quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Tolito: da ‘esquina do Botafogo’ às torcidas organizadas e aos sambas-enredo, eis uma vida repleta e criativa – I Parte

Crédito: Imagem melhorada e modificada por IA.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Herlito Machado Fonseca, conhecido por ‘Seu Tolito’, ou simplesmente ‘Tolito’, nascido no dia 6 de junho de 1917, em Olaria, no Rio de Janeiro, foi um célebre jornaleiro apaixonadíssimo pelo Botafogo e membro da ala de compositores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

Tolito passou a sua infância basicamente em Ramos, morou em Botafogo, mas o local com o qual se identificou foi Engenho de Dentro, onde viveu desde 1956 e era conhecido por todos, e onde em um dia do século XXI, anos depois do seu falecimento, nasceu um Estádio Olímpico, atualmente designado por Nílton Santos e administrado pelo seu Botafogo de Futebol e Regatas.

O seu interesse pelo futebol começou com o Andarahy, ao mesmo tempo que nutria simpatia pelo Botafogo Football Club, desde 1932, aos 15 anos de idade, na sequência da cisão ocorrida no futebol carioca e o Botafogo se declarou a favor dos clubes mais modestos.

Eu era torcedor do Andarahy, o verde-e-branco, mas o profissionalismo acabou com o meu time, e fui torcer por quem o defendera na Liga: o Botafogo.” (Placar, 1979)

“Na época, o Botafogo acompanhou os times pequenos e foi tetracampeão de 1932 a 1935. Então me identifiquei com o Botafogo e passei a torcer por ele.” (O Globo, 1988)

A paixão (infiel) pela Estação Primeira de Mangueira surgiu mais tarde, cerca de 1936, quando habitava o ‘Esqueleto’, uma estrutura de cimento armado destinada a ser a Prefeitura do antigo Distrito federal, mas a obra foi embargada e as famílias mais desfavorecidas ocuparam-no, dando início a uma favela.

A família de Tolito foi, então, para o ‘Esqueleto’ e a partir dessa geografia avistava a Mangueira, conviveu com o povo do morro e acabou desfilando pela Escola de Samba. Só muito mais tarde, em 1972, é que começou a compor na Mangueira, mas acabou por ter desavenças, em especial na década de 1980; no Botafogo também brigava, mas em vez de sair, ficava.

Até que no início da década seguinte, em 1940, encontrou uma trincheira que se tornou famosa por defender diariamente o Botafogo: Tolito montou uma banca de jornal na esquina mais movimentada da cidade do Rio de Janeiro – a Avenida Rio Branco com a Rua 7 de Setembro.

Criativo, Tolito foi o primeiro jornaleiro do Rio a personalizar a sua banca, cravando no alto a bandeira do Botafogo, e de vez em quando a bandeira da Mangueira.

E foi nessa esquina, também conhecida por ‘banca do Tolito’, e até ‘esquina do Botafogo’, que Herlito Machado Fonseca se tornou uma das figuras mais célebres de sempre do futebol botafoguense e carioca, devido aos torcedores se reunirem aí ao alvorecer ou ao crepúsculo da tarde em discussão permanente, debatendo sobretudo os acontecimentos do futebol e da política – mas principalmente do futebol.

Nesta esquina, desde o dia 3 de março de 1940, quando passei a trabalhar aqui, homens de todo tipo, de todo nível social, se reúnem para discutir futebol. Aqui, nesta banca, um Carlos Lacerda dava o braço a um José Lins do Rego para defender o Flamengo. Mário Filho, fumando seu charuto, passava e se postava por perto, saboreando o Havana e a discussão.” (Placar, 1979)

Porém, a banca de Tolito ampliou a sua fama e atraiu outros torcedores. Na época da Segunda Guerra Mundial o povo brasileiro estava revoltado com a Itália de Mussolini, e como a maioria das bancas pertencia a italianos, as depredações eram constantes e o engenhoso Tolito aplicou uma estratégia que se tornou vencedora: colocou as bandeiras do Botafogo, Flamengo e Vasco da Gama na sua banca para protegê-la.

Só não coloquei a do Fluminense porque tem as cores da Itália. Daí para frente, pessoal passou a reunir-se para ali discutir futebol. Mais tarde os políticos passaram a aproveitar o movimento para discursar em frente à banca. Carlos Lacerda era um que subia no meu banquinho e ficava falando para o povão.” (O Globo, 1988)

Daí em diante outras bancas passaram a imitar a de Tolito, surgindo bandeiras do Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama.

É o chamado espírito de imitação. Mas não adianta. O ponto é o mais importante. Esta esquina criou fama, com seus freqüentadores permanentes. Não é invenção de agora. Saldanha, rapazote, freqüentava a esquina, defendendo o seu Botafogo. Gerações de cronistas esportivos gastaram saliva em argumentação, defendendo eus artigos e crônicas.” (Placar, 1979)

Quando o Jornal do Brasil transferiu a sua sede da Avenida Rio Branco para a Avenida do Brasil, Tolito temeu pela permanência da discussão em torno da sua banca e pela saúde do seu negócio, porque a esquina era animada pelas polêmicas entre jornalistas.

Oldemário Touguinhó era dos que passavam horas discutindo. Depois, vinham outros companheiros. Tinha o Dácio de Almeida, que era uma parada. Mas o Jornal do Brasil saiu aqui do lado e a minha esquina continuou a mesma” (Placar, 1979), sobretudo graças a João Saldanha e a sua famosa ‘Bolsa de Apostas’ discutindo e argumentando para a sua coluna e seus programas diários na televisão.

Foi, aliás, a partir dessa esquina, que Tolito criou a ‘Charanga do Botafogo’, em 1944, iniciativa apoiada por Carlito Rocha, colaborando na aquisição de painéis, bandeiras e serpentinas. A Charanga representou uma transformação geral do modo como as torcidas apoiavam os seus clubes, incorporando instrumentos, bandeias, adereços e elementos carnavalescos, criando uma atmosfera de aproximação do futebol ao popular espetáculo carnavalesco.

Em suma, Tolito inventou uma nova maneira de torcer, transformando a arquibancada em espaço de música, festa, símbolos e identidade coletiva.

No entanto, Tolito dissolveu a Charanga em 1949, reagindo às frequentes brigas provocadas por gente infiltrada com objetivos não consentâneos com o simples apoio ao Botafogo.

Foi também por essa época que nasceu a primeira ‘Torcida Organizada do Botafogo’ (TOB), que atuava junto às diretorias do Clube como porta-voz dos sentimentos e paixão dos torcedores anônimos, a qual foi criada em 1945 e liderada por Salvador Peixoto, tendo como grande incentivador José Ferreira Bogagi, conhecido por ‘Marinheiro’ (ou ‘Marinheiro do Botafogo´), que atuava como braço-direito de Salvador Peixoto e ganhou popularidade nas arquibancadas devido à sua voz metálica e potente, comparada as radialistas pelos cronistas da época.

Leia aqui sobre Salvador Peixoto: https://mundobotafogo.blogspot.com/2021/10/salvador-peixoto-1-chefe-da-torcida.html

Salvador Peixoto cedeu o cargo a Tarzan, em 1957, e Russão, levado por Tolito para a TOB, sucedeu-lhe em 1974 à frente dos destinos da Gloriosa torcida botafoguense.

Leia aqui sobre Tarzan e Russão: https://mundobotafogo.blogspot.com/2009/10/tarzan-um-torcedor-extraordinario.html; https://mundobotafogo.blogspot.com/2010/09/russao-uma-lenda-viva.html

(Continua)

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