Foto: Flávio Carneiro;
Crédito: Angélica Soares
Flávio Carneiro, autor da publicação que
se segue, nasceu em Goiânia, em 1962, e mudou-se para o Rio de Janeiro no
início da década de 1980. Desde 2003 mora em Teresópolis, região serrana do
estado. Escritor, crítico literário, roteirista e professor de literatura da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), publicou 17 livros e escreveu
2 roteiros para cinema.
Em entrevista concedida a Manoella Barbosa,
para o Goethe Institut (São Paulo), em fevereiro de 2014, Flávio Carneiro
retratou-se como botafoguense a valer:
“Uma
teoria que tenho, já comprovada pelos doutores em futebol, é que o torcedor de
verdade torce mais pro seu time do que pela seleção brasileira. Torço pro
Botafogo até em campeonato de futebol de botão! Agora, pelo Brasil, só mesmo em
jogos decisivos. Acho que isso acontece porque o torcedor acompanha seu time no
dia-a-dia, a cada semana, enquanto o Brasil só joga pra valer de quatro em
quatro anos. Não dá pra ter muita afinidade com um time que você só vê jogar de
verdade a cada quatro anos.”
por FLÁVIO CARNEIRO
Nas crônicas que
escrevia semanalmente para a Manchete Esportiva, Nelson Rodrigues vez ou
outra elegia o personagem da semana. Era quase sempre um jogador o tal
personagem, alguém que se havia destacado na rodada e merecera sua atenção.
Pois numa dessas crônicas, Nelson elegeu como personagem da semana não um
jogador mas uma torcida: a do Botafogo.
A certa altura da
crônica, o tricolor Nelson afirma que “nem todo mundo pode imaginar o que é
‘ser Botafogo’. Vejam um vascaíno, um rubro-negro e um tricolor. Eles se
parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Reagem diante da derrota, da vitória
e do empate de maneiras bem-parecidas. Suas euforias e depressões são
equivalentes. Mas há, no botafoguense, coisas que só ele tem e que o distinguem
de tudo e de todos”.
Numa crônica
anterior, Nelson já havia escrito que há sempre, nas vitórias do Botafogo, “uma
pungência, um patético que faltam às demais”. Tanto que ele, naquela semana,
passa por cima de uma goleada do América sobre o Corinthians para falar da
vitória de 2x0 do Botafogo sobre a Portuguesa. O jogo, segundo o cronista,
tinha tudo para ser uma festa: o alvinegro, capitaneado por Didi e Garrincha,
passeou em campo, dominando plenamente o adversário, e poderia, sem exagero,
ter ganhado de 10x0. A tal ponto que Nelson se perguntou, ao final da partida,
temendo pela sorte do seu Fluminense: “o que seria de nós se o Botafogo jogasse
sempre assim?”
A partida, no
entanto, terminou apenas num dramático, num suado 2x0. Por quê? Responde o
cronista: “tudo é mais difícil para o Botafogo e o povo, com seu instinto
agudo, costuma dizer: ‘Há coisas que só acontecem ao Botafogo!’ Exato”. E
Nelson decifra o enigma ao dizer que o problema todo é que o time “tem contra
si a fatalidade, mesmo quando assombra, mesmo quando esmaga, mesmo quando
arrebenta.”
O botafoguense Arthur
Dapieve sabe bem o que é isso. Numa crônica recente, intitulada Esse nosso
amor, Dapieve comenta o espetáculo dantesco que teve como palco o Estádio
dos Aflitos (o nome do estádio: ironia do destino?), em Recife, na partida
Botafogo e Náutico pelo campeonato brasileiro. Aliás, você por favor me
responda, caro leitor: algum jogador do seu time já foi preso em pleno gramado
e levado à força por policiais pelo meio da torcida adversária? E caso isso
tenha acontecido, o presidente do seu time foi atrás do jogador para protegê-lo
e acabou preso também, como naquele jogo? Duvido.
Nessa crônica,
Dapieve escreve: “tenho dois amigos jornalistas paulistas e são-paulinos que
trabalharam no Rio de Janeiro durante algum tempo. Ambos se tornaram
botafoguenses porque se assombraram com a nossa incrível concentração
dramática. Eles dizem que em um ano de Botafogo acontece o suficiente para
encher cinco anos do São Paulo. Sem os títulos, infelizmente”.
Fonte: http://rascunho.com.br/estrela-solitaria
Fonte: http://rascunho.com.br/estrela-solitaria
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