por RUY MOURA| Editor do Mundo Botafogo
O sul-americano Tiquinho Soares,
atacante-defensor em todo o terreno, e o africano Bastos Quissanga, defensor-atacante
em todo o terreno, são praticamente uma cópia um do outro na ocupação do campo
de jogo, e podem ser considerados dois verdadeiros Coringas do Glorioso.
Ou deveríamos escrever ‘Curinga’
em vez de ‘Coringa’?... Talvez devamos começar este artigo pela origem da
expressão.
A expressão ‘coringa’ ou
‘curinga’ tem origem na língua africana kimbundo falada no noroeste de Angola,
incluindo a província de Luanda, e é a segunda língua banta mais falada em
Angola, a qual cedeu muitos empréstimos lexicais à língua portuguesa.
A ortografia original dava pelo
nome de ‘kuringa’, que significa ‘matar’, e, tal como o palhaço, é considerado
o símbolo dos paradoxos, do tudo ou do nada, da alegria ou da tristeza, da
sabedoria ou da ignorância, dos opostos complementares.
No entanto, a ortografia foi
adaptada como ‘coringa’, em favor da estética, o que acaba por transformar o
vilão num personagem de sorriso aberto.
Por um lado, a tradução para a
língua portuguesa poderia ser ‘curinga’, a carta mais versátil do baralho (Joker, em inglês, sem indicação numérica
e representando assim qualquer carta do baralho, pode substituir qualquer outra),
mas, por outro lado, a indústria dos quadrinhos e dos filmes considerou que o
"c" mais o "u" a iniciar a expressão poderia induzir o leitor
a um outro tipo de associação, o que motivou a alteração na nomenclatura do
vilão. Efetivamente, entre estudiosos e tradutores, circula a informação de que
a Ebal, uma das mais importantes editoras de histórias em quadrinhos do país,
trocou o ‘u’ pelo ‘o’ para que a sílaba "Cu" não ficasse à solta nos
balões que traziam os diálogos dos personagens. Além de que, com o ‘o’, o nome
ficaria politicamente mais bem comportado ao ser escrito e pronunciado.
Como os balões de gibi eram muito
apertados antigamente, acontecia frequentemente as quebras de sílaba. A chance
de um "CU-" aparecer era grande e haveria muitos pais deixando de
comprar gibi para os filhos.
A edição mais antiga em que o
nome do vilão aparece como Coringa em uma capa de gibi é datada de 1947, mas
antes dessa mudança de grafia existe uma história bem exemplificativa do
assunto com o vilão do Mickey, o João Bafodeonça: às vezes o nome dele aparecia
com as sílabas quebradas em um balão: BA- e FODEONÇA. O "fodeonça"
virou lenda.
Então, chamemos Tiquinho Soares e
Bastos Quissanga de coringas, porque o seu mapa de calor acima publicado,
evidencia claramente o papel de ataque de Tiquinho, que faz as posições 8, 9 e
10 e que ainda consegue defender com destreza em todo o designado ‘terço’ de
terreno da defesa do Botafogo.
Por seu lado, o mapa de calor de
Bastos Quissanga mostra claramente o seu papel na defesa, podendo fazer as
posições 2, 3, 4, e 6 e – esperemos que assim seja quando estrear pelo Glorioso
– também consegue efetuar transições para o ataque e chegar à pequena área
adversária.
Ambos poderão ser considerados
vilões e verdadeiros kuringas no seu significado de ’morte’, um porque jogando
em todo o terreno faz muitos gols no ataque e ‘mata’ os jogos; enquanto o outro
também jogando em todo o terreno acaba por ‘matar’ as jogadas adversárias no
espaço da defesa do Botafogo e ainda conseguirá efetuar transições no espaço de
ataque para que o outro kuringa faça a ‘matada’ definitiva.
Em suma, em língua portuguesa
eles ‘matam como Curinga, e podem sorrir e fazer-nos sorrir como Coringa, e
isso é realmente o mais importante – dispormos de dois coringa em todo o
terreno, um predominantemente de ataque e outro predominantemente de defesa em
busca do nosso maior desiderato de 2023.
A terminar a curiosa história
pode-se acrescentar que para alguns especialistas em ortografia e etimologia,
por ser uma personificação da carta de baralho, a expressão deveria ser escrita
e pronunciada Curinga. Na estreia de Batman (1989), de Tim Burton, era normal a
expressão Curinga, figura interpretada por Jack Nicholson, tal como se escreveu
na primeira propaganda do Joker. Porém,
o dicionário Houaiss ‘resolveu’ o dilema destacando as duas formas como
corretas. A própria origem africana da palavra é questionada para justificar o
uso do ‘u’, uma vez que, argumentam os defensores do ‘o’, escrevemos, em casos
semelhantes, moleque e moqueca, e não muleque e muqueca.
Cláudio Moreno, professor de
língua portuguesa, acredita que, muito mais do que uma questão de
constrangimento, o hábito fez com que a palavra fosse escrita com "o"
no Brasil:
— Ortografia é um hábito, uma combinação. Ficou definido que curinga
seria com "u". Mas, de acordo com o Houaiss, coringa passou a ser
usado como variante de curinga em 1951.
E o professor remata:
— Se meu juramento é defender a Língua Portuguesa até a morte, eu vou
escrever com U, sempre citei com U, mesmo que eu não goste. – afirma
sorrindo.
Certo é que se espera que
Tiquinho Soares e Bastos Quissanga sejam ‘bons matadores’ que simbolizem a
anarquia, a imprevisibilidade e o caos – a ‘anarquia’ com a sua criatividade,
a 'imprevisibilidade' em contra-ataques súbitos e o ‘caos’ implantando o terror
futebolístico em todo o campo e nas balizas adversárias.
E que com os seus paradoxos, a sua 'sabedoria' e a sua 'alegria' sejam protagonistas do 'tudo' que almejamos!
Fontes: https://gauchazh.clicrbs.com.br, https://pt.wikipedia.org e https://www.dicionariodesimbolos.com.br
2 comentários:
Vamos por partes: sensacional a exposição sobre uma palavra e sua origem e a maneira correta de escreve-la, uma verdadeira aula, gostei demais. Sobre essa utilização entre o "o" e o "u" devo lembrar que o time do Paraná é Coritiba porque um presidente do clube achava "obsceno" escrever Curitiba como é escrita a capital do estado. Quem contou essa história foi o João Saldanha.
Sobre os dois jogadores, tenho muita esperança em ambos e, pelo que vi do Bastos ele poderia se utilizado até de lateral direito, pois além de ser muito bom no desarme, apoia bem e tem uma força física muito grande. Acho que estamos bem servidos com esse dois jogadores. ABS e SB!
Eis o Sergio corroborando magnificamente a história do 'cu' e do 'co' recorrendo ao Coritiba. Eu sabia que são vocábulos homônimos homógrafos porque se escrevem diferentemente e se pronunciam do mesmo modo, mas sobre a questão do presidente do clube eu não sabia. quem diria?...
Na verdade, o Bastos pode ser zagueiro, tal como está escrito em toda a parte e como eu próprio o apresentei aquando da publicação do seu perfil, mas os avanços que efetua pela lateral direita faz dele um lateral direito à medida para substituir o titular ou até mesmo ser titular em jogos que se mostrem interessantes para termos um lateraldireito possante.
O Tiquinho é uma certeza, mas o Bastos parece-me muito interessante mesmo! Temos homens!
Abraços Gloriosos.
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