por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
O jogo do Barradão teve uma grande virtude: percebermos todos
que Franclim Carvalho se esgotou depois de uma atuação tenebrosa e inaceitável
em Cusco, confirmada com os seus equívocos de estratégia e de leitura de jogo
em Salvador.
De estratégia porque o Botafogo não tem equipe para reter
a bola na frente, e menos ainda após o cansaço resultante do jogo em Cusco; de
leitura de jogo porque depois estarmos em desvantagem Franclim partiu cego para
um 4x4x2 que nos fez perder o meio-campo – e um dos ensinamentos técnicos é que
as mexidas devem ser feitas à medida do que o jogo pede, não à medida da exasperação
de um técnico que vê o seu cargo sugado por um buraco negro criado por ele
próprio.
Se nada ainda estava verdadeiramente ganho ou perdido
após a abertura do placar, passou a estar mais perdido.
Podemos reclamar – uma vez mais, e sempre com razão – da arbitragem
parcial e vergonhosa do árbitro e do VAR, seja do amarelo que condicionou Huguinho,
seja do vermelho que não foi mostrado a Ramon, entre outros aspectos.
Porém, devemos sobretudo reclamar substantivamente da
inexistência de uma identidade coletiva meses depois de FC ter assumido o comando
técnico do Glorioso. Se antes de Cusco Franclim não conseguira organizar
consistentemente a equipe, em Cusco aconteceu o descalabro e em Salvador confirmou-se
a falta de um ADN claro.
Outras culpas existem, mas a do comando técnico é grande
demais para não ser evidente. Por exemplo, a culpa do departamento de futebol
de não ter enxergado há várias semanas um ataque que não funciona, quer com
Arthur Cabral – cada vez mais lento e longe da grande área, contabilizando uma
única cabeçada perigosa aos 14’ em Salvador –, quer com Matheus Martins,
claramente com uma deficiência de discernimento na única vez que chegou ao
ataque com perigo aos 23’, não passando a bola ao companheiro e não ultrapassando
a marcação, preferindo atirar-se ao solo simulando um pênalti inexistente.
É certo que temos reforços para os pontos avançados, mas não
estão ainda preparados para integrar a equipe em pleno e, diga-se, não se sabe
se vão funcionar bem, porque certo mesmo é que um ‘matador’ não foi realmente contratado.
Há 16 anos tomamos 6x0 do Vasco, mas tínhamos um matador
acabado de chegar e um novo treinador contratado que não quis saber de jogo
bonito, mas sim de resultados antes de qualquer outra coisa – e deram certo conquistando
o título carioca.
Hoje não sabemos o que teremos pela frente: se os reforços
são suficientes – e admito que não – e se neste contexto do futebol botafoguense
é possível contratar um treinador sagaz que se concentre na vitória, antes de
qualquer outra preocupação, e mais adiante, então, se preocupe em jogar bom
futebol – se o plantel for capaz de o concretizar.
A estratégia da SAF na contratação de técnicos seguiu
sempre a orientação de técnico que tivesse muita experiência de comandar as
bases – sempre com o intuito máximo de gerar ‘craques’ para vender –, mas por
uma ou outra razão falhou em quase todos os casos – excepto em um.
Não precisamos de um técnico assim. Precisamos apenas de
um técnico experiente que saiba lidar com Rodrigo Bellão, cujos resultados nas
equipes de base têm sido muito significativos, e que deveria ser, aliás, o
coordenador técnico de todas as equipes de base, de modo a criar um DNA
semelhante em todas as categorias, alinhando por um DNA teoricamente definido
para a equipe principal que, a seu tempo, deve ser determinante para a escolha
de um técnico alinhado à visão definida pela SAF.
No entanto, não demorem muito tempo, mesmo com a solução
de Rodrigo Bellão como interino, porque apesar de jovem e com potencial, ainda
não está suficientemente maduro para assumir a equipe principal do Botafogo.
Antes disso tem que passar por desaires, aprender com
derrotas e pavimentar com segurança o seu futuro – talvez na equipe principal
do Botafogo, quem sabe?
Faço votos para que o novo destino do Botafogo seja
selado o quanto antes com nova administração, novo diretor de futebol, novo
técnico e (re)potencialização dos atletas.
Botafogo 0x1 Vitória
» Gols: Matheuzinho, aos 26’ (pen.)
» Competição: Campeonato Brasileiro
» Data: 16.08.2026
» Local: Estádio Manoel Barradas (‘Barradão’), em
Salvador (BA)
» Público: 20.025 espectadores
» Renda: R$ 525.232,00
» Árbitro: Paulo Cesar Zanovelli da Silva (MG);
Assistentes: Guilherme Dias Camilo (MG) e Felipe Alan Costa de Oliveira (MG);
VAR: Daniel Nobre Bins (RS)
» Disciplina: cartão amarelo – Huguinho, Álvaro Montoro,
Franclim Carvalho e Lucas Monzón (Botafogo) e Ramon e Martínez (Vitória); cartão
vermelho – Arthur Cabral (Botafogo)
» Botafogo: Warleson; Vitinho, Ferraresi, Lucas Monzón e
Alex Telles; Huguinho (Júnior Santos), Cristian Medina (Santi Rodríguez),
Danilo (Domingos Andrade) e Álvaro Montoro; Matheus Martins (Danilo Pereira) e
Arthur Cabral. Técnico: Franclim Carvalho.
» Vitória: Lucas Arcanjo; Britez, Cacá, Luan Cândido e
Ramon (Jamerson); Zé Vitor, Martínez (Wallace) e Matheuzinho (Marinho); Erick,
Tarzia (Pochettino) e Renê (Renato Kayzer). Técnico: Jair Ventura.

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