por Ivan Lessa
Literatura da Arquibancada
Torcedor apaixonado do Botafogo
“O verdadeiro torcedor não se dá a
conhecer. Embora um conoisseur, prefere trabalhar - seu ofício é duro - em
silêncio. Tem razão. Sua prática é feroz, exige disciplina e nem todos o
compreenderiam.
O verdadeiro torcedor não pinta a cara
ou qualquer outra parte de seu corpo, não veste a camisa de seleção alguma, não
agita bandeiras, não ergue a voz em coro com outros. O verdadeiro torcedor é um
animal pensante doméstico. Não vai aos jogos. Principalmente os da Copa do
Mundo. Escolhe, no entanto, torneios importantes que propiciem amplo espaço na
imprensa, televisão ou mesmo rádio.
O verdadeiro torcedor gasta seu dinheiro
em jornais, publicações especializadas, cadernos em espiral e canetas
esferográficas. E uma tesoura razoável. No seu quarto, um território proibido a
estranhos, tem colado nas paredes tabelas coloridas e algumas fotos e recortes
pregados com uma massinha azul que não deixa marca ou mancha. Na mesa de
trabalho, ao lado do computador, o caderno de notas, a tesoura ("Recortar
é viver", este seu lema) e uma Bic, de preferência azul.
O verdadeiro torcedor passa entre 2 a 3
horas por dia folheando os jornais em busca de colunas relativas aos diversos
jogos. Degusta análises, com ênfase naquelas que ousem previsões. Não são
difíceis de encontrar: o peixe morre pela boca, o jornalista esportivo pelo
texto. O verdadeiro torcedor passa pelo menos uma hora vendo e ouvindo, com atenção,
as observações feitas pelos bem pagos comentaristas profissionais durante os
intervalos e as versões compactas dos jogos da Copa. O verdadeiro torcedor ri
fácil e, sério, toma notas.
O verdadeiro torcedor é um
perfeccionista. O verdadeiro torcedor sabe, como os mais desbragadamente
apaixonados, o nome e a ficha completa de jogadores mais populares como
Cristiano Ronaldo, Messi, Robinho, Maicon, Eto'o, Casillas, Rooney e Dempsey,
como também daqueles menos cotados, como Zigic, Özil, M'bohir, Yussuf e Park-Ji-Sung.
Até mesmo os técnicos não fogem a seus
olhos dourados de atenção: Otto Rehhagel, Huh Jung-moo, Gerardo Mantino e
Rajevac são magos feiticeiros de sua intimidade. O verdadeiro torcedor
desconhece limites para o esporte das multidões em sua modalidade máxima, pois
sabe de cor e salteado até mesmo o nome de todos os estádios sul-africanos, dos
quais prefere citar, em voz baixa e a sós, como se recitando uma incantação, os
de Koftus Versfeld, Peter Mokaba, Mbombela e o de Moses Mabhida.
O verdadeiro torcedor tem, por vezes,
seus exageros, pois é humano, nada mais que humano. Saber uma linha do hino
nacional da Argélia, sob qualquer ponto de vista, não deixa de ser levar a
idiossincrasia a seus mais desvairados limites (É assim: Qassaman Binnazzilat
Ilmahigat e quer dizer "Juramos pelo raio que destrói").
O verdadeiro torcedor freme e goza de
prazer é quando encontra, como foi o caso, um comentário-prognóstico de David
Hytner, do Guardian, na mesma manhã em que, algumas horas depois, a Alemanha
foi perder de 1 a 0 para a Sérvia:
"Joachim Löw revitalizou sua equipe
(a alemã, frise-se) com uma abordagem técnica audaz, saudável e
multicultural". E, mais abaixo, "A formação por ele escolhida a dedo
abunda com a exuberância e o frescor da juventude". Assim prosseguiu o
notável David Hytner, sem sequer esquecer do trema sobre o "o"de Löw,
jabuzelando e vuvulanando por umas três colunas.
A Sérvia? Sob a batuta de Raddy Antic? A
Sérvia definitivamente não estava à altura de conter as feras de Löw que, até
então, já haviam desembestado ganhando de 4 (de quatro!) da - seria manhosa,
David Hytner? - Austrália, orquestrada sob a batuta do - seria capcioso, David
Hytner? - Pim Verbeek.
O verdadeiro torcedor, assim como quem
não quer nada, quer tudo. O verdadeiro torcedor é pela zebra e o circo pegando
fogo fora de campo. O verdadeiro torcedor pouco liga para milionários dando
pontapés e estragando gramados.
O negócio do verdadeiro torcedor é ver
os outros milionários, os da mídia, quebrando a cara. Momentaneamente, ao
menos. O verdadeiro torcedor sabe que os outros torcedores, coitados, logo vão
embora e de tudo se esquecer depois de cantarem seus estribilhos, soprarem
nisso ou naquilo outro e voltar a esperar outros quatro anos.
O verdadeiro torcedor não carece de
matéria. N'est-ce pas, cari
amici italiani?
Fotos: (1) Esporte UOL; (2) Yasuyoshi Chiba - AFP / Gazeta Esportiva


2 comentários:
Caro Rui. Fiquei triste ao saber que não sou um verdadeiro torcedor. Não me enquadro na maioria dos critérios do texto. Acho que sou apenas um apaixonado pelo Botafogo. Loris
Pois é, mas, em minha opinião, a imagem do torcedor 'intelectual' é boa. É a de um torcedor capaz de viver emoções secundárias com tanta ou mais emoção do que as emoções primárias das multidões.
Abraços Gloriosos!
Enviar um comentário