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por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Cronista do Mundo Botafogo
por LÚCIA SENNA | Escritora e Cantora | Cronista do Mundo Botafogo
Já que o ano só começa depois do carnaval, FELIZ
ANO NOVO!
Entrei 2020 cumprindo as promessas que fiz em
2019 e que, a bem da verdade, estavam na agenda desde 2018. Todas se referem a
levar uma vida mais saudável. Ah, como é duro levar uma vida saudável. Pra
começar, significa renunciar aos prazeres da mesa, deixar os excessos de lado,
não exagerar na dose, ou seja: jamais enfiar
o pé na jaca. E que graça tem a vida sem overdose alimentares?
Dietas são sempre drásticas. Deve ser por isso
que os nutricionistas usam e abusam dos diminutivos na tentativa inútil de
suavizar o nosso calvário. E que tal saborear um franguinho ensopadinho
acompanhado de uma saladinha de jiló? Ou uma carninha insossa com purê de
chuchuzinho? Cautela com as frutinhas. Elas têm alto teor de açúcar. Portanto,
a metade de uma perinha é o quanto basta por dia.
Cruz credo, isso é um verdadeiro martírio. Esses
nutricionistas são desumanos e querem nos ver em grande sofrimento, comendo o
pão que o diabo amassou.
Prazeres da mesa renunciados, sigo arrastando-me
pelas ruas de Botafogo, com o firme propósito de matricular-me na academia mais
próxima de casa, onde vou malhar diariamente. Na entrada da sala de musculação,
encontro um cartaz bastante antipático: “CHEGA DE MIMIMI e bora MALHAR”. Um
professor, coberto de músculos, se aproxima de mim e, sem nenhum mimimi,
pergunta-me: “Bora malhar?”. Bora, respondi. Coloca-me na esteira e some entre
os inúmeros aparelhos de tortura.
O ambiente parece-me bastante insalubre. O
cheiro de suor vindo de corpos obesos é insuportável. Sem dúvida, enfiaram o pé
na jaca no final de semana e, agora, querem transpirar a culpa em cima de mim? CARAMBA!
Na próxima aula, com a desculpa do coronavírus, vou vir de máscara. Por ora, prendo
a respiração e tento abstrair-me examinando a vizinha de esteira: jovem, bonita
e arrogante. Tão arrogante que malha sem suar, numa postura altiva de quem está
plainando sobre as nuvens, sentada em um belo tapete mágico. Além de tudo, tem
cabelos lisos e puxados num bonito rabo de cavalo. Antipatizei na hora.
Em frente aos espelhos há uma enorme concentração
de sarados. Tiram selfies, passam em revista os bíceps e tríceps e caem
de quatro por si próprios ao darem mais uma penúltima sacada na barriga de
tanquinho. É preciso reconhecer que, além de não gostar do clima de academia,
detesto malhar. Meu organismo jamais liberou a tal da Endorfina, hormônio do
bem estar que dizem aflorar logo depois de exercícios físicos. Pra mim, isso aí
é “fake news”, taoquei?
Mas se pensas que vou desistir da minha
abençoada vida saudável, estás enganado. Yoga é a minha praia. Sim, a Yoga é
relaxante, acalma a mente, exercita o poder de concentração, a coordenação
motora, ativa a memória e é pra lá que vou.
Sai o BORA MALHAR e entra PARA SE CONECTAR,
DESCONECTE. Que benção! Quanta sabedoria!
A aula começa e todos já estão sentados sobre os
calcanhares. A posição é torturante, mas aguento firme. Agora, minha gente,
sinistro mesmo é a chamada POSTURA DA MONTANHA. Uma voz calma e doce nos
orienta a manter os joelhos flexionados tanto quanto o necessário para manter a
coluna o mais reta possível. Depois, deixar a cabeça cair pesadamente,
relaxando a língua e a mandíbula, mantendo os pés separados na distância dos
quadris, sem deixar de puxar a barriga e as costelas, respirando pausadamente,
ao mesmo tempo que... SAIO DO RECINTO ENLOUQUECIDA DE CÃIBRA NOS CALCANHARES,
TORCICOLO NAS MANDÍBULAS, RESPIRAÇÃO OFEGANTE, DOR POR TODO O CORPO E COM A
CERTEZA ABSOLUTA QUE YOGA NÃO É PRA
AMADOR.
Penso que as promessas de início de ano são
feitas para não serem cumpridas e, consequentemente, gerar culpa. Os fogos de artifício
ainda brilham nos céus e, aqui embaixo, as criaturas pulam as sete ondinhas,
comem romãs e fazem mil promessas. Avé Maria! Entrar o ano sem uma lista
interminável de promessas seria um sacrilégio!
E promessa não cumprida – que
beleza! – é culpa pro resto do ano.
Digo isso, pois parece que há um prazer mórbido
em não realizar o prometido, apenas e tão-somente pra se sentir culpado. A
razão dessa loucura? Faço a menor ideia.
Talvez considerem que não seja de todo ruim viver numa espécie de purgatório,
limpando o caminho da alma em direção ao paraíso. Sei lá! Vai saber...
Quanto a mim, declaro solenemente que, sem
nenhuma culpa, desisto de perseguir a tal “fonte inesgotável de prazer” que viria
através de novos hábitos de vida.
Deitada na rede da varandinha, sedentária em
tempo integral e devorando um sanduba tamanho família, me vem um sentimento
estranho e perturbador: uma culpa gigantesca
de não estar sentindo culpa nenhuma.



