por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
A associação entre a designação ‘Botafogo’, o
futebol e as regatas é pauta certa e consolidada, a qual foi originalmente
alavancada pelos Clubes que oficializaram no bairro o futebol e o remo, e que
se fundiram e originaram o Botafogo de Futebol e Regatas, projetando o Bairro
para o Mundo através dos desportos e, sobretudo, através do futebol –
incontestável rei no seio dos desportos do planeta.
E, claro, como vimos anteriormente, ainda se
consegue estabelecer uma associação simultaneamente simbólica e concreta entre
Botafogo e corridas de cavalos, seja por via do turfe ou do hipismo. Mas… e com
o ciclismo?... Haverá alguma associação interessante que se possa realçar?...
– Há, sim!
A bicicleta foi introduzida no Rio de Janeiro
ainda no século XIX e tornou-se popular através de competições inusitadas.
Designadamente no final do século XIX e no início do século XX os ‘cavalos de
ferro’, como assim se designavam à época as bicicletas, na cidade aristocrática
foram ganhando espaço e tornaram-se um uso elegante da elite carioca que,
rapidamente, transformou as bicicletas em desporto competitivo com bancas de
apostas, hábito carioca que tendia a fazer apostas em todos os desportos – e
que no remo acabou por levar Luiz Caldas a romper com o CR Guanabara e criar o
Grupo de Regatas Botafogo, em 1891.
Naturalmente que nesses tempos do Império a
bicicleta era um luxo, já que era necessário rumar à Europa e gastar uma boa
quantia para obtê-la e consequentemente era de acesso restrito para a população
carioca.
Porém, a bicicleta passou gradualmente a
fazer parte da vida quotidiana da cidade, quer por facilitação no trânsito,
quer por ser aprazível passear no ‘cavalo de ferro’.
Foram, então, organizadas as primeiras
corridas na cidade, num tempo em que a cidade também vivia os primórdios do
atletismo, realizando-se provas a pé em velocípedes através de agremiações como
o Club Athletico Brazileiro e a Real Sociedade Club Gymnastico Portuguez, ou o
Sport Club Villa Izabel, o qual anunciava “grandes corridas a pé em
velocípedes” no seu prado.
Especialmente a partir de 1892, quando o Rio
de Janeiro se tornou capital da República, a elite republicana incentivou a
realização das corridas de bicicletas para mostrar que a cidade estava na
crista da onda e apoiava a mais moderna modalidade desportiva: o ciclismo.
Leia melhor o assunto no excelente artigo de André Maia Schetino em https://mundobotafogo.blogspot.com/2023/02/o-rio-dos-cavalos-de-ferro.html
Foi nesse tempo que surgiram os Velódromos
exclusivamente dedicados a competições com ‘cavalos de ferro’, nascendo o
Vellodromo Nacional, que chegou a realizar corridas diariamente.
Um ano depois surgiu uma nova pista
velocipédica: o Bellodromo Guanabara, no Bairro de Botafogo – associando o
bairro ao novel desporto carioca.
As bicicletas foram perdendo a sua graça
original e passaram a integrar o quotidiano da cidade e do Bairro de Botafogo,
embora ainda se mantivessem as corridas nos velódromos por um bom período de
tempo.
Entretanto, em São Paulo, foi criado o
Velódromo Paulista e, em 1906, passados dois anos apenas da fundação do
Botafogo de Football Club, eis que o Clube foi convidado para enfrentar a
Seleção Paulista em virtude do prestígio que já ganhara no Rio de Janeiro.
No dia 4 de agosto de 1906, o Botafogo F.C.
defrontou a Seleção Paulista, em jogo amistoso, estando em disputa o belo e
valioso Troféu Bronze Elihu Root, entregue ao vencedor pelo Secretário de
Estado dos E.U. da América, que deu o nome ao troféu. O Botafogo venceu
sensacionalmente a Seleção Paulista por 2x1, sendo o 1º clube brasileiro a
derrotar uma seleção estadual, formando com Álvaro Werneck, Octávio Werneck e
João Leal; Raul Rodrigues, Lulu Rocha e Bernaud; Norman Hime, Flávio Ramos,
Ataliba Sampaio, Gilbert Hime e Paulino Souza.
Porém, o mais fantástico foi o Botafogo Football
Club ficar associado para a eternidade da sua história às corridas dos ‘cavalos
de ferro’ na viragem do século XIX para o século XX: o duelo ocorreu no
Velódromo Paulista, templo do ciclismo brasileiro e posteriormente do futebol
brasileiro!
Portanto, o Botafogo do futebol começou a sua história de conquistas dentro de um templo de corridas de bicicletas!
Mais tarde, entre as décadas de 1930 e 1950,
1º o Botafogo FC e depois o Botafogo FR ficaram formalmente ligados ao desporto
ciclista através da criação de um Departamento de Ciclismo.
Há diversas notícias de jornais da época,
entretanto publicadas na Etiqueta ‘z.ciclismo’ do Mundo Botafogo, que comprovam
competições em que o Clube participou desde a década de 1930 até à década de
1950.
Os jornais narram diversas provas promovidas
pela Federação Metropolitana de Ciclismo como, por exemplo, a Volta do Leblon,
no dia 8 de dezembro de 1935, na qual José de Souza Ferreira, do Botafogo
Football Club, conquistou a medalha de prata; ou a Prova Ciclística 17 de
Dezembro, no dia 17 de dezembro de 1945, tendo representado o Botafogo de
Futebol e Regatas os ciclistas Alfredo Teixeira Dias, José Teixeira Dias e José
da Silva, classificados respectivamente em 6º, 7º e 10º lugares.
Consequentemente, tanto o Bairro de Botafogo
com o seu Vellodromo Guanabara, quanto o Botafogo Football Club conquistando o
seu 1º troféu de futebol no Velódromo Paulista, templo do ciclismo brasileiro,
e o Botafogo de Futebol e Regatas com a participação em provas de ciclismo
através do seu departamento respectivo, estão associados simbolicamente e por
prática desportiva aos ‘cavalos de ferro’ que deslumbraram o Bairro de Botafogo
na viragem do século XIX para o século XX.



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