segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Treinadores e contextos (VIII): Carlos Alberto Torres do título continental ao penúltimo lugar no Brasileirão

Carlos Alberto Torres, jogador e treinador. Crédito: Domínio Público.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Num ano verdadeiramente excepcional e contrastante o Botafogo termina o Campeonato Brasileiro em 31º lugar entre 32 clubes e conquista a Copa Conmebol, a segunda mais importante do futebol Sul-americano.

Na competição continental Carlos Alberto Torres, o ‘Capita’, conseguiu a transformação de um grupo que ele próprio considerou fraco num grupo altamente competitivo: eliminou Bragantino, Caracas, o favorito Atlético Mineiro nas semifinais e superou o Peñarol na final.

Havia muitos jogadores jovens que consideravam ‘Capita’ uma figura quase mitológica, mas ele quebrou deliberadamente uma convenção do futebol brasileiro: – “Não sou professor. Chamem-me Carlos Alberto.” E com essa simples frase, psicologicamente importante, eliminou a distância formal e aproximou-se imediatamente do grupo.

O prestígio do treinador foi fundamental num contexto de salários que chegaram a quatro meses de atraso; a alimentação, aquém do necessário, resumia-se a feijão, arroz e ovo a almoço a jantar; dificuldades de financiamento de concentrações e viagens; às vezes faltavam até bolas; os jogadores pensaram seriamente em parar de treinar e iniciar uma greve geral; ao mesmo tempo desse precário panorama a equipe tinha consciências das suas limitações e simultaneamente sentia-se fortemente mobilizada pelo prestígio, personalidade e proximidade do técnico, chegando ao ponto de ex-atletas afirmarem, mais tarde, que “corriam por ele” numa aventura coletiva.

Nessa inverosímil campanha não faltou sequer a profecia: o Botafogo perdeu o jogo de ida contra o Atlético Mineiro por 3x1, no Mineirão, mas Carlos Alberto Torres não desarmou e no final da partida abraçou Sinval e afirmou que o gol botafoguense no Mineirão seria o da classificação do Botafogo, o que constituía uma profecia de vitória por 3x0 sobre o Atlético no Rio de Janeiro – e esse foi exatamente o resultado do jogo de volta que levou o Botafogo à final contra o Peñarol, perante um Caio Martins repleto de botafoguenses e que constituiu um dos momentos mais emocionantes para os jogadores, que esperavam um estádio meio vazio.

A viagem para Montevidéu foi uma epopeia: a Conmebol antecipou a partida em 24 horas, o Botafogo teve que jogar no Brasil, recuperar em menos de 48 horas e viajar no próprio dia do jogo. À chegada a comitiva encontrou um ambiente hostil, sucessivos rojões junto a hotel, gritaria e confusão.

Entretanto Torres comandou um treino antes da final baseado em finalizações, o qual correu tão mal que o treinador cancelou o treino após dez minutos e mandou-os embora, para espanto de todos, evidenciando inteligência psicológica por pensar que seria melhor não treinar a treinar mal e destruir a confiança já conquistada pelos jogadores.

O momento da comemoração do título no Maracanã. Crédito: Divulgação.

Quando a equipe chegou ao estádio, o vestiário estava todo pintado de fresco com forte cheiro a tintas, bem com explosões de artefactos e gás irritante. O técnico desprezou as ocorrências mencionando que os uruguaios ainda estavam na ‘Idade da Pedra’ ao ainda suporem que isso influenciaria o resultado.

Para cúmulo o esquema do treinador era ‘suicida’, segundo os jogadores, porque a disposição em 4x4x2 era ofensiva, com Marcelo Carioca, Eliel e Sinval muito adiantados, sugerindo uma abordagem nada conservadora para uma equipe que atravessava diversas limitações e se esperava que jogasse na retranca.

Durante o jogo William Bacana ainda perdeu um dente devido a uma entrada dura de atacante uruguaio, continuou jogando e foi crucial para o Botafogo conseguir empatar por 1x1, e depois do jogo os atletas tiveram que evitar a saída pelo túnel para evitar agressões, saltaram de uma altura de dois metros e ficaram fechados no vestiário enquanto aguardavam uma saída em segurança.

Porém, novas peripécias estavam para acontecer no jogo de volta no Maracanã.

O Botafogo perdia por 1x0 ao intervalo, mas na segunda parte, numa cobrança de falta ensaiada, Sinval e Eliel simularam discussão sobre quem iria bater, Eliel bateu diretamente e empatou a partida. Depois Sinval virou o resultado para 2x1, e quando os botafoguenses já comemoravam o título, Marcelo Otero tona a empatar a partida aos 90’, que seguiu para pênaltis.

Sinval, artilheiro da competição, falhou o primeiro pênalti, antevendo-se a ‘tragédia’, mas William Bacana compensou a falha através de duas defesas. O Botafogo ganhou a disputa por 3x1 e foi campeão.

Campanha completa aqui: https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/campeo-de-futebol-da-copa-conmebol-1993.html

Carlos Alberto Torres tinha sido expulso durante a final e nos momentos finais assistiu à decisão por pênaltis da boca do túnel. Quando o Botafogo se sagrou campeão os jornalistas correram para a boca do túnel ao encontro do treinador, cuja primeira declaração foi: – “O título é dos garotos!”

Porém, se não houver drama, algo inédito ou improbabilidade, não é conquista à Botafogo – e desta vez ganhou a improbabilidade. Os jogadores receberam o troféu no Maracanã, o Clube conquistou a primeira competição internacional oficial, mas o prêmio monetário da vitória, que sairia de um porcentual de receita da bilheteria, perdeu-se quando a polícia, incapaz de conter a multidão, mandou abrir os portões e de 70.000 espectadores apenas 26.000 pagaram bilhete e… posteriormente ninguém soube indicar com segurança para onde fora parar a taça e mais tarde acabou sendo feita uma réplica!

A Taça da Conmebol, 1993. Crédito: Divulgação.

Em suma, o ano de 1993 foi especialmente moldado à Botafogo:

» treinador contratado sem dinheiro para lhe pagarem, financiou a própria remuneração através de dois amistosos nas Caraíbas;

» profetizou que o gol de Sinval no jogo de ida das semifinais daria a classificação mediante vitória de 3x0 no jogo de volta, o que realmente aconteceu apesar de nem a concentração o Botafogo tenha conseguido assegurar financeiramente;

» a equipe viajou no próprio dia do jogo de ida das finais para Montevidéu porque a Conmebol antecipou a partida em 24 horas;

» no hotel soaram rojões e hostilidades patrocinadas pelos uruguaios;

» antes do jogo o Capita terminou um treino que durou apenas dez minutos porque nada saia certo aos jogadores, evitando assim minar a confiança que tinham;

» no vestiário havia gás irritante e as paredes estavam pintadas de fresco emitindo um cheiro intenso;

» após o empate os jogadores tiveram que fugir das agressões dos torcedores uruguaios, trancando-se no vestiário;

» Capita levou à final uma equipe sem ‘estrelas’, ganhou na disputa por pênaltis após desperdício na primeira cobrança;

» e por fim perdeu-se a receita de bilheteria e a própria taça.

Fim das originalidades desse Botafogo de 1993?... Nem por isso…

Quatro semanas após o Botafogo ser campeão internacional os torcedores entraram em campo para ensinar os atletas a marcar gols!

A 30 de setembro foram campeões, a 28 de outubro a equipe aproximava-se de 804 minutos sem marcar um único gol no Brasileirão. Então os torcedores invadiram o campo e começaram, eles próprios, chutando à baliza numa espécie de aula prática com aprendizagem bem sucedida: aos 84’ Eliomar cruzou a bola e Marcelo Carioca marcou, interrompendo quase 9 jogos sem a equipe marcar gols.

Carlos Alberto Torres deixou o Botafogo no dia 3 de dezembro de 1993, após conquistar o título continental e classificar-se no 31ª e penúltimo lugar no Brasileirão, para comandar o rival Fluminense.

É muito Botafogo!!!

Fontes principais da série: br.bolavip.com; brasil.elpais.com; jbemfolhas.com.br; jornalggn.com.br; mundobotafogo.blogspot.com; museudapessoa.org; operamundi.uol.com.br; pesquisaescolar.fundaj.gov.br; pt.wikipedia.org; www.uol.com.br; https://sopanomel.blogspot.com; terceirotempo.uol.com.br; tnonline.uol.com.br; www.campeoesdofutebol.com.br; www.correiobraziliense.com.br; www.jb.com.br; www.museudapelada.com; www1.folha.uol.com.br

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