por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
Da publicação anterior
sabíamos que Valdir Espinosa nunca tivera qualquer relação com o Botafogo, algo
que se revelou claramente após alguns meses da sua estadia no Botafogo. A sua
relação era de natureza pessoal com Emil Pinheiro, o homem-forte do futebol
botafoguense.
Em setembro de 1990,
em pleno campeonato brasileiro, Espinosa recebeu um convite para treinar o
Flamengo de Zico, Júnior, etc., menos de duas antes de reafirmar uma relação
muito forte com Emil, “muito maior do que
uma relação patrão-empregado”, e que não queria passar de herói a traidor
perante os jogadores, funcionais e torcedores, afirmando não querer se vestir “como uma pessoa desonesta, mercenária, que
abandona sempre um trabalho em função de uma melhor proposta. Podem me chamar de
burro, mas de desonesto eu não aceito.”
Declarou, então, que
só sairia [para o Flamengo] se o próprio Emil o libertasse. A essas declarações
seguiu-se a surpresa: no dia 5 de outubro de 1990 Espinosa trocou o Botafogo
pelo Flamengo por uma proposta considerada milionária, embora praticamente
tenha jurado que não faria exatamente aquilo que acabou por fazer.
A 10 de outubro, após
assumir o Flamengo, Espinosa justificava a mudança afirmando que era “fascinante ser o técnico de um dos maiores
clubes do mundo”, sem detalhar como ficara o compromisso pessoal invocado
com Emil duas semanas antes.
Curiosamente, o
Flamengo estivera para contratar Eduardo Antunes Coimbra, conhecido por Edu,
irmão mais velho de Zico. Porém, tendo contratado Espinosa, o Botafogo acabou
por contratar Edu, havendo uma espécie de ‘troca perfeita’ dos treinadores.
Edu encontrou um
vestiário profundamente revoltado.
Efetivamente, antes do
campeonato brasileiro, Mauro Galvão e Maurício haviam recebido propostas de
contratos melhores, mas Espinosa considerava-os indispensáveis e Emil Pinheiro
segurou os jogadores, mas quando surgiu a proposta financeiramente melhor para
Espinosa, é suposto que, perante a conversa anterior de Espinosa, que sugeria
só sair do Botafogo se Emil o dispensasse, pode-se considerar que, nesse caso,
Emil liberou Espinosa.
Tanto Mauro Galvão como Maurício consideraram, publicamente, que Emil não aplicara a Espinosa o mesmo
critério que aplicara a eles. Significa que a reação não foi sentimental, mas
uma questão interna de coerência e lealdade.
Consequentemente Edu
teria um trabalho suplementar de acalmia, reorganização da equipe e
reconstrução da competitividade a meio do campeonato brasileiro para superar a
saída de Espinosa e a revolta dos atletas.
Em dezembro de 1989, o
treinador Edu, o preparador físico Nardo Siqueira e Emil Pinheiro planejavam o
bicampeonato tendo por prioridade não vender os jogadores importantes e deixar
as contratações para segundo plano. E Edu até recebera uma proposta do
Al-Ittihad, mas decidiu permanecer no Botafogo.
Edu montou, conduziu e
venceu com o Botafogo o bicampeonato estadual com a melhor campanha acumulada,
garantindo acesso direto à decisão. O Botafogo já estava reformulado,
apresentando Carlos Aberto Dias, Carlos Alberto Santos, Djair, Donizete,
Gustavo, Luisinho, Mauro Galvão, Paulo Roberto, Renato Martins, Renato Cruz,
Valdeir, Wilson Gottardo.
Após um intenso trabalho
com a equipe durante o campeonato estadual, Edu preparava-se para ser levado em
braços conquistando o campeonato, mas como “há coisas que só acontecem ao
Botafogo”, não foi exatamente assim.
A decisão não
aconteceu logo porque foi interrompida pela Copa do Mundo de 1990. E aqui
surgiu a ironia do destino: no final de maio e início de junho o Botafogo
aproveitou a paragem do futebol brasileiro para disputar o Torneio da Amizade
de Vera Cruz, onde venceu o próprio Vera Cruz por 2x0 e na final o Pumas,
também por 2x0, conquistando o torneio sob o comando de Edu. Vai daí o Vera
Cruz invejou-se do Botafogo pelo treinador que tínhamos e ainda em junho
contratou Edu, que rumou para o México, na segunda ‘traição’ de treinadores em
poucos meses.
Em suma, Edu vai a
Vera Cruz, derrota o Vera Cruz, ganha o torneio de Vera Cruz e ainda em junho
vai treinar o Vera Cruz – tragicomédia bem ao modo do nosso Glorioso.
Porém, a ironia do
destino foi vingada: Edu conquistou no Botafogo os últimos títulos da sua
carreira como treinador (Campeonato Carioca e Tornei de Vera Cruz) e desde 2002
a 2011, quando encerrou as atividades futebolísticas, não passou de Auxiliar
Técnico em diversos clubes estrangeiros.
Curiosamente, Espinosa
é despedido do Flamengo em maio de 1990, sete meses depois de ‘roubado’ ao
Botafogo, mas ainda na qualidade de treinador do rubro-negro percebeu que lá há
um lema intolerante de “ganhar é obrigação”, enquanto no Botafogo se reconhecem
os esforços e as façanhas dos atletas e dos treinadores.
Sai Edu entra Joel
Martins, um ‘velho’ conhecido do Botafogo, que, após a
quebra da linhagem técnica anterior, poderia
reacender a antiga linhagem, porque a sua ligação ao Clube e aos seus
técnicos foi intensa, além de Joel ter sido, embora esporadicamente, treinador
do Botafogo em 1979, 1984, 1986, 1987, 1988, 1990 e 1992.
Joel atuou em 240
jogos pelo Botafogo e foi campeão carioca em 1961-1962 e 1967-1968 e do Torneio
Rio-São Paulo em 1962, 1964 e 1966.
A escolha de Joel não
foi propriamente improvisada, porque ele conhecia profundamente o Clube, o
ambiente e o convívio com os jogadores, e vinha da conquista do bicampeonato
carioca de juvenis (atualmente juniores) pelo Botafogo, como treinador da
equipe. Gottardo confirmou, anos depois, que Joel era muito querido pelos
jogadores, disciplinador e que o convívio anterior facilitou a sua integração
para a decisão do campeonato carioca.
Joel, personagem leal
que conquistou o Prêmio Belfort Duarte, regressou ao Botafogo a 19 de
junho para disputar uma única partida do campeonato carioca e sagrar-se
campeão, levando o Botafogo ao bicampeonato.
Apesar de campeão
carioca, o Botafogo era desprezado como favorito ao título em detrimento do
Vasco da Gama, o qual já escolhera o local dos festejos do título e encomendara
as faixas. Porém, as crenças supersticiosas dos botafoguenses funcionaram
novamente quando Joel Martins lembrou a um jornalista a sua sina:
– “Fui bicampeão carioca em 61/62 e 67/68 como
jogador do Botafogo. Como treinador do Botafogo fui bicampeão carioca de
juniores em 77/78 e bicampeão juvenil em 88/89. Bicampeão como técnico da
Seleção Carioca de juniores em 77/78 e 87/88 fui bicampeão pelo CRB. Portanto,
sou chegado a um bicampeonato e este tabu não será quebrado agora.”
E acrescentou: – “Se eles vão fechar uma boate, parabéns, pois
ela ficará mesmo fechada. A nossa festa começará no gramado do Maracanã.”
Dito e feito: Botafogo
bicampeão carioca!
Campanha
completa aqui: https://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-bicampeao-estadual-de-futebol.html
Porém, Joel não se
limitou a uma continuidade, porque Edu utilizava Carlos Alberto Dias como falso
ponta, com Valdeir e Gustavo, enquanto Joel preparou e escalou Donizete, um
atacante mais característico de modo a reforçar o trio atacante.
A equipe venceu o
Vasco da Gama por 1x0 com um gol de Carlos Alberto Dias, mas o Vasco da Gama,
fazendo uma interpretação incorreta do regulamento, comemorou ridiculamente o
título com uma improvisada caravela de papelão. Onze dias depois o STJD
atribuiu o título obviamente ao Botafogo, em votação favorável por 7x1.
Joel fez uma espécie
de estatística perfeita: 1 jogo, 1 vitória, 1 título, mas se terminou bem o
campeonato carioca, começou mal o campeonato brasileiro e após 90 dias cedeu o
lugar a… Valdir Espinosa!
O regresso do
treinador que quebrou o jejum carioca do Botafogo em 1989 evidenciou, mais uma
vez, que a ligação Emil-Espinosa era coisa profunda. Ademais, Espinosa
continuava intrinsecamente ligado ao emocional título de 1989 e, de modo geral, tinha boas relações com a equipe.
A relação afetiva com
a equipe foi reconstruída e décadas depois Espinosa continuava sendo um dos
grandes símbolos do Clube devido, provavelmente, ao título de 1989 ter sido o mais emocionalmente sentido pela torcida. E, claro, as ocorrências ‘exóticas’ do
Botafogo engendraram uma sequência absolutamente inédita em apenas 15 meses:
21.06.1989: Espinosa
derrota o Flamengo e o Botafogo sagra-se campeão carioca.
22.09.1989: Espinosa
diz não querer trocar o Botafogo pelo Flamengo e tornar-se ‘traidor’
05.10.1989: Espinosa
aceita a proposta milionária para treinar o Flamengo.
06.10.1989: Edu assume
o comando do Botafogo e encontra jogadores revoltados com Espinosa.
02.05.1990: Espinosa é
demitido do Flamengo após 13 jogos.
19.06.1990: Edu
abandona o Botafogo para assumir o comando do Vera Cruz, após ter derrotado o
clube mexicano no Torneio da Amizade de Vera Cruz no mês anterior, e
imediatamente Joel Martins assume o comando do Botafogo.
29.07.1990: Joel
Martins vence o Vasco da Gama na decisão e conquista o bicampeonato carioca
disputando apenas a partida derradeira.
17.09.1990: Joel sai
do comando da equipe após maus resultados.
18.09.1990: Espinosa
regressa ao Botafogo apenas onze meses depois de o ter abandonado pelo maior
rival.
Inventar um roteiro
mais botafoguensse do que esse é difícil!
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br.

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