sexta-feira, 2 de abril de 2021

Entrevista a Sergio Darcy: o grande condestável do Botafogo

por WILTON LIGUORI

Diário da Noite, 03.12.1958

Acervo de ANGELO ANTONIO SERAPHINI

Reproduzido no Boletim Oficial do Botafogo, nº 146, de 1959

ASSIM SOU

Chamo-me Sergio Darcy e sou gaúcho, de Porto Alegre, onde nasci a 1-5-1903. Mas devo frisar que vim para o Rio muito antes de 30. Não preciso dizer qual o meu clube. Quero ao Botafogo não como simples derivativo na minha vida, mas como uma continuação do meu lar. Tanto que, não tendo filhos, sinto-me feliz em ver os meus dois sobrinhos, Paulo e James, que eram flamengos, estarem, hoje, completamente convertidos ao credo botafoguense. Aliás, envaideço-me, ainda, da catequese que realizei junto ao Luiz Otavio, filho do Ministro Luiz Galoti, tornando-o convicto e fervoroso alvi-negro. Não nego que considero esta conquista um motivo de glória.

Fora do esporte, ocupo os cargos de Chefe do Contencioso do Banco do Brasil; vice-presidente das Cias. Ultra Gás e Ultra Lar, além de presidente do Conselho Fiscal da Cruzeiro do Sul. Não obstante encontro sempre meiose modos para, todo dia, ir ao Botafogo e, assim, satisfazer o meu grande hobby: o Botafogo.

MINHA HISTÓRIA COMEÇOU ASSIM

No quadro da vida do Botafogo, Sergio Darcy figura como o Condestável do grande clube preto e branco. Ou seja, o homem forte. De personalidade franca e resoluta e de uma dedicação sem limites posta, inteiramente, a serviço dos interesses da sua agremiação. Uma dedicação que não se detém nem mesmo ante as mais ingratas e desagradáveis atitudes, desde que assim o exijam as circunstâncias e o respeito às coisas do Botafogo. E êsse traço marcante da personalidade de Sergio Darcy está lastreado não apenas por uma linha de conduta que janais sofreu desvio como, principalmente, por uma tradição botafoguense de mais de 40 anos. Uma verdadeira existência.

– Foi, realmente, em 1915 que, pela primeira vez, levado por meu tio, Adalberto Darcy, entrei no Botafogo – recorda Sergio Darcy. Fui fazer parte do seu time infantil, onde tive como companheiros Rivadávia, Petiot, Celso, Scila, Couto, Neguinho, e tantos outros cuja amizade espero conservar por toda a vida. E é sempre um grande sentimento a saudade com que recordo os velhos tempos de puro amadorismo, quando se dava tudo ao clube sem nada dêle exigir.

– E nem mesmo técnicamente, destaca, as exigências eram demasiadamente rígidas, pois, de minha parte, tanto jogava de zagueiro comode ponta esquerda.

Admite Sergio Darcy que nunca houvesse chegado ao estrelato. Mas explica:

– Confesso que o que, na verdade, me seduzia no esporte era, tão somente, a sua prática. Daí ter não apenas jogado futebol, como, também, o basquetebol, o polo-aquático, o voleibol, remo, natação e atletismo sem que , contudo, me aperfeiçoasse em nenhum. E de todos, o que, talvez, mais me tenha dedicado, a ponto de competir, foi o remo, onde cheguei a dar algumas vitórias ao Botafogo, formando a guarnição de “yole” a 4 com Aderbal, Bastos, Armando, Ebraico e Lauro Barreira, hoje, todos, beneméritos do Botafogo

Verifica-se, todavia, pelo relato de Sergio Darcy não ter sido muito longa a sua vida de praticante esportivo.

– Não foi além de 1923, conta. Apesar de contar apenas 20 anos, tive de atender a outras solicitações que não se conciliavam com a prática constante do exporte.

E há mesmo um largo intervalo de 13 anos na vida esportiva do grande Benemérito botafoguense, pois foi somente em 36 que reaparece em função no exporte e já então com as responsabilidades de dirigente. A convite de Paulo Azeredo, presidente do clube, assumia a chefia da delegação do Botafogo em sua primeira excursão ao exterior, a vitoriosa e sobremodo brilhante temporada no México e Estados Unidos.

É marcada, assim ao seu início, tão auspiciosamente, a vida de Sergio Darcy [que] como dirigente prosseguiu daí por diante sem interrupção e sempre acorde com o sucesso inicial, já que esse era o reflexo das suas natas qualidades de líder, e por isto mesmo teria de continuar seguindo-o. Ao retornar do México, assumiu a Secretaria Geral do clube. E, nas eleições seguintes, feridas em 37, foi elevado à presidência. Não chegou a terminar seu mandato, pois um ano antes, em 40, teve de renunciar devido aos seus afazeres. Mas, ainda assim, três grandes acontecimentos marcaram a sua gestão: a construção do estádio do Botafogo; o aumento do seu quadro social de 500 para 6.000 componentes; e, por fim, a pacificação dos esportes, em bases as mais honrosas possíveis para o Botafogo.

1949: Taça da Copa Rústica de Atletismo

 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Gina MacPherson: Miss Botafogo, Miss Brasil, as eleições e o quiproquó…

Gina MacPherson, Miss Botafogo, Miss Guanabara, Miss Brasil, Semifinalista Miss Mundo. Créditos: O Cruzeiro.

por RUY MOURA

Editor do Mundo Botafogo

Maracanãzinho, Rio de Janeiro, 4 de junho de 1960, 10.000 pessoas ansiosas, 24 jovens em disputa do 1º título de Miss Guanabara, o estado recém-criado após a capital do país transferir-se para Brasília, e Gina MacPherson candidata a mais um título de uma Miss Botafogo.

A noite começou, sem dúvida, tanto para o público como para os ‘entendidos’, com Dirce Machado, Miss Renascença Clube, mulata muito bonita e elegante, que abalou os ‘alicerces’ do Maracanãzinho com o seu charme, mas no final foi Gina MacPherson a grande vencedora.

As candidatas finalistas a Miss Guanabara, da esquerda para a direita: Maria Helena Thomé (Miss Uruguai Tênis Clube, 2º lugar), Gina MacPherson (Miss Botafogo, 1º lugar), Shirley da Silva Carneiro (Miss Grajaú, 3º lugar) e Dirce Machado (Miss Renascença Clube, 4º lugar). Créditos: Indalécio Wanderley / O Cruzeiro.

Ao som de ‘Cidade Maravilhosa’ e aplaudida por todo o Maracanãzinho, a botafoguense de olhos verdes e cabelo preto, que foi apontada como favorita logo após o vestido de baile, um tule vaporoso, estola do mesmo tecido, sapatos de cetim cor de caju e luvas da mesma cor, recebeu do governador Sette Câmara, do estado da Guanabara, a faixa de 1ª Miss Guanabara.

Gina MacPherson, nascida em Icaraí, Niterói, e era recepcionista da empresa de aviação BOAC, tendo sido descoberta por um diretor do Botafogo em pleno local de trabalho e, por isso, as suas primeiras palavras de agradecimento foram dirigidas ao Clube que lhe proporcionou a possibilidade de viver uma história de Cinderela (Manchete).

Filha de pai escocês importador de uísque, passou a infância entre o Rio Cricket, a piscina do Clube de Regatas e os estudos ministrados pela mãe americana, uma mulher prática que ensinou às três filhas o valor da independência. Falando português com ligeiro sotaque da Escócia quando queria, Gina adorava ler romances, montar a cavalo na fazenda dos pais e assistir a filmes de Marlon Brando, Tony Curtis, Frank Sinatra, Debbie Reynolds, Brigitte Bardot e Gina Lollobrigida.

No mítico Maracanãzinho evoluiu suavemente pelo palco com os seus 172cm de altura, 93cm de busto e de quadris, 58cm de cintura, 53cm de coxa, 22cm de tornozelo e 57kg de peso. Na semana seguinte venceu 22 candidatas e foi coroada Miss Brasil 1960.

Na foto acima, as mais belas do Brasil, da esquerda para a direita: Erica Bertha Lirkus (Miss São Paulo, 8º lugar), Vanja Nobre Jacob (Miss Amazonas, 7º lugar), Edda Logges (Miss Rio Grande do Sul, 5º lugar), Maria Edilene Torreão (Miss Pernambuco, 3º lugar); Gina MacPherson (Miss Guanabara, 1 º lugar), Magda Renate Pfrimer (Miss Brasília), 2ºlugar), Mercedes Elizabeth del Carmen Carrascosa Von Glehn (Miss Minas Gerais, 4º lugar), Marzy Moreira (Miss Estado do Rio, 6º lugar).

Maracanãzinho, Rio de Janeiro, 11 de junho de 1960, 23 jovens em disputa pelo título e 28.000 pessoas ansiosas por conhecerem em direto a mais bela brasileira a irromper pela década que abalou o ‘velho mundo’.

As Misses mais aplaudidas começaram por ser as de Minas Gerais, Pernambuco, Guanabara e Estado do Rio, e se as palmas da multidão contassem, certamente Miss Minas Gerais teria o título assegurado. Porém, a ‘luneta’ do júri vê mais longe os ‘pecados mortais’ da beleza: ombros caídos, quadris volumosos, coxas grossas, joelhos para dentro, omoplatas salientes, a linha reta das pernas quando os calcanhares se unem. E personalidade, modo de andar e outros atributos, porque ser Miss exige uma complexa combinação entre aritmética e poesia…

Em Miami, no concurso de Miss Universo, era considerada favorita e até chegou a pousar com a coroa: – Aquela, sim, foi uma noite completa! No famoso Hotel Fontainebleau, um dos melhores do mundo, um show em homenagem ao nosso país contou com Gina no último quadro. O auditório aplaudiu a bonita Miss Brasil, que num improviso em inglês arrancou assobios de entusiasmo. Os jornais de Miami encheram suas primeiras páginas com fotos de Gina, que é a favorita (O Cruzeiro).

Porém, no final, Gina ficou em 6º lugar e atribuíram a coroa à candidata americana.

– Eu nem tinha as tais duas polegadas a mais de quadril que haviam desclassificado a Martha Rocha. Eles chegaram a tirar minha foto com a coroa de Miss Universo, mas quem acabou ganhando foi a americana Linda Bement — contou Gina ainda esbelta aos 73 anos.

Crédito: Márcio Alves.

Porém, Gina guarda uma raiva íntima, não propriamente por não ter sido Miss Universo, mas devido à justificação que encontraram para não conquistar o título. Cada candidata tinha um motorista universitário, que acompanhava as misses aos compromissos externos e na festa de premiação Gina deu as mãos e dançou com o seu cicerone, sendo acusada de ter perdido a coroa devido ao suposto namorico.

– Fiquei muito chateada porque não era verdade. Eu namorei e aproveitei muito essa época, mas não com ele. Quis voltar direto para o Brasil, porque tive um outro aborrecimento com o cônsul brasileiro, que queria que eu desfilasse de maiô no aeroporto de Miami. Eu era Miss, não vedete.

No regresso a casa Gina viveu “um ano de Cinderela” antes de decidir afastar-se dos holofotes e dedicar-se integralmente à sua futura família. Passada a fase de Cinderela, em que nem a faixa de Miss Brasil sobrou, porque foi roubada em Inglaterra, ela voltou com o ex-namorado e oficial da Marinha Ademar Garcia, casou-se, teve três filhas, netos e bisnetos.

Jean MacPherson, mundialmente conhecida por Gina MacPherson, tem 80 anos de idade, acredita que escolheu uma vida pacata devido ao frenesi vivido durante os concursos e ainda cuida do seu jardim.

Fontes: Manchete; O Cruzeiro; Passarela  Cultural.

Botafogo 1x1 Madureira: de regresso aos empates…

FICHA TÉCNICA

Botafogo 1x1 Madureira

» Gols: Matheus Babi, aos 73’ (Botafogo); Luiz Paulo, aos 26' (Madureira)

» Competição: Campeonato Carioca

» Data: 31.03.2021

» Local: Estádio Giulite Coutinho, em Mesquita (RJ)

» Árbitro: Wagner do Nascimento Guimarães (RJ); Assistentes: Thiago Henrique Neto Corrêa Farinha (RJ) e Lilian da Silva Fernandes Bruno

Disciplina: cartão amarelo – Matheus Babi e Rafael Navarro (Botafogo) e Feitosa, Edmário, Juninho e Rhuan (Madureira)

» Botafogo: Douglas Borges; Jonathan (Warley), Gilvan, Kanu e Paulo Victor; Kayque (Ricardinho) e Matheus Frizzo; Felipe Ferreira (Ronald), Marco Antônio (Ênio) e Marcinho (Rafael Navarro); Matheus Babi. Técnico: Marcelo Chamusca.

» Madureira: Felipe Lacerda; Rhuan, Edmário, Maurício Barbosa e Juninho; Victor Feitosa, Humberto e Nivaldo (Caíque Valdivia); Silas, Bruno Santos (Natan) e Luiz Paulo (Sampaio). Técnico: Alfredo Sampaio.

Treinadores e contextos (VIII): Carlos Alberto Torres do título continental ao penúltimo lugar no Brasileirão

Carlos Alberto Torres, jogador e treinador. Crédito: Domínio Público. por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo Num ano verdadeiramente e...