por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo
A eliminação do
Botafogo da Copa Libertadores da América é, afinal, o corolário de uma sucessão
de erros estratégicos, e também operacionais, cometidos desde janeiro de 2025,
mantidos e ampliados em 2026.
O desmanche das equipes com a venda dos atletas que se
realçam do elenco pelo seu bom desempenho tem sido permanente, transacionando-se
goleiros, defensores, meio-campistas e atacantes sem que as reposições supram
capazmente a saída dos melhores, alguns dos quais nem chegam a estar um ano na
equipe principal e são imediatamente vendidos para equilibrar as teias
financeiras da Eagle Football – que, por outro lado, ao deixar escapar títulos
e classificações registra perdas financeiras importantes, seja de premiações,
patrocinadores ou bilheteria.
Por outro lado, diversos erros têm sido cometidos com a
contratação de treinadores, quer pelo tempo de demora, quer pelas suas saídas,
em geral por desentendimentos entre John e treinadores, seja por desejo de intromissão
no seu trabalho técnico, seja por falta de esforço em cativá-los para
continuarem, seja por outras razões.
As nossas temporadas não se têm iniciado adequadamente
para quem se assume como equipe postulante a conquistar títulos significativos.
Textor disse recentemente que “Eu sou um cara do futebol”, mas na verdade não é. Textor é
sobretudo um investidor, que gosta de futebol e não tem preparação em matéria
de gestão desportiva, e que por isso deveria escolher equipes de dirigentes que
sejam verdadeiramente a cara do futebol – equipes com as quais, quer no
Botafogo, quer na Eagle Fotball, se desentende amiudadas vezes.
Aos problemas estratégicos de topo no que respeita aos
diversos modos de gerir uma SAF e um plantel de futebol, sobre os quais o Mundo
Botafogo se manifestou diversas vezes, soma-se, na atualidade, a questão da
comissão técnica.
A carreira de treinador de Anselmi, tal como o Mundo
Botafogo mencionou na sua biografia, foi precedida das funções de comentarista
e narrador, as quais desempenhou com qualidade analítica, concluindo a sua
formação aos 21 anos de idade e acabando por chegar a treinador de futebol
posteriormente.
Teve alguns insucessos, conseguiu um bom desempenho no
Independiente del Valle, mas foi despedido do FC Porto ao cabo de cinco meses –
algo muito raro no clube – porque não foi capaz de entrosar minimamente a
equipe no seu esquema 3x4x3 a que nenhum atleta estava habituado.
Anselmi não desarmou e no Botafogo insiste no mesmo
esquema inadequado a estes jogadores, mostrando mais teimosia do que inteligência.
Um treinador realmente inteligente ajusta o esquema tático à conjuntura (atualmente
adversa devido à política de contratações do Botafogo) e ao estilo dos jogadores
que possui até dispor de novos recursos que o permitam, então, seguir esquemas
táticos do seu agrado. Anselmi manteve intacto, jogo a jogo, o seu 3x4x3, que
na verdade deixa apenas duas peças no meio campo enquanto os lateais avançam e
têm dificuldade de recomposição quando o adversário rouba a bola e
contra-ataca.
Consequentemente, do topo à base, as inadequações de gestão
do plantel são várias e o Botafogo de Anselmi, fora o 4x0 contra o Cruzeiro do
já ultrapassado Tite, apenas venceu adversários muito modestos.
Contra o Barcelona, um dos maiores erros da temporada fez
desequilibrar o jogo desde o início, e o diferencial chama-se ‘goleiro’ – de um
lado, há goleiro, de outro, equipe em goleiro.
Um campeão não se faz sem goleiro – caso do ineficiente Léo
Linck – nem sem atacantes capazes de boas definições nos remates, e os casos de
Matheus Martins e Arthur Cabral são flagrantes, porque para marcarem um só gol
precisam de muitos jogos e alguma sorte.
Os títulos que Textor disse recentemente que estamos
prontos para conquistar são uma quimera.
Neste jogo contra o Barcelona repetiram-se cenas
anteriores. Houve muita posse de bola, geralmente inócua (mais de 80%), futebol
burocrático sem a criatividade necessária a uma equipe que opta pela posse de
bola e necessita ‘abater’ verdadeiras muralhas a proteger a grande área e
desentrosamento claro entre os setores, acrescendo que Léo Linck toma um gol
decisivo por sua culpa em cada jogo (ontem nem uma bola fácil conseguiu
encaixar e deixou-a escapar, além da falha no gol do Barcelona) e a dupla de
ataque Matheus Martins e Arthur Cabral terem falhado, como habitualmente, um nos
remates ‘cegos’ para a baliza e o outro em cabeçadas que saem quase sempre ao
lado ou permitem a defesa do goleiro.
O Botafogo iniciou bem o jogo, trocando bolas e
conseguindo chegar à área, mas os seus atacantes não têm o sentido posicional
adequado e geralmente chegam atrasados ao local onde deveriam estar. E pouco
depois, aos 8’, num contra-ataque equatoriano pela esquerda a bola sobrou para
a marca do pênalti e Céliz foi feliz no remate que escapou das mãos de Léo
Linck.
Foi o único remate verdadeiramente para gol do Barcelona.
Mas bastou. O Botafogo sentiu o gol, dominou a posse de bola burocraticamente,
fazendo sempre muita cerimônia para trocar passes, tornando as ações lentas e
só muitos minutos depois começou a reerguer-se.
Somente aos 42’ houve realmente oportunidade de empate:
Montoro passou a bola em boas condições para Matheus Martins, descaído à
esquerda, mas com ângulo de remate, e uma vez mais saiu um bico direto a
Contreras, que defendeu.
Após o intervalo o esquema tático foi modificado, com
maior ofensividade, mas claramente sem que tivesse havido treinos táticos para
o efeito, mantendo-se a equipe sem um modelo de jogo bem definido. Ainda assim,
Alex Telles cobrou uma falta aos 47’ que o goleiro conseguiu espalmar in extremis para escanteio; aos 54’
Arthur Cabral cabeceou e novamente o goleiro defendeu.
Depois foi mais um período de muita posse de bola
infrutífera, o Barcelona bem amuralhado na sua defesa e o Botafogo jogando sobretudo
antes da grande área equatoriana. Somente aos 72’ houve realmente perigo: após
cruzamento de Arthur e cabeçada de Arthur Cabral, Vitinho rematou muito pelo
alto; aos 80’ foi o canto do cisne do ataque alvinegro: em cobrança de
escanteio Arthur Cabral finalmente cabeceou bem, no cantinho, mas… o Barcelona
tinha um goleiro na baliza que disse ‘presente!’ numa defesa notável.
No conjunto assistiu-se a uma equipe burocrática na posse
de bola, muito lenta no ataque, sem criatividade e sem rasgos de técnica para
converter as poucas oportunidades que ocorreram.
Em vésperas do jogo John Textor manifestou-se por esperar "que a gente dê uma surra neles", mas o que ocorreu foi o Barcelona deixar uma lição para estudo conjunto de Textor e Anselmi.
Em suma, comemore-se a Taça Rio – ironia trágica do
editor do MB – porque não haverá outra para comemorar em 2026 se se mantiverem
as caóticas políticas de gestão seguidas por Textor e a permanência de Anselmi
à frente do seu 3x4x3 despropositado no contexto atual e desadequado das
características dos atletas.
FICHA TÉCNICA
Botafogo 0x1 Barcelona (Equador)
» Gols: Céliz, aos 8’
» Competição: Copa Libertadores da América:
» Data: 10.03.2026
» Local: Estádio Olímpico Nilton Santos
» Público: 30.347 pagantes; 32.903 espectadores
» Renda: R$ 1.179.937,00
» Árbitro: Piero Maza (Chile); Assistentes: Claudio Urrutia (Chile) e Miguel Rocha
(Chile); Var: Juan Lara (Chile)
» Disciplina cartão amarelo – Alexander Barboza (Botafogo); Perlaza, Héctor
Villalba, Byron Castillo, Contreras e Céliz (Barcelona); carta vermelho – Martín
Anselmi (Botafogo)
» Botafogo: Léo Linck; Mateo Ponte (Joaquín Correa), Bastos (Arthur Cabral) e Alexander
Barboza; Vitinho, Newton, Danilo e Alex Telles; Jordan Barrera (Artur), Matheus
Martins (Nathan Fernandes) e Álvaro Montoro (Caio Valle). Técnico: Martín
Anselmi.
» Barcelona: Contreras; Rangel, Báez e Sosa; Carabalí (Chalá), Céliz, Jhonny Quiñónez e
Vallecilla (Jonnathan Mina); Héctor Villalba (Benedetto), Joao Rojas (Byron
Castillo) e Tomás Martínez (Perlaza). Técnico: Grenddy Perozo.

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