por RUY MOURA | Editor do Mundo
Botafogo
«O Botafogo fez
muito bem de trazer atletas com conduta e caráter, um perfil muito bom, de dia
a dia, ambiente, isso é um facilitador.» – Fábio Matias, ex-Treinador-interino
do Botafogo, in ‘Resenha com TF’.
Justamente devido ao aparente perfil pessoal de Fábio
Matias defendi que deveria permanecer como treinador-auxiliar permanente no
Botafogo, integrando a equipe de Artur Jorge (AJ).
Considero fundamental que comissão técnica e plantel,
além das suas qualidades técnicas, tenham ética pessoal e atitudes e
comportamentos socialmente legitimados à luz de práticas cidadãs. Consequentemente,
esse é mais um ponto positivo para Fábio Matias (FM), que não somente
evidenciou essas práticas como defende a contratação de “atletas com conduta e
caráter”, adequados à criação de bons ambientes, quer laborais, quer competitivos,
porque – digo eu – isto aqui não é o Flamengo, mas sim o Botafogo com ética e tradições.
Todavia, parece-me que FM, tal como Cláudio Caçapa (CC) e
Lúcio Flávio (LF), engalanaram cedo demais no que respeita às suas ambições.
Efetivamente, tendo FM realizado uma dezena de jogos à frente do Botafogo com
bons resultados, avaliou que estaria preparado para ser treinador principal e,
na minha perspetiva, não quis sujeitar-se à liderança de AJ.
FM aceitou, então, o convite do Coritiba, da Série B,
para ocupar o cargo de treinador principal. Foi demitido menos de dois meses
depois, e continua sem clube.
O mesmo sucedeu a CC, que tendo estado interinamente à
frente do Botafogo em quatro partidas que ganhou, limitou-se – e bem –, porque
era treinador interino, a manter o esquema vencedor do inominável técnico de
2022-23. Todavia, queria ficar ao leme da equipe como treinador principal, mas
John Textor devolveu-o ao Molenbeek, do qual CC também acabou por ser demitido
com a equipe em zona de rebaixamento.
Posteriormente à demissão de Bruno Lage – claramente
responsável por cair em desgraça devido às suas enormes inabilidades de
comunicação para dentro e para fora dos clubes (comuns às demissões no Benfica,
Wolverhampton e Botafogo) –, foi a vez do treinador-auxiliar LF julgar que
poderia ser treinador principal de uma equipe numa fase tão delicada da sua
existência no Brasileirão, subvalorizando a sua enorme incapacidade de liderar
seja quem for, não conseguindo colocar-se ao leme do plantel e menos ainda
cobrar e motivar a equipe – e recentemente considerar, em entrevista, que
fizera um bom trabalho (???) e não compreendia a sua demissão (!!!).
Em suma, nenhum dos três interinos estava preparado para
assumir o cargo de treinador principal, sobrevalorizando-se e desprezando toda
uma caminhada de treinador-auxiliar que deveriam calcorrear.
Queimar etapas costuma ser mau negócio; não se saber
aplicar a si próprio a análise SWOT identificando oportunidades e ameaças,
potencialidades e limitações, pode causar a fatalidade de se dar “passos
maiores do que as pernas”.
Continuo a gostar da pessoa que FM parece ser, e se
conseguir evoluir – como espero – não desdenharia que no futuro viesse a ocupar
um cargo no nosso Clube, porque o seu perfil pessoal evidencia qualidades que
defendo tanto em treinadores como em dirigentes e jogadores.
Todavia, a sua falta de humildade no aprendizado que
ainda teria que fazer, conduziu-o ao arrependimento, como se depreende das suas
palavras na entrevista anteriormente citada:
«É lógico que
gostaria dar continuidade na carreira. Mas não vejo problema em dar passo para
trás, fazer de novo função de auxiliar permanente. Porque é uma função
enriquecedora, você consegue estudar, visualizar o profissional que está
trabalhando, entender processos, fazer interligação com categorias de base,
integração, ver quem são os melhores. Da minha parte, não vejo problema em dar
passo para trás.»
Arrependimento não desonra ninguém, mas tendo rejeitado a
oportunidade de ficar no Botafogo, o seu aprendizado, que poderia ser de
excelência com AJ, deve ser realizado noutro lado, ainda que um dia mais tardio
possa regressar ao Botafogo.
Um passo atrás para futuramente se dar dois à frente é
boa estratégia se as circunstâncias assim o indicarem, mas o passo atrás de FM
deveria ter sido dado não se desligando do Botafogo, retomando a função de técnico-auxiliar
permanente para, no futuro, dar os tais dois passos à frente.
O Botafogo de hoje não perdoa quem lhe vira as costas,
mesmo sem maldade – como foi o caso de FM. Damián Suárez, um caso claramente
malicioso, é bem um exemplo de que uma má decisão pode acarretar perdas
indesejadas num Botafogo com líderes efetivos como são JT e AJ.
Já lá vai o tempo das diretorias do Botafogo que aceitavam
situações impensáveis e que nos envergonhavam constantemente, tais como Túlio
se transferir para o Corinthians após o seu sucesso no Botafogo dizendo que “larguei um fusquinha para pegar uma Ferrari”;
ou Sassá sair do Botafogo para o Cruzeiro, embora o nosso Clube tenha sempre perdoado
os seus destemperos, dizendo que “aqui,
no Cruzeiro, é outra coisa, é time grande”.
Ambos se arrependeram e não se fixaram quer na “ferrari”,
quer no “time grande”, porque Túlio nunca mais brilhou verdadeiramente no
futebol – ainda que o Botafogo incrivelmente o tenha aceitado novamente – e
Sassá acabou na Série C do Brasileirão.
O Botafogo jamais poderá aceitar vergar-se como
antigamente a todo o tipo de pessoas envolvidos no desporto, que desconsideram
o Botafogo maliciosamente, ou mesmo sem maldade por conta do laxismo, sejam
magistrados, árbitros, dirigentes confederativos e federativos, agentes
empresariais, mídia, jogadores e mais quem seja.
O Botafogo atual faz-se respeitar pelas pessoas hnradas e
temido pelas pessoas cuja honra não é atributo fundamental e que sempre
desejaram intimamente que o Botafogo acabasse como o América FC.
2 comentários:
Excelente análise de psicologia. Eu queria ser assim... rsrs PS: só comenta quem acompanha, e bem, o clube, elenco e bastidores!
Obrigado pelo comentário, Vanilson. Alguém me ensinou, um dia, que mais do que as palavras - que deviam ser lei para a ação, mas não são - é através das práticas que se transmite o que realmente somos. E o que 'somos' impacta as práticas. Devemos defender com orgulho o que conseguimos fazer, mas antes é fundamental aprender com humildade. Por isso o caráter de um dirigente, de um treinador, de um jogador, é algo fundamental.
Abraços Gloriosos.
Enviar um comentário