quinta-feira, 19 de março de 2026

Botafogo 1x2 Palmeiras - disfuncionalidade estrutural

Único elemento que funciona no futebol botafoguense. Crédito: Vitor Silva / SSPress.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

Num jogo de resultado previsível face às duas campanhas dos dois oponentes, o Botafogo começou ao ataque. E se não fosse a absoluta inabilidade de Matheus Martins, que perdeu um gol sozinho frente ao goleiro, chutando incrivelmente para fora com a baliza aberta à sua frente, teríamos inaugurado o marcador aos 2’.

A estratégia parecia ser a de marcar logo de início e depois cozinhar o jogo em contra-ataques, mas a desorganização em que se encontra a equipe facilitou que na primeira avançada perigosa do Palmeiras o esquema defensivo estivesse completamente desarticulado, sem marcação aos adversários, que se apresentaram no miolo da grande área e Allan rematou facilmente para o fundo das redes alvinegras aos 8’.

O Botafogo acusou o gol, o Palmeiras passou a dominar o jogo com se o segundo gol fosse uma questão de tempo, mas a eficácia não esteve ao lado do ataque paulista. Por outro lado, a arbitragem favorecia o Palmeiras nas faltas inexistentes que marcava a seu favor ao mesmo tempo que não marcava as faltas existentes a favor do Botafogo.

Aos 40’ a benevolência do árbitro a favor do Palmeiras clarificou-se totalmente: Matheus Martins foi derrubado aparentemente dentro da grande área adversária e o árbitro não apitou pênalti. Se tivesse apitado o VAR confirmaria que a falta ocorrera fora a poucos centímetros da grande área e Matheus Martins é que já caíra dentro da grande área. Mas claramente o árbitro não assinalou a falta porque a percepção é que seria pênalti.

E logo depois, ao final da 1ª parte, Cristian Medina, temerário, derrubou o atacante do Palmeiras na ala direita e era o último homem. Todavia, a baliza estava longe e outros alvinegros corriam para a grande área, o que significa que a iminência de gol não existia. O árbitro preparava-se para mostrar corretamente o cartão amarelo, mas deixou-se rodear de palmeirenses, acabou por aceitar a pressão, expulsou Medina e o VAR não teve coragem de desdizer a decisão do árbitro.

O 2º tempo iniciou-se, então, com o placar desfavorável e menos um jogador alvinegro em campo. Do modo como o Botafogo (não) jogava esperar-se-ia um massacre. No entanto, o Botafogo atacou, o árbitro ignorou duas faltas sucessivas dos paulistas e nem o cartão amarelo exibiu.

Todavia, o Botafogo atacou sem a articulação e harmonia exigidas a uma equipe bem organizada, com fez na final da Copa Libertadores de 2024, atacou e desguarneceu a defesa, e aos 52’, numa perda de bola do nosso sistema defensivo, Arias fez o que quis dos zagueiros e rematou para a baliza, a bola passou por entre as mãos de Raul e o placar aumentou para 2x0. Mas ainda não contrataram goleiro…

Com o Botafogo sem esquema tático, sem ideias e sem dinâmica coletiva, o Palmeiras começou trocando a bola tranquilamente crente que o 3º gol seria uma questão de tempo. Até o ‘nervosinho’ Abel estava também tranquilamente sentado no banco do Palmeiras.

No entanto, numa das poucas jogadas com passes rápidos do Botafogo no meio campo adversário, Danilo foi por ali afora, driblou dois, a bola bateu na zaga e sobrou novamente para si que, com classe, diminuiu o placar com um gol aos 52’ devido, sobretudo, à sua arte individual e presença de espírito dentro da grande área rodeado de palmeirenses.

Incrivelmente, o Palmeiras sentiu o gol. E se não jogara muito até ali – vencendo mais por demérito botafoguense do que pelo seu mérito –, acabou por sofrer ataques do Botafogo, mais na garra do que na técnica, houve momentos em que esteve realmente encurralado, o gol de empate poderia ter saído, mas os nossos artistas estão menorizados em algumas das suas qualidades pela constante rotatividade de posições que o técnico os faz assumir e o gol não apareceu – sobretudo porque, ao atacar, as decisões tomadas pelos jogadores são normalmente erradas, chutando à baliza quando deviam dar o passe para um companheiro melhor colocado ou ao invés fazendo o passe em vez de rematar à baliza.

Na verdade, poderia ter aparecido o 3x1, porque à medida que o Botafogo atacava, desguarnecia a defesa e o Palmeiras poderia ter marcado em duas ou três ocasiões, todas perdidas porque também não era dia de brilho para os paulistas – aos 65’ foi flagrantíssimo o desperdício dos paulistas quando a nossa zaga se afastou e abriu completamente a entrada da grande área ao adversário, que rematou inacreditavelmente para fora. E logo depois, face à nossa defesa amanteigada, nova oportunidade desperdiçada pelo Palmeiras.

Vendo o Palmeiras preocupado, e com Abel já de pé à beira do gramado, o Botafogo apertou o Palmeiras a partir dos 70’ e as substituições que o técnico efetuou, embora temerárias por substituição da dupla de zagueiros, surtiram efeito devido à ineficácia paulista e ao seu pouco volume de jogo na 2ª parte, mas também por virtude de uma certa coragem dos jogadores numa lógica de que perder por 2x1 ou 3x1 seria igual.

Porém, as nossas deficiências técnicas foram insuficientes para mudar o placar e o Palmeiras salvou-se do empate por entre os ‘intervalos da chuva’, seja pela nossa ineficácia, seja porque as arbitragens andam muito ‘verdes’…

Pode-se dizer que nada mudou na desorganização da equipe do Botafogo, a não ser a coragem de atacar na 2ª parte em busca do empate, mas na verdade jogou-se na base da ‘raça’ e do individualismo.

O que se vê em campo, além da desorganização, é a anulação das potencialidades, por exemplo, de Álvaro Montoro e Jordan Barrera, que à custa de jogarem fora das suas posições e sem liberdade de ação, estão sendo ‘queimados’ pelo treinador. Por outro lado, há atletas – não apenas os que têm vindo da base – que evidenciam progresso zero, o que significa que o técnico não os analisa bem e não os apoio no desenvolvimento das suas capacidades.

Em suma, eu diria que o sistema tático tem sido incapaz de se articular, e ao não se articular produz sucessivas disfunções entre a defesa, o meio e o ataque; a equipe marca mal os adversários e também não consegue manter intensidade e pressionar o oponente com consistência; alguns jogadores que já atuaram melhor estão caindo de produção porque são relegados a posições nas quais rendem muito pouco e comentem erros crassos; finalmente, o técnico não é claramente um tutor de potenciação das faculdades que certos jogadores poderiam desenvolver – entre os quais os vindos da base – e consequentemente não os leva a alcançar o máximo do seu rendimento.

Se em minha opinião, como mencionei em análise anterior, o debate do ano deve incidir sobre o futuro da SAF, não vale a pena continuar a debater-se a situação do técnico – pode ter sido bom analista e bom narrador no início da carreira profissional, mas não está suficientemente preparado para combates como comandante de grandes clubes em busca de títulos.

E é uma opinião respaldada em realidades: eliminado da Copa Libertadores em casa por uma equipe tecnicamente muito inferior à nossa; e atualmente no Z4 com 20% de aproveitamento!

FICHA TÉCNICA

Botafogo 1x2 Palmeiras

» Gols: Danilo, aos 59’ (Botafogo); Allan, aos 8’, e Arias, aos 52’ (Palmeiras)

» Competição: Campeonato Brasileiro

» Data: 18.03.2026

» Local: Allianz Parque, em São Paulo (P)

» Árbitro: Rafael Rodrigo Klein (RS); Assistentes: Bruno Boschilia (PR) e Michael Stanislau (RS); VAR: Pablo Ramon Gonçalves Pinheiro (RN)

» Disciplina: cartão amarelo – Marçal, Joaquín Correa e Lucas Villalba (Botafogo) e Sosa (Palmeiras); cartão vermelho – Cristian Medina (Botafogo)

» Botafogo: Raul; Vitinho, Bastos (Artur), Ferraresi (Justino) e Alex Telles; Álvaro Montoro, Cristian Medina, Danilo e Jordan Barrera (Lucas Villalba); Júnior Santos (Santi Rodríguez) e Matheus Martins (Joaquín Correa). Técnico: Pablo de Muner.

» Palmeiras: Carlos Miguel; Giay, Gustavo Gómez, Murilo e Arthur; Marlon Freitas, Andreas Pereira (Lucas Evangelista), Maurício (Sosa) e Jhon Arias (Larson); Allan (Felipe Anderson) e Flaco López (Vítor Roque). Técnico: Abel Ferreira.

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