sábado, 16 de maio de 2026

Entre o céu e o inferno (III): dos ‘sutiãs’ vitoriosos de Carlos Roberto ao célebre Carrossel Alvinegro (2006-2008)

Arte: Iram Santos.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Em 2006 o Botafogo reforçou o seu plantel e trouxe um treinador bem nosso conhecido: Carlos Roberto, grande campeão pelo Glorioso (1967-1975, 442 jogos e 15 gols). O Botafogo iniciou, então, uma trajetória muito interessante no âmbito estadual, sagrando-se campeão da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca.

O técnico introduziu o uso de coletes especiais nos treinos do Clube, técnica importada dos Emirados Árabes Unidos, que visava melhorar o rendimento dos atletas, monitorando o esforço físico e o desempenho durante as atividades. Embora os coletes com GPS sejam atualmente padrão no futebol, naquela época era um equipamento inovador, que gerou curiosidade e recolheu críticas – e a imprensa e os torcedores apelidaram os coletes de ‘sutiãs’.

Seja pelos coletes, seja por outras razões técnicas ou comportamentais, o certo é que, após vários anos, o Botafogo sagrou-se campeão da Taça Guanabara no dia 12 de fevereiro de 2006, ao vencer o América por 3x1, de virada, com gols de Scheidt, aos 58’, Dodô, aos 66’, e Zé Roberto, aos 78’. Sob o comando de Carlos Roberto, a equipe formou com Max, Ruy (Neném), Scheidt, Asprilla e Bill (Gláuber); Thiago Xavier, Diguinho, Lúcio Flávio e Zé Roberto; Marcelinho (Reinaldo) e Dodô. Técnico: Carlos Roberto.

Na final do campeonato estadual, disputado em duas mãos, o Botafogo defrontou o Madureira, no jogo de ida, no dia 2 de abril de 2006, vencendo por 2x0, com gols de Reinaldo aos 66’, e Joílson, aos 83’. O campeonato foi conquistado no dia 9 de abril de 2006, com nova vitória no jogo de volta sobre o Madureira por 3x1, gols de Dodô, aos 18’ e 48’, e Reinaldo, aos 80’. A equipe formou com Lopes; Ruy, Rafael Marques, Scheidt e Bill (Júnior César); Thiago Xavier (Ataliba), Dieguinho, Joílson (Gláuber) e Zé Roberto; Reinaldo e Dodô.

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O homem do ‘sutiã’ / Colete Especial. Crédito: Ricardo Cassiano | Lancepress!

Seja devido ao estigma do ‘sutiã’, seja por outro motivo qualquer, o técnico Cuca sucedeu, ainda em maio de 2006, ao campeão Carlos Roberto.

No campeonato brasileiro a equipe classificou-se em 12º lugar, 12 pontos acima do Z4, 13 pontos abaixo do G4 e a 27 pontos do campeão, portanto, uma classificação sensivelmente a meio da tabela.

Cuca chegou com fama de montar bons elencos e efetivamente o futebol do Botafogo alegrou-se, jogando ofensivamente e encantando os torcedores logo no 1º semestre de 2007. A imprensa passou a designar a equipe botafoguense por ‘Carrossel Alvinegro’, no entanto houve quatro ‘poréns’ que impediram Cuca e o Botafogo de celebrarem títulos como o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e o Campeonato Estadual.

Em primeiro lugar, as arbitragens claramente contra o Botafogo e, em seguida, o descalabro psicológico após o doping de Dodô, os pesadelos fatalistas de Cuca (reconhecidos pelo próprio) e uma grande fragilidade em matéria de esquema defensivo. Questionado sobre este último, Cuca respondeu que montar um esquema defensivo era fácil, difícil era montar um ataque criativo – e Cuca entendeu não começar pelo que considerava ser mais fácil e essencial, focando-se no ataque e tomando muitos gols, por exemplo, em empates de 4x4, 3x3 e vários pelo placar de 2x2. O ‘Carrossel Alvinegro’ só contava do meio campo para a frente e esse foi um grande óbice que contribuiu para facilitar a vida a quem não nos queria ver ganhar.

Deve-se ainda referir que Bebeto de Freitas era desafeto, por um lado, da oligarquia que dominava, e ainda domina, o Botafogo FR e, por outro lado, desafeto da Federação de Futebol do Rio de Janeiro porque ‘bateu de frente’ com as bizarrias dos cartolas dentro e fora do Botafogo – o que, no caso dos cartolas externos, teve consequências na postura das arbitragens.

Logo em 2007 sentiu-se esse impacto. O Botafogo conquistou a Taça Rio no dia 22 de abril de 2007, vencendo a Cabofriense por 3x1 no 2º jogo da decisão (após empate por 2x2 no 1º jogo), gols de Túlio, aos 11’, Dodô, aos 13’, e Zé Roberto, aos 19’, tendo a equipe, comandada por Cuca, formado com Júlio César; Joílson, Alex, Juninho e Luciano Almeida; Túlio, Leandro Guerreiro e Lúcio Flávio (Dieguinho) e Zé Roberto (Juca); Jorge Henrique (André Lima) e Dodô.

Campanha completa em https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/05/botafogo-campeao-da-taca-rio-2007.html

Vencendo a Taça Rio, o Botafogo qualificou-se para a final do Campeonato Estadual. Estavam decorridos 89’ da final disputada entre Botafogo e Flamengo, empatados por 2x2, quando Dodô arrancou um belíssimo remate em posição legal e balançou as redes adversárias, selando muito provavelmente o resultado final da partida. Eis que o bandeirinha Hilton Moutinho assinalou impedimento e Djalma Beltrami imediatamente confirmou – e ainda expulsou Dodô sob o pretexto que rematara já depois do apito do árbitro, desfalcando a equipe para a disputa de pênaltis. O jogo foi então a pênaltis e o Botafogo perdeu. O árbitro e o bandeirinha pediram desculpa na semana seguinte pelo erro escandaloso, mas não consta que o Troféu tenha sido posteriormente entregue ao Botafogo.

Equipe campeã. Crédito: Reprodução.

Após esse escândalo ‘lavado’ pela imprensa, que comemorou intensamente a vitória vergonhosa do seu protegido, o Botafogo chegou às semifinais da Copa do Brasil e foi eliminado pela bandeirinha Ana Paula Oliveira que invalidou dois gols legítimos do Botafogo, que lhe deram a classificação à final. Posteriormente AP Oliveira disse ‘cobras e lagartos’ sobre o caso e ainda em 2021 negou que tivesse prejudicado o Botafogo.

Finalmente, em 2024, 17 anos depois do ocorrido, reconheceu que se tinha ‘equivocado’ num lance, mas na verdade equivocou-se em dois lances, como reconheceu a imprensa, aproveitando ainda para afirmar que foi o Botafogo que lhe retirou o escudo FIFA – novo ‘equívoco’, porque o que aconteceu foi AP Oliveira ter sonegado ao Botafogo a final da Copa do Brasil de 2007.

Ainda assim, o ‘Carrossel Alvinegro’ continuou a carburar a alta velocidade e a equipe liderou o Brasileirão na 4ª rodada e da 6ª à 16ª rodada (12 rodadas no total), mas, a 9 de julho, o influente atacante e principal estrela do Botafogo, Dodô, foi suspenso por doping, do qual nunca se conseguiu determinar exatamente como ocorreu – sabendo-se apenas que o origem não partiu do Clube.

Como Cuca tinha contra si as suas reconhecidas obsessões fatalistas, não conseguiu controlar a equipe focando-a nos objetivos, o Botafogo perdeu imediatamente o jogo seguinte, descambou na classificação geral e a 5 de agosto perdeu definitivamente a liderança e terminou o campeonato em 9º lugar.

Entretanto, o Botafogo ganhou finalmente direito à concessão do Engenhão por 30 anos, passando a realizar aí os seus jogos até à atualidade, constituindo uma extraordinária conquista, tanto estrutural como de melhoria das condições de trabalho.

A estreia no Engenhão, tendo o Botafogo como ‘dono’, ocorreu no dia 19 de setembro de 2007 pela Copa Sul-americana, tendo o Botafogo vencido o River Plate por 1x0 no jogo de ida. No jogo de volta na Argentina a equipe vencia por 2x1 e parecia classificada. Cuca recuou a equipe para segurar com mais tranquilidade a vitória e nos últimos 15 minutos o River fez 3 gols e classificou-se às quartas-de-final. Os torcedores, emocionalmente atordoados, acusaram os atletas de terem ‘saltos altos’, mas o que ocorreu realmente foi uma opção tática equivocada. Cuca demitiu-se extemporaneamente, Mário Sérgio assumiu o cargo, mas Cuca arrependeu-se, continuou na imprensa a minar a equipe que entretanto era derrotada em campo e Mário Sérgio demitiu-se desgastado 8 dias depois de ser empossado – e Bebeto de Freitas reempossou Cuca como técnico.

No ano seguinte, em 24 de fevereiro de 2008, na final da Taça Guanabara, contra o Flamengo, o árbitro Marcelo de Lima Henrique assinalou um pênalti inexistente de Ferrero em Fábio Luciano, a favor do rubro-negro, quando o Glorioso vencia por 1x0. A confusão estabeleceu-se, Souza e Zé Carlos foram expulsos e Lúcio Flávio seguiu o mesmo caminho, permitindo-se assim ao Flamengo fazer a virada e conquistar a competição. No final, Bebeto de Freitas, Cuca e Túlio apresentaram-se à imprensa condenando mais uma arbitrariedade da equipe do ‘flapito’, e os flamenguistas, sem nenhum pudor e de modo a branquearem a injusta vitória, cunharam essa apresentação como ‘chororô’, sabendo os botafoguenses que os flamenguistas (dirigentes e jogadores) são os verdadeiros chorões, na medida em que por tudo e por nada apelam à proteção dos árbitros e os pressionam.

O arquiteto do Carrossel Alvinegro. Fonte: O Globo

Bebeto de Freitas chorou, sim, mas de tristeza pelo futebol: – “No Rio imperam pessoas que não têm a menor vontade de que o futebol carioca cresça, que saia de campo com um campeão digno.” E autossuspendeu-se desgastado, regressando mais tarde.

No dia 20 de abril de 2008 os atletas do Botafogo foram bicampeões da Taça Rio, vencendo o Fluminense por 1x0, gol de Renato Silva, aos 84’, apesar de novas expulsões de dois botafoguenses (Alessandro e Jorge Henrique), tendo a equipe, comandada por Cuca, formado com Castillo; Alessandro, Renato Silva, André Luís e Triguinho (Túlio Souza); Túlio (Leandro Guerreiro), Diguinho, Lúcio Flávio e Zé Carlos (Fábio); Jorge Henrique e Washington Paulista.

Campanha completa em https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/05/botafogo-bicampeao-da-taca-rio-2008_30.html

Se o Botafogo não tivesse sido espoliado da Taça Guanabara, ao vencer a Taça Rio sagrava-se campeão carioca direto sem necessidade de final – e nas finais do campeonato, ainda temerosos das arbitragens favoráveis ao rival da Gávea, quer Cuca, quer os atletas, foram excessivamente cuidadosos e Joel Santana, técnico do Flamengo, não perdoou e fez alterações táticas durante os jogos que se mostraram vitoriosas.

Em maio de 2008, ainda mais degastado pelas peripécias em que se envolvera, Cuca demitiu-se após a derrota do Botafogo por pênaltis nas semifinais da Copa do Brasil contra o Corinthians.

Estava-se a poucos meses do fim do 2º mandato de Bebeto de Freitas, que acabou também por sair desgastado com os ataques políticos internos da oligarquia, acusando-o de centralizador, nepotista e, já depois da sua saída, de se ter apropriado de um broche presidencial – o que simplesmente se desenhava, aos olhos de muitos, como ataque à imagem futura do presidente que resgatou a honra e o prestígio que o Botafogo perdera com diretorias anteriores.

Entre 2006 e 2008 o Botafogo conquistara um Campeonato Carioca (2006), 2 Taças Rio e 1 Taça Guanabara; foi vice-campeão carioca em 2007 e 2008 (na verdade, tricampeão carioca se não fosse o ‘flapito’) e vice-campeão da Taça Guanabara (2008).

A verdade que não consta nas estatísticas do futuro é que nesse período foi o Botafogo, e não o Flamengo, quem tomou as rédeas do futebol carioca com a criatividade atacante do ‘Carrossel Alvinegro’ de Cuca – independentemente das peripécias narradas.

Bebeto de Freitas deixou o Clube desportivamente redimido, as finanças estabilizadas e um estádio olímpico magnífico para os treinos, para os jogos e para faturação de grandes receitas a entidades que no Engenhão realizavam diversos eventos.

Fontes principais: ge.globo.com; maisfutebol.iol.pt; mundobotafogo.blogspot.com; www.correiobraziliense.com.br; www.espn.com.br

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