terça-feira, 17 de setembro de 2024

Voz de Fábio Matias: pretexto para notas sobre ética e respeito

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

«O Botafogo fez muito bem de trazer atletas com conduta e caráter, um perfil muito bom, de dia a dia, ambiente, isso é um facilitador.» – Fábio Matias, ex-Treinador-interino do Botafogo, in ‘Resenha com TF’.

Justamente devido ao aparente perfil pessoal de Fábio Matias defendi que deveria permanecer como treinador-auxiliar permanente no Botafogo, integrando a equipe de Artur Jorge (AJ).

Considero fundamental que comissão técnica e plantel, além das suas qualidades técnicas, tenham ética pessoal e atitudes e comportamentos socialmente legitimados à luz de práticas cidadãs. Consequentemente, esse é mais um ponto positivo para Fábio Matias (FM), que não somente evidenciou essas práticas como defende a contratação de “atletas com conduta e caráter”, adequados à criação de bons ambientes, quer laborais, quer competitivos, porque – digo eu – isto aqui não é o Flamengo, mas  sim o Botafogo com ética e tradições.

Todavia, parece-me que FM, tal como Cláudio Caçapa (CC) e Lúcio Flávio (LF), engalanaram cedo demais no que respeita às suas ambições. Efetivamente, tendo FM realizado uma dezena de jogos à frente do Botafogo com bons resultados, avaliou que estaria preparado para ser treinador principal e, na minha perspetiva, não quis sujeitar-se à liderança de AJ.

FM aceitou, então, o convite do Coritiba, da Série B, para ocupar o cargo de treinador principal. Foi demitido menos de dois meses depois, e continua sem clube.

O mesmo sucedeu a CC, que tendo estado interinamente à frente do Botafogo em quatro partidas que ganhou, limitou-se – e bem –, porque era treinador interino, a manter o esquema vencedor do inominável técnico de 2022-23. Todavia, queria ficar ao leme da equipe como treinador principal, mas John Textor devolveu-o ao Molenbeek, do qual CC também acabou por ser demitido com a equipe em zona de rebaixamento.

Posteriormente à demissão de Bruno Lage – claramente responsável por cair em desgraça devido às suas enormes inabilidades de comunicação para dentro e para fora dos clubes (comuns às demissões no Benfica, Wolverhampton e Botafogo) –, foi a vez do treinador-auxiliar LF julgar que poderia ser treinador principal de uma equipe numa fase tão delicada da sua existência no Brasileirão, subvalorizando a sua enorme incapacidade de liderar seja quem for, não conseguindo colocar-se ao leme do plantel e menos ainda cobrar e motivar a equipe – e recentemente considerar, em entrevista, que fizera um bom trabalho (???) e não compreendia a sua demissão (!!!).

Em suma, nenhum dos três interinos estava preparado para assumir o cargo de treinador principal, sobrevalorizando-se e desprezando toda uma caminhada de treinador-auxiliar que deveriam calcorrear.

Queimar etapas costuma ser mau negócio; não se saber aplicar a si próprio a análise SWOT identificando oportunidades e ameaças, potencialidades e limitações, pode causar a fatalidade de se dar “passos maiores do que as pernas”.

Continuo a gostar da pessoa que FM parece ser, e se conseguir evoluir – como espero – não desdenharia que no futuro viesse a ocupar um cargo no nosso Clube, porque o seu perfil pessoal evidencia qualidades que defendo tanto em treinadores como em dirigentes e jogadores.

Todavia, a sua falta de humildade no aprendizado que ainda teria que fazer, conduziu-o ao arrependimento, como se depreende das suas palavras na entrevista anteriormente citada:

«É lógico que gostaria dar continuidade na carreira. Mas não vejo problema em dar passo para trás, fazer de novo função de auxiliar permanente. Porque é uma função enriquecedora, você consegue estudar, visualizar o profissional que está trabalhando, entender processos, fazer interligação com categorias de base, integração, ver quem são os melhores. Da minha parte, não vejo problema em dar passo para trás

Arrependimento não desonra ninguém, mas tendo rejeitado a oportunidade de ficar no Botafogo, o seu aprendizado, que poderia ser de excelência com AJ, deve ser realizado noutro lado, ainda que um dia mais tardio possa regressar ao Botafogo.

Um passo atrás para futuramente se dar dois à frente é boa estratégia se as circunstâncias assim o indicarem, mas o passo atrás de FM deveria ter sido dado não se desligando do Botafogo, retomando a função de técnico-auxiliar permanente para, no futuro, dar os tais dois passos à frente.

O Botafogo de hoje não perdoa quem lhe vira as costas, mesmo sem maldade – como foi o caso de FM. Damián Suárez, um caso claramente malicioso, é bem um exemplo de que uma má decisão pode acarretar perdas indesejadas num Botafogo com líderes efetivos como são JT e AJ.

Já lá vai o tempo das diretorias do Botafogo que aceitavam situações impensáveis e que nos envergonhavam constantemente, tais como Túlio se transferir para o Corinthians após o seu sucesso no Botafogo dizendo que “larguei um fusquinha para pegar uma Ferrari”; ou Sassá sair do Botafogo para o Cruzeiro, embora o nosso Clube tenha sempre perdoado os seus destemperos, dizendo que “aqui, no Cruzeiro, é outra coisa, é time grande”.

Ambos se arrependeram e não se fixaram quer na “ferrari”, quer no “time grande”, porque Túlio nunca mais brilhou verdadeiramente no futebol – ainda que o Botafogo incrivelmente o tenha aceitado novamente – e Sassá acabou na Série C do Brasileirão.

O Botafogo jamais poderá aceitar vergar-se como antigamente a todo o tipo de pessoas envolvidos no desporto, que desconsideram o Botafogo maliciosamente, ou mesmo sem maldade por conta do laxismo, sejam magistrados, árbitros, dirigentes confederativos e federativos, agentes empresariais, mídia, jogadores e mais quem seja.

O Botafogo atual faz-se respeitar pelas pessoas hnradas e temido pelas pessoas cuja honra não é atributo fundamental e que sempre desejaram intimamente que o Botafogo acabasse como o América FC.

2 comentários:

jornal da grande natal disse...

Excelente análise de psicologia. Eu queria ser assim... rsrs PS: só comenta quem acompanha, e bem, o clube, elenco e bastidores!

Ruy Moura disse...

Obrigado pelo comentário, Vanilson. Alguém me ensinou, um dia, que mais do que as palavras - que deviam ser lei para a ação, mas não são - é através das práticas que se transmite o que realmente somos. E o que 'somos' impacta as práticas. Devemos defender com orgulho o que conseguimos fazer, mas antes é fundamental aprender com humildade. Por isso o caráter de um dirigente, de um treinador, de um jogador, é algo fundamental.

Abraços Gloriosos.

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