por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A história do jornalismo desportivo carioca da segunda metade do século XX
não se compreende apenas mediante percursos profissionais individuais,
porquanto em torno das redações dos grandes jornais do Rio floresceram
verdadeiras comunidades de jornalistas, escritores e cronistas, para os quais trabalho,
amizade, rivalidades futebolísticas e vida quotidiana se misturavam.
Dentre essas comunidades a mais singular foi certamente formada por um conjunto
invulgarmente numeroso de jornalistas botafoguenses, cujo lugar central era o
Jornal do Brasil, localizado na Avenida Brasil, com a sua editoria de Desporto
que reuniu, durante décadas, os mais importantes jornalistas da imprensa
brasileira cujo convívio era diário: Fernando Calazans, João Máximo, João
Saldanha, José Inácio Werneck, Márcio Guedes, Marcos de Castro, Oldemário
Touguinhó, Roberto Porto, Sandro Moreyra e muitos outros.
Na expressão de um estagiário que entrou no jornal na década de 1970, havia
ali jornalistas que davam para formar “três seleções”. E nessas “seleções”,
ainda na 1ª metade da década de 1970, cabiam, num total de 24 elementos, 12
jornalistas botafoguenses: Antônio
Maria Filho, Cláudio Dienstman, Eloir Maciel, João Jobim Alves Saldanha, Luiz
Fernando ‘Gauchinho’ Lima, Mara Bentes Cardoso, Márcio Guedes, Mesquita
(diagramador), Oldemário Vieira Toguinhó, Otávio Name, Roberto Porto e Sandro
Luciano Moreyra.
O Botafogo era, assim, uma espécie de ‘corrente subterrânea’ dentro daquela redação. Todavia, José Inácio Werneck, que era o editor desportivo do JB e não era botafoguense, manifestou que a preferência clubística não contaminava o tratamento jornalístico dos acontecimentos, cuja cultura profissional era muito reputada, suportada pela qualidade da informação, da escrita e da capacidade crítica.
Dentro deste núcleo, João Saldanha ocupava uma posição quase
inevitavelmente central. A relação de Saldanha com o Botafogo foi muito além da
condição de tocedor: esteve ligado ao clube como jogador ocasional, dirigente e
treinador, tendo conduzido a equipa ao título de Campeão Carioca de 1957. Mais
tarde, tornou-se uma das figuras mais influentes da crônica desportiva
brasileira. Roberto Porto, que trabalhou com ele durante anos, considerava-o um
verdadeiro símbolo do clube.
João Saldanha assumia uma posição central pela sua experiência como jornalista, dirigente e treinador, organizando espontaneamente conversas principalmente com João Máximo, Oldemário Touguinhó e Sandro Moreyra, que atraíam jornalistas mais novos e foram descritas mais tarde, em evento comemorativo a João Saldanha, como mais valiosas “do que uma faculdade de jornalismo”.
Sandro Moreyra era uma figura complementar, apaixonado pelo Glorioso e que tinha acesso
privilegiado ao Botafogo, mantendo relações próximas com os jogadores,
designadamente Garrincha, Nilton Santos e outro craques, chegando a chefiar uma
excursão da equipe à Europa.
Saldanha e Sandro eram amigos, mas isso não significava concordância
permanente, tanto mais que Saldanha era muito cioso da sua autoridade como
treinador e desfeiteava certas sugestões de Sandro Moreyra.
Roberto Porto, o último grande jornalista dessa geração botafoguense a desaparecer, que sempre difundiu a ideia de o Botafogo ser a “maior paixão imaterial” de sua vida, abandonou o curso de Direito pelo jornalismo desportivo para “estar mais próximo do Botafogo”. No Jornal do Brasil passou a ir aos jogos acompanhado por João Saldanha, Sandro Moreyra e Salim Simão. Isto é, saíam os quatro da redação e iam ao futebol, convivendo profissional e pessoalmente.
Salim Simão era uma figura pública menos visível, mas particularmente interessante e
marcante naquele meio, lembrado pelos seus súbitos e célebres gritos. José Inácio
Werneck, de quem Salim Simão era Assistente na editoria do JB, evocou Salim
como uma figura emblemática daquele tempo, uma personalidade que entrava e
transformava o ambiente, classificando-o de “estentórico”.
Botafoguense ‘roxo’, e em simultâneo profundamente amigo do famoso tricolor
Nelson Rodrigues, quiçá o maior dramaturgo brasileiro à época, Salim e Nelson desfrutavam
de uma relação íntima espantosa, que era cultural para lá do desporto, sabendo-se
que ambos eram torcedores adversários, que um era marxista e o outro
anticomunista, que tinham muito de radicais e se colocavam tantas vezes em
polos opostos, ao mesmo tempo que aparentemente se agrediam e fruíam essa
relação invulgar.
Ao recordar Nelson Rodrigues, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony
recordou que do círculo íntimo de Nelson faziam parte figuras culturais como
Hans Henningsen, José Lino Grünewald, Pedro do Coutto e… Salim Simão.
A amizade era tão profunda que Nelson tomou Salim Simão como personagem das
suas peças de teatro mantendo o seu verdadeiro nome, sobretudo na obra ‘Anti-Nelson
Rodrigues’. Foram 50 anos de amizade profunda entre redação, arquibancada, bar,
televisão e literatura, atravessando a fronteira entre a vida e a ficção.
Leia aqui essa espantosa relação entre Salim Simão e Nelson Rodrigues, cuja
II parte inclui excertos das peças de Nelson que ilustram Simão como figura
principal:
https://mundobotafogo.blogspot.com/2026/02/salim-simao-botafoguense-roxo-i.html
https://mundobotafogo.blogspot.com/2026/02/salim-simao-botafoguense-roxo-ii.html
Outro elo fundamental era Armando Nogueira, igualmente botafoguense,
jornalista de enorme importância institucional, que chegara a dirigir o
jornalismo da Rede Globo, que partilhava com João Saldanha a paixão pelo
Botafogo num dos programas mais importantes da história da televisão brasileira:
a Grande Resenha Facit, que transformou a cultura oral das redações e das
discussões de futebol numa fórmula televisiva, reunindo em torno da mesma mesa
figuras representando diversas paixões clubísticas como Armando Nogueira
(Botafogo), João Saldanha (Botafogo), José Maria Scassa (Flamengo), Nelson
Rodrigues (Fluminense), Vitorino Vieira (Vasco da Gama), entre outros. Luiz
Mendes era o ‘mediador’ do programa.
Isto significa que a mesa redonda televisiva brasileira nasceu, de certo
modo, da transferência para o ecrã de uma sociabilidade previamente vivida nas
redações desportivas, que não buscava a neutralidade, apresentando protagonistas
que possuíam biografia, clube, linguagem e personalidade reconhecíveis, em
ambiente de provocação entre amigos e adversários.
A relação entre Saldanha e Nelson teve momentos televisivos inesquecíveis. Por exemplo, quando o videoteipe contrariava a versão apaixonadamente clubista de Nelson, ele podia preferir a sua própria visão à prova das imagens, respondendo que se o videoteipe discordava dele, “pior para o videoteipe” – emergindo um ambiente saudável de provocação entre amigos e adversários futebolísticos.
Quanto a Roberto Porto, destaca-se a sua amizade com José Inácio
Werneck, que é muito importante para reconstituir a ‘rede’ na medida em que
Porto dedicou os últimos anos da sua vida a preservar as histórias do Botafogo
e da antiga imprensa. Em vários textos declara-se amigo de José Inácio e quando
publicou ‘Botafogo – O Glorioso’,
em 2009, confiou-lhe a escrita da orelha do livro.
Roberto Porto funcionou, assim, como uma espécie de memorialista daquela
geração, narrando muitas situações vividas por esta extraordinária plêiade de
jornalistas, não apenas botafoguenses, que juntos viviam situações reais:
trabalhavam juntos, iam juntos aos estádios, debatiam futebol, provocavam-se uns
aos outros, bebiam juntos, escreviam sobre os mesmos personagens e muitas
décadas depois continuaram reconhecendo-se mutuamente.
Por isso seria redutora a tentação de chamar a essas relações uma “escola botafoguense de
jornalismo”, porque embora houvesse uma fortíssima presença alvinegra, a excepcionalidade
daquele meio era resultado direto de uma enorme interação entre jornalistas e
escritores de outras paixões e de áreas diversas, os quais circulavam em espaços
físicos concretos, designadamente na redação do Jornal do Brasil, Maracanã,
General Severiano, estúdios da TV Rio e da Globo, cabina da rádio e bares do
centro do Rio.
Foi um tempo em que os jornalistas não se limitavam a autoria das histórias,
sendo eles próprios personagens das histórias uns dos outros.
Nelson transformava Salim numa personagem teatral; Roberto Porto transformava
Saldanha, Sandro e Salim em personagens das suas memórias; Sandro construía parte
significativa das suas crônicas a partir da convivência com Garrincha, Manga,
Nilton Santos e os bastidores do Botafogo; Saldanha misturava a experiência de
jornalista, dirigente, treinador e homem de futebol; Armando Nogueira
transportava para a televisão uma escrita de forte dimensão literária; José
Inácio Werneck, décadas depois, e já vivendo na América exercendo a
atividade de Supervisor do Serviço Brasileiro da ESPN International, continuava
a evocar o ambiente humano daquelas redações como algo praticamente
desaparecido.
A memória sobreviveu porque não foi apenas uma geração de jornalistas, mas
sim uma comunidade narrativa que contava histórias entre eles.
O Botafogo que emerge dos textos desta geração formidável de jornalistas
não é apenas uma equipe de futebol ou um Clube, mas também um lugar de
pertença, uma memória da cidade e uma linguagem mediante a qual esses
jornalistas se reconheciam uns aos outros.
Fontes: blogdorobertoporto.blogspot.com;
ge.globo.com
; memoriaglobo.globo.com;
mundobotafogo.blogspot.com;
pickscribe.com;
www.abi.org.br;
www.ihu.unisinos.br;
www.jb.com.br;
www.joseinaciowerneck.com;
www.observatoriodaimprensa.com.br;
https://www.researchgate.net






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