sexta-feira, 19 de junho de 2026

Copa do Mundo de 1970: Jairzinho, o ‘Furacão da Copa’, Pelé e Zagallo tricampeões

Cartaz da Copa do Mundo de 1970. Crédito: Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A Copa do Mundo FIFA de 1970 realizada no México, entre 31 de maio e 21 de junho, em condições difíceis em altitude e calor intenso, é frequentemente lembrada como uma das edições mais memoráveis da história do futebol, tendo sido a primeira disputa fora da Europa e da América do Sul, teve 16 Seleções, 32 jogos, terminou com o brilhante tricampeonato do Brasil e marcou uma virada na própria história do futebol como espetáculo global.

Pela primeira vez foi permitido efetuar, em cada equipe, duas substituições durante as partidas, tendo sido o soviético Viktor Serebryanikov, no jogo inaugural da competição, o substituto estreante em Copas do Mundo, que ao intervalo deu lugar a Anatoly Puzach.

Por outro lado, a Copa de 1970 estreou o método de amostragem de cartões vermelhos e amarelos, que passaram a ser utilizados como sistema visual de advertência e expulsão, sendo curioso, ou talvez por causa deles, que a competição ficou conhecida pela sua lisura competitiva, sem recorrência a jogadas violentas.

Também pela primeira vez os jogos do campeonato do mundo foram transmitidos ao vivo em cores para diversos países, o que ampliou enormemente o alcance do evento e ajudou a fixar na memória coletiva imagens que até hoje são revisitadas. O cenário também impôs desafios inéditos: jogos realizados em grande altitude, como na Cidade do México, exigiram preparação física diferenciada, e muitas seleções chegaram semanas antes para se adaptar.

Botafogo de 1970: da esquerda para a direita, em cima, Moreira, Ubirajara, Nei Conceição, Moisés, Leônidas e Valtencir; em baixo, Zequinha, Careca, Roberto, Jairzinho e Paulo Cézar. Fonte: revista ‘O Cruzeiro’ | foto colorizada.

Dentro de campo, o protagonismo absoluto foi da seleção brasileira, liderada por Pelé. No entanto, o caminho até aquele equipe, considerada por muitos como a melhor de todos os tempos, não foi simples.

Meses antes da realização da Copa do Mundo, o ambiente na seleção era tenso. O técnico João Saldanha havia classificado o Brasil com autoridade, mas entrou em conflito com dirigentes e até com o governo militar da época. Há relatos de que sua recusa em convocar determinados jogadores e a sua postura independente desagradaram o regime, o que culminou na sua demissão pouco antes da Copa.

Efetivamente, o presidente do regime militar, Emílio Garrastazu Médici, manifestou, através da imprensa, o seu gosto em que Dadá Maravilha fosse convocado, mas Saldanha respondeu, também via imprensa, que “nem eu escalo ministério e nem o presidente escala time”.

Bastou para João Saldanha ser demitido e em seu lugar Mário Zagallo assumir a equipe, que tratou de fazer a vontade ao presidente Medici convocando Dadá Maravilha (que não atuou em nenhuma partida) e apostou em um modelo de jogo surpreendente, reunindo vários ‘camisa 10’ no mesmo time.

O resultado foi um futebol fluido e criativo, com jogadores como Jairzinho, Tostão, Rivelino e Gerson atuando de forma quase intercambiável. Jairzinho, aliás, protagonizou um feito único até aos dias de hoje: marcou gols em todos os jogos da campanha, foi o grande desequilibrar do Brasil em campo e, naturalmente, deveria ter sido eleito como ‘Bola de Ouro’, mas Pelé tinha lobby e foi um modo de coroar a sua presença em quatro Copas do Mundo, das quais três foram vencidas pelo Brasil

Jairzinho comemorando um dos seus gols. Fonte: X / Sofascore.

Pelé, por sua vez, já não era o jovem explosivo de 1958, mas atuava com muita inteligência tática e protagonizou alguns lances icônicos, mesmo não os coroando com gols.

Contra a Inglaterra, então campeã mundial, Pelé protagonizou uma cabeçada aparentemente indefensável, mas o goleiro Gordon Banks realizou aquela que ficou conhecida como “a defesa do século”. Após o jogo, Pelé teria dito: “eu já estava comemorando”. E Banks respondeu à medida, com humor: “e eu também, até conseguir defender”.

Outro episódio curioso envolveu uma tentativa ousada de Pelé contra a Seleção Tchecoslovaca de Futebol: ele percebeu o goleiro adiantado e arriscou um chute do meio-campo. A bola passou raspando, e o lance entrou para a história como exemplo de sua visão de jogo – embora nunca tenho marcado um gol do meio-campo. Já contra o Uruguai, na semifinal, Pelé executou um drible sem tocar na bola — deixou-a passar de um lado do goleiro e correu pelo outro. O movimento desconcertou completamente a defesa, embora a finalização tenha ido para fora.

Estas e outras peripécias dos jogadores brasileiros, designadamente os arranques fulminantes e os gols de Jairzinho, bem apelidado de ‘Furacão da Copa’, encantaram as arquibancadas.

Porém, se o Brasil encantava, a semifinal entre a Itália e a Alemanha entrou para a história como o ‘Jogo do Século’. Os italianos venciam por 1x0 na reta final da partida, mas aos 90’ Schnellinger empatou. Após uma prorrogação absolutamente libertina, italianos e alemães marcaram cinco gols em 30 minutos, alternando diversas vezes no marcador até ser estabelecido o resultado final de 4x3 favorável aos italianos.

Pelé comemorando o título abraçado a Jairzinho. Divulgação / FIFA.

Uma imagem icônica desse confronto foi Franz Beckenbauer, que permaneceu em campo com o braço imobilizado após uma lesão, já que o técnico Helmut Schön efetuara as duas substituições autorizadas e o craque jogou com uma clavícula fraturada até ao fim do jogo.

A final, disputada no Estádio Azteca diante de mais de 100 mil pessoas, colocou frente a frente Brasil e Itália. O jogo terminou 4x1 para os brasileiros, mas o placar não traduz completamente o significado da partida – faltava um encantamento final.

Esse encantamento foi ‘guardado’ para o último gol da Copa, como se estrategicamente tivesse sido ensaiado, marcado por Carlos Alberto Torres. O gol nasceu de uma sequência de passes envolventes que percorreu praticamente toda a equipe — uma síntese perfeita daquele futebol coletivo. Anos depois, o próprio Carlos Alberto revelaria que nem esperava receber a bola; Pelé apenas olhou, percebeu a sua chegada e rolou no momento exato.

Fora das quatro linhas, havia também histórias menos visíveis. A seleção brasileira conviveu com forte pressão política, sendo utilizada como instrumento de propaganda pelo regime militar após a conquista. Ao mesmo tempo, muitos jogadores tentavam se manter alheios a isso, concentrados apenas no futebol. Outro detalhe curioso é que a comissão técnica levou um grande número de profissionais para a época, incluindo preparadores físicos e até estudos sobre adaptação à altitude — algo ainda pouco comum naquele período.

Terminada a Copa do Mundo, Mário Zagallo tornou-se o primeiro tricampeão mundial como jogador (1958, 1962) e técnico (1970) e o Brasil não conquistou apenas o tricampeonato, como também garantiu a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Mais do que isso, deixou uma marca estética e cultural: a ideia de um futebol bonito, ofensivo e coletivo, que até hoje serve como referência.

Mário Zagallo, tricampeão como jogador e técnico. Fonte: tntsports.com.br.

A Copa de 1970 acabou por se tornar um ponto de encontro entre talento individual, organização tática e contexto histórico — um daqueles raros momentos em que o esporte ultrapassa o jogo e se transforma em memória duradoura.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

Brasil 4x1 Itália

» Gols: Pelé, aos 18’, Gérson, aos 66’, Jairzinho, aos 71’, e Carlos Alberto, aos 86’ (Brasil); Boninsegna, aos 37’ (Itália)

» Data: 21 de junho de 1970

» Local: Estádio Azteca, na Cidade do México (México)

» Público: 107.412 espectadores

» Árbitro: Rudi Glöckner

» Brasil: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Técnico: Mário Zagallo.

» Itália: Enrico Albertosi; Tarcísio Burgnich, Pierluigi Cera, Roberto Rosato e Giacinto Facchetti; Mario Bertini (Antonio Juliano) e Giancarlo De Sisti; Angelo Domenghini, Sandro Mazzola, Roberto Boninsegna (Gianni Rivera) e Luigi Riva. Técnico: Ferruccio Valcareggi.

Fontes principais: Bellos, A. (2014). Futebol: The Brazilian Way of Life; en.wikipedia.org; maisfutebol.iol.pt; tntsports.com.br; Wilson, J. (2013). Inverting the Pyramid: The History of Football Tactics; www.britannica.com; www.fifa.com.; X / Sofascore.

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