por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
Porém, antes, em finais da década de 1950,
nasceu a ‘Torcida Fogolito’, indicada por uns como sendo fundada por Tolito,
mas o célebre jornaleiro tem outra versão, a qual chegou a ser comandada pelo
seu filho Ivanir, na década de 1980:
“Um
dia, espontaneamente, surgiu a Tolito-Fogo, formada por freqüentadores do
ponto. Não tive nenhuma ingerência na formação dessa torcida, mas estou com ela
e não abro. Nessa pelo menos, tenho certeza que cartola não pia. Nessa não se
faz o jogo político que divide o clube, que acaba com o time. Aqui só se torce
pelo bem do Botafogo. […] Outra
coisa: não sou torcedor defender meu time na arquibancada, em dia de jogo. Eu
defendo o Botafogo, brigo por ele, o dia inteirinho. Por isso é que minha voz é
rouca assim.” (Placar, 1979)
Relembrando essa época de arquibancada, pedia
aos membros da Fogolito que evitassem brigas nos estádios, mas confessa que não
adiantava muito:
“Eu
mesmo saía no tapa com qualquer um pelo Botafogo. Não é à toa que tenho 23
processos por causa de brigas de torcidas.” (O Globo, 1988)
Tolito confessa que naquele tempo a torcida
botafoguense era mais esquentada e se animava com os ‘incentivos’ distribuídos
pelo ‘Marinheiro’, cachaça com laranja:
“Já
apanhei muito, principalmente nos tempos de ‘Marinheiro’, por causa do meu
time. Lembro de um pau redondo, na Rua Férrea, campo do Bangu. Ainda bem que do
meu lado estavam Paulo Amaral, ‘Marinheiro e uma turma do tope deles. Foi de
lascar.” (Placar, 1979)
Paralelamente ao combate pelo Botafogo e ao
seu negócio de jornaleiro, Tolito foi sambista desde a década de 1930,
desfilando na bateria da Mangueira e começando a compor na Unidos do Outeiro,
no Engenho de Dentro.
Mais tarde passou para a Unidos da Piedade,
compondo três sambas, fundou a Aprendizes da Boca do Mato, sendo seus os três
primeiros sambas dessa escola, tendo então descoberto Martinho da Vila,
deixando-o ser o compositor principal e regressando à Unidos da Piedade,
vencendo o samba de 1959.
Transferiu-se então para a Unidos da Capela
em 1961, e no ano seguinte Tolito compôs “O centenário de Rui Barbosa”, cantado
nesse ano:
“Foi o
samba mais bonito que fiz. Depois de vencer com este samba-enredo, ganhei mais
duas vezes em Lucas, até 1969, quando fui para a Portela, onde passei menos de
três anos, até ingressar na Mangueira em 1972, ano em que a escola foi campeã.”
(O Globo, 1988)
Depois do Unidos da Capela, Tolito foi um dos
fundadores da Unidos de Lucas, por fusão da Aprendizes de Lucas e do Unidos da
Capela, tendo vencido duas vezes com as suas composições, a última das quais em
1969.
No ano seguinte ingressou na Portela e em
1972 fixou-se na Estação Primeira de Mangueira, a sua escola favorita desde
1936.
À aparente contradição de um carioca de
Olaria ser da Mangueira e torcer pelo Botafogo, Tolito argumentava:
“Dizem
que Mangueira e Flamengo são irmãs. Mangueira pode até ser irmã do Flamengo,
mas é também do Botafogo, do Vasco e do Fluminense. Cartola é tricolor, Zica é
rubro-negra; eu, o Tolito, sou botafoguense.” (Placar, 1979)
Na verde-rosa os seus sambas foram
selecionados em diversas ocasiões: em 1972, com samba não assinado; em 1975,
com “Imagem Política de Jorge Lima”; em 1976, com “No Reino da Mãe do Ouro”; em
1978, com “Avatar… e a Selva Transformou-se em Ouro”; e em 1982 compôs o último
samba na Mangueira, com “Mil e Uma Noites Cariocas”.
“Eu me
afastei por desentendimentos com a direção. A escola queria que o autor do
samba vencedor deixasse os seus direitos autorais nas mãos da diretoria,
recebendo apena um valor previamente estipulado. Não concordei e saí. Muita
gente não se conformava com minhas quatro vitórias, principalmente porque só
estudei até o terceiro ano primário. Pessoas com mais instrução, como o Leci
Brandão, por exemplo, nunca me venceram e o Hélio Turco, autor de 13 sambas
cantados pela escola na avenida, também não conseguiu me derrotar.” (O
Globo, 1988)
Depois de se afastar da Mangueira, em 1984
também se afastou temporariamente das arquibancadas aos 67 anos de idade,
desgostoso com as diretorias do Botafogo e principalmente com a violência nos
estádios.
Crítico das contratações de Emil Pinheiro,
presidente do Botafogo, Tolito apontava o problema:
“Ele
tem dinheiro, mas não aplica bem. Gasta muito e mal.” (O Globo, 1988)
Em 1988 a esposa de Tolito faleceu e ele
precisou de recuperar emocionalmente do nefasto acontecimento.
A vida não corria de feição a Tolito, mas um
ano depois, Emil Pinheiro, talvez redimido por boas contratações, levou o Botafogo
a sagrar-se finalmente campeão carioca em 1989, após 21 anos sem o título
estadual – ainda muito valioso à época.
A longa espera de Tolito foi objeto de
satisfação redobrada um ano depois com a conquista do bicampeonato em 1990, em
cima do Vasco da Gama, numa final épica que contou com uma ridícula caravela de
papelão com direito a volta olímpica do clube cruzmaltino, comemorando um
título que acabara de perder – e cuja má interpretação do regulamento,
intencional ou não, fez o ‘gigante da colina’ passar por histórica figura
burlesca.
Finalmente o homem que se tornou torcedor do
Botafogo no auge do Clube durante a ‘Era Amadora’, e que assistiu de perto a
todas as grandes campanhas do Botafogo de Futebol e Regatas no auge do Clube na
‘Era Profissional’ nas décadas de 1950 e 1960, acompanhando o Glorioso onde ele
estivesse, fosse dentro ou fora do estado onde foi fundado, celebrou o fim do
jejum e o título de bicampeão carioca de 1989 e 1990.
Tolito também foi a tempo de assistir à conquista
inédita da Copa Conmebol, em 1993, e do primeiro título de Campeão Brasileiro, em
1995.
O Botafogo ressurgira uma vez mais das
cinzas, e em 1996, aos 79 anos de idade, Tolito faleceu de trombose, numa
clínica em Seropédica, fechando o ciclo de uma vida repleta e intensamente
vivida.
Fontes: Chaim, Aníbal (2018). Futebol, corações e mentes: os torcedores na
perspectiva do Estado. Universidade de São Paulo, doi.org/10.11606/T.8.2018.TDE-06122018-121608; mundobotafogo.blogspot.com/2014/02/a-noite-de-tolito.html;
mundobotafogo.blogspot.com/2010/10/tolito-e-agora-do-botafogo.html; O Globo, (1988);
Revista Placar, 1979; www.galeriadosamba.com.br

Sem comentários:
Enviar um comentário