quinta-feira, 26 de março de 2026

Arrebatadora e tumultuada década de 1990: da redenção à quase-tragédia (I)

Crédito: Montagem do Mundo Botafogo.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

O ano de 1989 foi o da redenção do Botafogo após 21 anos de jejum sem títulos de campeão estadual, interestadual ou nacional. O Botafogo sagrou-se finalmente campeão carioca, com a particularidade de vencer a final por 1x0 contra o eterno rival Flamengo, gol de Maurício a cruzamento de Mazzolinha, fazendo a emoção perpassar por toda a cidade do Rio de Janeiro e até mesmo do Brasil, através dos seus milhões de torcedores que choraram copiosamente de alegria e se abraçaram como se todos fossem irmãos verdadeiros.

Leia aqui o título de 1989: http://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-campeao-estadual-invicto-de.html

E se 1989 terminou em delirante exaltação da Torcida Gloriosa, a década seguinte começou da melhor maneira para o futebol botafoguense: em 1990, com gol de Carlos Alberto Dias, o Botafogo venceu o Vasco da Gama na decisão e sagrou-se bicampeão carioca, reeditando os bis de 1961-62 e 1967-68.

A cena simultaneamente folclórica e bastante ridícula foi o Vasco da Gama querer interpretar o regulamento à sua maneira e considerar que havia sido campeão, efetuando uma volta olímpica pelo estádio. Todos – de um lado e de outro – sabiam que o campeão era o Botafogo, menos Eurico Miranda, respaldado pela cavernosa Federação de Futebol do Rio de Janeiro, que inventou uma interpretação diferente de todos os demais e queria uma prorrogação.

Obviamente o Botafogo foi campeão, mas só recebeu a taça dois meses mais tarde. Entretanto, enquanto o Vasco fazia a volta olímpica com uma caravela improvisada de um torcedor, o Botafogo comemorou o título com a Taça Rádio Nova Friburgo ofertada ao vencedor do encontro.

Leia aqui sobre esse evento: http://mundobotafogo.blogspot.com/2020/06/1990-botafogo-campeao-vs-hilaria-volta.html

Em 1991, já na parte final do campeonato Brasileiro, jogava-se o clássico Fluminense x Botafogo. O Fluminense tinha o mando de campo, mas o Maracanã estava impossibilitado e São Januário não fora liberado.

Então, o Fluminense teve a tosca ideia de solicitar à CBF e à Federação de Futebol do Rio de Janeiro a hipótese de jogar nas Laranjeiras, estádio que não tinha as mínimas condições de segurança para um clássico em que jogavam dois clubes que eram rivais desde os primórdios do campeonato carioca, em 1906.

Thiago Gomide, jornalista de O Dia, resumiu:

O improvável aconteceu: aceitaram a sandice, mesmo sabendo de todos os riscos inerentes.

Crédito: Globoplay.globo.com

A estrutura de segurança do estádio e a logística de apoio à venda de ingressos inexistiram. Filas de quilómetros em torno do estádio no empurra-empurra, enquanto os cambistas faziam a festa e em meia hora foram vendidos todos os ingressos.

No dia do jogo as dificuldades de entrada no estádio eram gigantescas, a torcida do Fluminense provocou os botafoguenses desde o início do jogo, fazendo o que, erroneamente, supunha ser a sua parte para ajudar o Fluminense a chegar às semifinais do Brasileirão em caso de vitória.

O intervalo chegou com 0x0 no placar e as provocações entre as torcidas resultaram na torcida botafoguense derrubar o frágil alambrado e todo o mundo – alvinegros e tricolores – invadir o campo numa homérica cena de pancadaria em que os mais atingidos foram os botafoguenses – dentro e fora do estádio, já que o ônibus alvinegro foi atacado e os vidros partidos.

Homens, mulheres e crianças corriam fugindo do descalabro; outros corriam para bater, chutar e espancar os adversários. A polícia e os seus pastores alemães tentavam acalmar as hostes, em vão. A pancadaria continuou, o jogo não foi reatado após o intervalo e ficou para decisão no tribunal.

Para coroar o ‘feito’ da CBF, o juiz nomeado foi o dantesco José Roberto Wright, o tal que expulsou cinco atleticanos (MG) durante um jogo da Copa Libertadores, em 1981, favorecendo escandalosamente o Flamengo por interrupção do jogo, que assim classificou o rubro-negro – talvez o maior ‘assalto’ do apito na história do futebol brasileiro. E, claro que, após a pancadaria nas Laranjeiras, escreveu na súmula que a culpa foi toda da torcida botafoguense.

O Fluminense acabou ganhando o jogo na ‘secretaria’ pelo placar estipulado em 1x0. Todavia, as manobras tricolores com vista a ganharem a partida alcançaram apenas um fim inglório: o Fluminense foi derrotado pelo Bragantino nas semifinais e ficou em 4º lugar na classificação final.

Em um vídeo publicado no portal Globoesporte, em 2013, reproduzindo os acontecimentos, o narrador questionou o essencial do tumulto campal:

De quem é a culpa? Dos torcedores do Botafogo que derrubaram o alambrado? Dos tricolores que provocaram a torcida adversária? Todos têm sua parcela. Mas a maior, sem dúvida, cabe à insensibilidade dos dirigentes que comandam o futebol brasileiro. Foram eles que por não saberem organizar o calendário marcaram o clássico da tradição de Fluminense e Botafogo para um estádio que sabidamente não oferece a menor condição de segurança. São eles que estão levando o futebol brasileiro, orgulho de toda uma nação, para o buraco negro da violência e da selvageria. Agora o que menos importa é quem vai ganhar o jogo. Um jogo em que ninguém ganhou; todos perderam.

Fontes principais:

https://globoplay.globo.com/v/3014749/

http://mundobotafogo.blogspot.com/2020/06/1990-botafogo-campeao-vs-hilaria-volta.html

http://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-campeao-estadual-invicto-de.html

https://odia.ig.com.br/colunas/coisas-do-rio/2019/10/5807378-o-fluminense-ja-venceu-o-botafogo-no-tribunal-e-foi-pra-semifinal-do-brasileirao-de-1991.html

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