
a partir da defesa, Gustavo Henrique e Villalba disputaram a bola no alto, sobrou
para Arthur Cabral que ajeitou, avançou e disparou um petardo sem nenhuma
possibilidade de defesa. Botafogo 1x0.
Porém, a alegria da arquibancada alvinegra do Rio esmoreceu
rapidamente e a alegria passou para a arquibancada alvinegra de São Paulo: aos
10’ o Corinthians criou perigo pela 1ª vez, a nossa defesa aliviou, mas Huguinho
foi desarmado na saída de bola, que sobrou para Rodrigo Garro, que chutou
cruzado no canto oposto e empatou a partida aos 10’. Não querendo ‘bater’ no
mau goleiro que temos, tenho dúvidas sobre o posicionamento adequado de Neto, que
me parece deixar aberto o lado oposto da baliza por onde a bola entrou.
O jogo animou-se por parte do Corinthians, que manteve
a posse de bola como valia principal, o Botafogo marcava bem à zona e disputava
bolas, manteve o foco e mostrou sentido de ataque rápido e inesperado.
Foi assim que Ferraresi conseguiu arrancar um pênalti
a Gustavo Henrique, aos 23’, mas o Var resolveu que não seria pênalti, chamou o
árbitro e, como é da praxe, os árbitros não têm coragem de manter a sua posição
e alinham sempre pelos homens do vídeo, anulando a decisão.
E enquanto o tiki-taka improdutivo do Corinthians ia
facilitando a defensiva do Botafogo, porque a posse era praticamente na zona do
meio campo e para trás, o Botafogo esperava – e explorava – as oportunidades,
eis que aos 31’ Montoro ganhou a bola na defesa, tocou para Kadir, este tocou para
Arthur Cabral, que ajeitou e disparou de muito longe um potentíssimo remate. Golaço!
Botafogo 2x1.
A partida permaneceu disputada, o Botafogo continuou
marcando bem, ganhando divididas e controlando o jogo. A única oportunidade do
Corinthians até ao intervalo ocorreu as 40’, numa das poucas jogadas realmente
objetivas da equipe, quando Raniele respondeu a um belo cruzamento com uma
cabeçada perigosíssima ao travessão.
Aos 45+7’, na última jogada do 1º tempo, Alex Telles
respondeu em cobrança de falta que saiu rasando o ângulo superior da baliza de
Hugo Souza.
No 2º tempo o Botafogo superou bem o ‘dinizismo’ com
uma linha defensiva bem colocada, protegida pelos homens do meio, e enquanto o
adversário procurava o empate, o Botafogo efetuava lançamento longos perigosos.
Villalba pelo lado esquerdo fazia um jogo do grande qualidade e à terceira investida
perigosa, aos 69’, Villalba recebeu uma bola longa disparada por Neto, ganhou
da marcação, avançou até dentro da grande área, tocou para Kauan Toledo em
frente à baliza demorou um milésimo de segundo, a bola sobrou um pouco para
trás e Arthur Cabral estava lá para o hat-trick.
Botafogo 3x1.
Com o jogo controlado, aos 87’, numa grande jogada de
envolvimento da defesa contrária, Cabral tocou para Kauan Toledo à direita, ele
passou pela marcação e rematoou para uma boa defesa do goleiro. Na cobrança de
escanteio de Alex Telles, Barboza cabeceou, Hugo Souza fez uma defesa
espetacular e no rebote Santi Rodriguez acertou o poste esquerdo da baliza de
Hugo Souza – e a goleada esteve à vista.
Os dez minutos finais foram de gestão do Botafogo
sobre um adversário com bola e sem criatividade.
Empenho, combatividade, contragolpe e criatividade
marcaram a exibição realmente muito boa da equipe, com destaque, evidentemente,
para o hat-trick de Arthur Cabral – o
homem do jogo.
O outro destaque do jogo foi Alexander Barboza, que
mostrou que se pode ser profissional dentro de campo e fora de campo, sem
demagogias nem auto deslumbramentos.
De certo modo a ausência de Danilo libertou mais a
equipe. O que Barboza tem mais, Danilo tem menos, isto é, Danilo parece-me vislumbrado
com a sua súbita ascensão, Franclim Carvalho retirou-lhe aparentemente parte da
criatividade ao colocá-lo em posição menos confortável em campo e Danilo parece
ter ficado à beira de colapso criativo (dois maus jogos anteriores) e mental.
A criação foi evidente com Montoro, Villalba e mesmo
Santi Rodríguez, substituto de Montoro. Talvez Franclim tenha percebido onde
Montoro deve ficar na equipe para retomar as suas qualidades, que Villalba – a quem tem
colocado em segundo plano – é um dos melhores homens da frente e que pode jogar
com Santi Rodríguez, ao contrário do que havia sentenciado – e finalmente que
talvez perceba que Joaquín Corrêa seja, na melhor das hipóteses, reserva de
reserva.
Kauan Toledo – uma ‘Jóia do Bairro’ – pode ser melhor
solução do que Kadir, que me parece ainda não estar preparado para exibir cm conistência as suas
melhores qualidades.
Ferraresi é titular absoluto na zaga, mas precisa de
companhia melhor do que a de Bastos, que não tornou a ser o mesmo após cirurgia.
E, finalmente, esta foi uma partida para Franclim
perceber que o tal Botafogo attack, attack, attack, não existe, que o
equilíbrio é a melhor receita e que o modelo de jogo é outro, explorando futebol
vertical, lançamentos longos e velocidade, sem perder de vista, evidentemente,
uma melhor saída de bola para também urdir ataques com a bola rolando no
gramado – e se não perceber isso arrisca-se a sair pela porta baixa.
FICHA TÉCNICA
Botafogo 3x1
Corinthians
» Gols: Arthur Cabral, aos 6’, 31’ e 69’ (Botafogo);
Rodrigo Garro, aos 10’ (Corinthians)
» Competição: Campeonato Brasileiro
» Data: 17.05.2026
» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de
Janeiro (RJ)
» Público:15.841 pagantes; 17.556 espectadores
» Renda: R$ 656.210,00
» Árbitro: Felipe Fernandes de Lima (MG); Assistentes:
Felipe Alan Costa de Oliveira (MG) e Celso Luiz da Silva (MG); VAR: Marco
Aurelio Augusto Fazekas Ferreira (MG)
» Disciplina: cartão amarelo – Mateo Ponte, Cristian
Medina, Arthur Cabral, Lucas Villalba, Alexander Barboza e Alex Telles
(Botafogo) e Lingard (Corinthians)
» Botafogo: Neto; Mateo Ponte (Vitinho), Ferraresi,
Alexander Barboza e Alex Telles; Huguinho, Cristian Medina (Justino) e Álvaro
Montoro (Santi Rodríguez); Lucas Villalba (Edenílson), Arthur Cabral e Kadir
(Kauan Toledo). Técnico: Franclim Carvalho.
» Corinthians: Hugo Souza; Matheuzinho, André Ramalho,
Gustavo Henrique e Matheus Bidu; Raniele (André), Carrillo (Pedro Raul), Breno
Bidon (Allan) e Rodrigo Garro (Dieguinho); Lingard (Kaio César) e Yuri Alberto.
Técnico: Fernando Diniz.



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