terça-feira, 20 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (VI): de Espinosa a Espinosa e de permeio Edu e Joel Martins bicampeões cariocas

Edu Coimbra. Crédito: Domínio Público | Wikipédia.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Da publicação anterior sabíamos que Valdir Espinosa nunca tivera qualquer relação com o Botafogo, algo que se revelou claramente após alguns meses da sua estadia no Botafogo. A sua relação era de natureza pessoal com Emil Pinheiro, o homem-forte do futebol botafoguense.

Em setembro de 1990, em pleno campeonato brasileiro, Espinosa recebeu um convite para treinar o Flamengo de Zico, Júnior, etc., menos de duas antes de reafirmar uma relação muito forte com Emil, “muito maior do que uma relação patrão-empregado”, e que não queria passar de herói a traidor perante os jogadores, funcionais e torcedores, afirmando não querer se vestir “como uma pessoa desonesta, mercenária, que abandona sempre um trabalho em função de uma melhor proposta. Podem me chamar de burro, mas de desonesto eu não aceito.”

Declarou, então, que só sairia [para o Flamengo] se o próprio Emil o libertasse. A essas declarações seguiu-se a surpresa: no dia 5 de outubro de 1990 Espinosa trocou o Botafogo pelo Flamengo por uma proposta considerada milionária, embora praticamente tenha jurado que não faria exatamente aquilo que acabou por fazer.

A 10 de outubro, após assumir o Flamengo, Espinosa justificava a mudança afirmando que era “fascinante ser o técnico de um dos maiores clubes do mundo”, sem detalhar como ficara o compromisso pessoal invocado com Emil duas semanas antes.

Curiosamente, o Flamengo estivera para contratar Eduardo Antunes Coimbra, conhecido por Edu, irmão mais velho de Zico. Porém, tendo contratado Espinosa, o Botafogo acabou por contratar Edu, havendo uma espécie de ‘troca perfeita’ dos treinadores.

Edu encontrou um vestiário profundamente revoltado.

Efetivamente, antes do campeonato brasileiro, Mauro Galvão e Maurício haviam recebido propostas de contratos melhores, mas Espinosa considerava-os indispensáveis e Emil Pinheiro segurou os jogadores, mas quando surgiu a proposta financeiramente melhor para Espinosa, é suposto que, perante a conversa anterior de Espinosa, que sugeria só sair do Botafogo se Emil o dispensasse, pode-se considerar que, nesse caso, Emil liberou Espinosa.

Tanto Mauro Galvão como Maurício consideraram, publicamente, que Emil não aplicara a Espinosa o mesmo critério que aplicara a eles. Significa que a reação não foi sentimental, mas uma questão interna de coerência e lealdade.

Consequentemente Edu teria um trabalho suplementar de acalmia, reorganização da equipe e reconstrução da competitividade a meio do campeonato brasileiro para superar a saída de Espinosa e a revolta dos atletas.

Em dezembro de 1989, o treinador Edu, o preparador físico Nardo Siqueira e Emil Pinheiro planejavam o bicampeonato tendo por prioridade não vender os jogadores importantes e deixar as contratações para segundo plano. E Edu até recebera uma proposta do Al-Ittihad, mas decidiu permanecer no Botafogo.

Edu montou, conduziu e venceu com o Botafogo o bicampeonato estadual com a melhor campanha acumulada, garantindo acesso direto à decisão. O Botafogo já estava reformulado, apresentando Carlos Aberto Dias, Carlos Alberto Santos, Djair, Donizete, Gustavo, Luisinho, Mauro Galvão, Paulo Roberto, Renato Martins, Renato Cruz, Valdeir, Wilson Gottardo.

Após um intenso trabalho com a equipe durante o campeonato estadual, Edu preparava-se para ser levado em braços conquistando o campeonato, mas como “há coisas que só acontecem ao Botafogo”, não foi exatamente assim.

A decisão não aconteceu logo porque foi interrompida pela Copa do Mundo de 1990. E aqui surgiu a ironia do destino: no final de maio e início de junho o Botafogo aproveitou a paragem do futebol brasileiro para disputar o Torneio da Amizade de Vera Cruz, onde venceu o próprio Vera Cruz por 2x0 e na final o Pumas, também por 2x0, conquistando o torneio sob o comando de Edu. Vai daí o Vera Cruz invejou-se do Botafogo pelo treinador que tínhamos e ainda em junho contratou Edu, que rumou para o México, na segunda ‘traição’ de treinadores em poucos meses.

Em suma, Edu vai a Vera Cruz, derrota o Vera Cruz, ganha o torneio de Vera Cruz e ainda em junho vai treinar o Vera Cruz – tragicomédia bem ao modo do nosso Glorioso.

Porém, a ironia do destino foi vingada: Edu conquistou no Botafogo os últimos títulos da sua carreira como treinador (Campeonato Carioca e Tornei de Vera Cruz) e desde 2002 a 2011, quando encerrou as atividades futebolísticas, não passou de Auxiliar Técnico em diversos clubes estrangeiros.

Curiosamente, Espinosa é despedido do Flamengo em maio de 1990, sete meses depois de ‘roubado’ ao Botafogo, mas ainda na qualidade de treinador do rubro-negro percebeu que lá há um lema intolerante de “ganhar é obrigação”, enquanto no Botafogo se reconhecem os esforços e as façanhas dos atletas e dos treinadores.

Sai Edu entra Joel Martins, um ‘velho’ conhecido do Botafogo, que, após a quebra da linhagem técnica anterior, poderia reacender a antiga linhagem, porque a sua ligação ao Clube e aos seus técnicos foi intensa, além de Joel ter sido, embora esporadicamente, treinador do Botafogo em 1979, 1984, 1986, 1987, 1988, 1990 e 1992.


Joel Martins. Créditos: Revista Esporte, nº 244, 09.11.1963.

Joel atuou em 240 jogos pelo Botafogo e foi campeão carioca em 1961-1962 e 1967-1968 e do Torneio Rio-São Paulo em 1962, 1964 e 1966.

A escolha de Joel não foi propriamente improvisada, porque ele conhecia profundamente o Clube, o ambiente e o convívio com os jogadores, e vinha da conquista do bicampeonato carioca de juvenis (atualmente juniores) pelo Botafogo, como treinador da equipe. Gottardo confirmou, anos depois, que Joel era muito querido pelos jogadores, disciplinador e que o convívio anterior facilitou a sua integração para a decisão do campeonato carioca.

Joel, personagem leal que conquistou o Prêmio Belfort Duarte, regressou ao Botafogo a 19 de junho para disputar uma única partida do campeonato carioca e sagrar-se campeão, levando o Botafogo ao bicampeonato.

Apesar de campeão carioca, o Botafogo era desprezado como favorito ao título em detrimento do Vasco da Gama, o qual já escolhera o local dos festejos do título e encomendara as faixas. Porém, as crenças supersticiosas dos botafoguenses funcionaram novamente quando Joel Martins lembrou a um jornalista a sua sina:

– “Fui bicampeão carioca em 61/62 e 67/68 como jogador do Botafogo. Como treinador do Botafogo fui bicampeão carioca de juniores em 77/78 e bicampeão juvenil em 88/89. Bicampeão como técnico da Seleção Carioca de juniores em 77/78 e 87/88 fui bicampeão pelo CRB. Portanto, sou chegado a um bicampeonato e este tabu não será quebrado agora.”

E acrescentou: – “Se eles vão fechar uma boate, parabéns, pois ela ficará mesmo fechada. A nossa festa começará no gramado do Maracanã.”

Dito e feito: Botafogo bicampeão carioca!

Campanha completa aqui: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-bicampeao-estadual-de-futebol.html

Porém, Joel não se limitou a uma continuidade, porque Edu utilizava Carlos Alberto Dias como falso ponta, com Valdeir e Gustavo, enquanto Joel preparou e escalou Donizete, um atacante mais característico de modo a reforçar o trio atacante.

A equipe venceu o Vasco da Gama por 1x0 com um gol de Carlos Alberto Dias, mas o Vasco da Gama, fazendo uma interpretação incorreta do regulamento, comemorou ridiculamente o título com uma improvisada caravela de papelão. Onze dias depois o STJD atribuiu o título obviamente ao Botafogo, em votação favorável por 7x1.

Joel fez uma espécie de estatística perfeita: 1 jogo, 1 vitória, 1 título, mas se terminou bem o campeonato carioca, começou mal o campeonato brasileiro e após 90 dias cedeu o lugar a… Valdir Espinosa!

O regresso do treinador que quebrou o jejum carioca do Botafogo em 1989 evidenciou, mais uma vez, que a ligação Emil-Espinosa era coisa profunda. Ademais, Espinosa continuava intrinsecamente ligado ao emocional título de 1989 e, de modo geral, tinha boas relações com a equipe.

A relação afetiva com a equipe foi reconstruída e décadas depois Espinosa continuava sendo um dos grandes símbolos do Clube devido, provavelmente, ao título de 1989 ter sido o mais emocionalmente sentido pela torcida. E, claro, as ocorrências ‘exóticas’ do Botafogo engendraram uma sequência absolutamente inédita em apenas 15 meses:

21.06.1989: Espinosa derrota o Flamengo e o Botafogo sagra-se campeão carioca.

22.09.1989: Espinosa diz não querer trocar o Botafogo pelo Flamengo e tornar-se ‘traidor’

05.10.1989: Espinosa aceita a proposta milionária para treinar o Flamengo.

06.10.1989: Edu assume o comando do Botafogo e encontra jogadores revoltados com Espinosa.

02.05.1990: Espinosa é demitido do Flamengo após 13 jogos.

19.06.1990: Edu abandona o Botafogo para assumir o comando do Vera Cruz, após ter derrotado o clube mexicano no Torneio da Amizade de Vera Cruz no mês anterior, e imediatamente Joel Martins assume o comando do Botafogo.

29.07.1990: Joel Martins vence o Vasco da Gama na decisão e conquista o bicampeonato carioca disputando apenas a partida derradeira.

17.09.1990: Joel sai do comando da equipe após maus resultados.

18.09.1990: Espinosa regressa ao Botafogo apenas onze meses depois de o ter abandonado pelo maior rival.

Inventar um roteiro mais botafoguensse do que esse é difícil!

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br.

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