por RUY MOURA |
Editor do Mundo Botafogo
O ano de 1989 foi o da redenção do Botafogo
após 21 anos de jejum sem títulos de campeão estadual, interestadual ou
nacional. O Botafogo sagrou-se finalmente campeão carioca, com a
particularidade de vencer a final por 1x0 contra o eterno rival Flamengo, gol
de Maurício a cruzamento de Mazzolinha, fazendo a emoção perpassar por toda a
cidade do Rio de Janeiro e até mesmo do Brasil, através dos seus milhões de
torcedores que choraram copiosamente de alegria e se abraçaram como se todos
fossem irmãos verdadeiros.
Leia aqui o título de 1989: http://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-campeao-estadual-invicto-de.html
E se 1989 terminou em delirante exaltação da
Torcida Gloriosa, a década seguinte começou da melhor maneira para o futebol
botafoguense: em 1990, com gol de Carlos Alberto Dias, o Botafogo venceu o
Vasco da Gama na decisão e sagrou-se bicampeão carioca, reeditando os bis de
1961-62 e 1967-68.
A cena simultaneamente folclórica e bastante
ridícula foi o Vasco da Gama querer interpretar o regulamento à sua maneira e
considerar que havia sido campeão, efetuando uma volta olímpica pelo estádio.
Todos – de um lado e de outro – sabiam que o campeão era o Botafogo, menos
Eurico Miranda, respaldado pela cavernosa Federação de Futebol do Rio de
Janeiro, que inventou uma interpretação diferente de todos os demais e queria
uma prorrogação.
Obviamente o Botafogo foi campeão, mas só
recebeu a taça dois meses mais tarde. Entretanto, enquanto o Vasco fazia a
volta olímpica com uma caravela improvisada de um torcedor, o Botafogo
comemorou o título com a Taça Rádio Nova Friburgo ofertada ao vencedor do
encontro.
Leia aqui sobre esse evento: http://mundobotafogo.blogspot.com/2020/06/1990-botafogo-campeao-vs-hilaria-volta.html
Em 1991, já na parte final do campeonato
Brasileiro, jogava-se o clássico Fluminense x Botafogo. O Fluminense tinha o
mando de campo, mas o Maracanã estava impossibilitado e São Januário não fora
liberado.
Então, o Fluminense teve a tosca ideia de
solicitar à CBF e à Federação de Futebol do Rio de Janeiro a hipótese de jogar
nas Laranjeiras, estádio que não tinha as mínimas condições de segurança para
um clássico em que jogavam dois clubes que eram rivais desde os primórdios do
campeonato carioca, em 1906.
Thiago Gomide, jornalista de O Dia, resumiu:
– O improvável aconteceu: aceitaram a sandice, mesmo sabendo de todos os riscos inerentes.
A estrutura de segurança do estádio e a
logística de apoio à venda de ingressos inexistiram. Filas de quilómetros em
torno do estádio no empurra-empurra, enquanto os cambistas faziam a festa e em
meia hora foram vendidos todos os ingressos.
No dia do jogo as dificuldades de entrada no
estádio eram gigantescas, a torcida do Fluminense provocou os botafoguenses
desde o início do jogo, fazendo o que, erroneamente, supunha ser a sua parte
para ajudar o Fluminense a chegar às semifinais do Brasileirão em caso de vitória.
O intervalo chegou com 0x0 no placar e as
provocações entre as torcidas resultaram na torcida botafoguense derrubar o
frágil alambrado e todo o mundo – alvinegros e tricolores – invadir o campo
numa homérica cena de pancadaria em que os mais atingidos foram os
botafoguenses – dentro e fora do estádio, já que o ônibus alvinegro foi atacado
e os vidros partidos.
Homens, mulheres e crianças corriam fugindo
do descalabro; outros corriam para bater, chutar e espancar os adversários. A
polícia e os seus pastores alemães tentavam acalmar as hostes, em vão. A
pancadaria continuou, o jogo não foi reatado após o intervalo e ficou para
decisão no tribunal.
Para coroar o ‘feito’ da CBF, o juiz nomeado
foi o dantesco José Roberto Wright, o tal que expulsou cinco atleticanos (MG)
durante um jogo da Copa Libertadores, em 1981, favorecendo escandalosamente o
Flamengo por interrupção do jogo, que assim classificou o rubro-negro – talvez
o maior ‘assalto’ do apito na história do futebol brasileiro. E, claro que,
após a pancadaria nas Laranjeiras, escreveu na súmula que a culpa foi toda da
torcida botafoguense.
O Fluminense acabou ganhando o jogo na
‘secretaria’ pelo placar estipulado em 1x0. Todavia, as manobras tricolores com
vista a ganharem a partida alcançaram apenas um fim inglório: o Fluminense foi
derrotado pelo Bragantino nas semifinais e ficou em 4º lugar na classificação
final.
Em um vídeo publicado no portal Globoesporte,
em 2013, reproduzindo os acontecimentos, o narrador questionou o essencial do
tumulto campal:
– De
quem é a culpa? Dos torcedores do Botafogo que derrubaram o alambrado? Dos
tricolores que provocaram a torcida adversária? Todos têm sua parcela. Mas a maior, sem dúvida, cabe à insensibilidade dos dirigentes que
comandam o futebol brasileiro. Foram eles que por não saberem organizar o
calendário marcaram o clássico da tradição de Fluminense e Botafogo para um
estádio que sabidamente não oferece a menor condição de segurança. São eles que
estão levando o futebol brasileiro, orgulho de toda uma nação, para o buraco
negro da violência e da selvageria. Agora o que menos importa é quem vai ganhar
o jogo. Um jogo em que ninguém ganhou; todos perderam.
Fontes principais:
https://globoplay.globo.com/v/3014749/
http://mundobotafogo.blogspot.com/2020/06/1990-botafogo-campeao-vs-hilaria-volta.html
http://mundobotafogo.blogspot.com/2011/04/botafogo-campeao-estadual-invicto-de.html


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