sábado, 28 de março de 2026

Arrebatadora e tumultuada década de 1990 (III): da goleada do Fluminense ao título da bagunça

Túlio Maravilha, o craque do campo / Reprodução.

por RUY MOURA | Editor do Mundo Botafogo

A conquista da Copa Conmebol em 1993 poderia trazer algum alento ao Botafogo, mas a realidade é que o Botafogo atravessava um verdadeiro deserto e a sua vida financeira era mais próxima do estertor da morte.

Em 1994 a dívida salarial aos jogadores era elevada e tinha sido sinalizada pelo então presidente Carlos Augusto Montenegro para ser quitada em parte. No entanto, em pleno quadrangular final do campeonato carioca e com a equipe eliminada com duas derrotas e um empate (apenas um ponto ganho), os jogadores souberam já dentro do ônibus, rumo ao Maracanã para enfrentar o Fluminense – com uma derrota e dois empates (apenas dois pontos ganhos) –, que a prometida quitação não se iria realizar.

O que se viu depois em campo foi o reflexo do descomprometimento do clube: o Fluminense goleou o Botafogo por 7x1!

A lassidão dos atletas em campo foi tão escandalosa que em escassos 24 minutos de jogo o Botafogo já era derrotado por 4x0!

O técnico Dé, confrontado com a hipótese de ter havido participação financeira do Fluminense nega em absoluto essa versão:

Depois dessa goleada afastamos jogadores, alguns com certo nome. É só comparar a escalação contra o Fluminense e a do jogo depois para ver uma reformulação de cinco ou seis nomes. Surgiu uma conversa de que a goleada teria tido participação financeira do Fluminense, mas isso é mentira. Os jogadores não levaram dinheiro. O que aconteceu foi que eles não receberam salário e se vingaram. Puxaram o freio de mão, reclamaram publicamente de substituições. Na minha época de jogador isso não aconteceria, porque não havia mercenários.”

De certo modo o presidente do Botafogo perdera o controlo da situação e, segundo se disse à época, teria ensaiado uma escapatória invadindo o vestiário para agredir o lateral-esquerdo Eduardo. A coisa pegou em parte, porque ainda hoje se diz que os jogadores se venderam.

Porém, da catástrofe financeira e da vergonha dos 7x1 em 1994 até ao título de campeão brasileiro de 1995 mediou apenas um ano e meio. Fruto de uma gestão espetacular e uma organização florescente?

Nem por isso, nem por isso…

Paulo Autuori, o craque do banco. Fonte: Botafogo TV.

Os salários continuaram atrasados, mas, paradoxalmente, o Botafogo fazia uma boa campanha no campeonato brasileiro de 1995, dispondo de jogadores como Túlio Maravilha, Wilson Gottardo, Sérgio Manoel e Donizete.

Contudo, os salários em atraso incomodavam sobremaneira os jogadores e Túlio tinha alguns privilégios. Os jogadores entendiam que Túlio devia cobrar a diretoria, especialmente Wilson Gottardo e Sérgio Manoel.

É claro que Túlio não quereria confrontar a diretoria, e entretanto chegara aos ouvidos do presidente uns certos zumbidos sobre o assunto. Vai daí conta-se que Carlos Augusto Montenegro terá ido ao vestiário da equipe e gritado: “Aqui não é Flamengo, não é bagunça, não. Vocês querem que eu mande o Túlio embora. Eu mando, mas Gottardo e Sérgio Manoel, vocês vão ter que fazer gol."

Os ânimos acalmaram, mas em boa verdade estávamos bem mais próximos da bagunça do Flamengo do que da situação de qualquer outro clube organizado – e foi o próprio presidente do Botafogo a admiti-lo, em junho de 2020, numa live com Sérgio Manoel, Gonçalves, Túlio e Wagner, relembrando o título 25 anos antes, a propósito de uma pergunta sobre como foi o planejamento desse ano:

– “Nenhum. Absolutamente nenhum. Foi uma bagunça. Eu não conhecia o Paulo Autuori, o Gottardo que falou que ele era gente boa. Me ajudaram, trouxeram o Donizete lá do México, o Antônio conseguiu o Jamir e ainda veio o Iranildo. Eu tinha ligado pro Calçada e ofereci uma troca, aproveitei que o Eurico tava na Europa, e aí veio o Leandro Ávila. O time montou. Profissionais com muito caráter e dedicação. Demos sorte porque não tínhamos um elenco muito grande, mas graças a Deus ninguém se machucou.”

Em suma, o afamado ‘presidente do título’ não tinha nenhum plano em 1995 e tudo foi acontecendo por acaso e pela sorte – comprovando-se que “há coisas [boas e más] que só acontecem ao Botafogo”.

Foi um título construído na base da resiliência e da superação protagonizadas pela comissão técnica e pelos líderes do vestiário, que juntos conseguiram galvanizar a equipe para realizar um sonho muito, muito improvável: sermos campeões brasileiros em 1995!

JOGOS DA DECISÃO (https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/campeo-brasileiro-em-futebol-1995.html):

BOTAFOGO FR 2x1 e 1x1 SANTOS FC

Wilson Gottardo e Túlio marcaram os gols do jogo de ida e Túlio marcou o gol do jogo de volta. A equipe do 2º jogo alinhou com Wagner; Wilson Goiano, Wilson Gottardo, Gonçalves e André Silva (Moisés); Leandro, Jamir, Beto e Sérgio Manoel; Donizete e Túlio. Técnico: Paulo Autuori.

Fontes principais:

https://maisqueumjogo.com.br

https://mundobotafogo.blogspot.com/2008/07/campeo-brasileiro-em-futebol-1995.html

https://www.terra.com.br/esportes/lance/presidente-do-botafogo-em-95-montenegro-explica-planejamento-do-titulo-nenhum-foi-uma-bagunca,69c4f7c435a98f87e8f8647f1b7215c2i7m6ldth.html?utm_source=clipboard

https://www.youtube.com/watch?v=6vy4rYoF-Uw

2 comentários:

jornal da grande natal disse...

Até durante as semifinais os favoritos eram os adversários. Na final foi outra história...

Ruy Moura disse...

Ah... claro! Especialmente para a mídia nunca somos favoritos. No entanto, eu até gosto que seja assim para os apanhar desprevenidos. De certo modo, foi assim na final da Libertadores quando os atleticanos pensaram, aos 40 segundos de jogo, que a vitória estava no papo. (rsrs)
Abraços Gloriosos.

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