terça-feira, 12 de maio de 2026

Entre o céu e o inferno (II): resgate do ‘Mais Tradicional’ das profundezas do Hades e nova ameaça de degola (2003-2005)

O plantel vitorioso de 2003. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Paulo Roberto de Freitas, o ‘Bebeto de Freitas’, sobrinho do jornalista e treinador de futebol João Saldanha e primo do jogador de futebol Heleno de Freitas, fez carreira desportiva como jogador e treinador de voleibol, presidente do Botafogo de Futebol e Regatas e Gestor do Atlético Mineiro.

Bebeto de Freitas venceu onze campeonatos cariocas consecutivos de voleibol pelo Botafogo, representou a Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de 1972 e 1976, conquistou cinco títulos nacionais dirigindo um clube do voleibol italiano e sagrou-se campeão da Liga Mundial de Voleibol, em 1997, e do Campeonato Mundial de Voleibol, em 1998, ambos os títulos como treinador da Seleção Italiana.

Foi esse homem íntegro e vitorioso que os botafoguenses elegeram para resgatar o desporto, as finanças, a estrutura e o prestígio do Botafogo de Futebol e Regatas, feitos novamente em pedaços.

Bebeto assumiu o Clube no início de 2003 num momento de trauma desportivo e institucional com a queda inédita do futebol para a Série B do Brasileirão, receitas em queda livre e crise financeira, salários atrasados e estrutura precária, tendo então arregaçado as mangas e iniciado a reorganização emergencial do ambiente futebolístico para retorno à Série A do campeonato brasileiro, com vista a resgatar a autoestima botafoguense.

Desde logo Bebeto de Freitas traçou uma estratégia e um conjunto de objetivos que transformou em medidas que pudessem dar um mínimo de estabilidade ao Clube, de modo ao futebol regressar rapidamente à Série A.

As principais medidas financeiras centraram-se na renegociação de dívidas com credores e redução de passivos urgentes; adopção de uma política de austeridade com corte de gastos e controlo rigoroso de despesas; reformulação de contratos e busca de receitas através de patrocínios, direitos e bilheteria; e implementação de uma gestão mais transparente para recuperar a credibilidade do Clube no mercado.

Tais medidas permitiram sair do risco imediato de colapso e o Clube tornou a revelar-se minimamente sustentável.

As principais medidas de reorganização administrativa focaram-se na profissionalização da gestão, abandonando o clássico amadorismo político; criação de rotinas administrativas mais ágeis e modernas; maior controlo interno e prestação de contas; e redução da interferência política no quotidiano do futebol.

Tais medidas permitiram um funcionamento muito mais próximo do padrão empresarial e não apenas de uma associação cristalizada na sua desorganização.

As principais medidas de base estrutural foram a consolidação do processo de concessão ao Botafogo do Estádio Olímpico João Havelange (o ‘Engenhão’), atualmente designado por Nilton Santos; planejamento para transformar o estádio em fonte central de receitas futuras; e organização das estruturas internas do Clube com melhoria das condições de trabalho.

Levir Culpi e Bebeto de Feitas, líderes do Clube e da equipe. Crédito: Cezar Loureiro | O Globo.

As principais medidas de reconstrução desportiva foram a montagem de um elenco de futebol crescentemente competitivo enquadrado na realidade financeira; aposta em jogadores experientes e com capacidade de liderança de grupo; e estruturação mais profissional do departamento de futebol.

Tais medidas lograram que a equipe de futebol fosse vice-campeã da Série B, regressasse de imediato à Série A de 2004 e estabilizasse na elite do futebol nos anos seguintes.

Foi também fundada a pioneira Companhia Botafogo, precursora da atual SAF Botafogo, mas o projeto não evoluiu muito em anos posteriores devido à sua estrutura jurídica frágil, que mantinha a Companhia como associação amarrada ao Clube, o que não propiciou o interesse de investidores fortes, além de a legislação brasileira não definir claramente o modelo de clube-empresa.

Em suma, com competência, seriedade e dedicação, Bebeto de Freitas evitou o colapso financeiro, profissionalizou a gestão, criou bases estruturais e reconstruiu a competitividade desportiva.

No dia 22 de novembro de 2003, no quadrangular final do campeonato brasileiro da Série B, que ocorreu no estádio Caio Martins superlotado, com estimativa de 15.000 espectadores, o Botafogo venceu o Marília por 3x1, gols de Sandro, aos 24’, Camacho, aos 55’ (pen.) e aos 75’ (pen.) e qualificou-se antecipadamente para a promoção à Série A do campeonato brasileiro, sagrando-se vice-campeão no final e o Palmeiras campeão. O Glorioso, comandado por Levir Culpi, formou com Max; Rodrigo Fernandes, Sandro, Edgar e Daniel; Túlio, Fernando, Valdo e Camacho (Renatinho); Almir (Dill) e Leandrão (Edvaldo).

O objetivo desportivo primordial foi conseguido, sendo destaques da campanha botafoguense o treinador Levir Culpi, o artilheiro Leandrão, o meio-campista decisivo Almir e o líder Túlio, volante experiente – e todos sob a batuta global de Bebeto de Freitas, o ‘redentor’.

Tendo vindo da Série B o Botafogo surpreendeu com o 9º lugar no campeonato brasileiro de 2004, mostrando a consistência pretendida, mas em 2005 ‘namorou’ intensamente com o Z4, lutando com Coritiba, Paysandu e Atlético Mineiro e somente na última rodada conseguiu o ponto que lhe faltava para segurar o 16º lugar e manter-se na Série A, empatando com a Ponte Preta por 1x1, gol de Reinaldo, e relegando o Atlético Mineiro para a Série B.

Bebeto de Freitas tomou um grande susto, mas o último ano do seu 1º mandato à frente do Glorioso cumpriu – embora à tangente – os objetivos de manutenção e lançou um sério aviso de que o futebol do Botafogo ainda não estava consolidado, seja do ponto de vista nacional, seja estadual, e que a urgência de competitividade teria que constituir o ponto central do 2º mandato de Bebeto de Freitas para o triênio de 2006-2008 para o qual o presidente em exercício foi reeleito.

Fontes principais: ge.globo.com; extra.globo.com; www.mundobotafogo.blogspot.com; www.transfermarket.com.br; www.uol.com.br

2 comentários:

Sergio disse...

Em minha opinião, Bebeto de Freitas foi um grande presidente, digno de figurar entre os grandes presidentes do Botafogo de Futebol e Regatas. Se não fossem os poderes obscuros que agem dentro do clube há décadas, houvesse união em torno do clube e não uma briga de egos, o Botafogo poderia ter solucionado muitos mais problemas. Mas lembrando a famosa frase do grande presidente Paulo Azeredo:"o Botafogo unido é difícil de administrar, imagine desunido".
Nunca podemos esquecer da oposição só Bebeto de Freitas, inclusive com participação de de torcidas organizadas. Uma pena que a chamada "turma da sauna" esteja mais preocupada com suas ambições do que com o bem do Botafogo de Futebol e Regatas. E parece que esse problema persiste no momento atual. O torcedor botafoguense não tem somente que torcer para o sucesso esportivo do clube, mas principalmente que o clube tenha uma gestão eficiente e duradoura, projeto esportivo sólido. Haja paciência para tanta aflição, dentro e fora de campo. Abs e SB!

Ruy Moura disse...

Em minha opinião, Sergio, Bebeto foi o melhor presidente pós 1963 porque procurou profissionalizar o Botafogo. Emil Pinheiro foi o outro presidente que também o fez pós 1963, com a diferença que os métodos não eram os mais adequados...

Atualmente estamos entregues ao amadorismo e ao aventureirismo, uns querendo retomar o Botafogo para replicar o mesmo amadorismo de sempre, Textor um aventureiro do futebol que conseguiu ser unanimemente escorraçado dos quatro clubes (Palace,Lyon, Molenbeek e Botafogo). Campeão invicto do escorraçamento... Era muito bom que um investidor sério aparecesse para se acabar com estas disputas absurdas e destemperadas entre Textor, Social e Ares em que os três estão prejudicando o Botafogo.

Abraços Gloriosos.

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