por JOÃO CARLOS GONÇALVES, Juruna | excerto da matéria “Garrincha e o
futebol: o brilho da estrela” | in jornalggn.com.br
«A CBD, sob o comando do recém-eleito
presidente João Havelange e de seu vice, Paulo Machado de Carvalho, traçou
planos ambiciosos. Pela primeira vez, o Brasil ia para uma Copa com um
planejamento milimétrico, cobrindo o período de 7 de abril (apresentação dos
atletas) a 29 de junho de 1958 (a grande final). Pela primeira vez, a Seleção
Brasileira adotava uma comissão técnica multidisciplinar. Junto a Feola,
atuavam o supervisor Carlos Nascimento, o preparador físico Paulo Amaral, o
médico Hilton Gosling, o administrador José de Almeida e o tesoureiro Adolpho
Marques.
Desde a escolha do hotel na Suécia até o mapeamento das
passagens aéreas para qualquer cenário de eliminação ou avanço, tudo foi
friamente calculado. Os 33 jogadores pré-convocados foram submetidos a um check-up inédito
na história do esporte nacional.
[…] Os atletas foram virados do avesso por
clínicos, traumatologistas, neurologistas, radiologistas, cardiologistas,
oftalmologistas, otorrinolaringologistas e até calistas. Os resultados
laboratoriais foram assustadores.
Mesmo tratando-se da elite do futebol do país — homens que
recebiam os maiores salários da profissão —, o estado físico geral era
alarmante. Pareciam recém-chegados do interior profundo, carregando uma trouxa
nas costas e um talo de capim entre os dentes. Os exames diagnosticaram um
verdadeiro festival de vermes, lombrigas, anemias, infecções, problemas
digestivos e circulatórios.
O cenário mais grave, contudo, estava na boca dos jogadores.
Entre os 33 atletas, foram encontrados 470 dentes com problemas — uma média de
quase 15 por jogador. O total de extrações chegou a 32 dentes, o equivalente a
uma dentadura completa.
Outra inovação ousada da CBD foi incluir na delegação uma figura
inusitada para a época: um psicólogo. Até então, vigorava a tese de que o
jogador brasileiro “tremia nas bases” em momentos decisivos de Copas do Mundo.
Como prevenção, o profissional passou a acompanhar o grupo.
O rigor da preparação estendia-se à conduta. O regulamento
disciplinar, rigidamente fiscalizado por Carlos Nascimento, continha 40 itens,
incluindo proibições como descer para o café da manhã sem fazer a barba ou dar
declarações à imprensa sobre assuntos internos. Apesar de um certo exagero
folclórico, aquela rigidez era necessária para profissionalizar o ambiente.
Todo esse aparato surtiu efeito, e o título mundial, antes um sonho distante,
tornou-se real.»

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