por RUY MOURA
| Editor do Mundo Botafogo
Num ano verdadeiramente excepcional e contrastante o Botafogo termina o
Campeonato Brasileiro em 31º lugar entre 32 clubes e conquista a Copa Conmebol,
a segunda mais importante do futebol Sul-americano.
Na competição continental Carlos Alberto Torres, o ‘Capita’, conseguiu a
transformação de um grupo que ele próprio considerou fraco num grupo altamente
competitivo: eliminou Bragantino, Caracas, o favorito Atlético Mineiro nas
semifinais e superou o Peñarol na final.
Havia muitos jogadores jovens que consideravam ‘Capita’ uma figura quase
mitológica, mas ele quebrou deliberadamente uma convenção do futebol
brasileiro: – “Não sou professor.
Chamem-me Carlos Alberto.” E com essa simples frase, psicologicamente
importante, eliminou a distância formal e aproximou-se imediatamente do grupo.
O prestígio do treinador foi fundamental num contexto de salários que
chegaram a quatro meses de atraso; a alimentação, aquém do necessário, resumia-se
a feijão, arroz e ovo a almoço a jantar; dificuldades de financiamento de
concentrações e viagens; às vezes faltavam até bolas; os jogadores pensaram
seriamente em parar de treinar e iniciar uma greve geral; ao mesmo tempo desse
precário panorama a equipe tinha consciências das suas limitações e
simultaneamente sentia-se fortemente mobilizada pelo prestígio, personalidade e
proximidade do técnico, chegando ao ponto de ex-atletas afirmarem, mais tarde,
que “corriam por ele” numa aventura coletiva.
Nessa inverosímil campanha não faltou sequer a profecia: o Botafogo
perdeu o jogo de ida contra o Atlético Mineiro por 3x1, no Mineirão, mas Carlos
Alberto Torres não desarmou e no final da partida abraçou Sinval e afirmou que
o gol botafoguense no Mineirão seria o da classificação do Botafogo, o que
constituía uma profecia de vitória por 3x0 sobre o Atlético no Rio de Janeiro –
e esse foi exatamente o resultado do jogo de volta que levou o Botafogo à final
contra o Peñarol, perante um Caio Martins repleto de botafoguenses e que
constituiu um dos momentos mais emocionantes para os jogadores, que esperavam
um estádio meio vazio.
A viagem para Montevidéu foi uma epopeia: a Conmebol antecipou a partida
em 24 horas, o Botafogo teve que jogar no Brasil, recuperar em menos de 48
horas e viajar no próprio dia do jogo. À chegada a comitiva encontrou um
ambiente hostil, sucessivos rojões junto a hotel, gritaria e confusão.
Entretanto Torres comandou um treino antes da final baseado em finalizações, o qual correu tão mal que o treinador cancelou o treino após dez minutos e mandou-os embora, para espanto de todos, evidenciando inteligência psicológica por pensar que seria melhor não treinar a treinar mal e destruir a confiança já conquistada pelos jogadores.
Quando a equipe chegou ao estádio, o vestiário estava todo pintado de
fresco com forte cheiro a tintas, bem com explosões de artefactos e gás
irritante. O técnico desprezou as ocorrências mencionando que os uruguaios
ainda estavam na ‘Idade da Pedra’ ao ainda suporem que isso influenciaria o
resultado.
Para cúmulo o esquema do treinador era ‘suicida’, segundo os jogadores,
porque a disposição em 4x4x2 era ofensiva, com Marcelo Carioca, Eliel e Sinval
muito adiantados, sugerindo uma abordagem nada conservadora para uma equipe que
atravessava diversas limitações e se esperava que jogasse na retranca.
Durante o jogo William Bacana ainda perdeu um dente devido a uma entrada
dura de atacante uruguaio, continuou jogando e foi crucial para o Botafogo
conseguir empatar por 1x1, e depois do jogo os atletas tiveram que evitar a
saída pelo túnel para evitar agressões, saltaram de uma altura de dois metros e
ficaram fechados no vestiário enquanto aguardavam uma saída em segurança.
Porém, novas peripécias estavam para acontecer no jogo de volta no
Maracanã.
O Botafogo perdia por 1x0 ao intervalo, mas na segunda parte, numa
cobrança de falta ensaiada, Sinval e Eliel simularam discussão sobre quem iria
bater, Eliel bateu diretamente e empatou a partida. Depois Sinval virou o
resultado para 2x1, e quando os botafoguenses já comemoravam o título, Marcelo
Otero tona a empatar a partida aos 90’, que seguiu para pênaltis.
Sinval, artilheiro da competição, falhou o primeiro pênalti, antevendo-se
a ‘tragédia’, mas William Bacana compensou a falha através de duas defesas. O
Botafogo ganhou a disputa por 3x1 e foi campeão.
Campanha
completa aqui: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/campeo-de-futebol-da-copa-conmebol-1993.html
Carlos Alberto Torres tinha sido expulso durante a final e nos momentos
finais assistiu à decisão por pênaltis da boca do túnel. Quando o Botafogo se
sagrou campeão os jornalistas correram para a boca do túnel ao encontro do
treinador, cuja primeira declaração foi: – “O
título é dos garotos!”
Porém, se não houver drama, algo inédito ou improbabilidade, não é conquista à Botafogo – e desta vez ganhou a improbabilidade. Os jogadores receberam o troféu no Maracanã, o Clube conquistou a primeira competição internacional oficial, mas o prêmio monetário da vitória, que sairia de um porcentual de receita da bilheteria, perdeu-se quando a polícia, incapaz de conter a multidão, mandou abrir os portões e de 70.000 espectadores apenas 26.000 pagaram bilhete e… posteriormente ninguém soube indicar com segurança para onde fora parar a taça e mais tarde acabou sendo feita uma réplica!
Em suma, o ano de 1993 foi especialmente moldado à Botafogo:
» treinador contratado sem dinheiro para lhe pagarem, financiou a própria
remuneração através de dois amistosos nas Caraíbas;
» profetizou que o gol de Sinval no jogo de ida das semifinais daria a
classificação mediante vitória de 3x0 no jogo de volta, o que realmente
aconteceu apesar de nem a concentração o Botafogo tenha conseguido assegurar
financeiramente;
» a equipe viajou no próprio dia do jogo de ida das finais para
Montevidéu porque a Conmebol antecipou a partida em 24 horas;
» no hotel soaram rojões e hostilidades patrocinadas pelos uruguaios;
» antes do jogo o Capita terminou um treino que durou apenas dez minutos
porque nada saia certo aos jogadores, evitando assim minar a confiança que
tinham;
» no vestiário havia gás irritante e as paredes estavam pintadas de
fresco emitindo um cheiro intenso;
» após o empate os jogadores tiveram que fugir das agressões dos
torcedores uruguaios, trancando-se no vestiário;
» Capita levou à final uma equipe sem ‘estrelas’, ganhou na disputa por
pênaltis após desperdício na primeira cobrança;
» e por fim perdeu-se a receita de bilheteria e a própria taça.
Fim das originalidades desse Botafogo de 1993?... Nem por isso…
Quatro semanas após o Botafogo ser campeão internacional os torcedores
entraram em campo para ensinar os atletas a marcar gols!
A 30 de setembro foram campeões, a 28 de outubro a equipe aproximava-se
de 804 minutos sem marcar um único gol no Brasileirão. Então os torcedores
invadiram o campo e começaram, eles próprios, chutando à baliza numa espécie de
aula prática com aprendizagem bem sucedida: aos 84’ Eliomar cruzou a bola e
Marcelo Carioca marcou, interrompendo quase 9 jogos sem a equipe marcar gols.
Carlos Alberto Torres deixou o Botafogo no dia 3 de dezembro de 1993,
após conquistar o título continental e classificar-se no 31ª e penúltimo lugar
no Brasileirão, para comandar o rival Fluminense.
É muito Botafogo!!!
Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br



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