por
RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A Copa do Mundo FIFA de 1970 realizada
no México, entre 31 de maio e 21 de junho, em condições difíceis em altitude e
calor intenso, é frequentemente lembrada como uma das edições mais memoráveis
da história do futebol, tendo sido a primeira disputa fora da Europa e da
América do Sul, teve 16 Seleções, 32 jogos, terminou com o brilhante
tricampeonato do Brasil e marcou uma virada na própria história do futebol como
espetáculo global.
Pela primeira vez foi permitido efetuar, em cada equipe, duas
substituições durante as partidas, tendo sido o soviético Viktor Serebryanikov,
no jogo inaugural da competição, o substituto estreante em Copas do Mundo, que
ao intervalo deu lugar a Anatoly Puzach.
Por outro lado, a Copa de 1970 estreou o método de amostragem de
cartões vermelhos e amarelos, que passaram a ser utilizados como sistema visual
de advertência e expulsão, sendo curioso, ou talvez por causa deles, que a
competição ficou conhecida pela sua lisura competitiva, sem recorrência a
jogadas violentas.
Também pela primeira vez os jogos do campeonato do mundo foram transmitidos ao vivo em cores para diversos países, o que ampliou enormemente o alcance do evento e ajudou a fixar na memória coletiva imagens que até hoje são revisitadas. O cenário também impôs desafios inéditos: jogos realizados em grande altitude, como na Cidade do México, exigiram preparação física diferenciada, e muitas seleções chegaram semanas antes para se adaptar.
Dentro de campo, o protagonismo absoluto foi da seleção
brasileira, liderada por Pelé. No entanto,
o caminho até aquele equipe, considerada por muitos como a melhor de todos os
tempos, não foi simples.
Meses antes da realização da Copa do Mundo, o ambiente na seleção
era tenso. O técnico João Saldanha havia
classificado o Brasil com autoridade, mas entrou em conflito com dirigentes e
até com o governo militar da época. Há relatos de que sua recusa em convocar
determinados jogadores e a sua postura independente desagradaram o regime, o
que culminou na sua demissão pouco antes da Copa.
Efetivamente, o presidente do regime militar, Emílio Garrastazu
Médici, manifestou, através da imprensa, o seu gosto em que Dadá Maravilha
fosse convocado, mas Saldanha respondeu, também via imprensa, que “nem eu
escalo ministério e nem o presidente escala time”.
Bastou para João Saldanha ser demitido e em seu lugar Mário Zagallo assumir a equipe, que tratou de
fazer a vontade ao presidente Medici convocando Dadá Maravilha (que não atuou
em nenhuma partida) e apostou em um modelo de jogo surpreendente, reunindo
vários ‘camisa 10’ no mesmo time.
O resultado foi um futebol fluido e criativo, com jogadores como Jairzinho, Tostão, Rivelino e Gerson atuando de forma quase intercambiável. Jairzinho, aliás, protagonizou um feito único até aos dias de hoje: marcou gols em todos os jogos da campanha, foi o grande desequilibrar do Brasil em campo e, naturalmente, deveria ter sido eleito como ‘Bola de Ouro’, mas Pelé tinha lobby e foi um modo de coroar a sua presença em quatro Copas do Mundo, das quais três foram vencidas pelo Brasil
Pelé, por sua vez, já não era o jovem explosivo de 1958, mas
atuava com muita inteligência tática e protagonizou alguns lances icônicos,
mesmo não os coroando com gols.
Contra a Inglaterra, então campeã mundial, Pelé protagonizou uma
cabeçada aparentemente indefensável, mas o goleiro Gordon Banks realizou aquela que ficou conhecida
como “a defesa do século”. Após o jogo, Pelé teria dito: “eu já estava
comemorando”. E Banks respondeu à medida, com humor: “e eu também, até
conseguir defender”.
Outro episódio curioso envolveu uma tentativa ousada de Pelé
contra a Seleção Tchecoslovaca de Futebol:
ele percebeu o goleiro adiantado e arriscou um chute do meio-campo. A bola
passou raspando, e o lance entrou para a história como exemplo de sua visão de
jogo – embora nunca tenho marcado um gol do meio-campo. Já contra o Uruguai, na
semifinal, Pelé executou um drible sem tocar na bola — deixou-a passar de um
lado do goleiro e correu pelo outro. O movimento desconcertou completamente a
defesa, embora a finalização tenha ido para fora.
Estas e outras peripécias dos jogadores brasileiros,
designadamente os arranques fulminantes e os gols de Jairzinho, bem apelidado
de ‘Furacão da Copa’, encantaram as arquibancadas.
Porém, se o Brasil encantava, a semifinal entre a Itália e a Alemanha entrou para a história como o ‘Jogo do Século’. Os italianos venciam por 1x0 na reta final da partida, mas aos 90’ Schnellinger empatou. Após uma prorrogação absolutamente libertina, italianos e alemães marcaram cinco gols em 30 minutos, alternando diversas vezes no marcador até ser estabelecido o resultado final de 4x3 favorável aos italianos.
Uma imagem icônica desse confronto foi Franz Beckenbauer, que permaneceu em campo com o
braço imobilizado após uma lesão, já que o técnico Helmut Schön efetuara as
duas substituições autorizadas e o craque jogou com uma clavícula fraturada até
ao fim do jogo.
A final, disputada no Estádio Azteca diante de mais de 100 mil
pessoas, colocou frente a frente Brasil e Itália. O jogo terminou 4x1 para os
brasileiros, mas o placar não traduz completamente o significado da partida –
faltava um encantamento final.
Esse encantamento foi ‘guardado’ para o último gol da Copa, como
se estrategicamente tivesse sido ensaiado, marcado por Carlos Alberto Torres. O gol nasceu de uma
sequência de passes envolventes que percorreu praticamente toda a equipe — uma
síntese perfeita daquele futebol coletivo. Anos depois, o próprio Carlos Alberto
revelaria que nem esperava receber a bola; Pelé apenas olhou, percebeu a sua
chegada e rolou no momento exato.
Fora das quatro linhas, havia também histórias menos visíveis. A
seleção brasileira conviveu com forte pressão política, sendo utilizada como
instrumento de propaganda pelo regime militar após a conquista. Ao mesmo tempo,
muitos jogadores tentavam se manter alheios a isso, concentrados apenas no
futebol. Outro detalhe curioso é que a comissão técnica levou um grande número
de profissionais para a época, incluindo preparadores físicos e até estudos
sobre adaptação à altitude — algo ainda pouco comum naquele período.
Terminada a Copa do Mundo, Mário Zagallo tornou-se o primeiro tricampeão mundial como jogador (1958, 1962) e técnico (1970) e o Brasil não conquistou apenas o tricampeonato, como também garantiu a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Mais do que isso, deixou uma marca estética e cultural: a ideia de um futebol bonito, ofensivo e coletivo, que até hoje serve como referência.
A Copa de 1970 acabou por se tornar um ponto de encontro entre
talento individual, organização tática e contexto histórico — um daqueles raros
momentos em que o esporte ultrapassa o jogo e se transforma em memória
duradoura.
FICHA TÉCNICA DA FINAL
Brasil 4x1
Itália
» Gols: Pelé, aos 18’, Gérson, aos 66’, Jairzinho, aos 71’, e
Carlos Alberto, aos 86’ (Brasil); Boninsegna, aos 37’ (Itália)
» Data: 21 de junho de 1970
» Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)
» Público: 107.412 espectadores
» Árbitro: Rudi Glöckner
» Brasil: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo
e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Técnico: Mário Zagallo.
» Itália: Enrico Albertosi; Tarcísio Burgnich, Pierluigi Cera,
Roberto Rosato e Giacinto Facchetti; Mario Bertini (Antonio Juliano) e
Giancarlo De Sisti; Angelo Domenghini, Sandro Mazzola, Roberto Boninsegna
(Gianni Rivera) e Luigi Riva. Técnico: Ferruccio Valcareggi.
Fontes
principais: Bellos, A. (2014). Futebol: The Brazilian Way of Life; en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt;
tntsports.com.br;
Wilson, J. (2013). Inverting
the Pyramid: The History of Football Tactics; www.britannica.com; www.fifa.com.; X / Sofascore.





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