por RUY MOURA | Editor do Mundo
Botafogo
O
Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 realizou-se entre 11 de junho e 19 de
julho de 2026, na América, Canadá e México, tendo sido a maior edição da
história da competição, com 48 seleções, 12 grupos de quatro equipas, 104 jogos
e 16 cidades anfitriãs, constituindo a Copa do Mundo mais planetária de
todas.
O
México tornou-se o primeiro país do mundo a ser anfitrião em três Mundiais
(1970, 1986 e 2026) e o estádio da Cidade do México também se tornou o único a
acolher o jogo inaugural em três edições.
A
dimensão territorial do torneio foi mais exigente em matéria de deslocações,
recuperação de atletas e adaptação a condições meteorológicas que variaram
entre calor e humidade intensos e ambientes significativamente mais frescos.
A
Espanha sagrou-se campeã incontestável ao dominar categoricamente a Argentina,
tendo obtido o gol da conquista na prorrogação através de Ferran Torres, que
marcou o único gol da sua autoria no decorrer da Copa. A Argentina,
vice-campeã, não conseguiu rematar à baliza espanhola durante os 90 minutos
regulamentares. A Inglaterra completou o pódio após uma vitória sensacional e
histórica sobre a França por 6x4.
A Espanha foi efetivamente a equipa mais equilibrada e consistente da competição, assentando a sua superioridade no controlo do meio-campo, na circulação de bola, na pressão coletiva e numa organização defensiva muito eficaz. Eliminou a Áustria, Portugal, Bélgica e França antes de vencer a Argentina na final.
Rodri recebeu
a ‘Bola de Ouro’, que talvez pudesse ser atribuída a Marc Cucurella, de modo a premiar
a sensacional defensiva espanhola, caso bem sublinhado por Unai Simón, eleito a ‘Luva de Ouro’, o qual declarou que “estas luvas não tiveram muito trabalho”,
realçando assim o grande desempenho da melhor linha defensiva do mundo.
Unai
estabeleceu a maior invencibilidade de um goleiro em Copas do Mundo, chegando a
519 minutos sem sofrer gols e superando os 157 minutos de Walter Zenga.
Efetivamente
a seleção espanhola sofreu apenas um gol em 8 jogos, o menor número alguma vez
registado por um país campeão mundial. Na final, a Espanha controlou o encontro
e criou as melhores oportunidades, ‘martelando’ a Argentina durante 106’ até conseguir
marcar o gol da vitória na prorrogação. O triunfo refletiu a qualidade coletiva
da equipa e a capacidade para manter o seu modelo de jogo mesmo nos momentos de
maior pressão.
A
Argentina demonstrou capacidade de
reação em jogos que venceu na reta final, embora tivesse sido claramente
protegida da marcação de faltas e admoestação através de cartões, além do VAR
ter anulado um gol ao Egito e validado um gol da Argentina com critérios
diferentes para a mesma ocorrência. Apesar da proteção, os argentinos
necessitaram, em vários jogos, de prolongamento ou de reviravoltas tardias.
Apesar da resiliência demonstrada, a equipa apresentou menor regularidade coletiva do que a Espanha e dependeu frequentemente da inspiração de Messi e das intervenções de Emiliano Martínez. O seu percurso ficou igualmente marcado por sucessivas polêmicas arbitrais, que criaram uma percepção geral de tratamento favorável.
A Inglaterra
realizou a sua melhor campanha num Mundial desde o título conquistado em 1966.
A equipa revelou profundidade no plantel, capacidade física e qualidade ofensiva,
bem patente na semifinal em que marcou 6 gols à poderosa França, tendo Bukayo
Saka marcado três gols.
Jude
Bellingham terminou a competição com 7 gols marcados, o melhor registo de um
artilheiro inglês em todas as Copas.
A
França realizou uma fase inicial
muito forte e chegou às meias-finais apenas com vitórias, evidenciando muita qualidade
ofensiva, várias opções de elevado nível e indícios de ser o mais forte
candidato à rampa de lançamento para o título, eliminando Suécia, Paraguai e
Marrocos sem sofrer gols, mas foi claramente superada pela Espanha nas
meias-finais por 2x0 – e o melhor ataque da Copa perdeu para a melhor defesa da
competição.
Na
disputa do 3º lugar a Inglaterra ‘escandalizou’ goleando a França por 4x0 no 1º
tempo e terminando com vitória por 6x4, expondo as fragilidades defensivas
francesas. Kylian Mbappé foi a
principal figura da equipa com 10 gols anotados, recebendo a ‘Chuteira de Ouro’
da competição e superando o recorde de gols de um único atleta no conjunto dos
Mundiais, ultrapassando Lionel Messi que havia ultrapassado Miroslav Klose,
passando a somar 22 gols e tornando-se o melhor marcador da história das Copas
e o único atleta a conquistar a Artilharia em duas Copas (2022 e 2026).
No entanto, além das Seleções melhor classificadas, outras se destacaram devido a agradáveis surpresas e outras por constituírem verdadeiras desilusões.
Cabo Verde,
estreante em Mundiais, surpreendeu ao realizar 4 jogos e 4 empates no tempo
regulamentar, saindo invicta dos quatro 90 minutos disputados. Começou por um
empate a zero gols com o extraordinária Espanha (único jogo que a campeã do
mundo não venceu), resistindo estoicamente, classificando-se para a fase
seguinte empatando 2x2 com o Uruguai e 0x0 com a Arábia Saudita, sendo
eliminada pela Argentina após empatar estoicamente por 2x2 e terminar o tempo
regulamentar em cima dos argentinos, que na prorrogação conseguiram o gol da
classificação.
A
outra grande surpresa foi a vitória do Paraguai
sobre a poderosa Alemanha, eliminando-a nas grandes penalidades após empate por
1x1 no tempo regulamentar e na prorrogação, mantendo o tabu de eliminações dos
alemães na fase de grupo das edições de 2018, 2022 e 2026, que se sucederam à
conquista da Alemanha do título mundial em 2014.
Além
da enorme desilusão que foi a Seleção Alemã, também Brasil e Portugal
desiludiram face ao que os analistas apontavam como sendo duas equipes
postulantes ao título mundial, mas as suas comissões técnicas cometeram erros
crassos antes e durante o Mundial que goraram as expectativas depositadas nas
duas Seleções.
O Brasil perdeu surpreendentemente para a Noruega, com dois gols de Erling Haaland, os quais permitiram aos noruegueses alcançar a sua melhor classificação de sempre; Portugal perdeu não tão surpreendentemente para a sua vizinha da Península Ibérica que viria a ser campeã do mundo, mas as substituições na 2ª parte destruíram o meio-campo português e o gol solitário espanhol classificou os ‘hermanos’.
Enfim,
foi uma Copa do Mundo com recorde de
Seleções e de espectadores, cujo volume global atingiu 6,8 milhões de
presenças nos estádios, superando o estabelecido no Mundial de 1994, embora se
deva interpretar este valor à luz da edição de 2026 que teve o dobro dos jogos
de 1994.
Não
obstante, a competição promoveu preços
altíssimos de bilhetes, utilização de preços dinâmicos e pelos custos
sociados a viagens e alojamento, ultrapassando vários milhares de dólares nos
mercados de revenda (alguns lugares na final chegaram a 32.000 dólares),
tornando inviável o acesso a torcedores com menores recursos e elitizando o
futebol.
As
pausas de hidratação obrigatórias
foram criticadas por vários treinadores, jogadores e torcedores, interrompendo
e prejudicando o ritmo das partidas.
A
introdução de anéis de campeão de um
espetáculo prolongado no intervalo da final e de outros elementos do desporto
norte-americano, geraram debates sobre a progressiva transformação do futebol em
produto de entretenimento mais comercial e mais distante das suas tradições.
Além
dessas controvérsias, a Copa do Mundo de 2026 foi fonte de enormes polêmicas,
desde quebra de regras, decisões altamente duvidosas das arbitragens e
comportamentos de jogadores inaceitáveis dentro e fora das quatro linhas.
Ainda antes do início do Mundial as políticas de vistos e entradas na América (E. U.) dificultaram a deslocação de alguns torcedores e intervenientes, sendo um dos casos mais discutidos o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, selecionado pela FIFA e impedido de entrar no país. O Canadá ofereceu-se para o receber.
Uma
das polêmicas mais graves durante a Copa envolveu a estrela norte-americana Folarin
Balogun, expulso no encontro entre a América (E.U.) e a Bósnia e Herzegovina,
após o VAR considerar que cometera uma entrada merecedora de cartão vermelho.
A
expulsão implicava uma suspensão
automática por um jogo, sem prejuízo de ser aplicada uma suspensão mais
ampla, mas segundo declarações vindas a público, Gianni Infantino intercedeu
junto do Comitê de Arbitragem, solicitando a reapreciação do caso, e a FIFA
suspendeu a execução do castigo durante um período probatório de um ano,
permitindo que Balogun jogasse nos oitavos de final frente à Bélgica contra as
regras estabelecidas há anos, favorecendo uma vez mais um país anfitrião.
A
decisão foi considerada sem precedentes desde o estabelecimento da regra e
contrária à aplicação habitual da suspensão automática. A Bélgica, a UEFA e
várias figuras do futebol entenderam que a FIFA tinha comprometido a
independência do processo disciplinar e aberto um precedente perigoso à
interferência política.
A
polêmica mais prolongada da Copa recaiu sobre decisões de arbitragem favoráveis à Argentina, tendo diversos
adversários emitido sucessivas queixas.
Na
fase de grupos, a Argélia apresentou uma reclamação depois de Lionel Messi não
ter sido expulso por um contacto com a perna do capitão argelino, antes de
marcar três gols nesse encontro.
A maior polémica ocorreu nos oitavos de final frente ao Egito. Quando os egípcios estavam em vantagem, um gol que lhes daria o 2x0 foi anulado depois de o VAR identificar uma suposta infração muito anterior na construção da jogada. Mais tarde, um contacto faltoso sobre Mohamed Salah não levou a intervenção semelhante do VAR, e um pedido de grande penalidade egípcio foi recusado pouco antes de a Argentina marcar o gol da vitória.
A
Federação Egípcia apresentou uma reclamação formal, questionando a coerência e
a imparcialidade da arbitragem. Antigos jogadores e analistas destacaram a
aparente desigualdade de critérios: o VAR recuou vários momentos para anular o
gol egípcio, mas não procedeu da mesma forma quanto uma possível falta que beneficiaria
o Egito.
Nas
quartas de final, frente à Suíça, Messi pressionou a arbitragem e ergueu mesmo
o dedo indicador à altura do nariz do árbitro, que não teve a coragem de
admoestar o ‘intocável’ argentino, bem como o VAR interveio por correção de identidade numa situação
inicialmente sancionada com cartão amarelo para Leandro Paredes. Após a
revisão, o cartão foi retirado ao argentino e mostrado a Breel Embolo por
simulação. Como o jogador suíço já tinha sido advertido, acabou expulso.
O
selecionador suíço classificou a decisão como inaceitável e vários
especialistas consideraram que o VAR ultrapassara a simples correção de
identidade, reinterpretando por completo a jogada.
Estes episódios estiveram na origem da expressão mediática «VARgentina» e alimentaram a perceção de que as decisões mais discutíveis tendiam a favorecer a seleção argentina. O problema central foi, sobretudo, a falta de uniformidade e transparência na aplicação dos critérios arbitrais e do protocolo do VAR, além de claramente jogadores argentinos não terem sido admoestados com cartões amarelos que eram evidentes e os árbitros omitirem diversas faltas favoráveis aos adversários da Argentina.
Porém,
as polêmicas envolvendo a Seleção Argentina não ficaram por aí. Após a vitória
da Argentina sobre a Inglaterra por 2x1, a contar para a semifinal, jogadores
argentinos empunharam uma faixa, exibida no gramado, com a frase “Las Malvinas
son Argentinas”, relembrando ao mundo a guerra das Malvinas, sem que ninguém
tivesse sido punido, apesar das diretrizes da International Football
Association Board (IFAB) proibirem estritamente lemas, símbolos ou mensagens de
natureza política ou geopolítica nos estádios.
Após
a derrota justíssima da Argentina para a consistente Espanha, Leandro Paredes
envolveu-se numa briga ainda no gramado
com Eric García e Gavi, originando uma altercação mais ampla com o envolvimento
de outros jogadores. A FIFA nomeou um responsável disciplinar e de ética para
investigar os acontecimentos.
Durante
a cerimónia, enquanto a Espanha erguia o troféu, os jogadores argentinos permaneceram de costas para o palco,
voltados para a sua torcida. O gesto foi interpretado como falta de
desportivismo, sobretudo porque a seleção espanhola tinha formado uma guarda de
honra durante a entrega das medalhas aos argentinos.
Embora o desalento de uma equipa derrotada numa final seja compreensível, a altercação após o jogo e a atitude durante a entrega do troféu prejudicaram a imagem de uma seleção que tinha realizado um percurso desportivamente relevante.
O
presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, não esteve presente na final em virtude
de divergências com a FIFA relacionadas com decisões disciplinares, arbitragem,
procedimentos operacionais e interferência política, evidenciando tendências
mais amplas obre a independência e a governação do futebol internacional.
Infelizmente,
a aparente proteção à Argentina e os comportamentos dos atletas argentinos
dentro e fora de campo, geraram uma onda internacional de rejeição,
prejudicando claramente a imagem do país no mundo.
Não
obstante o conjunto de controvérsias relacionadas com a arbitragem, a aplicação
das normas disciplinares, a interferência política e a crescente
comercialização do futebol, entre outros aspectos, salvou-se claramente a
justiça do título conquistado pela Espanha no Mundial 2026.
FICHA
TÉCNICA DA FINAL
Espanha 1x0 Argentina
»
Gols: Ferran Torres, aos 106’
»
Competição: Copa do Mundo de 2026
» Data: 19.07.2026
» Local: MetLife Stadium, em East
Rutherford, Nova Jersey (EUA)
»
Público: 80.663 espectadores
»
Árbitro: Slavko Vincic (Eslovênia); Assistentes: Romaz Klancnik (Eslovênia) e
Andraz Kovacic (Eslovênia); VAR: Bastian Dankert (Alemanha)
»
Disciplina: cartão amarelo – Lisandro Martínez, Leandro Paredes, Enzo
Fernández, Cristian Romero e Alexis Mac Allister (Argentina); cartão vermelho –
Enzo Fernández (Argentina)
»
Espanha: Unai Simón; Pedro Porro, Pau Cubarsí, Aymeric Laporte (Eric García) e
Marc Cucurella; Rodri (Martin Zubemendi), Fabián Ruiz (Pedri) e Dani Olmo
(Mikel Merino); Alex Baena (Nico Williams), Lamine Yamal e Mikel Oyarzabal
(Ferran Torres). Técnico: Luis de la Fuente.
»
Argentina: Emiliano Martínez; Gonzalo Montiel (Nahuel Molina), Cristian Romero
(Facundo Medina), Lisandro Martínez (Nicolás Otamendi) e Nicolás Tagliafico; Rodrigo
De Paul (Giuliano Simeone), Nico González (Leandro Paredes), Alexis Mac
Allister e Enzo Fernández; Julián Álvarez (Marcos Senesi) e Lionel Messi.
Técnico: Lionel Scaloni.









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