terça-feira, 4 de agosto de 2026

Copa do Mundo de 2026: entre muitas polêmicas, um vencedor justo na última resenha do mundiais

Crédito: FIFA.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 realizou-se entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, na América, Canadá e México, tendo sido a maior edição da história da competição, com 48 seleções, 12 grupos de quatro equipas, 104 jogos e 16 cidades anfitriãs, constituindo a Copa do Mundo mais planetária de todas.

O México tornou-se o primeiro país do mundo a ser anfitrião em três Mundiais (1970, 1986 e 2026) e o estádio da Cidade do México também se tornou o único a acolher o jogo inaugural em três edições.

A dimensão territorial do torneio foi mais exigente em matéria de deslocações, recuperação de atletas e adaptação a condições meteorológicas que variaram entre calor e humidade intensos e ambientes significativamente mais frescos.

A Espanha sagrou-se campeã incontestável ao dominar categoricamente a Argentina, tendo obtido o gol da conquista na prorrogação através de Ferran Torres, que marcou o único gol da sua autoria no decorrer da Copa. A Argentina, vice-campeã, não conseguiu rematar à baliza espanhola durante os 90 minutos regulamentares. A Inglaterra completou o pódio após uma vitória sensacional e histórica sobre a França por 6x4.

A Espanha foi efetivamente a equipa mais equilibrada e consistente da competição, assentando a sua superioridade no controlo do meio-campo, na circulação de bola, na pressão coletiva e numa organização defensiva muito eficaz. Eliminou a Áustria, Portugal, Bélgica e França antes de vencer a Argentina na final.

Seleção Espanhola. Crédito: Hector Vivas – FIFA/FIFA via Getty Image.

Rodri recebeu a ‘Bola de Ouro’, que talvez pudesse ser atribuída a Marc Cucurella, de modo a premiar a sensacional defensiva espanhola, caso bem sublinhado por Unai Simón, eleito a ‘Luva de Ouro’, o qual declarou que “estas luvas não tiveram muito trabalho”, realçando assim o grande desempenho da melhor linha defensiva do mundo.

Unai estabeleceu a maior invencibilidade de um goleiro em Copas do Mundo, chegando a 519 minutos sem sofrer gols e superando os 157 minutos de Walter Zenga.

Efetivamente a seleção espanhola sofreu apenas um gol em 8 jogos, o menor número alguma vez registado por um país campeão mundial. Na final, a Espanha controlou o encontro e criou as melhores oportunidades, ‘martelando’ a Argentina durante 106’ até conseguir marcar o gol da vitória na prorrogação. O triunfo refletiu a qualidade coletiva da equipa e a capacidade para manter o seu modelo de jogo mesmo nos momentos de maior pressão.

A Argentina demonstrou capacidade de reação em jogos que venceu na reta final, embora tivesse sido claramente protegida da marcação de faltas e admoestação através de cartões, além do VAR ter anulado um gol ao Egito e validado um gol da Argentina com critérios diferentes para a mesma ocorrência. Apesar da proteção, os argentinos necessitaram, em vários jogos, de prolongamento ou de reviravoltas tardias.

Apesar da resiliência demonstrada, a equipa apresentou menor regularidade coletiva do que a Espanha e dependeu frequentemente da inspiração de Messi e das intervenções de Emiliano Martínez. O seu percurso ficou igualmente marcado por sucessivas polêmicas arbitrais, que criaram uma percepção geral de tratamento favorável.

Rodri, Bola de Ouro. Crédito: Patricia de Mello Moreira.

A Inglaterra realizou a sua melhor campanha num Mundial desde o título conquistado em 1966. A equipa revelou profundidade no plantel, capacidade física e qualidade ofensiva, bem patente na semifinal em que marcou 6 gols à poderosa França, tendo Bukayo Saka marcado três gols.

Jude Bellingham terminou a competição com 7 gols marcados, o melhor registo de um artilheiro inglês em todas as Copas.

A França realizou uma fase inicial muito forte e chegou às meias-finais apenas com vitórias, evidenciando muita qualidade ofensiva, várias opções de elevado nível e indícios de ser o mais forte candidato à rampa de lançamento para o título, eliminando Suécia, Paraguai e Marrocos sem sofrer gols, mas foi claramente superada pela Espanha nas meias-finais por 2x0 – e o melhor ataque da Copa perdeu para a melhor defesa da competição.

Na disputa do 3º lugar a Inglaterra ‘escandalizou’ goleando a França por 4x0 no 1º tempo e terminando com vitória por 6x4, expondo as fragilidades defensivas francesas. Kylian Mbappé foi a principal figura da equipa com 10 gols anotados, recebendo a ‘Chuteira de Ouro’ da competição e superando o recorde de gols de um único atleta no conjunto dos Mundiais, ultrapassando Lionel Messi que havia ultrapassado Miroslav Klose, passando a somar 22 gols e tornando-se o melhor marcador da história das Copas e o único atleta a conquistar a Artilharia em duas Copas (2022 e 2026).

No entanto, além das Seleções melhor classificadas, outras se destacaram devido a agradáveis surpresas e outras por constituírem verdadeiras desilusões.

Mbappé, Bola de Ouro, marca no 3x0 sobre a Suécia. Crédito: Angela Weiss | AFP.

Cabo Verde, estreante em Mundiais, surpreendeu ao realizar 4 jogos e 4 empates no tempo regulamentar, saindo invicta dos quatro 90 minutos disputados. Começou por um empate a zero gols com o extraordinária Espanha (único jogo que a campeã do mundo não venceu), resistindo estoicamente, classificando-se para a fase seguinte empatando 2x2 com o Uruguai e 0x0 com a Arábia Saudita, sendo eliminada pela Argentina após empatar estoicamente por 2x2 e terminar o tempo regulamentar em cima dos argentinos, que na prorrogação conseguiram o gol da classificação.

A outra grande surpresa foi a vitória do Paraguai sobre a poderosa Alemanha, eliminando-a nas grandes penalidades após empate por 1x1 no tempo regulamentar e na prorrogação, mantendo o tabu de eliminações dos alemães na fase de grupo das edições de 2018, 2022 e 2026, que se sucederam à conquista da Alemanha do título mundial em 2014.

Além da enorme desilusão que foi a Seleção Alemã, também Brasil e Portugal desiludiram face ao que os analistas apontavam como sendo duas equipes postulantes ao título mundial, mas as suas comissões técnicas cometeram erros crassos antes e durante o Mundial que goraram as expectativas depositadas nas duas Seleções.

O Brasil perdeu surpreendentemente para a Noruega, com dois gols de Erling Haaland, os quais permitiram aos noruegueses alcançar a sua melhor classificação de sempre; Portugal perdeu não tão surpreendentemente para a sua vizinha da Península Ibérica que viria a ser campeã do mundo, mas as substituições na 2ª parte destruíram o meio-campo português e o gol solitário espanhol classificou os ‘hermanos’.

Unai Simón, Chuteira de Ouro. Crédito: Angela Weiss | AFP.

Enfim, foi uma Copa do Mundo com recorde de Seleções e de espectadores, cujo volume global atingiu 6,8 milhões de presenças nos estádios, superando o estabelecido no Mundial de 1994, embora se deva interpretar este valor à luz da edição de 2026 que teve o dobro dos jogos de 1994.

Não obstante, a competição promoveu preços altíssimos de bilhetes, utilização de preços dinâmicos e pelos custos sociados a viagens e alojamento, ultrapassando vários milhares de dólares nos mercados de revenda (alguns lugares na final chegaram a 32.000 dólares), tornando inviável o acesso a torcedores com menores recursos e elitizando o futebol.

As pausas de hidratação obrigatórias foram criticadas por vários treinadores, jogadores e torcedores, interrompendo e prejudicando o ritmo das partidas.

A introdução de anéis de campeão de um espetáculo prolongado no intervalo da final e de outros elementos do desporto norte-americano, geraram debates sobre a progressiva transformação do futebol em produto de entretenimento mais comercial e mais distante das suas tradições.

Além dessas controvérsias, a Copa do Mundo de 2026 foi fonte de enormes polêmicas, desde quebra de regras, decisões altamente duvidosas das arbitragens e comportamentos de jogadores inaceitáveis dentro e fora das quatro linhas.

Ainda antes do início do Mundial as políticas de vistos e entradas na América (E. U.) dificultaram a deslocação de alguns torcedores e intervenientes, sendo um dos casos mais discutidos o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, selecionado pela FIFA e impedido de entrar no país. O Canadá ofereceu-se para o receber.

A queda alemã na fase de grupos. Crédito: Reuters.

Uma das polêmicas mais graves durante a Copa envolveu a estrela norte-americana Folarin Balogun, expulso no encontro entre a América (E.U.) e a Bósnia e Herzegovina, após o VAR considerar que cometera uma entrada merecedora de cartão vermelho.

A expulsão implicava uma suspensão automática por um jogo, sem prejuízo de ser aplicada uma suspensão mais ampla, mas segundo declarações vindas a público, Gianni Infantino intercedeu junto do Comitê de Arbitragem, solicitando a reapreciação do caso, e a FIFA suspendeu a execução do castigo durante um período probatório de um ano, permitindo que Balogun jogasse nos oitavos de final frente à Bélgica contra as regras estabelecidas há anos, favorecendo uma vez mais um país anfitrião.

A decisão foi considerada sem precedentes desde o estabelecimento da regra e contrária à aplicação habitual da suspensão automática. A Bélgica, a UEFA e várias figuras do futebol entenderam que a FIFA tinha comprometido a independência do processo disciplinar e aberto um precedente perigoso à interferência política.

A polêmica mais prolongada da Copa recaiu sobre decisões de arbitragem favoráveis à Argentina, tendo diversos adversários emitido sucessivas queixas.

Na fase de grupos, a Argélia apresentou uma reclamação depois de Lionel Messi não ter sido expulso por um contacto com a perna do capitão argelino, antes de marcar três gols nesse encontro.

A maior polémica ocorreu nos oitavos de final frente ao Egito. Quando os egípcios estavam em vantagem, um gol que lhes daria o 2x0 foi anulado depois de o VAR identificar uma suposta infração muito anterior na construção da jogada. Mais tarde, um contacto faltoso sobre Mohamed Salah não levou a intervenção semelhante do VAR, e um pedido de grande penalidade egípcio foi recusado pouco antes de a Argentina marcar o gol da vitória.

O crepúsculo dos deuses luso-brasileiros. Imagem modificada por IA.

A Federação Egípcia apresentou uma reclamação formal, questionando a coerência e a imparcialidade da arbitragem. Antigos jogadores e analistas destacaram a aparente desigualdade de critérios: o VAR recuou vários momentos para anular o gol egípcio, mas não procedeu da mesma forma quanto uma possível falta que beneficiaria o Egito.

Nas quartas de final, frente à Suíça, Messi pressionou a arbitragem e ergueu mesmo o dedo indicador à altura do nariz do árbitro, que não teve a coragem de admoestar o ‘intocável’ argentino, bem como o VAR interveio por correção de identidade numa situação inicialmente sancionada com cartão amarelo para Leandro Paredes. Após a revisão, o cartão foi retirado ao argentino e mostrado a Breel Embolo por simulação. Como o jogador suíço já tinha sido advertido, acabou expulso.

O selecionador suíço classificou a decisão como inaceitável e vários especialistas consideraram que o VAR ultrapassara a simples correção de identidade, reinterpretando por completo a jogada.

Estes episódios estiveram na origem da expressão mediática «VARgentina» e alimentaram a perceção de que as decisões mais discutíveis tendiam a favorecer a seleção argentina. O problema central foi, sobretudo, a falta de uniformidade e transparência na aplicação dos critérios arbitrais e do protocolo do VAR, além de claramente jogadores argentinos não terem sido admoestados com cartões amarelos que eram evidentes e os árbitros omitirem diversas faltas favoráveis aos adversários da Argentina.

Não foi a ‘Mão de Deus’, mas sim o ‘Dedo em Riste’. Crédito: Getty Images.

Porém, as polêmicas envolvendo a Seleção Argentina não ficaram por aí. Após a vitória da Argentina sobre a Inglaterra por 2x1, a contar para a semifinal, jogadores argentinos empunharam uma faixa, exibida no gramado, com a frase “Las Malvinas son Argentinas”, relembrando ao mundo a guerra das Malvinas, sem que ninguém tivesse sido punido, apesar das diretrizes da International Football Association Board (IFAB) proibirem estritamente lemas, símbolos ou mensagens de natureza política ou geopolítica nos estádios.

Após a derrota justíssima da Argentina para a consistente Espanha, Leandro Paredes envolveu-se numa briga ainda no gramado com Eric García e Gavi, originando uma altercação mais ampla com o envolvimento de outros jogadores. A FIFA nomeou um responsável disciplinar e de ética para investigar os acontecimentos.

Durante a cerimónia, enquanto a Espanha erguia o troféu, os jogadores argentinos permaneceram de costas para o palco, voltados para a sua torcida. O gesto foi interpretado como falta de desportivismo, sobretudo porque a seleção espanhola tinha formado uma guarda de honra durante a entrega das medalhas aos argentinos.

Embora o desalento de uma equipa derrotada numa final seja compreensível, a altercação após o jogo e a atitude durante a entrega do troféu prejudicaram a imagem de uma seleção que tinha realizado um percurso desportivamente relevante.

A briga feia após a final da Copa do Mundo. Crédito: Marvin Ibo Guengoer.

O presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, não esteve presente na final em virtude de divergências com a FIFA relacionadas com decisões disciplinares, arbitragem, procedimentos operacionais e interferência política, evidenciando tendências mais amplas obre a independência e a governação do futebol internacional.

Infelizmente, a aparente proteção à Argentina e os comportamentos dos atletas argentinos dentro e fora de campo, geraram uma onda internacional de rejeição, prejudicando claramente a imagem do país no mundo.

Não obstante o conjunto de controvérsias relacionadas com a arbitragem, a aplicação das normas disciplinares, a interferência política e a crescente comercialização do futebol, entre outros aspectos, salvou-se claramente a justiça do título conquistado pela Espanha no Mundial 2026.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Espanha 1x0 Argentina

» Gols: Ferran Torres, aos 106’

» Competição: Copa do Mundo de 2026

» Data: 19.07.2026

» Local: MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey (EUA)

» Público: 80.663 espectadores

» Árbitro: Slavko Vincic (Eslovênia); Assistentes: Romaz Klancnik (Eslovênia) e Andraz Kovacic (Eslovênia); VAR: Bastian Dankert (Alemanha)

» Disciplina: cartão amarelo – Lisandro Martínez, Leandro Paredes, Enzo Fernández, Cristian Romero e Alexis Mac Allister (Argentina); cartão vermelho – Enzo Fernández (Argentina)

» Espanha: Unai Simón; Pedro Porro, Pau Cubarsí, Aymeric Laporte (Eric García) e Marc Cucurella; Rodri (Martin Zubemendi), Fabián Ruiz (Pedri) e Dani Olmo (Mikel Merino); Alex Baena (Nico Williams), Lamine Yamal e Mikel Oyarzabal (Ferran Torres). Técnico: Luis de la Fuente.

» Argentina: Emiliano Martínez; Gonzalo Montiel (Nahuel Molina), Cristian Romero (Facundo Medina), Lisandro Martínez (Nicolás Otamendi) e Nicolás Tagliafico; Rodrigo De Paul (Giuliano Simeone), Nico González (Leandro Paredes), Alexis Mac Allister e Enzo Fernández; Julián Álvarez (Marcos Senesi) e Lionel Messi. Técnico: Lionel Scaloni.

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