Nota: Onde se lê Cremilson na imagem, deve ler-se Marco Antonio.
por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
"Atenção Zé Carlos, o Time do Camburão acaba de chegar...". – Foi assim que o
repórter Deny Menezes, sarcástico e rápido, se dirigiu ao narrador José Carlos
Araújo, enviando um flash para a
cabine da Rádio Nacional quando o ônibus do Botafogo chegou ao estádio do
Maracanã numa tarde de 1977.
Na época, o Botafogo
era presidido por Charles Borer, ligado ao Serviço Nacional de Informações (SNI), da
linha dura de apoio ao Regime Militar, que fora execrado pela torcida devido a
ter procedido à venda da Sede do Clube à Companhia Vale do Rio Doce.
Segundo o cronista Rubens
Lemos, “Charles Borer parecia tirano
comandante de tropas alemães da SS na Segunda Guerra Mundial e era combatido
pelo jornalismo de esquerda, liderado por João Saldanha, por defender pancada
nos comunistas cuja perseguição era liderada pelo seu irmão Cecil Borer,
diretor do temível DOI-CODI, ante-sala da morte nos anos de chumbo.” (1)
Abrindo um parêntesis
sobre o irmão de Charles Borer, Mário
Magalhães menciona que “foi Cecil de
Macedo Borer (1913-2003), e não o delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury
(1933-79) ou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, 81, o mais marcante
agente da repressão política no Brasil do século XX. Os três serviram a
ditaduras e barbarizaram à margem da lei, mas o mais influente e longevo como
repressor foi o baiano Borer.” (2)
Ainda segundo Magalhães, Cecil
ingressou na polícia política do antigo Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em
1932, e foi quem prendeu Carlos Lacerda, panfletista à época. Em vésperas do
golpe de Estado de 1964, Cecil Borer comandava a DOPS carioca e era o chefe dos
espiões infiltrados em organizações de esquerda e sindicatos, conspirando na
deposição do presidente constitucional João Goulart e ganhando fama de
torturador e pioneiro do Esquadrão da Morte.
Regressando ao
presidente do Botafogo, Borer quis entender-se com a torcida e demonstrar
autoridade, tendo então montado “um time
cheio de craques malandros acima da conta. Contratou Paulo César Caju, Mário
Sérgio, Dé, o Aranha, Manfrini, Gil, Ubirajara Alcântara, Renê Pancada e
Rodrigues Neto.” (1)
Já estavam no
Botafogo, Bráulio, Carbone e Ademir Vicente, que contava detalhes aos
companheiros do seu namoro com a cantora Vanusa. Segundo Rubens Lemos, na
teoria era uma equipe de futebol, mas na prática era o camburão perfeitamente
definido por Deny Menezes. Ninguém queria nada a não ser criar caso, fazer
arruaça e desafiar a decantada valentia de Borer.
Rubens Lemos conta os
pormenores:
“Paulo César Caju não costumava jogar às quintas-feiras pois às quartas
havia noites especiais com garotas importadas na então famosa Boate Regine`s.
PC Show, com vasta cabeleira Black Power, fazendo biquinho, recitava o francês
que aprendeu à risca, no tempo em que brilhou no Olympique de Marselha.
Divertiu-se e encantou. Tocar a bola para ele era um desfile.
Mário Sérgio e Renê gostavam de brincadeiras
sadias quando o time viajava a Campos e Volta Redonda. Sacavam revólveres e
atiravam em placas de trânsito. Quem acertasse menos, pagava a rodada de
cerveja, que começava no próprio ônibus (camburão).
O Camburão de Futebol e Regatas passou a treinar
em Marechal Hermes. […] Segunda-feira pela manhã, nem
pensar. Tudo começava às duas da tarde porque do time titular, apenas o
jovem e habilidoso meia Mendonça acordava antes do meio-dia.” (1)
Charles Borer
Após dois empates
contra Olaria e São Cristóvão, Charles Borer pensou em enquadrar de vez a
equipe e, na sua conceção ‘militarizada’, contratou como técnico, nada mais,
nada menos, do que o delegado de polícia Luiz Mariano, do antigo time dos 12 de
Ouro, alcunha afável do Esquadrão da Morte.
Importa referir que
Luiz Mariano dos Santos foi delegado de Polícia, assumindo
diversos cargos, e fundador da Scuderie Detetive Le Cocq (da qual foi
presidente), tendo pedido a sua exoneração de diretor do Departamento Geral da
Polícia Especializada (DGPE) da Polícia Civil devido a ter sido denunciado pelo
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) por envolvimento com o jogo do
bicho. (3)
Por sua vez, o preparador físico escolhido por Charles Borer foi, nada
mais, nada menos, do que a ‘seda humana’ chamada Hélio Viggio,
chefe da Divisão Anti-Sequestro. Além desta divisão, Viggio também
chefiou unidades especializadas como as delegacias de roubos e furtos e a
de combate às drogas. “Na década de 1980 foi afastado da delegacia de Roubos e Furtos sob
acusação de comandar o espancamento de 11 presos que tentaram fugir da
carceragem. Já na década de 90, Vigio foi investigado em casos envolvendo jogo
do bicho. Seu nome estava na lista de recebedores de propina de castor de
Andrade. Nos anos 2000, foi afastado pelo então governador Anthony Garotinho.”
(4)
Convencido das suas
grandes escolhas, “Charles Borer
apresentou a dupla, que guardava pistolas sob as calças de elástico e disse que
a partir daquele momento, ai de quem continuasse desrespeitando a autoridade dirigente.
Foi às duas da tarde. No dia seguinte, pela manhã, não viu Mariano ou Viggio em
Marechal Hermes. Telefonou ao técnico, que o atendeu, pelas 11, voz de ressaca
monumental. ‘Borer, o Dé, o Ademir e
o PC nos convidaram a um papo, pra selar a paz, mostrar boas intenções e
terminamos às sete horas, todos bêbados. São bons meninos’.” (1)
Um dos ‘bons meninos’
declarou à Placar Magazine que Hélio Viggio e Luiz Mariano lhe “disseram que às vezes ficam até com pena de
prender assaltantes à mão armada. O cara é preso, apresenta a carteira assinada
e explica: ‘Como posso viver com o salário mínimo se tenho aluguel para pagar e
família para comer? Não dá, doutor, tenho que assaltar’. Um drama, né?” (5)
Rubens Lemos conclui
que “desmoralizado de uma vez pela
malandragem, Borer resolveu desmontar o camburão, vendendo, com dificuldade,
peça por peça, até 1979.”
(3) http://www.toponimiainsulana.com.br/luiz_mariano_dos_santos.html; Assembleia Legislativa de
Estado do Rio de Janeiro; ‘Folha de S. Paulo’, de 19 de outubro de 1994; ‘O
Globo’, de 02.07.1982, 12.11.1994,12.10.2011 e 12.10.2013.
(5) Placar Magazine, 01.06.1979, p. 49.




