sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Tolito: da ‘esquina do Botafogo’ às torcidas organizadas e aos sambas-enredo, eis uma vida repleta e criativa – II Parte

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Porém, antes, em finais da década de 1950, nasceu a ‘Torcida Fogolito’, indicada por uns como sendo fundada por Tolito, mas o célebre jornaleiro tem outra versão, a qual chegou a ser comandada pelo seu filho Ivanir, na década de 1980:

Um dia, espontaneamente, surgiu a Tolito-Fogo, formada por freqüentadores do ponto. Não tive nenhuma ingerência na formação dessa torcida, mas estou com ela e não abro. Nessa pelo menos, tenho certeza que cartola não pia. Nessa não se faz o jogo político que divide o clube, que acaba com o time. Aqui só se torce pelo bem do Botafogo. […] Outra coisa: não sou torcedor defender meu time na arquibancada, em dia de jogo. Eu defendo o Botafogo, brigo por ele, o dia inteirinho. Por isso é que minha voz é rouca assim.” (Placar, 1979)

Relembrando essa época de arquibancada, pedia aos membros da Fogolito que evitassem brigas nos estádios, mas confessa que não adiantava muito:

Eu mesmo saía no tapa com qualquer um pelo Botafogo. Não é à toa que tenho 23 processos por causa de brigas de torcidas.” (O Globo, 1988)

Tolito confessa que naquele tempo a torcida botafoguense era mais esquentada e se animava com os ‘incentivos’ distribuídos pelo ‘Marinheiro’, cachaça com laranja:

Já apanhei muito, principalmente nos tempos de ‘Marinheiro’, por causa do meu time. Lembro de um pau redondo, na Rua Férrea, campo do Bangu. Ainda bem que do meu lado estavam Paulo Amaral, ‘Marinheiro e uma turma do tope deles. Foi de lascar.” (Placar, 1979)

Paralelamente ao combate pelo Botafogo e ao seu negócio de jornaleiro, Tolito foi sambista desde a década de 1930, desfilando na bateria da Mangueira e começando a compor na Unidos do Outeiro, no Engenho de Dentro.

Mais tarde passou para a Unidos da Piedade, compondo três sambas, fundou a Aprendizes da Boca do Mato, sendo seus os três primeiros sambas dessa escola, tendo então descoberto Martinho da Vila, deixando-o ser o compositor principal e regressando à Unidos da Piedade, vencendo o samba de 1959.

Transferiu-se então para a Unidos da Capela em 1961, e no ano seguinte Tolito compôs “O centenário de Rui Barbosa”, cantado nesse ano:

Foi o samba mais bonito que fiz. Depois de vencer com este samba-enredo, ganhei mais duas vezes em Lucas, até 1969, quando fui para a Portela, onde passei menos de três anos, até ingressar na Mangueira em 1972, ano em que a escola foi campeã.” (O Globo, 1988)

Depois do Unidos da Capela, Tolito foi um dos fundadores da Unidos de Lucas, por fusão da Aprendizes de Lucas e do Unidos da Capela, tendo vencido duas vezes com as suas composições, a última das quais em 1969.

No ano seguinte ingressou na Portela e em 1972 fixou-se na Estação Primeira de Mangueira, a sua escola favorita desde 1936.

À aparente contradição de um carioca de Olaria ser da Mangueira e torcer pelo Botafogo, Tolito argumentava:

Dizem que Mangueira e Flamengo são irmãs. Mangueira pode até ser irmã do Flamengo, mas é também do Botafogo, do Vasco e do Fluminense. Cartola é tricolor, Zica é rubro-negra; eu, o Tolito, sou botafoguense.” (Placar, 1979)

Na verde-rosa os seus sambas foram selecionados em diversas ocasiões: em 1972, com samba não assinado; em 1975, com “Imagem Política de Jorge Lima”; em 1976, com “No Reino da Mãe do Ouro”; em 1978, com “Avatar… e a Selva Transformou-se em Ouro”; e em 1982 compôs o último samba na Mangueira, com “Mil e Uma Noites Cariocas”.

Eu me afastei por desentendimentos com a direção. A escola queria que o autor do samba vencedor deixasse os seus direitos autorais nas mãos da diretoria, recebendo apena um valor previamente estipulado. Não concordei e saí. Muita gente não se conformava com minhas quatro vitórias, principalmente porque só estudei até o terceiro ano primário. Pessoas com mais instrução, como o Leci Brandão, por exemplo, nunca me venceram e o Hélio Turco, autor de 13 sambas cantados pela escola na avenida, também não conseguiu me derrotar.” (O Globo, 1988)

Depois de se afastar da Mangueira, em 1984 também se afastou temporariamente das arquibancadas aos 67 anos de idade, desgostoso com as diretorias do Botafogo e principalmente com a violência nos estádios.

Crítico das contratações de Emil Pinheiro, presidente do Botafogo, Tolito apontava o problema:

Ele tem dinheiro, mas não aplica bem. Gasta muito e mal.” (O Globo, 1988)

Em 1988 a esposa de Tolito faleceu e ele precisou de recuperar emocionalmente do nefasto acontecimento.

A vida não corria de feição a Tolito, mas um ano depois, Emil Pinheiro, talvez redimido por boas contratações, levou o Botafogo a sagrar-se finalmente campeão carioca em 1989, após 21 anos sem o título estadual – ainda muito valioso à época.

A longa espera de Tolito foi objeto de satisfação redobrada um ano depois com a conquista do bicampeonato em 1990, em cima do Vasco da Gama, numa final épica que contou com uma ridícula caravela de papelão com direito a volta olímpica do clube cruzmaltino, comemorando um título que acabara de perder – e cuja má interpretação do regulamento, intencional ou não, fez o ‘gigante da colina’ passar por histórica figura burlesca.

Finalmente o homem que se tornou torcedor do Botafogo no auge do Clube durante a ‘Era Amadora’, e que assistiu de perto a todas as grandes campanhas do Botafogo de Futebol e Regatas no auge do Clube na ‘Era Profissional’ nas décadas de 1950 e 1960, acompanhando o Glorioso onde ele estivesse, fosse dentro ou fora do estado onde foi fundado, celebrou o fim do jejum e o título de bicampeão carioca de 1989 e 1990.

Tolito também foi a tempo de assistir à conquista inédita da Copa Conmebol, em 1993, e do primeiro título de Campeão Brasileiro, em 1995.

O Botafogo ressurgira uma vez mais das cinzas, e em 1996, aos 79 anos de idade, Tolito faleceu de trombose, numa clínica em Seropédica, fechando o ciclo de uma vida repleta e intensamente vivida.

Fontes: Chaim, Aníbal (2018). Futebol, corações e mentes: os torcedores na perspectiva do Estado. Universidade de São Paulo, doi.org/10.11606/T.8.2018.TDE-06122018-121608; mundobotafogo.blogspot.com/2014/02/a-noite-de-tolito.html; mundobotafogo.blogspot.com/2010/10/tolito-e-agora-do-botafogo.html; O Globo, (1988); Revista Placar, 1979; www.galeriadosamba.com.br

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