[Nota preliminar: o texto reflete rigorosamente a
escrita do jornalista botafoguense Salim Simão.]
por SALIM SIMÃO | Jornalista botafoguense, assistente
do Editor do JB | Jornal do Brasil, 28.11.1979
«Um dia, com o prestígio que me conferia a
chefia do Gabinete da Casa Civil de Negrão de Lima, procurou-me um jovem,
cineasta iniciante, que almejava realizar um filme sobre a vida de Heleno de
Freitas. Exibiu-me o roteiro, pediu-me subsídios, inclusive verba, e como se
tratava de Heleno e do Botafogo não consultei normas e regulamentos e municiei
o rapaz.
Aconselhei-o a procurar João Saldanha, que iniciara
Heleno no Botafogo – os dois moraram juntos – e quem primeiro diagnosticara a
tragédia que iria roer o herói, também ouvisse Carlos Niemeyer, Paulo Crespo, o
saudoso Carlos Peixoto, Mariozinho de Oliveira, Sacha, o maître Luiz, Eduardo
Trindade, (falecido), Carlito Rocha, Sandro Moreyra, Paulo Azerêdo, Ermelino
Matarazzo – enfim um punhado de figuras que haviam privado com o genial garoto
de General Severiano e de São João Nepomuceno, onde dorme o sono final há
precisamente 20 anos.
O diretor da película a fez de tudo; entrevistou,
dirigiu, filmou, viajou a Buenos Aires e Bogotá, foi a Minas, esgotou a
pesquisa e sua arte incipiente – e meses após, gasto o dinheiro e extenuado,
trouxe as latas contendo os filmes narrando o drama, a vida, a glória, a
paixão, a loucura e a morte do genial atleta, (permitam-me que repita pela
segunda vez a expressão genial em relação a Heleno).
A primeira cena do filme apresentava o ídolo De
Freitas sendo carregado pela multidão em Bueno Aires, Gardel aplaudido em
delírio (tradução: fama de Heleno igualava-se à de Gardel) e imediatamente o contraste
violento: um homem desfeito, um monte humano de chumbo, gordíssimo, a barba
densa do relaxamento – esse homem chutando uma bola para o enfermeiro de
avental branco defender postado entre duas pedras como imaginárias balizas; o
improvisado goleiro deixa a bola por ele passar propositadamente e o homem
gordíssimo soltou um urro de glória. Era o gol festejado por Heleno na lucidez
da demência tal como outrora na lucidez do atleta então insuperável. Confesso
que meus lhos ficaram úmidos.
Perdi o gosto pelo filme, tão cruel e real ao descerrar o pano nas três cenas de apresentação quanto amargo e doce ao mesmo tempo em seu todo.
Ontem, na casa de João Saldanha e Maria Sílvia, um
grupo de veteranos botafoguenses recordava que, em novembro de 1959, na semana
que corre, morria Heleno de Freitas, há 20 anos, repito, o alvinegro fanático,
o admirável jogador, o rapaz delicado, falando em voz mansa, o machão ardoroso
provocando tremendos sururus em campo, seus maus modos e críticas contra
adversários, o carbonário ao microfone das estações de rádio (não havia
televisão para eternizar toda a arquitetura fantástica de Heleno de Freita), o
autor de frases plenas de misticismo e respeito (“queira Deus que a boa estrela
nunca me abandone”) ou, então, eivadas de cólera e já de fundo lunático – mas
nem por isso menos verdadeiras – ao responsabilizar Flávio Costa pelo desastre
de 1950 em famosa entrevista a Sandro Moreyra (“o Brasil perdeu a Copa do Mundo
perante os uruguaios e, sobretudo, perante Obdulio Varela, por incapacidade de
Flávio Costa que transformou a Seleção Brasileira num punhado de frouxos,
castrados, aparvalhados e medrosos”). Ninguém, até hoje, deu parecer tão
sincero e real.
Como hoje não correm, tão infelizmente para nós
alvinegros, bons ventos sobre o Botafogo, traído e abalado na sua estrutura por
administrações anteriores altamente incompetentes, foi-nos doce e necessário
recordar o romance da vida de Heleno de Freitas. Porque era tão romântico
quanto romântico o nosso Botafogo.
Havia, dentre os interlocutores, quem vira na Colômbia
a estátua do belo atleta, quem como quase todos acompanhara a vida do magistral
centroavante, que fizera esquecer Leônidas (o Diamante Negro, e por isso Heleno
foi apelidado de o Diamante Branco) e que morreu jamais admitindo que chegara
ao fim. “Meu lugar ainda está vago e só eu posso salvar o Botafogo”, pronunciava
com voz viril na casa de saúde, em Barbacena.
O Botafogo foi a obsessão de Heleno de Freitas. Empertigado, rigorosamente bem penteado, chamava a atenção tanto nos bailes e no velho “Vogue” como no campo, envergando camisa de seda no inverno. No Botafogo, substituiu Carvalho Leite e na Seleção Leônidas. Formou com Zizinho à direita e Ademir à esquerda o então mais temível trio atacante do mundo. Enxotado por Flávio Costa, deixou de ser campeão do mundo e por uma dessas amargas ironias do destino também não foi campeão pelo Botafogo.
Valente e generoso foi Heleno de Freitas
e o mais perfeito goleador de cabeça que o mundo já viu! Visto no campo era a
antítese de quem o observasse no aconchego social. “O jogo tem que ser
resolvido no primeiro tempo”, dizia Heleno em relação ao futebol e à vida. Esse
primeiro tempo ele o viveu intensamente, jogou dinheiro a mancheias pela
janela, rodava com o carro mais ambicionado (Cadillac branco, coupé de ville,
conversível), tinha fome de gols, odiava – santo ódio! – o Fluminense, que se
vangloriava indevidamente de tê-lo iniciado no futebol: (“por que esses
cretinos repetem isso – berrava Heleno furioso – quando já cansei de dizer que
comecei no Botafogo, que o meu clube sempre foi o Botafogo?”).
A guerra entre Heleno e a torcida tricolor não teve
tréguas. Todo o Estado tricolor uníssono: “Gilda”! “Gilda”! Outras vezes era
saudado com “Helena”! “Helena”!, Heleno de Freitas outras vezes mostrava a
camisa, fazia gestos e vingava nos gols a afronta por ele jamais perdoada.
Era-lhe comum fazer três, quatro gols, mas jogava como um desesperado. Sozinho,
deu uma goleada no Flamengo, logo no primeiro tempo, marcando três tentos [Nota do MB: Salim Simão equivocou-se; Heleno marcou
apenas dois gols, aos 20’ e 70’] e
levando o time rubro-negro a abandonar o campo… Isso ocorreu em 1944. Parece
que foi horas atrás.
Nada existe de mais triste na carreira do craquíssimo do que a sua saída de General Severiano. Na Casa de Saúde, recordava em prantos o episódio de sua partida para a Argentina, o que precipitou mais tarde sua fulminante doença. Ídolo cá e lá, atlético, doutor em Direito, jovem, elegante, uma coroa de louro sobre a cabeça, Botafogo acima de tudo, só João Saldanha descobriu na ocasião e recorda os primeiros sintomas após o contrato milionário com o Boca Juniors. Alguém na roda esclarece que os argentinos lhe deram um trambique: comprometeram-se a pagar-lhe 400 mil antigos, converteram-nos em pesos e uma súbita desvalorização levou a fortuna. De qualquer modo, o dinheiro lhe escorria por entre os dedos como água… O locutor Luiz Mendes, meu amigo tão doce quanto calvo, é o único dos locutores vivos dentre os representantes de numerosas estações de rádio do Rio e S. Paulo que foram transmitir o primeiro jogo de Heleno no Boca.
De Freitas estava nos anúncios, nas emissoras, no
cinema. João Saldanha conta que no Plaza do Passeo Colon havia um gigantesco
painel de Heleno. Desde o bairro elegante de San Martin até à Calle Corrientes,
nos bairros, boêmios e aristocráticos, só Gardel ombreava com o De Freitas – goleou
nesse primeiro empate e foi sabotado depois por todos os gringos, como chamava
seus companheiros em campo. Atuava sempre contra dois times. “Já era doença”,
esclarece tardiamente João Saldanha.
Os milhões vieram a Heleno ainda na Colômbia, “estou
exausto de paredros e cartolas”, “sou um aventureiro”. Ali era conhecido como o
“Homem de Bronze” e ganhou estátua na praça pública. Será que lá está ainda?
O papo foi longe. De mim, apenas narrei os encontros
com Heleno nos vestiários e nos carnavais. Trabalhava eu dia e noite e mal
conhecia a orla do Atlântico, onde todos os cafajestes (era clube com esse nome
e até que bom) se reuniam, inclusive o nosso herói. Depois, vi-o sem dinheiro (que
humilhação para qualquer ser humano não ter dinheiro!) aspirando éter no
terraço do Botafogo, contando bravatas (“matei um touro na Espanha com um
murro!” “Meu murro é igual ao do velho Dempsey nos seus áureos tempos!”),
evocando o passado com minúcias que comoviam a todos. A constante era a glória
de ser sócio e amante do Botafogo. Nem uma palavra de censura sobre o passado,
pelos contratos iniciais, pelo trato com as diretorias. Entrava em campo,
treinava, treinava, treinava e, depois, o veneno volátil e a pílula adormecedora,
a morte lenta, mas a lucidez perfeita.
Em verdade, concordamos todo na casa de João Saldanha
– já era de madrugada –, Heleno de Freitas tem merecidamente o seu caixão
coberto com uma bandeira alvinegra e seu retrato na galeria dos que honraram a
Estrela Solitária. Foi filho dileto do Botafogo, vinte anos após morrer é
lembrado como se tivesse viajado ontem, foi o último centroavante clássico do
futebol brasileiro.
Só jogou o primeiro tempo de sua vida, mas como
ninguém se empenhou. Pelo Botafogo viveu e morreu. Assim nós nos sentíamos
também – vivendo e morrendo pela Estrela Solitária – no terno papo na casa do
João. Heleno era um todo de cada um de nós. E eu orei para que Deus, ame o
Botafogo eternamente e para que também nós assim o amemos. Amém. E mais uma
vez, adeus Heleno de Freitas.»
Fonte do
texto: Jornal do Brasil, 28.11.1979.




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