
A primeira grande goleada do ano (mais de três gols de diferença) pode, teoricamente, confirmar uma equipa em ascensão, pelo que o resultado contra o Volta Redonda terá sido mero efeito conjuntural.
.
Teoricamente, porque na prática a equipa não tem um comportamento consistente do início ao fim de cada partida.
O Botafogo começou a todo o vapor, aproveitou um escanteio cobrado por Maicossuel e concretizado por Fahel, mas não manteve essa consistência e o Friburguense acabou por empatar numa inexplicável ausência de corte de cabeça por Emerson – permitindo uma cabeçada do adversário livre de pressão.
Então, o Botafogo começou a errar passes, o Friburguense equilibrou a partida e o empate até parecia justificar-se. E é precisamente neste ponto que o Botafogo ainda não obteve consistência, isto é, parece que o seu comportamento depende da existência ou não de um gol, em vez de se manter forte e sereno e não dar espaços ao adversário.
Não se sabe se este problema decorre de falta de entrosamento, de falta de capacidade técnica ou de improvisos a mais, já que Lucas Silva alinhou também improvisadamente ao ataque. Será que os improvisos de Ney Franco estão a dar resultado?... Será que de improviso a improviso se obtém a consistência?... Se um atacante reserva não é escalado de início quando falta o titular, para que serve um atacante de reserva?.. Ou melhor, para que serve Diego se os meias podem substitui-lo desde o início?...
A verdade é que o Botafogo se reencontrou num gol meio casual. Numa jogada que não ocorreria nas equipas de 2007-2008, Maicossuel não desiste da bola, toma-a dentro da área e prepara-se para marcar quando é calçado pelo goleiro. Da grande penalidade resultou o Botafogo adiantar-se no marcador, numa jogada que mostra uma virtude muito interessante nesta equipa (e que parece ser típico das equipas de Ney), isto é, não desiste da bola, acredita e acaba por marcar. Não é o primeiro gol marcado assim este ano.
Daí para a frente só deu Botafogo, incluindo uma segunda parte taticamente bem iniciada em contra-ataques, que resultou nos 4x1 e na ‘morte’ absoluta dos friburguenses. O torcedor fica feliz com a goleada e a excelente exibição de Maicossuel, presente em todos os cinco gols (dois de sua autoria e três assistências). Constata-se, também, que se não fossem as arbitragens claramente favoráveis aos urubus, o Botafogo teria a melhor campanha do campeonato – o que abona em favor do trabalho desenvolvido por técnico e jogadores.
Por outro lado, a preparação física é muito melhor que a dos anos anteriores (verificar que Lúcio Flávio e Triguinho estão barrados no Santos devido a ausência de força física), cujo esquema ‘rebentava’ os jogadores. Creio, aliás, como escrevi à época, que algumas derrotas do Botafogo se deveram também a incapacidade de preparação física feita com os jogadores, porque a equipa quebrava na segunda parte – as finais do campeonato carioca de 2008 e as semifinais da Copa do Brasil mostraram isso mesmo.
Portanto, o Botafogo fez uma das suas melhores campanhas até agora, evidencia possibilidades de discutir a Taça Guanabara, mas… que nível de consistência se sente que a equipa possui?... Creio que Victor Simões e Maicossuel foram os homens principais até agora, cujas performances se tornaram decisivas nas vitórias. Porém, a equipa enquanto todo não me convenceu inteiramente, apesar da goleada e cinco vitórias em seis jogos.
Deve-se destacar, neste jogo, a performance magnífica de Maicossuel e o oportunismo de Fahel, o qual parece capaz de alterar subitamente o andamento de um jogo.
No entanto, não poderia terminar as minhas observações sem me referir à expulsão de Maicossuel e aos cartões amarelos. Considero que um dos problemas cruciais do Botafogo 2007-2008 foi a disciplina. No ano passado fomos o clube mais indisciplinado do campeonato brasileiro, o que não é comum entre nós. Quer em campo quer fora de campo, os jogadores têm descontrolos inaceitáveis e a comissão técnica deve punir Maicossuel, mesmo que isso prejudique o desempenho da equipa no futuro imediato. Em minha opinião´ é a única forma de o treinador manter o pulso na equipa e enviar uma mensagem muito clara a todos: é necessário manter a serenidade custe o que custar, porque o que está em causa não são despiques individuais, mas o desempenho de uma equipa que trabalha durante a semana para vencer e conquistar títulos.
Se Ney Franco fizer isso, será possível reorientar o comportamento disciplinar dos jogadores do Botafogo; se não fizer, mantemo-nos na linha ‘mole’ de treinadores, iniciada em meados de 2006, e que tem dados maus resultados à imagem do Botafogo e ao desempenho da equipa. Ficarmos privados daquele que parece ser o melhor jogador da equipa num jogo contra os urubus, e por culpa própria, demonstra que estamos perante ‘emocionalidades’ pouco profissionais e que Maicossuel prejudicou severamente o Botafogo para o jogo de Domingo – e é pago precisamente para beneficiar o Botafogo seja em que circunstância for.
Além disso, seis cartões amarelos e uma expulsão não abona em favor do desporto e da gestão da equipa, que assim se verá confrontada consecutivamente com suspensões de jogadores em momentos cruciais. Sempre em prejuízo do Botafogo e dos seus fiéis torcedores.
Não obstante, atribuo os parabéns ao Botafogo pelos nove gols em dois jogos e pelos respectivos pontos conquistados (incluindo o seu treinador, que necessita de ser mais convincente nas suas opções) e felicito especialmente Maicossuel pela melhor exibição de um jogador do Botafogo em 2009.
Não sei quem será o ´cérebro’ na ausência de Maicossuel, mas desejo calorosamente que Victor Simões seja o melhor jogador em campo no próximo jogo do Botafogo!
FICHA TÉCNICA
Botafogo 5x1 Friburgense
Gols: Fahel aos 13’ e 49’, Maicossuel aos 43’ e 50’, Reinaldo aos 57’ (Botafogo); Hércules aos 21’
Competição: campeonato carioca
Data: 12/02/2009
Local: Eduardo Guinle, em Nova Friburgo (RJ)
Arbitragem: Eduardo José Araújo; Marco Aurélio Pessanha e Cláudio Batista Ribeiro
Cartões amarelos: Léo Silva, Thiaguinho, Reinaldo, Batista, Diego, Renan (Botafogo); Elan, Emerson, Adriano, Sérgio Gomes, Cássio (Friburguense)
Cartões vermelhos: Maicossuel (Botafogo); Cássio, Crispin (Friburguense)
Botafogo: Renan, Emerson, Leandro Guerreiro e Wellington; Alessandro, Fahel, Léo Silva (Batista), Maicosuel e Thiaguinho (Alex); Lucas Silva e Reinaldo (Diego). Técnico: Ney Franco.
Friburguense: Adriano (Bruno), Sérgio Gomes, Emerson, Wallace e Crispin; Cássio, Elan, Alex e Victor Hugo (Cassiano); Hércules e Ziquinha (Tiago). Técnico: Cleimar Rocha.