quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Estrela Solitária (I)

Foto: Flávio Carneiro; Crédito: Angélica Soares

Flávio Carneiro, autor da publicação que se segue, nasceu em Goiânia, em 1962, e mudou-se para o Rio de Janeiro no início da década de 1980. Desde 2003 mora em Teresópolis, região serrana do estado. Escritor, crítico literário, roteirista e professor de literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), publicou 17 livros e escreveu 2 roteiros para cinema.

Em entrevista concedida a Manoella Barbosa, para o Goethe Institut (São Paulo), em fevereiro de 2014, Flávio Carneiro retratou-se como botafoguense a valer:

Uma teoria que tenho, já comprovada pelos doutores em futebol, é que o torcedor de verdade torce mais pro seu time do que pela seleção brasileira. Torço pro Botafogo até em campeonato de futebol de botão! Agora, pelo Brasil, só mesmo em jogos decisivos. Acho que isso acontece porque o torcedor acompanha seu time no dia-a-dia, a cada semana, enquanto o Brasil só joga pra valer de quatro em quatro anos. Não dá pra ter muita afinidade com um time que você só vê jogar de verdade a cada quatro anos.”

por FLÁVIO CARNEIRO

Nas crônicas que escrevia semanalmente para a Manchete Esportiva, Nelson Rodrigues vez ou outra elegia o personagem da semana. Era quase sempre um jogador o tal personagem, alguém que se havia destacado na rodada e merecera sua atenção. Pois numa dessas crônicas, Nelson elegeu como personagem da semana não um jogador mas uma torcida: a do Botafogo.

A certa altura da crônica, o tricolor Nelson afirma que “nem todo mundo pode imaginar o que é ‘ser Botafogo’. Vejam um vascaíno, um rubro-negro e um tricolor. Eles se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Reagem diante da derrota, da vitória e do empate de maneiras bem-parecidas. Suas euforias e depressões são equivalentes. Mas há, no botafoguense, coisas que só ele tem e que o distinguem de tudo e de todos”.

Numa crônica anterior, Nelson já havia escrito que há sempre, nas vitórias do Botafogo, “uma pungência, um patético que faltam às demais”. Tanto que ele, naquela semana, passa por cima de uma goleada do América sobre o Corinthians para falar da vitória de 2x0 do Botafogo sobre a Portuguesa. O jogo, segundo o cronista, tinha tudo para ser uma festa: o alvinegro, capitaneado por Didi e Garrincha, passeou em campo, dominando plenamente o adversário, e poderia, sem exagero, ter ganhado de 10x0. A tal ponto que Nelson se perguntou, ao final da partida, temendo pela sorte do seu Fluminense: “o que seria de nós se o Botafogo jogasse sempre assim?”

A partida, no entanto, terminou apenas num dramático, num suado 2x0. Por quê? Responde o cronista: “tudo é mais difícil para o Botafogo e o povo, com seu instinto agudo, costuma dizer: ‘Há coisas que só acontecem ao Botafogo!’ Exato”. E Nelson decifra o enigma ao dizer que o problema todo é que o time “tem contra si a fatalidade, mesmo quando assombra, mesmo quando esmaga, mesmo quando arrebenta.”

O botafoguense Arthur Dapieve sabe bem o que é isso. Numa crônica recente, intitulada Esse nosso amor, Dapieve comenta o espetáculo dantesco que teve como palco o Estádio dos Aflitos (o nome do estádio: ironia do destino?), em Recife, na partida Botafogo e Náutico pelo campeonato brasileiro. Aliás, você por favor me responda, caro leitor: algum jogador do seu time já foi preso em pleno gramado e levado à força por policiais pelo meio da torcida adversária? E caso isso tenha acontecido, o presidente do seu time foi atrás do jogador para protegê-lo e acabou preso também, como naquele jogo? Duvido.

Nessa crônica, Dapieve escreve: “tenho dois amigos jornalistas paulistas e são-paulinos que trabalharam no Rio de Janeiro durante algum tempo. Ambos se tornaram botafoguenses porque se assombraram com a nossa incrível concentração dramática. Eles dizem que em um ano de Botafogo acontece o suficiente para encher cinco anos do São Paulo. Sem os títulos, infelizmente”.

Fonte: http://rascunho.com.br/estrela-solitaria

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