[Nota preliminar: Poucos cronistas captaram a
alma carioca como José Carlos Oliveira (n. 1934; f. 1986), o cronista mais
influente do Brasil durante 23 anos. Representante invulgar da intelectualidade
e da boêmia da Zona Sul do Rio, o irrequieto, mordaz e irreverente Carlinhos
Oliveira, como era conhecido, encantou os leitores do Jornal do Brasil com mais
de três mil crônicas. A que se segue é puramente alvinegra.]
por Carlinhos de Oliveira | Botafoguense revelado por
emoção pura Arte: Fogo Papers.
«Jogam Flamengo e Botafogo, e meu
coração se divide. Como qualquer brasileiro, nasci Flamengo; mas, aos 18 anos,
decido romper com todos os preconceitos, e mesmo com as crenças mais sensatas
que vinha acumulando. Para começar tudo de novo. Resultado: fiquei sem um céu
para onde ir depois da morte, e sem um time de futebol que me fizesse
experimentar simbolicamente, nos fins-de-semana, as alternativas de vitória e
derrota em que se resume a aventura humana.
Uma tarde de domingo, jogavam
Botafogo e Fluminense em partida final de campeonato. Toda a cidade estava no
Maracanã. Andei pelas ruas desertas, indiferente à sorte do campeonato. Cheguei
ao Metro Copacabana e entrei para ver um filme infantil. Lá dentro eram raros
os adultos. Na saída, com o sol já se apagando, fui andando na direção do Roxy,
e na minha frente ia uma família muito jovem: o marido com uns quarenta anos, a
mulher grávida de seis meses.
O marido levava ao colo um menino
pequeno, e a mulher conduzia pela mão dois outros meninos. Fui andando a pensar
na alegria que eles teriam se dentro de três meses nascesse a primeira menina.
Provavelmente iriam ter o quarto filho apenas para alegrar o homem, cujo sonho
era ser pai de uma gentil criança do sexo feminino. A jovem senhora grávida era
bela, de traços finos; usava sandálias sem alças e mostrava uns pés
verdadeiramente sublimes.
Íamos andando assim quando
topamos com um cidadão que, encostado a uma árvore, ouvia um rádio de pilha. Ao
vê-lo, o homem, a mulher e as crianças ficaram paralisados. O homem e a mulher
se entreolharam em silêncio e ficaram ainda algum tempo indecisos. Depois, o
homem, sempre com o filho caçula no colo, aproximou-se cautelosamente do cidadão
que ouvia o rádio e falou:
– “Por favor... Quanto foi o
jogo?”
– “Seis a dois” – disse o outro.
– “Ah, seis a dois... Mas para
quem?”
– “Para o Botafogo,
naturalmente...”
– “Naturalmente!” – exclamou
então o pai de família, e a jovem senhora ficou com o rosto iluminado.
Os dois meninos que iam a pé
pularam de contentamento. O pai entregou à mulher o filho de colo, beijou-a na
testa, deu adeus aos outros filhos e saiu correndo na direção de um táxi que
passava. Entrou no táxi e seguiu para o Túnel Novo.
Fiquei curioso para saber o que
se passara. Contemplei algum tempo a jovem mulher que seguia agora o seu
caminho, com dois filhos pela mão, um terceiro no colo e um quarto na barriga.
Adiantei-me e lhe disse:
– “Queira desculpar, mas... Que
foi que houve?”
– “O Botafogo venceu” – disse ela
– “e ele foi para sede do clube comemorar”.
– “Mas” – insisti –, “se ele
gosta tanto assim do Botafogo, por que diabo não foi ao Maracanã? Por que se
meteu no cinema?”
– “Para evitar o enfarte!” –
disse ela, com simplicidade e também com uma espécie de triunfo na voz.
– “Ah, sim... O Enfarte...”
A mulher e os filhos seguiram
caminho. Entrei num bar e pedi um cafezinho. A partir daquele dia o meu time
seria o Botafogo.»
Fonte: Publicado em 2008 no antigo portal ‘Movimento Carlito Rocha’.


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